
O Blog da BVPS publica hoje o terceiro post do simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?, que convidou especialistas brasileiras/os e do exterior, a partir de três grandes áreas das ciências sociais – a teoria social, a sociologia do trabalho e o pensamento social e político brasileiro –, a responder quatro perguntas em torno das intrincadas relações entre autoritarismo e capitalismo no mundo contemporâneo. As respostas serão publicadas em blocos sempre às quartas-feiras. Clicando aqui você pode ler as demais publicações do simpósio.
Hoje teremos como convidadas/os:
Heloisa Starling é historiadora e professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Dedica-se aos estudos sobre história política do Brasil, republicanismo, democracia e autoritarismo. É autora, entre outros, de Os senhores das Gerais, Lembranças do Brasil e Ser republicano no Brasil Colônia, além de coautora de Brasil: uma biografia, com Lilia Schwarcz.
Elísio Estanque é professor e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal. Desenvolve pesquisas sobre trabalho, desigualdades sociais, movimentos sociais, sindicalismo e precariedade laboral. É autor, entre outros, de Classes médias e lutas sociais e Precariado, juventude e trabalho.
Josué Pereira da Silva é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Trabalha com teoria social, desigualdades, cidadania, reconhecimento e pensamento social contemporâneo. É autor, entre outros, de Trabalho, cidadania e reconhecimento e de diversos estudos sobre a recepção da teoria crítica e das teorias do reconhecimento no Brasil.
Ricardo Festi é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Dedica-se à sociologia do trabalho, história das ciências sociais e teoria social, com especial atenção às relações intelectuais entre Brasil e França. É autor, entre outros, de As origens da sociologia do trabalho: percursos cruzados entre Brasil e França.
O simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer? é organizado por Fabrício Maciel (UFF) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor responsável do blog da BVPS), e conta com a assessoria editorial de Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ).
Boa leitura!
Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?
1. Qual é o seu diagnóstico sobre a relação entre capitalismo e autoritarismo na atualidade?
Heloisa Starling: Como escapar do Estado Democrático? A pergunta serve de conduto para os autonomeados “libertários” articularem em uma retórica comum a estratégia de criação de territórios – denominados “zonas especiais” –, regidos por arranjos políticos autoritários e pelo completo cerceamento dos princípios democráticos. O “capitalismo destrutivo”, para usar a definição do historiador Quinn Slobodian, ao descrever a etapa do neoliberalismo na atualidade, está em processo de construção. Faz uso de um mecanismo capitalista de novo tipo que permite estabelecer um tipo de governo de corte autoritário, voltado para garantir ordem e no centro do qual está o mercado. A democracia é seu grande obstáculo – sobretudo por força do catálogo de direitos.
Não se cuida, nesse caso, da conquista do poder político, tal como conhecemos. Trata-se, agora, de experimentar uma nova estratégia: instalar governos privados em miniatura em microcidades planejadas que funcionam como uma espécie de condomínios fechados – incluem acessos controlados, policiamento privado, ruas fechadas com a instalação de barreiras e integralmente separadas do mundo público. As chamadas “zonas especiais” – no modelo de Dubai e seus arquipélagos artificiais de World e Palm Jumeirah ou no exemplo de Prospera Zade, na ilha de Roatan, em Honduras – são enclaves que testam em chave autoritária os limites da nação. Estão isentos de formas comuns de regulamentação, impostos baixos ou nenhum imposto, e onde os investidores podem ditar sem supervisão democrática suas próprias regras.
Esse mecanismo capitalista de novo tipo tem avançado na atualidade. Não sabemos ainda extrair todas as conseqüências políticas de seu funcionamento para a sociedade, mas ele se fortalece com a destruição da democracia e seu argumento ideológico é claro: o capitalismo não necessita caminhar junto com a democracia. Ao contrário. É mais importante e dispensa a ordem democrática.
