
Em mais um post da série Back to the 70s, trazemos um trecho do memorial de titularidade de André Botelho, organizador da série ao lado de Maurício Hoelz e Maria Fernanda Argileu.
A titularidade, ocorrida no final de 2024, versou sobre as ambiguidades do indivíduo no memorialismo mineiro como parte do longo processo de individuação na sociedade, pesquisa desenvolvida durante os 4 anos do projeto coletivo “MinasMundo: o cosmopolitismo na cultura brasileira”. No memorial, Botelho propôs um experimento de redução da narrativa ao nível do próprio objeto, trocando o relato de feitos acadêmicos por uma trama que assume a parcialidade e a subjetividade (de classe social, de gênero, de cor, religião e outros marcadores sociais) não como sintomas mas como modos de produção do eu. Reagindo à longa tradição da Bildung, enfatiza mais o desfazimento da sociedade na prática de si e a deseducação como motivos do aprendizado social — tema, aliás, de sua pesquisa atual.
No trecho abaixo publicado, ao rememorar a infância e a juventude entre Rio de Janeiro e Petrópolis nos anos 1970, Botelho converte fragmentos do seu cotidiano em matéria de reflexão sociológica. O resultado é um retrato sensível de uma geração e de um Brasil em transformação, em que, mais do que os temas que marcariam sua obra, revelam-se os aprendizados e desaprendizados de uma trajetória intelectual dedicada a compreender as contradições que atravessam a sociedade brasileira, no “seu” e no “nosso” tempo.
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Emaranhado André Botelho: memorial (trecho)
Por André Botelho (UFRJ)
E nós ficamos sem saber se ele seria o gênio que indicavam as amostras e promessas, ou mais um vulgaríssimo exemplo de tropicalismo e mestiçagem: prometedor de tudo em moço mas esgotado pra sempre pelo esforço de prometer tudo.
Mário de Andrade, “Álvares de Azevedo – I”, 1931.
Eles e eu. A conversação sempre foi uma atividade central na minha vida. Em casa, crescemos conversando, meus pais e nós, seus três filhos.
O hábito vinha de longe. Na casa da minha avó materna, epicentro de nossa vida familiar e social, também. Lá, havia inclusive o hábito para mim antiguíssimo das visitas, sobretudo nos finais de semana. Aqueles que vinham para o almoço. Aqueles que vinham para depois do almoço. E nunca se combinava nada. Todos sabiam seu lugar. Personagens que, juro, não fariam má figura diante de A Comédia Humana.

Criança, não podia falar entre adultos, apenas se e quando requisitado. Mas podia ouvir a conversa deles, se quietinho. Ah, como queria conversar assim! Às vezes, tenho a sensação de que, de alguma forma, estou sempre buscando interlocutores como aqueles; como a prima louca Clarice da Paz, que tinha lugar assegurado no beija-mão dominical da minha avó – que estendia o seu braço num gesto tão próprio que lhe conferia braços incrivelmente longos, como que para apenas tocarmos de longe sua mão.
E quando vinham os parentes de longe? Tias-avós, tios-avôs, primas distantes, primos próximos, agregados de várias gerações. A parentela toda, diversa, desigual, coesa. Em geral, gostávamos mais dos tios-avôs ricos que nos colocavam em fila para distribuir “dinheirinho”. Mas o colorido me agradava. As temporalidades múltiplas daquela fauna cheia de estranhos e complexos cruzamentos entre si. Eu fui eles.
Nas brechas sempre apareciam oportunidades de conversas mais diretas com esses familiares mais velhos. Porém sempre fragmentadas. Isso é importante: embora meus pais não fossem muito jovens, não convivi diariamente com velhos. O que me dava oportunidade de tentar reconstituir uma espécie de linha cronológica e lógica dos fatos narrados por eles quando eu estava sozinho, e tentar checá-los quando tinha a sorte de reencontrar um desses interlocutores uma próxima vez.
A solidão, o fragmento, o interno jogam aí papéis fundamentais, mas, a ideia de veracidade também. Uma espécie de mecanismo de conexão, uma função mediadora da e sobre as deliberações reflexivas individuais introjetada pela oralidade.
Não quero forçar a nota, mas esse exercício constante de interlocução e reconstituição dos passados, reconstituição porque eu não os ouvia o tempo todo – enfatizo –, talvez esteja na origem do senso agudo de “processo” que sempre me guiou, imaginando meus interlocutores quando eram jovens ou crianças, como eu, e vendo-os decrépitos, ouvindo-os falar cheios de si do “seu tempo” em contraste com o nosso/meu tempo. Ah, como eu queria ter isso: o “meu tempo”!
Em contraste, a convivência com os da minha idade nunca foi fácil. Até hoje meus amigos e afetos são, em geral, mais velhos do que eu. No jardim de infância, eu praticamente já sabia ler. Resultado do método caseiro: eu sou o irmão caçula de três meninos. O mundo dos meninos era, então, quase pura violência, física e moral. Um mundo hobbesiano. E brincávamos de escolinha. Adivinhe você quem era o aluno? Acertou: sempre eu!
Por isso, desconfio, eu quis ser professor antes de qualquer coisa. Antes de saber de ciências sociais, de pesquisa, de ciência. Eu me tornei professor. Tive professores magníficos que fizeram a diferença em sala de aula e a partir dela. Tive alunos magníficos em 20 anos de docência universitária.
Mas, antes disso, estava eu numa tarde de verão entediado no jardim de infância, ser superior que então me considerava, praticamente alfabetizado diante de uma massa ignara, e eis que levanto a mãozinha educadamente e peço à professora para ir ao banheiro. Dona Isa permite. Saio tranquilamente da sala de aula, mas com o coração cada vez mais agitado atravesso corredores e pátios e, no último deles, simplesmente saio pelo portão e ganho a rua. Quero voltar para casa. 1975.
* * *
É do mesmo ano uma foto que tenho com meu pai, e da qual gosto muito. Puxa, como as pessoas eram magras, cheias de pelos e pareciam tão mais velhas do que de fato eram nos anos 1970! Mas, o bacana é que, nela, eu não sou exatamente uma criança, sou uma miniatura de adulto. Ambos estamos com nossas calças de tergal boca de sino, camisas de mangas cumpridas e de golão armado, nossos óculos “Aviador” de lentes verdes Ray-Ban e, pasmo, “capangas” de couro da cor vinho debaixo dos braços. Faltavam-me, claro, as costeletas, quase suíças, que meu pai então usava. As crianças não haviam entrado ainda, no Brasil, na mira cruel do mercado de consumo. Vi esse espetáculo de horrores já adolescente.
Os adultos às vezes eram meio crianças crescidas também. Servíamos drinks nas suas festas caseiras em troca de gorjetas, comprávamos cigarros para eles nos botequins e eu, pelo menos, ia ao “bicheiro” quase diariamente numa época – “bicheira”, melhor dizendo, a dona Lourdes, que parecia uma coruja e tinha os óculos, usados na ponta do nariz aquilino, presos por correntes. Os anos 70!
Meu pai, apesar de tudo, era assim: André (Deco, Dedeco, Dequinho para ele) está balançando as pernas, sentadinho numa cama branca de ferro de hospital. Veste pijaminha de flanela com bichinhos estampados – eram girafas? Girafas se curvam para pastar? Ele nunca deixou de se perguntar. Aguarda ansioso o mistério da cura, eis que o papai toma uma decisão repentina no último momento: “Não, nada de tirar as amígdalas!”. Saímos porta fora por corredores, pátios, portões.
Nunca tive interesse no passado em sentido estritamente antiquário, porque, no fundo, fascinavam-me, antes, as dinâmicas de continuidade e de mudança. As relações. As comunicações. Mas a percepção da sobreposição de temporalidades, o meu/o nosso tempo que continha o tempo só deles, dos velhos parentes, do passado, que eu não vivi, mas revivia por meio das suas narrações, nunca me levou a um contraste muito radical entre o antes e o depois. Pelo contrário, mesmo antes de ter instrumentos teóricos e práticos que vieram posteriormente no colégio e na música para compreender a simultaneidade, já a percebia nas múltiplas conversações, externas e internas.
Forçaria a nota, agora sim, caso afirmasse, o que só faço então ligeiramente, que esses exercícios tenham me dado também o sentido de contingência do processo. Quantos azares, quantas sortes, quantas sinas, escolhas e planejamentos errados ou certos fizeram essas pessoas do meu passado. E como tudo isso afetava a estrutura de escolhas disponíveis a mim mesmo como membro de um grupo e uma classe social. Anos sim, anos não, a gangorra financeira das classes médias brasileiras, e à brasileira, fazia-nos prestar a atenção em todos esses lances de um destino relativamente incerto. Sinas/escolhas.
Na faculdade viria aprender sobre a determinação, sobre os condicionantes, sobre as estruturas sociais e históricas dessas escolhas. Entendo que, de fato, as estruturas contam com poderes e propriedades causalmente eficazes, “condicionadoras”. Todavia, o problema delicado, como bem lembra Margareth Archer em seu Structure, agency and the internal conversation (2003), é que “condicionar” é um verbo transitivo e, por isso, exige um elemento sobre o qual se concretize a operação de condicionamento. Só mesmo uma mulher para se lembrar desse detalhe – gramatical e social. Para a autora britânica, primeira mulher a presidir a International Sociological Association, esse elemento seria a própria agência humana, o que, no quadro por ela construído, está longe de designar uma “tábula rasa” passiva.
Condicionamento não é determinismo. Contrariando colegas e talvez frustrando professores, eu chegara tarde demais às Ciências Sociais para conseguir acreditar num princípio de determinação sobre toda a vida social, posição essa que havia praticamente se tornado senso comum em décadas anteriores e ainda davam as cartas por inércia nos anos de minha formação universitária.
Minha experiência pessoal de interesse pelas pessoas do passado encontrou-se com os desafios intelectuais do meu tempo: no lugar da determinação previamente dada, a interação complexa, a relação contingente entre indivíduo e sociedade como um problema teórico e de pesquisa. “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”, já sabia Karl Marx.
* * *
A primeira vez em que ouvi a palavra “sociologia”, creio ter sido no primeiro episódio do seriado Malu Mulher da TV Globo (não vou conferir no Google, mas imagino que tenha sido por volta de 1979). Em meio à briga que levou à separação do casal, mote do seriado, o marido pega as folhas datilografadas da tese de mestrado de sociologia da esposa e as arremessa pela janela. Ela, desesperada, desce e sai catando o que consegue na calçada, o vento não ajuda. Também não tenho certeza e não tenho Google para conferir isso, mas desconfio que estivesse havendo uma festa em casa, para que eu pudesse assistir TV (“preto e branco”) tranquilamente tão criança às 22 horas, horário para o qual a censura teria liberado a série tão marcante do feminismo de toda uma época. Não acompanhei o seriado.
Petrópolis. Mas, não conversávamos apenas entre nós.
Isso seria impossível na sociedade brasileira dos anos de 1970 e 1980, mesmo considerando o círculo social relativamente restrito e coeso em que me educava. Uma das faces da desigualdade social brasileira era então, e ainda, a intersecção entre grupos sociais muito desiguais, não apenas nas relações sociais de trabalho doméstico e vicinais (shoppings centers e condomínios ainda não existiam, por exemplo), mas na articulação entre elas na própria dinâmica do cotidiano em sua mais profunda acepção.
