Abre ALAS | Abre ALAS, por Gerónimo de Sierra

Continuando a segunda semana de posts da Abre ALAS, publicamos o texto de Gerónino de Sierra (Universidad de la República), que revisita a crise estrutural das ciências sociais latino-americanas e defende a integração regional e o compromisso da sociologia crítica, recordando com emoção congressos marcantes da Associação.

Nas próximas quintas-feiras até a véspera do congresso publicaremos, em espanhol e português, textos de ex-presidentes da ALAS que dialogam com o tema central do XXXV Congresso – Entre a Policrise e as Alternativas: horizontes da sociologia crítica latinoamericana. Confira a abertura da série clicando aqui.

Boa leitura!


Abre ALAS

Gerónimo de Sierra (Universidad de la República)

Escrevo estas linhas desde um lugar não rotineiro. Quero escrever aqui não como intelectual abstrato, mas como ex-presidente da ALAS e como antigo militante da Associação, como testemunha e ator de mil e uma instâncias de um longo processo, uma velha luta, pelos mesmos ideais e propósitos que nos animam neste novo Congresso. E sempre com o frontão que nos olha e nos enfrenta desde a nossa fundação: a crise de nossas sociedades e de nossa disciplina. Essa permanência da crise não é um fato banal nem puramente anedótico, mas o reflexo de uma crise estrutural – social, econômica e cultural – que envolve nosso continente desde a irrupção dos países coloniais.

Naturalmente, seria uma simplificação negar a historicidade concreta dos processos e suas particularidades regionais, assim como a alternância e os altos e baixos dos períodos de desenvolvimento material, com os períodos de estagnação e crise aguda. Sempre, por certo, entrelaçados assimetricamente com os vai e vem dos impulsos coloniais primeiro, imperialistas depois, e hoje no pós-capitalismo líquido em que vivemos. A policrise tal como é definida na convocatória de nosso Congresso.

É certo que houve momentos de maior produtividade e pertinência na produção das ciências sociais na região, mas foram sempre momentos assediados pela violência dos fatos políticos e econômicos e pelas fragilidades do constructo cultural endógeno em suas pluralidades.

Crise que tinge todos os afazeres, e muito especialmente a tarefa de criação de cultura, de análise da sociedade, de estudos científicos, de formulação de utopias e projetos. Alguns mais abrangentes, outros mais micro-regionais ou voltados a curtos períodos.

Nesse sentido, podemos dizer que não deve nos surpreender a magnitude dos desafios concretos que enfrentamos neste período. É uma nova faceta do longo processo de construir soberania no pensamento e na ação dos cientistas sociais. Claro que agora enfrentando uma versão propriamente bárbara do imperialismo norte-americano e de vários de seus aliados/súditos no mundo europeu e do Oriente Médio. E, também é preciso dizer, de variados países – do chamado sul global – que exercem sua soberania estatal esmagando a soberania de suas sociedades civis, incluindo a dos cientistas sociais e artistas.

Somos muitos milhares que comparecemos a este Congresso – e aos anteriores da ALAS – e isso mostra a vitalidade dos esforços por construir ciência, e ainda melhor, ciência comprometida. Mas isso não deve nos ocultar os limites de nossos avanços quanto à quantidade e também à qualidade de nossas investigações e de nossas ações com as comunidades. Não podemos esquecer que nosso âmbito é o das ciências sociais, que tem – deve ter – parâmetros éticos e epistêmicos diferentes dos da ciência da natureza. E, por isso mesmo, devemos lutar com firmeza e constância para maximizar os níveis de qualidade técnica e científica de nossa produção.

Como diz nossa convocatória, diante do caráter avassalador do panorama mundial e regional, “surgem também contra-tendências que revitalizam a esperança. Povos indígenas, comunidades negras e camponesas, feminismos, ambientalismos e diversas experiências urbanas desenvolvem práticas de resistência e de construção de alternativas de vida digna em toda nossa América. Esses atores ensaiam respostas cotidianas e coletivas diante da precarização, da violência e da mercantilização da vida, mostrando que o momento atual constitui também um limiar para repensar nossas sociedades e reimaginar, a partir da sociologia crítica latino-americana e caribenha, os sentidos e horizontes da mudança social.”