Elísio Estanque: A relação entre capitalismo e autoritarismo é ambígua. Como sabemos, o capitalismo moderno tem no mercado o seu mais importante catalisador. Importa todavia ressaltar que o capitalismo, além de não ser um sistema uniforme, sempre se conjuga com outros modos de produção e contextos nacionais (ou locais) com as suas próprias especificidades. Por exemplo, os regimes políticos corporativos, como aqueles que vigoraram no século passado em países do sul da Europa e da América Latina, centraram a atividade económica nos seus territórios e restringiram o comércio internacional, condicionando, assim, a expansão do capitalismo. Em diversos regimes desse tipo, os grandes monopólios da atividade económica beneficiaram de proteção estatal e contribuíram para um crescimento económico rápido, pelo menos no curto prazo. Aconteceu na ex-URSS no início do estalinismo, com os “planos quinquenais”, tal como no regime nazi com a implementação de infraestruturas e a indústria de armamento. Até mesmo no Estado Novo português a economia e a finança tiveram um período de crescimento e equilíbrio das contas públicas entre os anos 30 e o final da Segunda Guerra; e também Getúlio Vargas no Brasil implementou uma série de políticas de industrialização e urbanização que trouxeram crescimento económico nesse período. Porém, esses casos revelam dois problemas fundamentais: primeiro, o crescimento foi, em geral, limitado; apesar de uma expansão rápida na fase inicial, acabaram por colocar barreiras à sustentabilidade e ao crescimento, sobretudo devido às restrições impostas à livre concorrência; segundo, a própria estabilidade social e previsibilidade devido ao apertado controle do Estado pode esgotar-se rapidamente e a repressão ou atinge um nível totalitário e muito violento ou faz emergir a contestação e a conflitualidade social – e, portanto, a imprevisibilidade de que os grandes investidores não gostam.
Mas se nos focarmos na atualidade, quando vivemos num período de acelerada globalização das economias, o tema exige um outro olhar. Precisamos desde logo de situarmos o problema do mundo do trabalho, aquele onde, desde sempre, o poder autoritário mais se faz sentir. O tempo dos mercados nacionais e até da atividade produtiva industrial, baseada em mão de obra intensiva ou no setor primário (indústria pesada, atividade mineira, agricultura, indústria têxtil, calçado, metalomecânica, setor portuário, mercado regulado, etc.) perdeu força e os novos setores em crescimento obedecem a outras dinâmicas de competitividade (fragmentação da produção, desregulação das políticas públicas, economia de serviços, terceirização e outsourcing, digitalização das atividades, inovação tecnológica, automação e plataformização do trabalho, deslocalização e aceleração dos fluxos, etc.). Em suma, com o fim do fordismo e a chegada da globalização neoliberal, deu-se uma viragem que coincidiu com a revolução tecnológica e digital; a expansão rápida do capitalismo global rompeu fronteiras na escala internacional e conduziu a uma desregulação dos direitos trabalhistas, o que fez com que as políticas sociais entrassem em recuo, favorecendo e emergência e crescimento de novas camadas vulneráveis e desprotegidas das classes trabalhadoras, tornando a precariedade e instabilidade uma característica que atinge todos os setores da força de trabalho, dos segmentos mais qualificados aos menos qualificados. Portanto quando colocamos a reflexão sobre a tensão entre capitalismo e autoritarismo, ela pode ser vista, de certa maneira, como uma questão simétrica da tensão capitalismo-democracia. Já Ellen Meiksins Wood, no seu livro clássico Democracia contra capitalismo salienta que o capitalismo moderno, ao privilegiar a conjugação entre o mercado e a acumulação de capital, ou seja, a democracia liberal, embora procure conjugar a liberdade individual com a defesa da propriedade privada, conduz inevitavelmente ao aumento da concentração de capital nas mãos da elite mais rica e, por conseguinte, ao incremento das desigualdades sociais. E isto tende a corroer a lógica democrática, sobretudo se entendermos a democracia no sentido lato do termo, onde deve coexistir competitividade económica com uma cidadania mais efetiva e, portanto, lutas sociais na defesa de direitos e do equilíbrio de uma sociedade fundada nos direitos humanos e na justiça social. Poderemos invocar também, na mesma linha, o sociólogo francês Thomas Piketty na sua critica ao neoliberalismo que, ao estimular uma lógica acumulativa que privilegia o capitalismo financeiro e os investimentos especulativos, conduz a um agravamento das desigualdades económicas e, consequentemente, a um esvaziamento da própria democracia política.
Portanto, mesmo admitindo a dificuldade de um modelo económico alternativo ao capitalismo, é importante sublinhar que, caso se continue a deixar crescer sem restrições o capitalismo global, o acentuar das desigualdades irá criar cada vez mais bolsas de exclusão e subalternidade, agudizando clivagens que tendem a reduzir o espaço da democracia e abrir caminho à sua erosão definitiva em muitos países. Por fim, vale a pena lembrar o exemplo chinês, onde capitalismo parece combinar na perfeição com autoritarismo. O chamado “capitalismo popular” da China, cujo sucesso económico é inquestionável, e que parece conquistar cada vez mais admiradores no mundo ocidental, obedece a um critério centralista e autoritário gerido pelo poder de Estado com sede no partido comunista. O seu sucesso faz-se à custa da supressão das liberdades individuais, das prisões arbitrárias e de um controle apertado onde os aplicativos digitais e o poder do algoritmo são os instrumentos em uso para ditar as regras que determinam os comportamentos dos cidadãos. Ou seja, o sucesso da economia chinesa deriva dessa combinação entre um regime despótico e uma capacidade produtiva e concorrencial imbatível, essencialmente porque fundada em salários baixos e um modelo de trabalho onde não há espaço para a contestação ou negociação. A democracia parece um termo fora do imaginário desse imenso país.
Josué Pereira da Silva: Antes de qualquer coisa, preciso alertar que escrevo como não especialista no tema e, por isso, não me prenderei a definições, seja de capitalismo, seja autoritarismo. Para quem estiver interessado nos respectivos conceitos existe uma ampla literatura a respeito que pode ser facilmente consultada. Dito isso, vou direto ao diagnóstico da relação entre os dois na atualidade, indicando as linhas gerais do que considero essencial para responder à questão.
Para começar, entendo que a situação que vivemos nessas últimas décadas guarda muita semelhança com a das décadas iniciais do século XX, período que antecedeu à chamada Segunda Guerra Mundial, marcado pela ascensão de diversos regimes autoritários e totalitários de direita principalmente na Europa, como o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha pós-guerra civil, o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha, sem contar as versões de esquerda exemplificada aqui pelo stalinismo na Rússia soviética. Com isso quero dizer que a relação entre capitalismo e autoritarismo não é nova. No entanto, a situação atual tem especificidades que a tornam diferente da mencionada época anterior. E a principal diferença, parece-me, está diretamente relacionada ao contexto histórico.
Daí a importância de se abordar o problema a partir de um diagnóstico crítico do presente. E esse diagnóstico não deve ignorar três dos grandes problemas que, para o bem ou para o mal, nos afligem atualmente: a revolução tecnológica, a crise ambiental e a desigualdade social. Esses três temas ou problemas são a meu ver o necessário pano de fundo para uma boa intelecção da relação entre capitalismo e autoritarismo neste início de século. Isto porque eles permitem entender a nova configuração do capitalismo – cada vez mais digital. A apreensão e o uso dessa nova realidade pelas forças de direita parecem evidentes, assim como é também evidente a convergência de interesses entre os neoliberais defensores do Estado mínimo e os interesses da extrema-direita autoritária.
Negar a crise ambiental, o aquecimento global, assim como atacar as políticas de proteção aos setores sociais mais vulneráveis, é conveniente para ambas as correntes ideológicas. A atual explosão da desigualdade social no mundo é em grande medida decorrência direta de tudo isso. Ademais, a direita autoritária tem sabido se aproveitar das frustrações e do ressentimento de grande parte da população excluída das benesses do capitalismo digital e alimentar, ao menos em parte dela, a xenofobia e o desprezo pelos setores mais vulneráveis da população. Assim, a inegável capacidade adaptativa do capitalismo junto com o oportunismo das tendências de direita – tanto as fisiológicas quanto as autoritárias – aliam-se no trabalho de minar as bases das instituições que dão sustentação à política democrática, tendo como efeitos visíveis o esvaziamento da democracia, o declínio da política e a crise do Estado democrático de direito.