As desigualdades estavam presentes acintosamente, mas ou eram caladas, ou não eram sequer percebidas como tais. Devo a minha politização, ou seja, a percepção das desigualdades sociais como um problema, à formação católica de esquerda. Devo-a, acima de tudo, à minha mãe que, em determinado momento, passara dos chás de caridade à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs. Foi essa a nossa salvação. Nos transformou em casa, a cada um de nós e ao conjunto que juntos formávamos. A nova convivência com frades franciscanos e freiras em movimentos sociais – aqueles chamados “padres de passeata” e “freiras de minissaia” por um insuportável Nelson Rodrigues – ajudou-nos a forjar um senso de responsabilidade social que foi sendo apurado, comportando também contrariedades, conflitos e reprovações sociais dos mais próximos.
“Senhor dai pão aos que tem fome e fome de justiça aos que tem pão”, repetíamos uns para os outros em nossas refeições familiares diárias. Era bonito de se ver. Mas, se eu via, significa então que mantinha os olhos entreabertos durante a oração? Eu observava. Em breve, as Ciências Sociais me dariam os instrumentos para compreender aquele ritual como uma espécie de expiação das nossas culpas burguesas, e, no caso, judaica e cristã.
A política, a velha política partidária, essa sim fazia parte da minha história familiar e estava sempre presente em nossas conversas e casos de astúcias e fracassos que ouvi mil e uma noites e remontam à Primeira República fluminense. Inacreditável como o pior dela poderia voltar à tona organizando não apenas as instituições políticas, mas também o espaço público brasileiro em anos recentes. Sim, ela é uma das linhas de continuidade da vida politica brasileira, basta que se pense no chamado “Centrão” e seu papel político.
Logo, porém, meus irmãos já jovens e universitários introduziriam cada vez mais conflitos nas conversações familiares. O PDT de Leonel Brizola, retomando o velho trabalhismo, era mais familiar (literalmente) em suas virtudes e defeitos, e também estava bem representado entre professores e lideranças intelectuais progressistas na cidade. Para uma criança e adolescente relativamente politizado, o efeito de presença e a verve retórica de Brizola eram poderosíssimos, e se tornaram inesquecíveis para mim. Tremo até hoje. Mas ele parecia falar mais para os mais velhos do que para a gente, mesmo quando falava de juventude e educação, mesmo via Darcy Ribeiro. Ambos vocalizavam uma espécie de acerto de contas com a história que, a mim pelo menos, parecia então por demais abstrato.
Lula e o PT, que, ademais, tinham, então, amplos apoios em segmentos católicos, surgiam, por sua vez, como forças políticas novas mais atraentes e quase irresistíveis em sua promessa de transformação da sociedade brasileira. Sociedade da qual pouco ou nada eu e meus irmãos gostávamos, tamanhas eram suas desigualdades e crueldades. Mas isso foi naquele momento; o presente, dolorosamente, se encarregaria de nos separar. Até quando?
No Rio, explodiam as mobilizações das Diretas Já!, as mais impressionantes a que assistimos e de que eu mesmo participaria – ainda me lembro das múltiplas sensações corporais do menino adolescente magrelo que era ao me unir e como que me dissolver na massa que clamava por democracia na Candelária, na Avenida Presidente Vargas. Diretas Já!
Tivemos na porta do nosso quarto um adesivo por anos, muitos anos. Diretas Já! Verdes e amarelos foram se quebrando e quando nos mudamos da casa da infância restavam apenas fragmentos ilegíveis de plásticos colados na porta – deveria ter tomado a ruína do adesivo como um sinal? Ruínas de linhas puras, diria Mário de Andrade. Assim, é a nossa democracia.
Mas, antes disso (e, na verdade, também depois), o município seguia como base da política nacional – tese que conheceria e estudaria décadas seguintes em grandes autores como Victor Nunes Leal e Maria Isaura Pereira de Queiroz – e era intensamente vivido também na cidade oitocentista na transição democrática, com todo o novo aparato de manifestações e performances públicas.