No entanto, permito-me assinalar que, junto a esses novos atores e espaços, seguem submetidos, explorados e marginalizados todos os agrupamentos de trabalhadores – operários ou técnicos, sindicalizados ou não – que lutam com forças desiguais para resgatar a dignidade do trabalho e os direitos sociais e políticos, utilizando as diversas formas de luta de classes, que, longe de terem desaparecido, implicam hoje milhões e milhões de trabalhadores urbanos e rurais de nossa América, que tendem também a ser invisibilizados, e cujas lutas se imbricam e entrelaçam com as lutas dos novos sujeitos. A classe operária transformou-se significativamente, mas não desapareceu, nem muito menos, do panorama de submissão e opressão sob as novas modalidades de expansão do capital e dos capitalistas. Nossos trabalhos devem também acolher esse desafio e não o contrapor a outras buscas.

Todas essas lutas e todas as nossas investigações devem, além disso, contribuir para preservar a vida democrática, na política estatal, na política partidária e na política cotidiana. Isso é fácil de dizer, mas não devemos ignorar que muitas vezes essa exigência fica subordinada, ou ofuscada, pelas outras dimensões das desigualdades, pelas brutais clivagens ecológicas, raciais e de gênero.

A América Latina e o Caribe, para além de sua subordinação pós-colonial que é nossa matriz comum, ainda que sob formas diversas, têm em seu seio enormes variações que expressam combinações societais e culturais com grandes clivagens entre si. Para além dos voluntarismos que às vezes pretendem suprimir essas diferenças estruturais em uma visão homogeneizante, essas realidades se impõem como limites determinantes para retardar, dificultar e, às vezes, frustrar as diversas tentativas de integração regional.

Temos um rosário muito longo de avanços e retrocessos na região, dos impulsos integracionistas. Desde Simón Bolívar e José Enrique Rodó até as mais recentes tentativas do Pacto Andino, da ALALC, do Mercado Comum Centro-Americano, do MERCOSUL, da UNASUL e da CELAC. Só de enumerar essas tentativas e seus sucessivos quase fracassos ou fracassos pela metade, sentimo-nos assoberbados e temos, às vezes, a tentação de considerar inúteis os esforços de integração latino-americana. No entanto, hoje mais do que nunca devemos aportar esforços intelectuais e políticos conducentes a reconstruir os tecidos integrativos, como único caminho para garantir não só o desenvolvimento material da região, mas sua resiliência e seu caráter democratizador e não excludente de nossas sociedades.

É possível dizer que a dependência e os efeitos deformantes do domínio do capitalismo central nos acompanharam permanentemente, mas que, ao mesmo tempo, sempre a sociologia e as ciências sociais críticas foram um motor de resistência cultural. E que a ALAS, em sua longa história, demonstrou que é possível tecer uma rede que contribua para esse esforço mais amplo de nossas sociedades. Por isso compartilhamos o parágrafo de nossa convocatória que reafirma o “compromisso da sociologia como bem público, como espaço de pensamento crítico e como prática indispensável para compreender e transformar nossas sociedades”.

Para terminar, quero mencionar, com certa emoção, alguns congressos da ALAS que foram para mim bastante significativos em momentos importantes da região ou do país. Penso, por exemplo, no congresso de 1972, em pleno processo do governo da Unidade Popular chilena, e que foi, por sua vez, meu primeiro congresso da ALAS. Foi presidido por Clodomiro Almeida, sociólogo destacado e ministro de Allende. Foi um congresso divisor de águas, no qual houve uma mudança geracional e a irrupção das propostas dependentistas, os debates com o estrutural-funcionalismo e o peso da sociologia comprometida. Devido aos impactos do golpe militar no Uruguai, não pude comparecer ao seguinte e importante congresso de 1974, na Costa Rica, presidido por Daniel Camacho.

Também recordo especialmente o congresso de 1987, mal recuperada a democracia no Uruguai, no qual foram conferencistas centrais Agustín Cuevas, Manuel Antonio Garretón, Francisco Weffort e quem estas linhas escreve. Foi ali que fui eleito presidente até 1991 e escolhemos pela primeira vez Cuba como próxima sede, apesar da difícil situação material e política que se vivia na Ilha.

Por fim, quero recordar, por sua singularidade, o primeiro congresso no Nordeste brasileiro, em 2011, impulsionado pelo falecido Marcos Costa Lima e presidido por Paulo Henrique Martins. E o congresso de Antígua, Guatemala, em 2001, que teve importante participação de Enrique Oteiza e Octavio Ianni e foi presidido por Eduardo Velázquez, que posteriormente foi objeto de perseguição encarniçada por parte da promotoria guatemalteca, e isso apesar da mudança democrática de governo.

Sobre o autor

Gerónino de Sierra é professor de sociologia da Universidad de la República, no Uruguai. Foi presidente da ALAS entre 1987 e 1991.


