
A BVPS traz um conjunto de comentários sobre o livro Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro, de Nísia Trindade Lima, recém-publicado pela editora Civilização Brasileira. O livro, como ressaltamos no booktrailer que lançamos, é profundamente marcado pelas qualidades de escuta e diálogo, características bem conhecidas da autora. Ao se fazer narradora, Nísia Trindade conseguiu recuperar, analisar e narrar a experiência da pandemia de Covid-19, trazendo sua vivência ímpar, que fez toda a diferença para a sociedade brasileira, na presidência da Fiocruz e, posteriormente, na reconstrução do Ministério da Saúde. Porque fez e faz de sua voz muitas vozes, nosso propósito, nesta ação, é reunir múltiplos diálogos em torno do seu importante livro.
No terceiro post, trazemos comentários de Arlindenor Pedro, José Abdalla Helayël-Neto & Karim Helayel (PPGS/UFRJ), Rômulo Paes de Sousa (Fiocruz) e Roseana Murray.
Publicaremos, na próxima quarta-feira, a última rodada de comentários de diferentes leitoras e leitores, que ajudam a ampliar e aprofundar as questões suscitadas por esta obra tão necessária ao nosso tempo.
Boa leitura!
Ainda Há Tempo? Reflexões sobre o livro de Nísia Trindade[1]
Por Arlindenor Pedro
Ao terminar a leitura de Ainda Há Tempo, de Nísia Trindade Lima, fiquei com uma pergunta que não me abandonou. Ela ultrapassa a pandemia e alcança algo muito maior: como preservar um sistema universal de saúde em um mundo que parece cada vez menos capaz de sustentar as condições materiais que lhe deram origem?
Confesso ao leitor que não consigo olhar para o SUS apenas como uma estrutura administrativa destinada a prestar serviços médicos. Vejo nele uma das mais importantes conquistas democráticas da história brasileira. O Sistema Único de Saúde nasceu da luta de gerações inteiras que ousaram afirmar que a saúde deveria ser um direito de todos e não um privilégio daqueles que podem pagar. Por isso mesmo, sua existência nunca esteve garantida. Ela depende de uma disputa permanente. O simples fato de existir incomoda profundamente aqueles que olham para a saúde apenas como um negócio e uma fonte de lucros. Por isso, está sempre sob ataque.
Ao longo da leitura do livro, fui tomado pela convicção de que esses ataques ao SUS não decorrem apenas de dificuldades administrativas ou de problemas ocasionais de financiamento. Existe algo mais profundo em jogo. Há interesses econômicos e projetos de sociedade que enxergam na universalidade dos direitos um obstáculo. Como disse anteriormente, para quem deseja transformar todas as dimensões da vida em mercadoria, o SUS é um problema. Sua simples existência demonstra que nem tudo precisa ser submetido à lógica do lucro.
Talvez seja por isso que considero tão importante compreender a natureza dessa disputa. Muitas vezes defendemos o SUS apenas quando ele está sob ameaça imediata. Foi assim durante a pandemia. De repente, milhões de brasileiros perceberam aquilo que muitos sanitaristas afirmavam havia décadas: sem o sistema público, a tragédia teria sido incomparavelmente maior. Mas o enfraquecimento do SUS raramente ocorre de forma espetacular. Ele é metódico. Costuma avançar lentamente, por meio do subfinanciamento, da precarização dos serviços, da desvalorização dos trabalhadores e da difusão de discursos que procuram desacreditar a capacidade da ação pública.
