Centenário de Octavio Ianni | Insondável travessia: os caminhos de Ianni, por Gabriel Cohn

Nesta abertura da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Gabriel Cohn (USP). Escrito como apresentação da coleção Encontros – Octavio Ianni, da editora Oca Editorial, em vias de publicação, o texto identifica na ideia de metamorfose uma chave para compreender o modo como Ianni fazia sociologia. Mais do que registrar as mudanças sociais, Cohn mostra que Ianni procurava apreender a emergência de novas formas de sociabilidade e das relações que as constituíam, voltando-se sempre para aquilo que ainda estava em formação. É nessa atenção ao novo e às transformações das relações sociais que o autor identifica uma das marcas mais originais da imaginação sociológica de Ianni.

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, que tem curadoria de Elide Rugai Bastos, André Botelho e Caroline Tresoldi, clique aqui.

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Boa leitura!


Insondável travessia: os caminhos de Ianni

Por Gabriel Cohn (USP)

Nada como começar contando um caso, se é para falar de um legítimo descendente de italianos de origem popular, capaz de temperar, com peculiar ânimo compassivo (mas não desprovido de severa dureza, quando lhe parecia ser o momento), a astúcia e a teimosa determinação do “homem simples”, como ele se referia ao migrante camponês, um pouco como Gramsci, que nele ressoava como mais do que mera referência intelectual e política. Uma tarde, na Unicamp, que lhe havia dado guarida, como antes a PUC-SP o fizera, durante os longos anos de aposentadoria forçada na USP, à qual só voltou por algum tempo, recebido com carinho na ECA, encontramos um antigo colega dele em Campinas, que de lá havia saído rumo a Araraquara. Ele me parece abatido, comentei após o encontro; por que será? Acho que é, respondeu Ianni, com o brilho característico no olhar, mescla muito sua de malícia e compaixão, porque ele saiu daqui e foi para lá; mas desconfio que sua alma não está nem aqui, nem lá. É isso. De certo modo, Ianni está inteiro nessa fala inimitável. 

Ao longo das suas intermináveis andanças (as metafóricas e as materiais), sempre em busca do momento fugidio no qual a descoberta da própria alma lhe permitiria entender inteiramente a dos outros, não lhe escapou nenhum dos temas que despertaram o interesse da chamada Escola Paulista de Sociologia, na sua vertente centrada em Florestan Fernandes. Com a sensibilidade sociológica aguçada pelo estudo etnográfico, do qual ninguém escapava durante a formação naquela época, percorreu, primeiro por instigação dos mestres e depois por conta própria, todo o percurso que vai do mais estrito estudo de caso aos grandes panoramas de sociedades inteiras, até dirigir, já no final da vida, toda a sua atenção, literalmente, ao mundo, no estudo do andamento da constituição da sociedade global, quando contou com a parceria do amigo Renato Ortiz.

Traço importante desse percurso é que aquilo que primeiro lhe interessava sempre era o que estava emergindo, o novo, o ainda não estabelecido, com todas as suas zonas de obscuridade e suas fímbrias mal definidas. Alguns poucos exemplos, no lugar de tantos outros. Em 1962, quando a sociologia concentrava sua atenção sobre os grandes processos que suscitavam, na sociedade brasileira, a questão da mudança e da resistência a ela, naquilo que se exprimia em termos como “modernização” e “desenvolvimento”, Ianni, sem descuidar por um momento essa temática, da qual então se aproximava pelo ângulo das dimensões sociais da industrialização, publica um artigo que está entre os seus melhores, “O jovem radical”. A juventude, que mal despontava como tema de análise sociológica (depois, a sua colega e amiga Marialice Mencarini Foracchi se dedicaria a ela), era ali discutida por um ângulo muito seu: como, num ciclo de vida específico, a experiência do mundo acessível aos jovens se traduz em formas também específicas de percepção, de inteligência das coisas e de conduta – num modo particular de consciência social, enfim? Essa prontidão para intuir o novo, aquilo que está prestes a se apresentar no cenário social, sempre foi o seu ponto forte. Os problemas do desenvolvimento e da intervenção planejada na vida econômica demandavam atenção, numa visão que associasse a perspectiva sociológica às análises econômicas e das instituições políticas? Lá estava ele, em meados dos anos 1960 (Estado e capitalismo), com o passo inicial de uma longa série de pesquisas sobre a sociedade, o Estado e a constituição de uma economia capitalista no Brasil. No plano da intervenção no debate público, isso se traduzia na resposta pronta e sempre reflexiva aos acontecimentos do dia. Em 1978, quando São Bernardo, junto com as cidades industriais de Santo André e São Caetano, se tornou epicentro dos movimentos que dariam impulso ao processo de redemocratização e gerariam um novo padrão de sindicalismo e também o Partido dos Trabalhadores, Ianni não vacilou. Escreveu nada menos do que o ABC da classe operária (de passagem, confirmando nisso o seu talento para criar títulos, com achados como esse e como As metamorfoses do escravo). Em 1966, na USP, ele reclamava mais atenção para algo que se tornava cada dia mais importante: a comunicação e a cultura de massa. Como resultado dessa advertência, a USP tornou-se pioneira no estudo sociológico do tema. Um dos seus últimos escritos retomaria aquela questão, numa mescla de análise da comunicação, teoria política e sociologia que se traduzia num título, “O Príncipe eletrônico”. Nele, associam-se poder, sociedade e cultura no mundo contemporâneo, e se aplica, com toda a força, a fórmula que sintetiza seu foco de atenção perene: a sociedade como “as formas de sociabilidade e o jogo das forças sociais”, a melhor definição que conheço do objeto da sociologia.

No fundo, ele bem gostaria de algum dia escrever um romance de grande alcance, um panorama de todo um momento histórico, ou então algo em que a densidade da carga social ganhasse expressão no registro mais intimista. Não chegou a tentar isso, ficou mesmo na imaginação sociológica, como diria sua contraparte texana, Wright Mills. Apreciador da literatura, do teatro (esteve muito próximo dos integrantes do Teatro de Arena nos anos 1960) e do diálogo com cineastas, como Geraldo Sarno, cujo documentário Viramundo lhe inspirou, junto com o filme de Carlos Diegues sobre a “grande cidade”, ensaios sobre o mundo do homem simples. Este tema sempre o fascinou, em seus contatos com interlocutores como Thomas Farkas, Sergio Muniz e também Glauber Rocha, que encontrei em conversa na sua casa.

No essencial, o seu modo muito pessoal de fazer sociologia encontra sua expressão mais acabada em textos mais soltos e, no mesmo passo, mais intensos, menos pautados pelas regras da exposição de pesquisas seguidas em seus livros. Textos de ocasião talvez, desde que entendamos o termo “ocasião” como se referindo ao momento acidental, porém propício porque procurado. No livro Ensaios sobre a sociologia da cultura podemos constatar dois claros exemplos disso. O primeiro, sobre Viramundo, é de 1968, com Ianni naquilo que prometia ser sua fase mais vibrante, se não fosse a aposentadoria compulsória que o atingiria no ano seguinte, logo após o Ato Institucional nº 5 do regime autoritário em vias de consolidar-se. Seu tema é aquele do modo como o homem simples enfrenta o mundo, e foi publicado na notável Revista Civilização Brasileira, nome que bem indica o espírito combativo e criativo que a inspirava, ainda no promissor período anterior a 1964. O segundo é bem posterior, escrito trinta anos depois, a convite da revista Lua Nova, do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), como ocasião forjada para levá-lo a repensar o tema, agora com base no filme Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti. Se antes era a mentalidade de uma figura social específica que atraía a sua atenção, no final do século era a errância e a retirada do solo sob os pés que o levavam a buscar entender os descaminhos de seus personagens, ele próprio tendo que enfrentar os da sua sociedade e de si próprio. Insondável travessia, sugere o título extraído do texto. É isso.

Seu peculiar estilo de trabalho pode ser ilustrado por uma passagem do seu livro de 1962 sobre as “metamorfoses do escravo”, quando comenta um relato do viajante novecentista Rugendas. Quando perguntado se determinado capitão-mor era também “mulato”, o “pardo” ao qual ele se dirige responde: “Era, porém já não é”. E, como, nos termos de Ianni, “o estrangeiro, intrigado, desejasse uma explicação para tão estranha metamorfose”, a encontra na frase: “Pois, senhor, capitão-mor pode ser mulato?”.

Estranha metamorfose. Eis aí algo que, para Ianni, era um problema, mais do que expressão casual de um episódio pontual. Porque há metamorfoses que, mais do que estranhas, são necessárias: estranhas para o olhar desavisado ou velado pela ideologia, mas necessárias quando vistas pelo olhar reflexivo do pesquisador. E são essas metamorfoses que Ianni sempre tentou desvendar. São as mudanças de forma que se dão necessariamente no interior das relações sociais, em nome das grandes formas de organização da vida social. Metamorfoses e relações: mudanças de forma desconcertantes ao primeiro olhar, porém bem definidas quando a atenção se volta para as relações envolvidas. O que está em jogo é precisamente o processo de constituição e de emergência de novas formas de relações no interior das antigas, imbricadas na sua própria tessitura. É a metamorfose que está em jogo, mais do que a mudança. Trata-se de surpreender a sombra da nova forma na fisionomia da antiga, e os traços da antiga na forma nova.

Ao longo do seu trabalho, Octavio Ianni empenha-se em imprimir o máximo de rigor à análise da sociedade no seu nível mais abrangente e em reservar o máximo de liberdade criadora para o nível das relações no seu interior. Em passagem de um dos seus ensaios, ele fala das tendências criadoras da reflexão científica. Considerando o conjunto da sua obra, isso remete à busca das diferenças finas no interior dos fenômenos, sempre em busca das conexões entre as mudanças de forma e as relações em que elas se exprimem. Formas de sociabilidade e jogo das forças sociais: é disso que, no final, se trata, em Ianni.

Sobre o autor

Gabriel Cohn é professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais destacados sociólogos brasileiros. É reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre Max Weber, sendo autor de interpretações decisivas da obra do sociólogo alemão e de reflexões originais sobre modernidade, democracia, autoritarismo e formação social brasileira.