Ricardo Festi: O capitalismo enquanto formação social e política é estruturado no autoritarismo. A essência de sua configuração está na divisão de classes, no racismo, na exploração da força de trabalho, na espoliação e na expropriação das camadas subalternas. Ao longo destes últimos séculos, em poucos países do Ocidente, houve períodos em que o capitalismo foi gerido pela democracia liberal e se estabeleceu um estado de bem-estar social. Conhecido como compromisso fordista, isso lhe permitiu uma aparência mais democrática, ainda que, na prática, a intensificação da exploração tenha avançado exponencialmente. Atualmente, a crise sem precedentes do capital tem corroído os laços sociais e aumentado os conflitos políticos. O neoliberalismo, que é a radicalização da reificação e a destruição de qualquer projeto pautado em princípios solidários, ajudou a consolidar em amplos setores da sociedade a percepção de que o regime democrático não é eficaz e não corresponde às expectativas da maioria da população. Para piorar, tanto governos geridos por partidos de direita quanto de esquerda mantiveram ou aprofundaram as concepções neoliberais, criando-se a percepção de que todos são iguais. Em períodos de crise como o que vivemos, o capital busca se recuperar com novos ciclos tecnológicos (no caso de hoje, a automação e a Inteligência Artificial) e com a reorganização do trabalho e da sociedade com vista a aumentar seus lucros e reorganizar o processo de acumulação. Uma das consequências disso é o surgimento de formas políticas despóticas e totalitárias, como vemos nos projetos da extrema direita.
Diferente do que foi o século XX, hoje não temos um regime político e social rivalizando com o capitalismo. Ainda que os países pós-capitalistas (URSS, China, Cuba, dentre outros) estivessem longe de uma sociedade emancipada como pretendiam os revolucionários do passado, eles eram uma referência de alternativa ao capitalismo para as classes oprimidas, que mantinham um engajamento político ao redor de utopias. A inexistência destas visões de mundo hoje é a maior expressão da crise política vivida por nós. A própria palavra revolução desapareceu da maioria das esquerdas, sendo que quem ousa defendê-la é visto como folclórico e anacrônico. Contraditoriamente, a defesa da “revolução” aparece nos discursos das extremas direitas, de forma semelhante ao que vimos nos movimentos fascistas do passado. São esses grupos que apresentam um discurso antissistema, ainda que sua função política seja de preservar e aperfeiçoar o capital. Isso não é novidade. A burguesia terceiriza o poder de tempos em tempos para salvar a si mesma, ainda que tenha que renunciar às instituições democráticas.
Por fim, estamos diante de uma escalada do autoritarismo capitalista em todos os âmbitos da sociedade. Ele não se manifesta apenas por meio do Estado e suas instituições políticas ou pela exploração no chão da fábrica. As formas de dominação do capital se complexificaram, principalmente com o avanço das tecnologias informacionais, da robótica, da automação, da plataformização, da digitalização. O aparato de gestão digital de empresas de e-commerce, por exemplo, é capaz de controlar toda a cadeia de suprimentos, da produção à distribuição, por aparatos e meios digitais e pela inteligência artificial, adiantando tendências e influindo sobre gostos e percepções dos consumidores via suas redes sociais virtuais. É uma amostra do porvir. O capitalismo mudou substancialmente nas últimas décadas, mas sua hegemonia ainda começa na produção.
2. Como você considera que a sua área de conhecimento poderia interagir com outras áreas na construção deste diagnóstico?
Elísio Estanque: A sociologia, como qualquer outra ciência social, não pode prescindir de um diálogo e interseção com disciplinas afins, designadamente a economia, a antropologia e a ciência política, entre outras. Embora na atualidade a sociologia esteja a perder protagonismo na sua influência junto das instituições democráticas, as teorias e estudos que temos desenvolvido, por exemplo, em torno das plataformas digitais e seu impacto no mundo laboral dialogam com a economia, a psicologia social e as ciências jurídicas, questionando e interpelando as autoridades para a defesa de direitos da classe trabalhadora como condição de defesa dos equilíbrios sociais mínimos, imprescindíveis para preservar a democracia. O conhecimento da sociedade, das subjetividades e do modo como se constroem as perceções sociais pode constituir uma condição decisiva para influenciar os decisores políticos. Os problemas da desigualdade e o aumento dos ressentimentos sociais, que hoje alimentam os populismos de extrema-direita, são matérias que as ciências sociais dominam e, portanto, os seus diagnósticos sobre as limitações da democracia ou o ataque a direitos humanos fundamentais são contributos que ajudam a demonstrar as distorções e iniquidades geradas por um “capitalismo indigno” (tema de estudo de Fabrício Maciel), que tem vindo a suprimir conquistas progressistas elementares.
