Homenagem | Telê Ancona Lopez

Republicamos hoje a entrevista concedida por Telê Ancona Lopez à BVPS em 2023, no contexto das comemorações pelos 130 anos de Mário de Andrade. Abaixo, veja a nota assinada por André Botelho em nome da BVPS.

Estávamos saindo do lançamento de Nordestes: Diário de viagem (1928-1929), de Mário de Andrade ontem à noite, quando recebi a notícia do falecimento da Profa. Telê Ancona Lopez. Foi um golpe duro, porque, naturalmente, falamos sobre ela e a importância do seu trabalho na modelagem da obra de Mário de Andrade. Ramais e Caminho (1972), em particular, permanecerá sempre com um dos melhores exemplos, para mim, de como ler um texto. “O movimento de Mário nasce de sua contradição”, a Profa. Telê condensa de modo agudo em poucas palavras, que adotamos como epígrafe de O modernismo como movimento cultural (2022).

A interminável Presidente Dutra nunca foi motivo de distância da Profa. Telê sobre tudo o que fiz sobre Mário. Para recorrer a uma das suas percepções geniais sobre Mário, aí tambem era possível “desgeografizar” relações. Generosa, ela também encurtava as distâncias, sempre com uma mensagem atenciosa sobre nossas incursões. Imensa gratidão em meu nome e no do meu grupo de pesquisas. Como um gesto singelo de homenagem, a BVPS republica a entrevista que fizemos, Maurício Hoelz e eu, com a já saudosa mestra e guia de tantos ramais que não desviam do caminho.

André Botelho


“Como vai passando o tempo para Mário de Andrade?” Entrevista com Telê Porto Ancona Lopez

Por André Botelho (UFRJ) e Maurício Hoelz (UFRRJ)

André Botelho e Maurício Hoelz: 130 anos de Mário de Andrade. Como Mário está envelhecendo, bem?

Telê Ancona Lopez: “Envelhecendo bem”… Se fosse vinho, seria arriscado responder… Eu mudo um pouco a pergunta: “Como vai passando o tempo para Mário de Andrade?” Como nós – os estudiosos cujo trabalho nasceu em um outro século – e vocês, estes que já começaram trabalhando no mundo informatizado, de fronteiras rasgadas concretizando utopias, veem Mário de Andrade hoje? Digo por mim e acompanho Ítalo Calvino. Mário polímata tornou-se um clássico e textos seus de artista ou de ensaísta, estudioso e descobridor assim o classificam não apenas porque pedem a leitura sem intermédio ou porque continuam em nosso pensamento e em nosso coração. Ou: não apenas pela coerência nos projetos ou porque abrem caminhos. Também porque, no historiar, na crítica ou na exposição teórica, são palavra! Palavra disposta com precisão semântica e graça, sabor, beleza. Porque possuem verdadeiramente um estilo, em que a precisão passa longe do carimbo, da fantasia narcisista de calar no leitor porque repete, ecoa vozes costumeiras. Mário passa bem: lido, traduzido, recriado, acrescentado. Suscita pesquisas e reflexões que podem hoje se alimentar das conquistas incomensuráveis da revolução da máquina, equivalente à descoberta da roda. Cabe também pensar a rapsódia Macunaíma como obra-prima inserida na produção artística atual que, simultaneamente, devora e rejuvenesce as obras-primas, se recorremos às “Aporias da vanguarda” de Enzensenberger.

André Botelho e Maurício Hoelz: Estamos entre duas celebrações importantes para a história do modernismo: o centenário da Semana de Arte Moderna, ano passado, e o centenário da viagem modernista a Minas Gerais, ano que vem. Como a senhora viu o centenário da Semana? O que foi ressaltado? Ficou algo pelo caminho?

Telê Ancona Lopez: O IEB-USP, no evento A Semana de 22 e o Modernismo: modos de herdar lançou esta provocação: “Como fazer vibrar os mais candentes debates do Brasil de hoje nas comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922? Como fazer com que a Semana e o legado do Modernismo respondam aos dilemas sociais e ambientais da atualidade brasileira? Como aí articular lugares de fala e fala de lugares?”.

Pretendeu discutir aquilo que, na prática, corresponde à distinção moderno e modernista, traçada por Henri Lefebvre, considerando o distanciamento histórico e também os graus de consciência. Em 2022, estudiosos renovados e jovens pesquisadores, no meio universitário ou fora dele, analisaram e interpretaram documentos para “fazer a história”, como Mário de Andrade “previra” em 1944. Livros, artigos, exposições, apresentações musicais multiplicaram-se. Em 1976, explorando matéria jornalística, a tese de doutoramento de Roselis Oliveira de Napoli, 1922-1972: A Semana permanece, mostrou, no cinquentenário, uma acanhada repercussão. E hoje, as cogitações alastraram-se. Prosseguem. Contamos com uma riqueza imensa de abordagens, em muitas áreas, consolidando a conclusão de Mário de Andrade em 1942, relativa “à convulsão profundíssima” desferida sobre a realidade brasileira. Vale a citação: “O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional”, visando um “todo orgânico da consciência coletiva.” (grifei, na conferência “O movimento modernista”). Estabilização, de fato, da necessidade de interrogar, sem descanso, os acontecimentos, no presente vivido no Brasil na relação arte e sociedade, ambicionando transformar democraticamente a sociedade. Esse anseio/proposta de movimento amplo marca Mário de Andrade moderno, em nosso tempo, na compreensão de que a modernidade é a própria dúvida (Lefebvre) e de que a tarefa de questionar é premente e sem trégua para a sociedade.

Ah! A sua pergunta “Ficou algo pelo caminho?”. Esse caminho me lembra a intrincada copa das amoreiras, na qual cada rama emite outra e esta, pela vez dela, mais uma; vai daí! Estudos e descobertas continuam! Eu gostaria de assistir, algum dia, uma performance em que a orquestra se atirasse, firme, na Sinfonia em sol menor, de 1893, do nosso Alberto Nepomuceno, onde brilha o tema folclórico do sapo cururu. Para, em seguida, ou sobreposto (sei lá!) trazer o poema de Manuel Bandeira, “Os sapos”, declamado na Semana de Arte Moderna. Esse enlace o festival de 1922 não pôde fazer. Amigo do compositor norueguês Grieg que, no diálogo com Ibsen, reconhecia a importância do folclore para abraçar a nacionalidade na criação erudita, Nepomuceno (1864-1920), chegou, pioneiro, às margens brasileiras do sapo cururu. Também escandalizou a crítica.

O centenário da viagem modernista a Minas Gerais, focalizada com argúcia por Alexandre Eulálio e Carlos Augusto Calil, motivará, certamente, novos e importantes “aprendimentos” quanto à multiplicidade de dimensões que essa viagem irradia.

André Botelho e Maurício Hoelz: “Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição!”. Como esse recado de Mário de Andrade para a juventude de 1942 chega até nós hoje?

Telê Ancona Lopez: Mário de Andrade constatara/ alertara em 1922, na premissa estética presente no fragmento ou aforismo 51 da poética “Prefácio interessantíssimo”, em Pauliceia desvairada, marco no modernismo brasileiro: “O passado é lição para se meditar, não para reproduzir.”. Em 1942, no tecido da análise severa do modernismo, materializada na conferência aos estudantes, a constatação alarga-se e se atualiza: é importante evitar o dogmatismo, a absorção tácita, o delírio no wishful thinking. Nada está concluído! Viva a interrogação, o questionamento, a dúvida!

André Botelho e Maurício Hoelz: O enlace entre as gerações é central para o movimento cultural pela mudança da sociedade liderado por Mário de Andrade. Qual escrito dele a senhora, que foi pioneira no estudo da obra do modernista, destacaria para as novas gerações começarem a lê-lo? E por quê?

Telê Ancona Lopez: É verdade! Eu me pergunto… Para despertar aqueles que pouco leem, eu começaria pelo conto “Piá não sofre? Sofre.” E “O poço”, “Briga das pastoras”. São narrativas de forte atualidade. Para todos, eu sugiro Macunaíma, obra aberta, moderna. Rapsódia e canto “na fala impura”. Na poesia, todos merecem conhecer os “Dois poemas acreanos”, compreendendo “Descobrimento” e o “Acalanto do seringueiro”, assim como os “Poemas da negra”, “O carro da Miséria”. E mergulhar fundo n’ “A meditação sobre o Tietê”. No ensaio, as análises do Aleijadinho ou sobre o negro. Também “O maior músico” e “Atualidade de Chopin”. O começo pode ser, também, pela correspondência – uma delícia ler Mário e seus interlocutores! Ou pelos caminhos do viajante, n’O Turista Aprendiz, que bem percebe contradições do Brasil e que se associa à experiência do fotógrafo. O livro e o álbum de fotografias Mário de Andrade: Viagem ao Nordeste brasileiro 1928-29, organizado por Luiz Bargmann, estão na internet. Mas, por que esses destaques? As razões, que declino na minha resposta à primeira pergunta, juntam-se a esta, mais simples: porque Mário é um sagaz e sensível contemporâneo nosso. Ele nos surpreende.

São Paulo, outubro de 2023