A experiência de cada cidade é particular mesmo assim. Como escrevi com um amigo e conterrâneo, porém, de uma geração mais jovem, Maurício Hoelz, em homenagem a dois amigos nossos mortos nas águas de março de 2022:
Viver em Petrópolis é conviver com o paradoxo: de um lado, o refúgio ameno na Serra dos Órgãos fluminense das altas temperaturas da cidade do Rio de Janeiro, perto da natureza e também de uma versão oficial bastante cultivada da história – cidade fundada por e para o imperador Pedro II, e capital federal brasileira de verão até a inauguração de Brasília; a tragédia das chuvas, inundações, deslizamentos de terras, mortes, em geral nos mesmos verões, de outro. Nada existe em uma só face ou dimensão, aprendemos.
Mas, nem sempre os desastres ‘naturais’ são ou foram recebidos como castigo divino, vingança da natureza e formas de apatia. Muitas vezes são também pontos de partida para mobilizações contra a injustiça e as desigualdades sociais urbanas vigentes na sociedade. Quantos de nós petropolitanos/as, atingidos/as ou não, nos politizamos nas águas de enchentes passadas, que o tempo levou e traz de volta.
Quantos banharam-se nesse rio e saíram modificados. Veremos como será neste momento. Momento em que o conservadorismo político dominante na cidade contrasta com a participação social crescente na década de 1980, tão característico do que ocorre no Brasil como um todo.
Entre o ontem e o hoje, fomos forjados sociólogos atentos à dimensão de processo, observadores e partícipes das forças sociais em movimento, que fluem e se chocam em conflito na sociedade.
Ao lado das mobilizações que as catástrofes anuais então exigiam, todo o processo de desnaturalização da tragédia, busca e discussão públicas de suas causas, foi decisivo para aguçar uma sensibilidade humanista e sociológica em mim. E novos atores sociais entravam em cena, para lembrar título famoso nas ciências sociais.
Sr. Roberto. E também novas leituras entravam em cena, como a dos relatos dos exilados que voltavam ao Brasil: O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, que também convocava a juventude para atos simbólicos novos no campo político ambientalista, com o então Partido Verde, como o abraço à Lagoa Rodrigo de Freitas. O inesquecível Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, que protagonizava no seu próprio corpo a tragédia maior da ditadura militar brasileira: a falta de liberdade. Minha leitura deste livro, no fundo, está na origem da minha ida posterior para a Unicamp. Em liberdade e Stella Manhattan, de Silviano Santiago, não parariam de me levar a lugares completamente diferentes, nunca mais. Os livros de Pedro Nava em casa, autografados alguns, ainda não haviam me despertado a curiosidade que eles viriam exercer sobre mim, anos depois, profissionalmente.
Minha iniciação crítica deu-se no método hermenêutico das homilias dominicais do Padre Francisco Montemezzo. Se não me falha a memória, a liturgia envolvia/envolve duas leituras preliminares: a primeira leitura retirada do Antigo Testamento, a segunda leitura do Novo Testamento. Ambas preparavam a leitura mais importante dos Evangelhos, nesse caso feita pelo próprio sacerdote e não por leigos.
Padre Francisco combinava interpretações textuais finas com contextualização histórica e anacronismo contemporâneo. Afinal, a ideia era aprender com os textos considerados sagrados para orientarmos a nossa vida comum, no dia a dia, e, assim, integrar essa comunidade mágica de fiéis. Eu sequer piscava os olhos em seus sermões. Ele conseguia ligar as diferentes leituras, entre si, desvendando significados profundos e ocultos de passagens que tomava literalmente como exemplos de sua afiada hermenêutica, significados históricos, teológicos, políticos do antigo povo judeu, dos primeiros cristãos e de nós mesmos, no presente.