No governo Bolsonaro, poucos perceberam o quanto o SUS esteve sob pressão. Tenho a convicção de que setores importantes daquele governo chegaram ao poder defendendo uma ampliação da participação privada na saúde e uma redução progressiva do papel do Estado. A equipe econômica liderada por Paulo Guedes expressava claramente essa orientação em diversas áreas da administração pública. A pandemia, entretanto, alterou profundamente esse cenário. Diante da emergência sanitária, tornou-se evidente que apenas uma estrutura pública universal possuía condições de responder à dimensão da tragédia. O fortalecimento político do SUS durante a crise dificultou o avanço de propostas que poderiam enfraquecê-lo ou submetê-lo mais intensamente à lógica do mercado. As divergências que emergiram no interior do próprio governo refletiam, em parte, essa nova realidade. A pandemia não eliminou as pressões privatizantes, mas adiou seu avanço e revelou à sociedade brasileira a importância estratégica do sistema público de saúde.
É justamente nesse ponto que o livro de Nísia Trindade me parece tão importante. Sua narrativa não é apenas uma memória da pandemia. É também um convite à tomada de consciência, a uma reflexão sobre o que verdadeiramente ocorreu. Ao revisitar a experiência da Fiocruz e do SUS diante da emergência sanitária, ela mostra que a defesa da saúde pública é inseparável da defesa da democracia, da ciência e dos direitos sociais.
Ao ler suas páginas, voltei minha memória para aqueles momentos e percebi que a pandemia não foi apenas uma crise sanitária. Ela funcionou como uma espécie de revelador histórico. Tornou visíveis conflitos que já existiam e expôs fragilidades que estavam escondidas sob a aparência de normalidade. Naquele momento, propostas de redução do papel do Estado e de ampliação da lógica de mercado na saúde perderam força diante da evidência de que somente uma estrutura pública universal conseguiria responder à dimensão da tragédia.
Mas a força do livro não está apenas na reconstrução desses acontecimentos. O que mais me chamou atenção foi sua tentativa de compreender o significado histórico da pandemia. Nísia não fala apenas de hospitais, vacinas e políticas públicas. Ela nos convida a refletir sobre desigualdades, democracia, confiança social, cooperação internacional e sobre a própria forma como construímos nossa vida coletiva. E isso nos toca profundamente.
Ao longo da obra, ao nos relembrar os fatos, ela insiste em uma ideia simples e poderosa: ainda há tempo.
Ainda há tempo para reconstruir a confiança.
Ainda há tempo para fortalecer a democracia.
Ainda há tempo para preparar a humanidade para as crises que virão.
Terminei o livro compartilhando dessa esperança. Sem dúvida, ela é contagiante. Mas, ao mesmo tempo, não consegui evitar uma inquietação, que procuro agora dividir com o leitor. Haverá realmente condições materiais para sustentar esse projeto?
Pois vejamos: o SUS nasceu em 1988, justamente quando o capitalismo mundial iniciava um longo processo de desmonte dos sistemas de bem-estar social construídos após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto muitos países reduziam direitos e ampliavam a participação do mercado nos serviços públicos, o Brasil afirmava que a saúde seria um direito universal.
Essa escolha foi extraordinária.
Mas também carregava uma contradição.
O nascimento do SUS coincidiu ainda com a consolidação da chamada terceira revolução industrial, marcada pela microeletrônica, pela informática, pela automação e pela crescente digitalização dos processos produtivos. Essas transformações ampliaram enormemente a capacidade de produzir riqueza, mas também começaram a reduzir a centralidade do trabalho vivo na geração de valor. Surgia uma sociedade na qual a produção de mercadorias dependia cada vez menos da força de trabalho humana, ao mesmo tempo em que a expansão do crédito, da especulação financeira e da criação de dinheiro sem correspondente direto na economia real passava a sustentar artificialmente o crescimento.
Em outras palavras, o SUS foi concebido justamente no momento em que começavam a emergir as condições históricas de uma crise mais profunda da própria sociedade do trabalho que havia servido de base para os sistemas universais de proteção social do século XX.
Os sistemas públicos de proteção social foram construídos em uma época de expansão do trabalho assalariado. O crescimento econômico permitia arrecadar impostos, financiar políticas públicas e integrar milhões de pessoas ao mercado de trabalho. Hoje, entretanto, vejo uma realidade diferente. A automação, a inteligência artificial, a financeirização e as transformações tecnológicas corroem justamente a base que sustentava aquele modelo.