Josué Pereira da Silva: A própria natureza dos temas acima sugeridos indica que a colaboração entre as diversas disciplinas é não só bem-vinda, como é necessária. E aqui não me refiro apenas às ciências humanas. Assim, a sociologia pode, junto com outras disciplinas, também contribuir na elaboração de um diagnóstico crítico multidisciplinar mais rico do que poderia fazer uma única disciplina, seja ela sociologia ou outra qualquer.
Aliás, o tema do autoritarismo sempre foi um campo de investigação próprio da teoria política e da ciência política, embora estudar o autoritarismo não seja exclusividade delas. Da mesma forma, pode-se dizer que, ao menos na aparência, o capitalismo como sistema econômico tem sido objeto da economia política, mas como o capitalismo não se reduz às relações meramente econômicas, ele se torna automaticamente objeto de outras disciplinas.
Quanto à sociologia especificamente, gosto da proposição de Jürgen Habermas em seu livro Teoria do Agir Comunicativo, segundo a qual cabe à sociologia, na modernidade, o papel antigamente atribuído à filosofia de interpretar a sociedade como um todo a partir do cânone da razão, só que agora contando com a colaboração das demais disciplinas científicas. Embora esta assertiva possa parecer pretensiosa aos não sociólogos, ela tem o sentido metafórico interessante de considerar a sociologia uma disciplina não especializada.
Ricardo Festi: A sociologia do trabalho tem se debruçado sobre duas questões centrais para um diagnóstico da realidade. Por um lado, realiza pesquisas sobre as transformações dos modelos de produção e de trabalho e a relação deles com as novas tecnologias, tais como a automação, a plataformização, a digitalização, a inteligência artificial, entre outros. Ao mesmo tempo, os estudiosos desta área também lidam com a espinhosa questão da agência dos sujeitos do trabalho. Conectar as duas vertentes de pesquisa é fundamental para compreender o mundo atual. E estudar o mundo do trabalho requer uma articulação com outras disciplinas, pois a sociologia não consegue dar conta da complexidade e da multiplicidade de questões deste objeto. Por isso, temos visto nas últimas décadas um movimento interessante de articulação, diálogo e até mesmo mescla com a psicanálise, a história, a economia, o direito, a medicina, as engenharias, a ciência de dados e muitas outras.
Por exemplo, a plataformização do trabalho trouxe um novo desafio para a compreensão da relação entre as tecnologias (aqui envolvendo não apenas os artefatos técnicos, mas também a própria organização do trabalho) e as formas de dominação sobre os sujeitos do trabalho. A partir da década de 1970, com os trabalhos de Bravermann e Burawoy, teve início um importante debate sobre as formas de subordinação dos trabalhadores em seus locais de trabalho. Algumas perspectivas ressaltam a coerção do capital e da organização do trabalho. Outras ressaltam o papel do consentimento na produção de uma hegemonia do regime de trabalho. Hoje, com a chamada gestão algorítmica, esta problemática ganha novos parâmetros e novas questões. Aparentemente, não há um chefe ou um patrão diretamente envolvido na imposição da disciplina. Então, nesse caso, a disciplina aparece como uma ação do próprio sujeito, uma característica da subjetividade neoliberal.
Um dos aspectos novos deste início de século XXI é o surgimento de uma subjetividade ou de uma consciência das classes laboriosas que são avessas às bandeiras históricas do movimento sindical. Em alguns lugares, elas foram capturadas pelo projeto da extrema direita, expressando-se contra pautas progressistas. Aqui é necessário compreender as contradições e ambiguidades do pensamento e das ações dos sujeitos para compreendermos por quais vias estes setores podem e devem ser disputados por projetos democráticos e emancipadores.
Assim, acredito que um primeiro passo é fugir da superespecialização das ciências ocorrida nos últimos anos, pois esta impede uma leitura da totalidade social. Em seguida, construir análises e diagnósticos a partir de cada área do saber. Cada disciplina tem sua tradição teórica, seus referenciais e suas metodologias. Não acho que devemos descartar isso, pois neste aspecto a especialização foi importante. Mas devemos, a partir destes instrumentos, construir uma teoria social crítica e apresentar soluções para a sociedade.