Jamais encontrei um crítico tão habilidoso como ele. E que ainda por cima nos encantava com suas histórias pessoais: sua vinda da Itália para o Equador, as aventuras em suas viagens de lambreta pela América do Sul e sua vinda para o Brasil, onde morreria aos 83 anos em 2021. Diários de motocicleta.
Era ainda o tempo dos suplementos culturais dos grandes jornais, todos mobilizados pela “abertura” política: O Caderno B e o Ideias, do Jornal do Brasil, Folhetim e Ilustrada, depois Mais!, da Folha de São Paulo, ou o Segundo Caderno, de O Globo. Cadernos culturais nos formavam; em casa havia disputa acirrada para ver quem os pegava primeiro. No colégio, na segunda-feira, a exibição de novos conhecimentos adquiridos na leitura do final de semana, e às vezes, muito às vezes, conversas sinceras sobre os temas e problemas levantados nas matérias com colegas e professores.
E os sebos, ah os sebos… Como buscávamos as primeiras edições da coleção Os Pensadores, em capa dura de marroquim azul. Tenho-as até hoje em minhas estantes petropolitanas. Sebos no centro do Rio, sebos em Petrópolis. Livrarias contendo preciosidades brasileiras e estrangeiras, como a Leonardo Da Vinci, da dona Vanna (Piraccini), nem sempre acessíveis, mas sempre desejadas.
Mas, sobretudo, quis a fortuna que eu tivesse contato desde cedo e por duas décadas com um dos maiores livreiros do século XX: Roberto Brasil Alves da Cunha. Ele era proprietário da Livraria Brasiliana, com uma trajetória profissional fascinante. Livros sempre fizeram parte do seu cotidiano. Irmão mais novo de Walter Alves da Cunha, um dos proprietários daquela que foi a livraria mais antiga em funcionamento no Brasil, a São José, no Centro do Rio, e que eu também conheci bem. Sr. Roberto foi fornecedor, durante décadas, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e suas histórias de viagens comparando bibliotecas inteiras através do Brasil, acompanhado de sua esposa peruana, dona Tânia, eram encantadoras.
Para mim foi verdadeiro orientador de leituras. Sempre de esguelha em suas lojas no Centro do Rio de Janeiro (na sobreloja do edifício Avenida Central) e em Petrópolis (ao lado do cinema de mesmo nome), Sr. Roberto se aproximava num salto intimidador e com uma impaciência camarada que podia parecer arrogância aos neófitos, e logo passava um livro dizendo com seu cigarro com incríveis cinzas equilibristas no canto da boca: “Não!!! Deixa isso aí. É bobagem; leva esse!”. Sr. Roberto, porém, não era dogmático em suas indicações compulsórias, com o perdão do oximoro; entrava de tudo: raridade, oportunidade, qualidade literária, preço, amizades, inimizades e tantos outros critérios.
Aos sábados pela manhã, na loja de Petrópolis, um dos habitués era o escritor mineiro Autran Dourado, que passava os finais de semana na serra.
E, isso, para quem cresceu ainda na cidade da editora Vozes, então liderada pela feminista Rose Marie Muraro e pelo frade Leonardo Boff, e na qual, viria eu mesmo, anos depois, a publicar meus próprios livros. Para não falar da ventura maior que talvez tenha sido ter à disposição a biblioteca pública municipal concebida e organizada por Alceu Amoroso Lima, então um líder progressista de enorme grandeza ética.
Amor aos livros

Sempre tive muita sorte com livros. Os livros me politizaram. Ampliaram a minha cultura e me levaram longe. O leitor pode desestabilizar os textos, como sugere Silviano Santiago em artigo que tive a oportunidade de publicar como editor da revista Sociologia & Antropologia. Retomando a distinção originalmente proposta por Roland Barthes entre textos “legíveis” e “escrevíveis”, Silviano aposta não no apaziguamento do leitor, mas no segundo tipo de textos, aquele que impele o leitor a agir e que prolonga o texto com novos textos. Aponta: “A leitura em lugar de tranquilizar o leitor, de garantir seu lugar de cliente pagante na sociedade burguesa, o desperta, transforma-o, radicaliza-o e serve finalmente para acelerar o processo de expressão da própria experiência”.