Vivemos uma situação paradoxal. Nunca produzimos tanta riqueza. Nunca dispusemos de tantos recursos científicos e tecnológicos. E, ao mesmo tempo, nunca encontramos tantas dificuldades para garantir direitos universais de forma duradoura.
É por isso que considero o SUS uma experiência tão singular.
Ele representa a solidariedade em uma época dominada pela concorrência.
Representa a universalidade em uma era marcada pela fragmentação social.
Representa a defesa da vida em uma sociedade cada vez mais submetida à lógica da mercadoria.
Durante a pandemia, essa contradição apareceu cristalinamente. Quando o mercado falhou, foi o sistema público que sustentou a sociedade. Quando a competição mostrou seus limites, foi a cooperação que salvou vidas. Quando a mercadoria revelou sua impotência diante da morte, o cuidado coletivo reapareceu como valor fundamental.
Por isso, passei a enxergar, e o livro de Nísia consolidou essa percepção, o SUS como algo mais do que uma política pública.
Vejo nele uma espécie de antecipação imperfeita de outra lógica social possível.
Está aí, tenho certeza, sua dimensão utópica.
Não falo de uma utopia fantasiosa, mas de algo muito concreto. Cada vacinação gratuita, cada atendimento universal, cada ação de vigilância sanitária realizada independentemente da renda do cidadão afirma que a vida humana possui um valor que não pode ser reduzido ao mercado.
Basta olhar para o cotidiano para perceber o caráter extraordinário dessa experiência histórica. Em um país marcado por desigualdades profundas, qualquer pessoa, trabalhando ou não, pode contar com um médico de família acompanhando sua saúde. Pode chamar o Samu em uma emergência e receber atendimento sem que alguém lhe pergunte quanto possui na conta bancária. Pode sair de uma consulta com medicamentos gratuitos. Pode recuperar a visão por meio de uma cirurgia de catarata, realizar um transplante de órgão, receber vacinas, tratamentos e cuidados especializados sem desembolsar um centavo. Acostumamo-nos tanto à existência dessas conquistas que muitas vezes deixamos de perceber o quão excepcionais elas são.
Em um mundo onde sistemas públicos são desmontados, onde milhões de pessoas adiam tratamentos por não terem recursos para pagar consultas ou medicamentos, onde uma doença pode significar a ruína financeira de uma família inteira, o SUS permanece como uma singularidade histórica. Costumamos dizer que o Brasil produz jabuticabas, fenômenos que só existem aqui. Francamente, talvez a maior de todas elas seja o próprio Sistema Único de Saúde. Para a racionalidade dominante do capitalismo contemporâneo, um sistema universal que oferece cuidados independentemente da capacidade de pagamento aparece quase como uma anomalia. É uma instituição que desafia a lógica segundo a qual tudo deve ser comprado, vendido e transformado em fonte de lucro.
Talvez por isso as pressões para restringi-lo, enfraquecê-lo ou substituí-lo por formas privadas de atendimento nunca desapareçam completamente. O SUS é mais do que um sistema de saúde. Ele é a lembrança permanente de que a sociedade pode organizar parte de sua vida coletiva segundo princípios diferentes daqueles do mercado. Sua existência demonstra, todos os dias, que a cooperação pode prevalecer sobre a concorrência, que o cuidado pode ser colocado acima do lucro e que a vida humana pode ser reconhecida como um valor em si mesma. Em uma época que naturaliza a mercantilização de quase tudo, essa simples constatação já possui uma força profundamente subversiva.
Mas é justamente aí que surge minha maior inquietação.
Quando Nísia escreve que ainda há tempo, sinto que sua frase ultrapassa a pandemia. Ainda há tempo para defender o SUS. Ainda há tempo para preservar a democracia. Ainda há tempo para reconstruir formas de solidariedade.