3. Em sua opinião, quais possibilidades de ação efetiva poderiam ser orientadas por esta discussão, no sentido de enfrentar os efeitos sociais negativos produzidos pelo aprofundamento do autoritarismo na atualidade?
Heloisa Starling: Um cupim avança pelo mundo na atualidade e ameaça a democracia, alertou o cientista político Miguel Lago. A “Democracia-Cupim”, como ele a nomeou, não recorre a golpes de Estado. Chega sem fazer barulho carcomendo as estruturas democráticas por dentro, até esvaziá-las por completo. Mas conserva a fachada e mantém uma espécie de casca democrática cercando tudo o que foi roído – instituições, legislação, formas de solidariedade social, agências de governo, catálogo de direitos, padrões de justiça. A ação do cupim estabelece o ponto de convergência entre programas de governo que não precisam ser exatamente os mesmos, como, por exemplo, Jair Bolsonaro, no Brasil; Donald Trump, nos Estados Unidos.
Frágil, mas regenerável, a democracia “depende de nossa disposição de reencantá-la”, insiste Miguel Lago. Isso significa romper o isolamento das pessoas na sociedade para recuperar um espaço público mais amplo e permanente do que a urna de votação, com maiores oportunidades para que a voz do cidadão seja ouvida fora dos dias de eleições. A arte de associar-se, dizia Hannah Arendt, amplia o campo de ação do cidadão para além do voto periódico e da delegação da representação e confere à República seu sentido democrático mais próprio. Associar-se comporta diversos formatos: conselhos, assembléias, redes de solidariedade ou comunitárias, plataformas de deliberação digital. E o cidadão percebe rápido que participar dos assuntos públicos vale a pena quando a defesa do bem comum transforma-se em responsabilidade de cada um.
O ato de declarar direitos fornece pulsação à democracia. Sustentados numa afirmação de auto-evidência, a declaração tem efeito galvanizador. Direitos são convincentes porque ressoam dentro de cada um. Incitam os excluídos a falar por si mesmos e a exigir reconhecimento igual. É impossível defini-los de uma vez por todas: seu horizonte de expectativas é amplo e está em movimento continuado porque os avanços no entendimento de quem tem direitos e o que são esses direitos se modifica constantemente. E nunca está satisfeito consigo mesmo; como a própria democracia, o ato de declarar direitos não é uma construção acabada, mas um empreendimento contínuo.
Elísio Estanque: Em 2023 publiquei um livro (que indico abaixo como referência) que trata o tema da chamada “sociologia pública” como um projeto que assume a necessidade desta disciplina sair das suas fronteiras académicas para se dirigir a um público abrangente e com potencial influência na ação política. A ciência em geral, mas as ciências sociais e a sociologia, em particular, embora obedeçam às premissas do pensamento racional moderno, não são imunes a visões normativas e a opções de sentido ético. De resto, como sabemos, até as correntes mais liberais e positivistas (desde Max Weber ou Émile Durkheim, por exemplo) destacaram a importância da ação humana orientada por valores morais. Nessa medida, diversas linhas do pensamento crítico (inclusive sob influência do marxismo e da Escola de Frankfurt) estimularam sucessivos debates e movimentos de intervenção política visando a crítica do capitalismo e dos seus excessos, e a defesa de princípios humanistas e projetos transformadores. É também nessa linha que se inscrevem os trabalhos de autores como Florestan Fernandes e Francisco Oliveira, no Brasil, Michael Burawoy e Erik Olin Wright, nos EUA, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, na França, Klaus Dörre e Hartmut Rosa, na Alemanha, etc.. Sob influência destas e outras visões da sociologia crítica, apontei naquela obra um conjunto de reflexões que pretendia denunciar as muitas perversões da democracia e o acentuar das desigualdades e formas de exclusão social ameaçadoras da ética humanista e da justiça social. Há pois um principio ontológico que a sociologia procura pôr em prática, ao lado de diversas correntes e linguagens intelectuais, no sentido de conter as atuais tendências, quer no plano geoestratégico onde as guerras e conflitos se multiplicam, quer no plano propriamente sociológico onde a disposição dos cidadãos para seguirem lideranças autoritárias se vêm expandindo a uma velocidade assustadora, nas mais diversas latitudes. Os movimentos sociais, que em muitas circunstâncias foram decisivos para imprimir ruturas e transformações no capitalismo num sentido que ampliou o campo da ação política e aprofundou a democracia, atravessam atualmente um período de estagnação e foram em muitos casos “engolidos” por narrativas de natureza xenófoba, nacionalista e protofascista. Acredito, no entanto, que vivemos uma fase de transição e que novas rebeliões de sentido emancipatório e de combate às desigualdades (de classe, de género, raciais, económicas, religiosas, orientação sexual e LGBT, etc.) e da defesa da paz e do equilíbrio ambiental voltarão a ressurgir para conter os riscos de novos autoritarismos que hoje estão em marcha.
