
Em Bom Jardim, Mário de Andrade dedica nova crônica a uma de suas grandes descobertas de viagem: Chico Antonio. Assim como no texto anterior, o escritor está fascinado pelo coqueiro potiguar. Descreve a multidão, a força de sua voz, a singularidade da tontura de seus versos. Para Mário, Chico Antonio é único, um homem de voz incomparável e olhos maravilhosos. Chega a ser encantador ler seu encanto.
As apresentações da série Nordestes, com as entradas de diário de O Turista Aprendiz, são de autoria do editor Onildo Correa (PPGSA/UFRJ), que, também, acaba de organizar, junto com André Botelho (UFRJ), a íntegra do diário de Mário de Andrade para a Casa Matinas (disponível aqui). Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Bom Jardim (11 de janeiro)
Passei hoje o dia com Chico Antonio, conversando, grafando algumas das melodias que êle canta. Agora êle está de novo giragirando no coco e vou dedicar mais esta crónica a êle.
Principiou a cantar faz pouco e até onde o vento leva a toada, os homens do povo vem chegando, mulheres, vultos quietos na escureza, sentam no chão, se encostam nas colunas do alpendre e escutam sem cansar. A encantação do coqueiro é um fato e o prestigio na zona, imenso. Si cantar a noite inteira, noite inteira os trabalhadores ficam assim, circo de gente sentada, acocorada em torno de Chico Antonio irapurú, sem poder partir.
Toda a gente o imita e coco que êle cante se torna “coco de Chico Antonho”, apesar de muitos não serem da invenção dele. Até o menino prodigio, que apareceu anteontem com o “Boi” de Fontes, caso quasi repugnante de precocidade, envelhecido na voz, na ruga e no saber dêsse mundo: êsse menino tambem cantador, é discipulo de Camarão, outro coqueiro, porêm o mimetismo quasi dramatico dele se manifesta em copiar Chico Antonio.
Porquê Chico Antonio não é só a voz maravilhosa e a arte esplendida de cantar: é um coqueiro muito original na gesticulação e no processo de tirar um coco. Não canta nunca sentado e não gosta de cantar parado. Forma os respondedores, dois, tres, em fila, se coloca em ultimo lugar e uma ronda principia entontecedora, apertada, sempre a mesma. Alem dessa ronda, inda Chico Antonio vai girando sobre si mesmo. Ele procura de fato ficar tonto porquê, quanto mais gira e mais tonto, mais o verso da embolada fica sobrerrealista, um sonho luminoso de frases, de palavras sôltas, em dicção magnifica. Poemas que nenhum Aragon já fez tão vivo, tão convincente e maluco. É prodigioso.
No geral as emboladas são assim mesmo. As mais das vezes não têm sentido como tipicamente o “Bambú bambú” prova. Isto é: não é que não tenham sentido propriamente. Não se trata do verso “nonsense” feito pra dar habilidade ritmica. É um painel de sonho que passa, feito de frases estratificadas, curiosas como psicologia: “Bela mandou me chamar” ou “Porto de Minas Gerais” ou “Meu ganzá, meu ganzarino”, etc., etc., ás quais se juntam verbalismos, frases tiradas do trabalho quotidiano, do amor; referencias aos presentes e aos acontecimentos do dia; desejos, ansias… Todos os coqueiros são assim.
Mas Chico Antonio ultrapassa de muito os que tenho escutado, pela fôrça viva do que inventa e a perfeição com que embola. Alto, corpo de sulista, magruço, meio lerdo no gesto comprido, com uma cara horizontal, bem chata e simpatica, de nordestino em riba. Olhos maravilhosos, já falei. E a voz incomparavel. Não é possivel imaginar sons levemente anasalados, masculos, num decrescendo perfeito como os que Chico Antonio entoa no fim das frases do “Jurupanã”.
MÁRIO DE ANDRADE