Sim, claro: ainda há tempo.
Mas a pergunta que fiz anteriormente continua reverberando. Olho para o mundo e me pergunto: quanto tempo ainda nos resta?
A crise ecológica avança. As desigualdades aumentam. Guerras expulsam populações inteiras de seus territórios. Milhões de pessoas sobrevivem sem pátria, sem segurança e sem futuro previsível.
Ao mesmo tempo, a própria lógica econômica parece caminhar para uma sociedade cada vez mais militarizada e com cada vez menos trabalho. A inteligência artificial, a automação e a digitalização ampliam a produtividade, mas reduzem a necessidade de trabalho humano. O resultado é uma contradição cada vez mais evidente: abundância de riqueza de um lado, precariedade e insegurança de outro. Caminhamos para a distopia de um capitalismo de vigilância.
É nesse ponto que a leitura de Ainda Há Tempo me conduz a uma reflexão ainda mais ampla. A questão já não é apenas como enfrentar futuras pandemias. A questão passa a ser como sustentar direitos universais em uma sociedade cuja própria base econômica se encontra em transformação profunda.
Por isso, acredito que a defesa do SUS não pode ser separada da defesa de um projeto mais amplo de civilização. Defender a saúde pública significa também enfrentar os processos que produzem desigualdade, devastação ambiental e exclusão social. Significa questionar uma ordem que transforma direitos em mercadorias e seres humanos em excedentes.
Esse foi o significado mais profundo que encontrei nas reflexões que tive ao ler as páginas de Nísia Trindade. Seu livro fala da pandemia, mas acaba nos levando muito além dela. Fala do SUS, mas acaba falando do futuro da própria sociedade. Faz-nos pensar e buscar uma saída.
E é por isso que termino esta reflexão com uma convicção e uma pergunta.
A convicção é que o SUS continua sendo uma das principais conquistas democráticas do povo brasileiro.
A pergunta é se teremos coragem histórica para construir as condições sociais, econômicas e culturais que permitam sua sobrevivência.
Em um mundo que parece caminhar para a redução estrutural do trabalho, para a intensificação das crises ambientais e para novas formas de exclusão, o SUS me aparece simultaneamente como uma necessidade e como uma utopia concreta.
Necessidade, porque a vida coletiva depende dele.
Utopia, porque ele continua afirmando, contra todas as evidências do presente, que a saúde deve ser um direito e não uma mercadoria.
Talvez uma das grandes questões do século XXI não seja apenas saber se o SUS conseguirá sobreviver ao mundo que o cerca. Talvez seja saber se a própria humanidade conseguirá sobreviver sem os valores que o SUS representa.
Nota
[1] A resenha foi publicada originalmente na página Utopias pós-capitalistas (clique aqui).
Sobre o autor
Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É professor de História, Sociologia e Filosofia, além de editor do blog Utopias Pós-Capitalistas – Ensaios e Textos Libertários.
Tempos redescobertos: sobre Ainda há tempo
Por José Abdalla Helayël-Neto & Karim Helayel
Ainda há tempo é daqueles livros que nos fazem pensar. Apesar de sua prosa leve, ágil e fluida, os temas sobre os quais Nísia Trindade Lima se debruça não são nada fáceis. Não seria exagero dizer que seu livro permite a inscrição de Nísia no rol de intelectuais que se preocuparam não apenas em construir uma interpretação do país, uma vez que a socióloga procura delinear proposições que possam contribuir para a construção de uma sociedade mais equânime e democrática. Como assinala a própria Nísia, pensamento e ação estão diretamente imbricados, compondo, dessa forma, um quadro mais amplo que nos permite reflexões agudas e propostas consistentes para lidarmos com os desafios e dilemas de nossos tempos.