Assim, tampouco o amor pelos livros me distraiu da percepção dos problemas e das desigualdades sociais, como na caricatura do chamado intelectual de gabinete. Reivindico o tópico do desterro do intelectual, tão caro e polifônico na nossa experiência histórica, não para criar uma pátria idealizada onde se possa estar, ou para onde se possa fugir (mesmo que ela seja os livros). “Vou-me embora pra Pasárgada” canta irada e ironicamente Manuel Bandeira, o Poeta do Castelo.
Em mim, a condição de desterro é alimentada pelo amor não correspondido da pátria, do fracasso das suas eventuais promessas de justiça e de igualdade para todos. Um amor fracassado nos embates políticos e sociais cotidianos. Não um amor platônico. Irmano-me, neste momento, com todas as formulações sobre o desterro, quaisquer que sejam elas e a despeito de seus possíveis equívocos (que eu mesmo já critiquei noutros momentos). De um jeito ou de outro, elas sempre apontam para o mal-estar da civilização na sociedade brasileira. É sobre isso que devemos pensar. Pensamentear, para retomar a noção de práxis tão interessante de Mário de Andrade.
De Machado de Assis a Florestan Fernandes, passando por Helena Morley e Graciliano Ramos e Silviano Santiago. De Joaquim Nabuco a Carlos Drummond de Andrade, passando por Mário de Andrade e Emicida ou Racionais MC’s. Não é possível estar bem numa sociedade tão brutalmente desigual e com uma máquina de desfaçatez tão sofisticada. Nas brechas do “medo ao amor”, para evocar a diferença romântica brasileira segundo Mário de Andrade, nós todos agimos, eu também ajo dentro do meu campo, como ainda se verá neste relato.
Dou um exemplo. “Enfim, a sociedade, que não lhe pode conferir sossego e segurança, coloca-o numa posição que o projeta no âmago dos grandes processos históricos em efervescência”. O trecho citado, tomado a Sociologia numa Era de Revolução Social (1963), de Florestan Fernandes, dá bem a medida do que estamos falando.
O trecho citado nos remete, numa primeira aproximação, às exigências feitas pela sociedade brasileira à vocação científica do sociólogo em meio às mudanças pelas quais então passava. “Não lhe pode conferir sossego” é sentença que parece expressar, a princípio, certo desacordo entre a sociedade e a sociologia, bem como certo desconforto do cientista em relação ao exercício pleno de sua profissão.
Não nos apressemos, porém, a corroborar certa visão simplista como se a defesa do método científico rigoroso na explicação da sociedade implicasse distanciamento, frieza e desinteresse pelos seus problemas. Nada mais estranho a Florestan, cuja sociologia tomou, ao contrário, alguns dos temas mais candentes da sociedade brasileira para estudo. Sem que isso implicasse, é verdade, a aceitação de uma orientação política particular, ideológica ou partidária, digamos.
E como estou falando do meu amor pelos livros, quero destacar um dos maiores amores que tenho na sociologia: A integração do negro na sociedade de classes (1964).
Mudanças sociais e a reprodução de desigualdades sociais foram interesses obsessivos de Florestan, confundindo-se, por isso, com o melhor da tradição intelectual da sociologia. Ele estudou processos de mudança e desigualdade enraizados na sociedade brasileira a partir de várias questões: do preconceito racial operante nas relações sociais que desmistificava o mito da “democracia racial”; a partir da formação de uma sociedade competitiva de classes por dentro dos escombros daquela precedente, ordenada em estamentos fechados (senhores e escravos), sem mobilidade ou com mobilidade limitada, formalmente vigente até a Abolição; e ainda a partir dos alcances e limites dos princípios liberais meritocráticos adotados na República. Essas questões encontram formulação exemplar em A integração do negro na sociedade de classes, a tese que ele escreveu para o concurso da Cátedra.
Nesse livro impressionante, Florestan mostra as desvantagens da população negra face aos contingentes europeus recém-chegados na alocação nos postos de trabalho abertos no pós-Abolição em São Paulo. Desvantagem decorrente dos modos (“técnicas sociais e culturais”) como seus membros haviam sido levados a reagir às exigências do novo regime de trabalho e da nova sociedade que ele dá lugar, ambos baseados na competição, para os quais a população negra não havia sido socializada (preparada), e não a uma “apatia” ou a uma “incapacidade” inatas, como a ideologia racista dominante insistia – e, talvez, persista ainda hoje. Mas o modo como Florestan trata o tema, em si mesmo relevante, social e sociologicamente, inova imensamente em duas direções.
Primeiro, a pesquisa é construída mediante interlocução com ativistas de diferentes movimentos negros na cidade de São Paulo da época, contrariando a tendência tradicional de tratá-los como “objetos” ou “sujeitos” de estudo. Segundo, confere sentido bem mais amplo à análise na medida em que, além das relações raciais, discute a própria emergência do povo em meio à modernização da sociedade brasileira, representado por seu elo econômica e politicamente mais frágil, a população afrodescendente.
Por certo, para essa análise sobre, afinal, “como o Povo emerge na história” terão contado também as próprias experiências biográficas de Florestan. Proveniente do norte de Portugal, dona Maria Fernandes, sua mãe, trabalhou como doméstica em São Paulo. Era desconhecida a origem paterna de Florestan. Tendo contado com certa “proteção” de sua madrinha (e patroa de sua mãe) na infância para se alfabetizar, pode-se dizer que Florestan teve que compensar uma educação precária no que hoje chamamos de ensinos Fundamental e Médio com muita autodisciplina e dedicação, tendo frequentado cursos especiais noturnos voltados para jovens e adultos trabalhadores. E até ingressar como Assistente na USP, Florestan desempenhou ofícios extremamente modestos, como engraxate, garçom e posteriormente representante de laboratório farmacêutico. Assim, era de certa forma também a trajetória de pessoas como ele próprio que Florestan estava pesquisando.
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Os livros, como vinha dizendo, ampliaram minha experiência também para os domínios político, intelectual e estético, aperfeiçoando meus recursos e instrumentos de percepção e decifração da trama social baseada nas desigualdades. Com textos escrevíveis foi-se modelando, pouco a pouco, aquela provável inclinação franciscana cultivada na infância comunitária de combate às desigualdades e, para isso, a necessidade premente de compreendê-las em seus mecanismos demoníacos.
Ler o social na trama sorrateira das palavras, não como um reflexo, mas como um modo de produção do próprio social, um processo reflexivo que coloca literatura e sociedade em relação dinâmica e imprevisível. Olhando de hoje, malgrado a sinuosidade da vida, vejo que foi mesmo, em grande medida, a esse desafio que acabei me dedicando profissionalmente. Não se trata de reforçar a coerência no percurso, ainda que também, convenhamos, a vida burguesa não comporte mesmo tantas aventuras.
Sim, uma espécie de fio para minhas contas é esta: prolongar o texto lido num novo texto escrito.
O adulto sujeito da escrita deste memorial reencontra-se com o menino magrelo sempre atrás de e por trás dos livros, e se assusta com a sua insatisfação crônica com a sociedade brasileira, e suas promessas políticas de redenção e de equidade social. Assumo: para mim, a sociologia é o estudo das desigualdades sociais. Dos muitos processos e relações que as engendram e reproduzem. E, assim, dos modos de produção das desigualdades sociais e não dos seus meros produtos reificados na vida social.