Josué Pereira da Silva: Além dos três grandes temas referidos na resposta à primeira questão e que a meu ver servem como um necessário pano de fundo para se elaborar um bom diagnóstico de época, há outros desdobramentos específicos desse diagnóstico que não podem ser ignorados.
Há alguns problemas a esse respeito que valem a pena investigar. Exemplo: a relação entre o crescimento da desigualdade social e a proliferação do crime organizado, sobretudo em áreas semiabandonadas pelo Estado, que deixa a população mais socialmente vulnerável à mercê de organizações criminosas. Não há dúvida de que, em grande medida, esse tipo de situação decorre do desmonte das proteções sociais pelas políticas neoliberais e da ausência do Estado. Por outro lado, um setor da população desprotegida e que vê o Estado mais como órgão repressor do que como provedor ou garantidor de cidadania pode se tornar um alvo mais fácil para criminosos, charlatães e pretensos salvadores da pátria dos mais diversos tipos. Não dá para ignorar que isso tem consequências para a democracia e para o Estado democrático de direito, como temos visto não só no Brasil. E o mesmo raciocínio vale para a questão ambiental e também para a tecnológica, sobretudo em um país como o nosso que vivencia um salto muito rápido do analfabetismo para a era digital, quase sem mediação.
Que fazer? Certamente, mudar de rumo. Embora isso não seja fácil, persistir no erro, apostar em políticas antigas que só deram certo para os que sempre ganharam só aumentará o tamanho do abismo social.
Ricardo Festi: Recentemente, Axel Honneth publicou um belíssimo livro intitulado A soberania laboriosa: uma teoria normativa do trabalho (tradução livre). Ele demonstra haver uma dependência recíproca entre a participação democrática e uma certa qualidade de condições de trabalho numa sociedade. Aponta que uma das grandes deficiências das teorias da democracia é esquecer que a maioria dos membros que deveriam exercer o regime democrático são também sujeitos do trabalho. Portanto, negligenciar esta esfera da sociedade é um erro, pois ela, assim como a educação, é um dos poucos espaços em que o Estado de direito pode agir sobre as próprias condições de existência. Ou seja, o Estado pode determinar se o trabalho se organizará sob condições normativas cooperativas ou sob esquemas egoístas e egocêntricos.
A reflexão e sugestão do autor alemão vai na contramão do movimento de ultra especialização do conhecimento ocorrido nas últimas décadas. Se este processo trouxe um maior conhecimento em diversos campos, com uma ampliação de suas fronteiras, também nos levou a uma perda da perspectiva sobre a totalidade. Nesse sentido, Honneth mantém viva a boa tradição da teoria crítica. Em determinado momento do livro, afirma que uma teoria da democracia sem a visão concreta da sociologia do trabalho é vazia, assim como uma sociologia do trabalho sem os conceitos da teoria democrática seria cega.
Honneth não está evocando a condição ontológica do trabalho, como fez Gyorgy Lukács, mas a sua posição estrutural nas sociedades democráticas. A limitação do livro está em não questionar em profundidade a democracia liberal. Como têm demonstrado outros autores, nas últimas décadas a democracia foi limitada pelo próprio capitalismo tardio (ou o neoliberalismo). Dessa forma, é impossível pensar um trabalho emancipado (ou não alienado) sem uma transformação substancial do sistema, vice e versa.
De qualquer forma, a questão-chave do livro de Honneth está correta. É um incontornável ponto de partida para responder à pergunta que me foi colocada. Não dá para compreender a erosão das democracias ocidentais sem olhar para a corrosão dos regimes de trabalho, sobretudo com a precarização que tomou todas as dimensões da vida, conforme nos apontou Bourdieu em seus escritos dos anos 1990. Para ele, a precariedade afeta profundamente todos e todas que são atingidos por ela ao deixar incerto o futuro. A perda da esperança de que a ação coletiva contra as mazelas do presente pode moldar um futuro melhor está vinculada à certeza de que os sujeitos são descartáveis e que as suas ações farão pouca diferença.