Continuando la segunda semana de posts de Abre ALAS, publicamos el texto de Gerónimo de Sierra (Universidad de la República), quien nos trae un ensayo sobre la policrisis global y muestra cómo el malestar contemporáneo alimenta el autoritarismo y el antiintelectualismo, proponiendo un humanismo ecológico inspirado en las luchas indígenas, feministas y comunitarias de América Latina.

En los próximos jueves, hasta la víspera del congreso, para ir calentando los tamborines, publicaremos, en español y portugués, textos que dialogan con el tema central del XXXV Congreso –Entre la Policrisis y las Alternativas: horizontes de la sociología crítica latinoamericana. Consulta la apertura de la serie haciendo clic aquí.

¡Buena lectura!


Congreso ALAS 2026

Por Gerónimo de Sierra (Universidad de la República)

Escribo estas líneas desde un lugar no rutinario. Quiero escribir aquí no como intelectual abstracto, sino como ex presidente de ALAS y como antiguo militante de la Asociación, como testigo y actor de una y mil instancias de un largo proceso, una vieja lucha, por los mismos ideales y propósitos que nos animan en este nuevo Congreso. Y siempre con el frontón que nos mira y nos enfrenta desde nuestra fundación: la crisis de nuestras sociedades y nuestra disciplina. Esta permanencia de la crisis no es un hecho banal ni puramente anecdótico, sino el reflejo de una crisis estructural -social, económica y cultural- que envuelve nuestro continente desde la irrupción de los países coloniales.

Naturalmente sería una simpleza negar la historicidad concreta de los procesos y sus particularidades regionales, así como la alternancia y altibajos de los períodos de desarrollo material, con los periodos de estancamiento y crisis aguda. Siempre por cierto entrelazados asimétricamente con los va y viene de los impulsos coloniales primero, imperialistas luego, y hoy día en el post capitalismo liquido en que vivimos. La policrisis tal como se la define en la convocatoria de nuestro Congreso.

Cierto que hubo momentos de mayor productividad y pertinencia en la producción de las ciencias sociales en la región, pero fueron siempre momentos hostigados por la violencia de los hechos políticos y económicos y por las endebleces del constructo cultural endógeno en sus pluralidades.

Crisis que tiñe todos los quehaceres, y muy especialmente la tarea de creación de cultura, de análisis de la sociedad, de estudios científicos, de formulación de utopías y proyectos. Algunos más abarcativos, otros más micro regionales o mirando a cortos periodos.

En ese sentido podemos decir que no debe sorprendernos la magnitud de los desafíos concretos que enfrentamos en este período. Es una nueva faceta del largo proceso de construir soberanía en el pensamiento y en la acción de los científicos sociales. Claro que ahora enfrentados a una versión propiamente bárbara del imperialismo norteamericano y de varios de sus aliados/súbditos en el mundo europeo y del medio oriente. Y, también debe decirse, de variados países —del llamado sur global— que ejercen su soberanía estatal aplastando la soberanía de sus sociedades civiles, incluyendo de los científicos sociales y artistas.

Somos muchos miles que asistimos a este Congreso —y a los anteriores de ALAS— y eso muestra la vitalidad de los esfuerzos por construir ciencia, y para mejor, ciencia comprometida. Pero eso no debe ocultarnos los límites de nuestros avances en cuanto a la cantidad y también la calidad de nuestras investigaciones y nuestras acciones con las comunidades. No podemos olvidar que nuestro ámbito es el de las ciencias sociales que tiene —debe tener— parámetros éticos y epistémicos diferentes a los de la ciencia de la naturaleza. Y por eso mismo, debemos luchar con firmeza y constancia por maximizar los niveles de calidad técnica y científica de nuestra producción.

Como dice nuestra convocatoria, frente a lo abrumador del panorama mundial y regional, “surgem também contra-tendências que revitalizam a esperança. Povos indígenas, comunidades negras e camponesas, feminismos, ambientalismos e diversas experiências urbanas desenvolvem práticas de resistência e de construção de alternativas de vida digna em toda nossa América. Esses atores ensaiam respostas cotidianas e coletivas diante da precarização, da violência e da mercantilização da vida, mostrando que o momento atual constitui também um limiar para repensar nossas sociedades e reimaginar, a partir da sociologia crítica latino-americana e caribenha, os sentidos e horizontes da mudança social.”

