
Mário de Andrade discute a seca do Nordeste em crítica ácida ao Governo Federal, ao então presidente Washington Luís e às “literatices heroicas” de Os Sertões. Para ele, a seca era um problema ainda longe de ser solucionado. Mas cultivava esperanças, mesmo diante de todo o lamúrio que via na cidade de Caicó e arredores. Como diz, talvez fosse bom deixar o dr. Washington Luís andar 12 léguas sob o solão, comendo a miséria medonha da seca… quem sabe gastasse menos com estradas de luxo noutros lugares.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Caicó (21 de janeiro, 20 horas)
Hoje não se viajou. Paramos nesta cidade em progresso, pra mais de 4 mil almas, eu na esperança de pegar uns cantos de negros que por aqui inda elegem rei e rainha e cantam. Especie de “Maracatú” sobrevivente neste sertão onde mesmo o cabrocha é raríssimo. Os negros não vieram, visitei a cidade com as casas monumentalizadas pela ausencia de plantinhas de enfeite e agora estou imaginando.
A estrada de rodagem de Caicó pra Catolé do Rocha, ligando o Rio Grande do Norte com a Paraiba, empregando 400 trabalhadores — o que quer dizer 400 familias alimentadas — com o jornal ridículo de 2$500, o Governo Federal suspendeu de sopetão. Esse povaréu todo ficou na miséria completa em plena sêca, morrendo de fome. Serviço não ha nenhum. Segundo informações dum tecnico da Inspetoria de Estradas, só os direitos alfandegarios da gazolina importada pelo Estado, só êsses direitos dão pra pagar o serviço. O Govêrno Federal gasta 5 contos semanais com ele. E tem verba destinada a êle só que inda não foi distribuida! E o serviço é parado derrepentemente: a sêca se tornou palpavel, a fome, a morte ou a deserção… Mas o Govêrno Federal faz uma estrada de luxo Rio-Petropolis…
A reverendissima Excia, do dr. Washington Luis passa pelo Nordeste em discurso, não tirando luva da mao, sem experimentar o tapa-mão de couro do vaqueiro, bem hospedado, comendo, é muito as comidas morenas de por aqui. E antes ou depois da viagem, que nem todos os brasileiros (ate o nordestino!) continua lendo as literatices heroicas de Euclides da Cunha.
Pois eu garanto que “Os Sertões” sao um livro falso. A desgraça climatica do Nordeste não se descreve. Carece ver o que ela é. É medonha. O livro de Euclides da Cunha é uma boniteza genial porêm uma falsificação hedionda. Repugnante. Mas parece que nós brasileiros preferimos nos orgulhar duma literatura linda a largar da literatura duma vez pra encetarmos o nosso trabalho de homens. Euclides da Cunha transformou em brilho de frase sonora e imagens chiques o que é cegueira insuportavel dêste solão; transformou em heroísmo o que é miséria pura, em epopea… