Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Bom Jardim (13 de janeiro, 13 horas)   


Quem foi Ferreira Itajubá? Mário de Andrade interrompe suas andanças por Bom Jardim para apresentar este importante nome da poesia norte-rio-grandense, falecido em 1912. Poeta de poesia verdadeira, diz o modernista, com sabor de terra bem forte e suavidade impregnante. A crônica é mais um exemplo do projeto andradiano de dar a conhecer o Brasil aos brasileiros. Um Brasil que, segundo o escritor, “precisa conhecer milhor Itajubá…”

As apresentações da série Nordestes, com as entradas de diário de O Turista Aprendiz, são de autoria do editor Onildo Correa (PPGSA/UFRJ), que, também, acaba de organizar, junto com André Botelho (UFRJ), a íntegra do diário de Mário de Andrade para a Casa Matinas (disponível aqui). Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Bom Jardim (13 de janeiro, 13 horas)

Leio Ferreira Itajubá um dos nomes da poesia norte-rio-grandense. Dizem que era muito ignorante e felizmente parece mesmo. A idéas dele não vão além da conversa, o que inda pode ser uma pena, porêm os versos não têm no geral êsses requebros de poetica que deslustram a naturalidade do lirismo.  

“Desse tempo risonho do passado 

Cheio de tantos sonhos, de ilusões  

Eu tenho o peito agora incendiado 

No fogo vivo das recordações… 

De ti me lembro. E quando, nestas plagas,  

A luz desaba cristalina em jorros,  

Eu vejo ao longe, sem rumor, as vagas 

E a solidão tristissima dos morros.” 

No geral a poesia de Itajubá era assim, verdadeira. Tem por isso um sabor de terra bem forte. Ás vezes (é certo que lêra Guerra Junqueiro) emprega umas palavras convencionais, “aldeia”, “batel”, mas pôrem êste Brasil é um mundo! Outro dia eu censurava Ferreira Itajubá por ter empregado a nefanda “bonina” em poesia dele. Danou-se! toda a gente riu de mim. Uma gentilissima se levantou, foi no vergel da casa onde paro, e me trouxe de presente, juro pelo que tem de mais perfeito neste mundo,… um oloroso ramilhete de boninas. É de fato uma flor singela, e comum por aqui da mesma forma que “acolá”. Não tem dúvida que o Brasil é um mundo… 

Ferreira Itajubá não foi um mundo tamanho não, pôrem é um dos poetas mais perfeitamente liricos, mais puramente poetas da geração de Bilac. O verso dele é duma suavidade impregnante, canta manso em melodia gostosa. Traduzido acho que perderá inteiramente o sabor pôrem não estou convencido que isso seja um mal em poesia. Certos lieder de Goethe tambem não suportam tradução, mas na literatura alemã são coisas das mais puras. Pura cantoria.  

O Brasil precisa conhecer milhor Itajubá… 

Como é doce viver o luar velando, 

O luar que alveja a terra florescendo;  

Moças, a noite clara vem descendo,  

Cordas, a noite branca vem rolando! 

Antes que o pescador faça-se ao mar  

Antes que a luz ardente apague a neve, 

Moças, cantai que a mocidade é breve, 

Cordas, vibrai que Abril custa a voltar! 

As moças e o violão foram o refrão da vida dele… E o fraque.  

— Quando você casa, Itajubá! 

— Inda não tenho fraque. 

Acabaram mandando fazer um fraque pra êle. Então casou mas continuou na gandaia. Violão em punho, por praias e ruas suspeitas, cantando. De fraque. Fazia discurso nos circos de cavalinhos. De fraque. Esse fraque foi a salvação de calças de vida longa. 

Cinco mezes depois de casado participava aos amigos o nascimento do primeiro filho.  

— Itajubá! que é isso! seu filho não é de tempo! 

— É sim. O casamento é que não foi de tempo… 

Ponteava as cordas e cantava outra modinha. E assim viveu até o fim: de violão, de fraque e na gandaia: 

Quero ás vezes cantar, mas um doente não canta 

Que a molestia lhe trunca as notas na garganta. 

Morto me considero… As trovas melodiosas 

Esqueci no infortunio… As tranças perfumosas 

Que amei, deixei de amar… Fecharam-se as janelas; 

Foram-se as ilusões; casaram-se as donzelas. 

MÁRIO DE ANDRADE