Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Bom Jardim (15 de janeiro)   


Henry Ford chega à Amazônia. Mário de Andrade, em Bom Jardim, toma a notícia como ponto de partida para refletir sobre as consequências do expansionismo ianque e a crescente migração forçada do proletariado rural nordestino, assolado pela seca e pelo descaso do poder público. Outra vez, o viajante transforma o diário de viagem em interpretação do país, e mostra que grandes acontecimentos podem ganhar novos sentidos quando vistos a partir da experiência concreta dos brasileiros.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Bom Jardim (15 de janeiro)

Tenho tentado de obter aqui algumas informações sobre a empreitada de Ford na Amazonia porêm consegui mas é quasi nada. De fato a repercussão dêsse mais que perigoso sintoma do imperialismo iânque, foi quasi nula aqui no Nordeste. Isso é mais ou menos natural. Nós ahi no sul por essa esquematisação precipitada em que o espirito vive prá pensar prático, costumamos imaginar que da Bahia pro Equador está “o Norte”. Ora não tem nada de mais afastado que o Norte, do Nordeste. O Norte vive estigmatisado por aquela humidade fabulosa que chega a embolorar objeto de uso quotidiano. E a assombração dêste nordeste é a sêca. Si um tempo inda o nordestino atraído pela borracha, nem bem sêca chegava, tornava-se paroara no Acre, no Amazonas, isso está passando já. Agora são as fazendas e cidades do sul, principalmente paulistas que atraem o nordestino. Já falei nisso por alto uma feita e João Fernando de Almeida Prado, bem milhor, num capitulo admiravel dos seus “Tres Sargentos” que a “Revista de Antropofagia” está publicando. Mais ainda: neste mesmo “Turista Aprendiz” registrei um documento nordestino confessando a mesma fuga pro sul, o bonito poêma de Jorge Fernandes.  

“Vam’bora pro sul!” que nem se canta no abôio pernambucano, parece um lema dos proletarios nordestinos de agora.  

Essa eterna ida-e-volta do trabalhador nordestino fez com que Antonio Bento de Araujo Lima num artigo muito sério publicado pela “Republica”, de Natal, procurasse relacionar o… problema Ford com o Nordeste. “Além de tudo, o fenomeno das sêcas que nos assaltam periodicamente, desorganisando quasi toda a nossa vida e determinando a emigração forçada do nosso proletario rural, constitui o primeiro e o mais sério dos problemas que temos a resolver. Considere-se ainda como ficará angustiosa a situação da economia capitalista do Nordeste quando por exemplo as emprezas industriais estabelecidas no extremo norte estiverem oferecendo salarios mais elevados ao nosso proletario que trabalha muitas vezes mais de doze horas por dia, mediante uma remuneração insignificante.” As “emprezas industriais” são aqui as norteamericanas pois Antonio Bento de Araujo Lima considera que “a vinda da Empreza Ford para as terras do Pará vem marcar o comêço duma nova época para no norte do Brasil.” 

Os nortistas achavam isso tambem mas parece que já estão um bocado desiludidos. Pelo menos foi o que me falou um capitalista paraense a bordo do “Manaos”. Achava que o procedimento de Ford não passara duma “fita” prá quebrar os planos ingleses e baixar o prêço da borracha indiana. Esta baixou de fato e Ford se abastecera por tres anos. E ainda acusava o ricaço de já estar torcendo o contrato pois em vez de principiar o hospital a que se obrigara, tinha se limitado a enviar prá possessão norteamericana que conquistara no Brasil, um navio hospital… Mas por mim acho cedo pro paraense se desiludir… Ele que se prepare prá ter junto com todos os brasileiros uma desilusão mais vasta. E sem presumiveis Sandinos… 

MÁRIO DE ANDRADE