Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Great Western (16 de janeiro, 20 horas)   


Mário de Andrade segue refletindo sobre os conflitos que cercaram a instalação do empreendimento de Henry Ford no Pará. Partindo de notícias de jornal e lembranças de sua passagem por Arumanduba, contrapõe versões da chamada “Concessão Ford” e comenta a revolta dos trabalhadores rurais diante dos baixos salários. Essa crônica é sobre as contradições da modernização amazônica.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não perca novo texto de Lilia Schwarcz e Lúcia Stumpf! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Great Western (16 de janeiro, 20 horas)

Mas parece que o ricaço paraense de que falei ontem ou está despeitado com a empreitada Ford na Amazonia e caluniou ou não sabia das coisas direito… 

A Great Western desde o primeiro do ano está fazendo viagem de um dia só do Recife a Natal. Embarco nela em Goyaninha, partido do Bom Jardim, compro o “Jornal do Comercio” de Recife e leio nele um artigalhão sobre a Concessão Ford. Aí creio que já sabem que tem havido pela Amazonia umas revoltas de proletarios rurais, descontentes por muitas razões legitimas e sonhos. 

A primeira principiou nas terras de José Julio de Andrade cujos proprietarios eu visitei em Arumanduba, o ano passado. Visitei só. Não eram seis da manhã e os meus companheiros de viagem dormiam ainda no pleno dia. Era bonito de ver o porto, imponencia de 4 ou 5 gaiolas pertencentes ao dono do latifundio formidavel. Muitas casas, geito de cidade lacustre, tudo, os proprios arruados de madeira sobre espeques. Por baixo de tudo o Amazonas banza na época das cheias. Visitei, armazens, almoxarifado, a velha e bem bonita casa de morada, chata, com um ar de espôsa, muito moral. Não gostei foi de ver os bufalos africanos, bicho imundo, gostando da lama, feioso e primario. Fui muito bem recebido, até hoje agradeço a recepção e não sei porquê foi a revolta dos empregados de Arumanduba. 

Mas a revolta dos empregados de Ford foi por causa da exiguidade dos salarios. Os proletarios ​     ​rurais estavam recebendo alem da comida e da assistencia medica, de 3 a 4 milreis diarios. Se revoltaram com justiça. O que parece, pelas informações dum diario paraense, é que a injustiça não provinha de Ford propriamente mas dum dos administradores da empreitada dele, um brasileiro safado por nome Dico Monteiro. Embolsava tres contos mensais mas desaconselhou pagar pros trabalhadores rurais a diaria de dez a doze milreis designada por Ford. 

Então um grupinho de descontentes se revoltou e, segundo informam os jornais paraenses, coagiu sob ameaça todos ​​os brasileiros de Boa Vista a se retirarem do trabalho, uns 400.  

O que resta saber agora é si de fato os trabalhadores brasileiros foram readmitidos no trabalho, como conta o prefeito de Santarem. 

Um senhor Raymundo Brasil, diz-que conhecedor vasto das regiões do Topajoz descreveu a atividade que vai pela Bôa Vista, desmentindo tudo quanto me informou de pessimista o ricaço paraense de ontem. Viu já 2 quilometros desbravados, destocados, varias oficinas mecanicas, hospital provisorio, farmacia, drogaria, padaria, gado, batelões de 40 toneladas, rebocadores, lanchas, 9 caminhões, 23 tractores, mais maquinas pra tudo e varios arranhaceus dum andar. Eis aí. 

Esse sr. Raymundo Brasil continu’a em profecia: Dentro de 3 mezes a vila estará construida, Ford Avenue, Fordson Street. Mas afirma que os avisos, anuncios, etc. são por emquanto em português. 

MÁRIO DE ANDRADE