Portanto, o aumento do autoritarismo nas sociedades contemporâneas tem uma relação direta com as percepções dos sujeitos sobre a eficácia e a legitimidade do regime democrático. Estas percepções estão profundamente ancoradas na cotidianidade da vivência de cada um e em suas experiências de vida. A perda de direitos, a precarização do trabalho e da vida, e sobretudo a inexistência de utopias emancipatórias no horizonte ideológico destes sujeitos resulta em um presenteísmo cru e pragmático. Diante desse contexto, amplas camadas podem ser facilmente seduzidas pelos discursos e projetos da extrema direita. Isso tem sido objeto de reflexões de livros das mais diversas tradições teóricas, tais como Guy Standing (a classe perigosa), Didier Eribon (sobre a classe operária francesa), Jessé Souza (sobre os cotidianamente humilhados). As nossas pesquisas sobre os trabalhadores de plataformas digitais também apontam para esta questão, porém nossa perspectiva não é fatalista: apesar da ideologia neoliberal estar presente nos setores mais explorados e precários da sociedade, há entre eles um questionamento e uma insatisfação sobre suas vidas que os levam a lutar, ainda que não haja um horizonte emancipatório nestas lutas.
4. Quais autores e/ou obras em sua área de conhecimento seriam relevantes para este debate? Mencione três ou quatro.
Heloisa Starling: Quinn Slobodian, Capitalismo destrutivo: os radicais do mercado e a ameaça de um mundo sem democracia. Rio de Janeiro, Objetiva, 2024;
Miguel Lago, “Seminário de cupins: a ameaça mais perigosa para a democracia é aquela que imita sua forma”, O Mantiqueira,set. 2025, CARDE. Belo Horizonte, Editora Autêntica;
Hannah Arendt, Pensar sem corrimão. Compreender 1953-1975. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2021.
Elísio Estanque: Elísio Estanque, Ressonância e Sociologia Pública. Porto, Editora VidaEconómica, 2023.
Michael Mann, Fascistas! Rio de Janeiro, Record, 2008.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como Morrem as Democracias. Lisboa, Editora Vogais/Penguin, 2018.
Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism. London, Profile Books, 2019.
Josué Pereira da Silva: Não me permito indicar autores ou obras específicas porque há muita gente pesquisando e escrevendo em cada um dos temas que considero relevantes e aos quais já me referi. Mas creio que qualquer saída positiva dessa situação precisa repensar a relação entre economia e sociedade, assim como entre economia e meio ambiente, além de defender o Estado democrático de direito e aprofundar a democracia, que lhe dá sustentação.
Sem isso, podemos reviver – como farsa, certamente – a experiência das primeiras décadas do século XXI. E, para piorar, sem ter como horizonte a esperança de uma utopia socialista como naquela época.
Ricardo Festi: Ademais os autores que mencionei nas respostas anteriores, acrescentaria a obra de Ricardo Antunes. Ela tem um vigor teórico e suas reflexões contribuem para pensar a totalidade a partir da concretude do mundo do trabalho. Vale também um retorno ao clássico livro de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, em particular sua caracterização da burguesia brasileira e do Estado como uma autocracia. Nesse sentido, todos os autores e autoras da tradição teórica negra são fundamentais, pois é impossível compreender a sociedade brasileira sem a questão racial. Assim, neste ponto, poderíamos acrescentar ao que formulou Honneth que toda teoria da democracia no Brasil que não levar em conta a questão do trabalho e a questão racial será vazia.
Numa perspectiva mais ampla, recomendaria as obras de Mark Fisher e de Enzo Traverso. Para mim, estes dois autores podem ser lidos de maneira complementar um ao outro. É extremamente pertinente a reflexão contida em Melancolia de Esquerda do autor italiano, sobretudo o problema do desaparecimento da utopia (ou seja, a projeção em nosso imaginário cultural de um futuro melhor) e da imposição do presentismo nas concepções políticas (um conceito emprestado do francês Daniel Bensaïd).