Nísia pode ser situada diante de esforços pretéritos, como aqueles levados a cabo por intelectuais renomados, como, por exemplo, Celso Furtado, cuja atuação na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) pode ser entendida como emblemática. Não custa lembrar que o economista paraibano procurou construir um diagnóstico para a região, no intuito de propor uma política de desenvolvimento consistente, que teria a Sudene como instituição promotora fundamental. Sua atuação na Sudene tinha em vista fomentar o processo de industrialização do Nordeste, contribuindo, desse modo, para o combate à miséria e aos conflitos que se espraiavam pela região (Furtado, 2009). Assim, Celso Furtado tece os fios de suas interpretações e categorias analíticas não somente para compreender e explicar a dinâmica social da região Nordeste do país, mas também para procurar intervir diretamente na realidade, ao propor políticas públicas que pudessem dirimir os problemas sociais diagnosticados. Ainda há tempo codifica esforço semelhante, podendo ser entendido, nesse sentido, como um trabalho que se vincula à interface que articula interpretações do Brasil e políticas públicas. Não seria ocioso lembrar que essa é uma das preocupações intelectuais que inquietou Nísia ao longo de sua trajetória. Como evidencia a autora, o material apresentado por seu livro delineia “visões e propostas para o futuro, sugerindo possibilidades de ação” (Lima, 2026: 31).
Além disso, entendemos ser possível afirmar que Ainda há tempo pode ser qualificado como uma potente interpretação do Brasil contemporâneo, ao tratar de uma certa equação analítica que codifica “ciência, sociedade e democracia”, enfrentando problemas candentes da nossa contemporaneidade. Não à toa, a pandemia da Covid-19 surge como uma “espécie de posto de observação da sociedade contemporânea, sobretudo da sociedade brasileira, mas também de suas conexões com o que passamos a denominar saúde global” (Lima, 2026: 30). A pandemia opera, desse modo, como um ponto de vista que permite à autora apreender as contradições de um tempo marcado pela emergência de autoritarismos e populismos que colocam em xeque a ciência e a democracia, articulando com muita acuidade o local e o global. Nísia lembra que os esforços empreendidos no momento em que se encontrava na presidência da prestigiosa Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) teriam sido diversos e extremamente complexos para lidar com o negacionismo e as fake news que pulularam e se disseminaram, dificultando o combate à pandemia em meio ao caos do governo Bolsonaro (2019-2022). Um ponto importante da reflexão proposta por Nísia se refere à crítica delineada ao sentido assumido pelo desenvolvimento capitalista, marcado pela mudança climática e pelo aumento das desigualdades sociais, aspectos que contribuiriam para a potencialização dos efeitos das epidemias e pandemias.
Neste sentido, Nísia levanta uma importante discussão na seção “Desconfiança, ciência e democracia” do capítulo 7. É democrático e imperioso que a comunidade científica comunique publicamente os avanços e os entraves da ciência, discutindo criticamente suas potencialidades e seus limites. Nísia chama a atenção para a desconfiança expressa pelo negacionismo científico mediante estratégias mobilizadas por grupos vinculados à extrema direita, que recorrentemente produzem narrativas de modo a deslegitimar a ciência. Nísia conclama, dessa forma, a comunidade científica a se posicionar, de modo a se contrapor a tais investidas contra as instituições, ressaltando o importante papel a ser desempenhado pela sociologia nessa discussão, que se encontra articulada à relação entre ciência e democracia.
Paralelamente às ações positivas de tentar trazer ao público as vitórias da ciência, suas descobertas, seu significado e suas utilidades, a variável tempo deveria desempenhar um papel mais preponderante no debate. Muitas vezes, o processo científico, sua escala de tempo, não recebe o destaque que merece. Entre acúmulo de resultados e disrupções, os tempos da ciência podem ser muito dilatados, contrastando com os tempos algo volúveis e imediatistas, para usarmos os termos de Guy Debord, de uma “sociedade do espetáculo” (1997). A elaboração da vacina contra a Covid-19 se deu em um tempo notavelmente curto, o que demonstra que investimentos em ciência se fazem fundamentais, sobretudo em um contexto no qual as pandemias se apresentam como uma tendência bastante sombria.