Ahora bien, me permito señalar que junto a esos nuevos actores y espacios siguen estando sometidos, explotados y marginalizados todos los agrupamientos de trabajadores -obreros o técnicos, sindicalizados o no- que luchan con fuerzas desiguales por  rescatar la dignidad del trabajo y los derechos sociales y políticos, utilizando las diversas formas de lucha de clases, que lejos de haber desaparecido implican hoy día millones y millones de trabajadores urbanos y rurales de nuestra América, que tienden también a ser invisibilizados, y cuyas luchas se imbrican y entrelazan con las luchas de los nuevos sujetos. La clase obrera se ha transformado significativamente pero no ha desaparecido ni mucho menos del panorama de sumisión y opresión bajo las nuevas modalidades de expansión del capital y los capitalistas. Nuestros trabajos deben también recoger ese desafío y no contraponerlo a las otras búsquedas.

Todas esas luchas y todas nuestras investigaciones deben además contribuir a preservar la vida democrática, en la política estatal, la política partidaria y la política cotidiana. Esto es fácil decirlo, pero no debemos ignorar que muchas veces esta exigencia queda subordinada, u opacada, por las otras dimensiones de las desigualdades, los brutales clivajes ecológicos, raciales y de género.

América Latina y el Caribe, más allá de su subordinación post colonial que nos matriza en conjunto, aunque bajo formas diversas, tiene en su seno enormes variaciones que expresan combinaciones societales y culturales con grandes clivajes entre sí. Más allá de los voluntarismos que a veces pretenden suprimir esas diferencias estructurales en una visión homogeneizante, esas realidades se imponen como límites determinantes para enlentecer, dificultar, y a veces frustrar los diversos intentos de integración regional.

Tenemos un muy largo rosario de avances y retrocesos en la región, de los impulsos integracionistas. Desde Simón Bolivar y José Enrique Rodó hasta los más recientes intentos del Pacto Andino, ALALC, Mercado Común Centroamericano, el MERCOSUR, la UNASUR, y la CELAC. Solo de enumerar esos intentos y sus sucesivos cuasi fracasos o fracasos a medias, uno se siente abrumado y tiene a veces la tentación de considerar inútiles los esfuerzos de integración latinoamericana. Sin embargo, hoy más que nunca debernos aportar esfuerzos intelectuales y políticos conducentes a reconstruir los tejidos integrativos, como único camino para garantizar no sólo el desarrollo material de la región, sino su resiliencia y su carácter democratizador y no excluyente de nuestras sociedades.

Es posible decir que la dependencia y los efectos deformantes del dominio del capitalismo central nos han acompañado permanentemente, pero que al mismo tiempo siempre la sociología y las ciencias sociales criticas han sido un motor de resistencia cultural. Y que ALAS en su larga historia ha demostrado que es posible tejer una red que contribuya a ese esfuerzo más amplio de nuestras sociedades. Por eso compartimos el párrafo de nuestra convocatoria que reafirma el “compromiso de la sociología como bien público, como espacio de pensamiento crítico, y como práctica indispensable para comprender y transformar nuestras sociedades”.

Para terminar, quiero mencionar, con cierta emoción, algunos congresos de ALAS que fueron para mi bastante significativos en momentos importantes de la región o país. Pienso por ejemplo en el congreso de 1972 en pleno proceso del gobierno de la Unidad Popular chilena, y que fue a su vez mi primer congreso ALAS. Fue presidido por Clodomiro Almeida, sociólogo destacado y ministro de Allende. Fue un congreso parte aguas, donde se dio un cambio generacional y la irrupción de los planteos dependentistas, los debates con el estructural funcionalismo, y el peso de la sociología comprometida. Debido a los impactos del golpe militar en Uruguay no pude asistir al siguiente e importante congreso de 1974, en Costa Rica, presidido por Daniel Camacho.

También recuerdo especialmente el congreso de 1987, apenas recobrada la democracia en el Uruguay, donde fueron conferencistas centrales Agustín Cuevas, Manuel Antonio Garreton, Francisco Weffort y quien esto escribe. Fue allí donde fui electo presidente hasta 1991 y elegimos por primera vez a Cuba como próxima sede, a pesar de la difícil situación material y política que vivían en la Isla.

Por fin quiero recordar por su singularidad el primer congreso en el Nordeste brasileño, en 2011, impulsado por el fallecido Marcos Costa Lima y presidido por Paulo Henrique Martins. Y el congreso de Antigua, Guatemala, en 2001, que tuvo importante participación de Enrique Oteiza y Octavio Ianni y fue presidido por Eduardo Velazquez, quien posteriormente ha sido objeto de ensañamiento persecutorio por la fiscalía guatemalteca, y esto a pesar del cambio democrático de gobierno.


Sobre el autor

Gerónimo de Sierra es profesor de sociología en la Universidad de la República de Uruguay. Fue presidente de ALAS entre 1987 y 1991.