Portanto, na seção “Desconfiança, ciência e democracia”, vemos um grande alerta para trazermos a sociedade para a defesa da ciência e dos grandes investimentos que o processo científico requer. Venceremos a desconfiança se compartilharmos com a sociedade os grandes desafios que o processo de se fazer ciência demanda, o que implicaria, lembra Nísia, na promoção de novas formas de “comunicação pública da ciência, alargando o sentido tradicional da divulgação científica e buscando, cada vez mais, que o conhecimento seja compartilhado” (Lima, 2026: 350). Ainda há tempo pode ser objeto de aprofundado estudo em todas as ciências – exatas, naturais, sociais e humanas –, uma vez que desconfiança, ciência e democracia constituem um tópico inescapável para tempos que se estendem muito além de Ainda há tempo.
Referências
DEBORD, Guy. (1997). A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.
FURTADO, Celso. (2009). “A Operação Nordeste”. In: O Nordeste e a saga da Sudene (1958-1964). Rio de Janeiro: Contraponto.
LIMA, Nísia T. (2026). Ainda há tempo: a pandemia de COVID-19 e a transformação do futuro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Sobre os autores
José Abdalla Helayël-Neto é PhD em Física pela SISSA-Trieste e Pesquisador Especial III do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF-MCTI).
Karim Helayel é doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atualmente realiza seu pós-doutorado com bolsa do CNPq.
Esse nosso sertão: memória, ciência e política na pandemia de COVID-19
Por Rômulo Paes de Sousa
Todo livro é um legado incompleto. É uma obra cuja existência somente se realiza após a primeira leitura por olhos estranhos à sua composição. O primeiro leitor ou leitora toma posse desse legado e mergulha nesse pequeno universo munido de suas referências e convicções. As boas narrativas autobiográficas nos conduzem por esse território do outro, esse outro sertão, com referências plausíveis, ainda que a memória, com frequência, realize suas “artes” e impregne o relato de uma racionalidade de conveniência, de modo que fatos, reflexões e referências se encaixem em um roteiro muito mais organizado do que o próprio correr da vida costuma se apresentar. Ao nos oferecer suas memórias na forma de um relato polifônico, Nísia Trindade Lima sabe disso e nos adverte sobre esses enganos. Sobretudo porque essas memórias ainda são matéria quente para todos nós.
Ainda há tempo trata da resposta à pandemia de Covid-19 no Brasil. Quem narra teve um papel decisivo no enfrentamento da doença. Nísia foi presidente da Fiocruz durante quase todo o período da pandemia. E, em 5 de maio de 2023, quando a Organização Mundial da Saúde decretou o fim da emergência global de saúde pública da Covid-19, ela já era ministra da Saúde do Brasil. Trata-se de um relato denso, em que diferentes estratégias narrativas se articulam, revelando as múltiplas camadas que constituem a narradora: socióloga, historiadora, agente política, gestora pública e, sobretudo, uma mulher dotada de uma sagaz capacidade de observação e reflexão sobre os contextos que vivenciou e ajudou a construir.
O memorialismo que Nísia pratica haveria de ser diferente. Embora os parágrafos sejam escritos em primeira pessoa, ela recorre a uma vasta bibliografia sobre o período analisado. Mais do que o rigor de uma cientista da saúde coletiva, a autora busca fornecer uma descrição cuidadosa do contexto para que aqueles que venham a ler esse relato compreendam a relevância do tema abordado.
Por meio desses relatos, conhecemos como os embates políticos interferem nas decisões de política pública. Personagens, fundamentos técnicos das decisões e suas consequências são apresentados com objetividade ao longo da narrativa.
A abrangência e a profundidade com que a autora aborda esses temas fazem deste livro uma referência obrigatória sobre vários assuntos: a Fiocruz, sua dinâmica política e sua relevância técnica e científica; a Covid-19 e as alternativas para seu enfrentamento; o papel da comunicação nas crises sanitárias; o exercício do poder e a governança em crises sanitárias catastróficas; as perspectivas para que estejamos mais bem preparados diante das grandes ameaças do presente; e o papel da mulher nos círculos de poder no Brasil contemporâneo. Cícero argumentava que nós, leitores e leitoras, ao incorporarmos ao nosso acervo cultural aquilo que os livros nos oferecem, tornamo-nos embaixadores dos mortos. Para nossa sorte, hoje temos também a fortuna de nos tornar embaixadores de autoras vivas, dada a velocidade com que memórias podem ser organizadas, escritas e publicadas.
Como servidor da Fiocruz, pesquisador da saúde coletiva, ativista político, colaborador e amigo da autora, identifico no texto temas que me são caros, pessoas que me são familiares, fatos que vivenciei e análises que convergem com as minhas. Reconheço o vasto território pelo qual a autora nos conduz: esse nosso sertão. Tive o privilégio e a honra de ler a primeira versão do manuscrito. Vejo agora, ao relê-lo, o quanto a obra ganhou fluidez e solidez. Nesse esforço de abarcar a complexidade de um período tão marcante da história do país, Nísia se afirma, com êxito, como intérprete de um Brasil de corpo e alma despedaçados e como intérprete da luta incessante pela vida que a saúde coletiva travou nesses tempos sombrios.
Sobre o autor
Rômulo Paes de Sousa é Pesquisador da Fiocruz e Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).
Sobre o livro Ainda há Tempo, de Nísia Trindade
Por Roseana Murray
O título do livro Ainda há Tempo, de Nísia Trindade, faz lembrar o título do livro de Ailton Krenak: Ideias para Adiar o Fim do Mundo.
Ambos desejam que o leitor saia da leitura do livro com a consciência expandida.
Nísia nos diz que ainda há tempo. Tempo de quê? De investir no olhar e no cuidado com o outro. Os indígenas nos dizem que, enquanto contarmos histórias, cantarmos e dançarmos, ainda podemos segurar o céu; senão, ele cai.
E os africanos nos dizem: Ubuntu. Eu não existo sem o outro.
Nísia nos conta, com sua voz mansa e sem rancor, as dificuldades que enfrentou, como mulher, quando quase não pôde assumir a direção da Fiocruz, por um gesto/uma tentativa de golpe do Governo Temer.
Mas Nísia assumiu.
O fato de Nísia estar à frente da Fiocruz na chegada da pandemia, no Governo Bolsonaro, salvou quem dela sobreviveu. Num governo perverso, antivacina, com grande apelo para a não utilização de máscara, para a aglomeração e para a difusão de remédios sem eficácia, ai de nós se Nísia não estivesse na Fiocruz.
Nísia nos desvela o desmonte da ciência, o horror.
Nísia nos conta que sua formação foi questionada.
Mas foi esse olhar humanista que, ao levar a ciência social para dentro da ciência, alargou e expandiu a compreensão do que é o Brasil para dentro de uma instituição de pesquisa científica.
Ao se tornar ministra da Saúde do Governo Lula, Nísia coloca sua inteligência e sua magnitude a serviço do SUS.
Seria um crime de lesa-humanidade desejar a privatização de um Sistema Único de Saúde que é único no mundo, em um país continental, um país pleno de riquezas, mas com um nível de pobreza insuportável.
Enfim, estamos diante de uma escrita fluida e limpa, que nos ilumina. Saber o Brasil, entender o Brasil, é muito difícil e, para isso, Nísia nos ajuda, com a sua voz.
Sobre a autora
Roseana Murray, formada em Língua e Literatura francesa pela Universidade de Nancy, é autora e tradutora de livros de poesia e contos para crianças, jovens e adultos.
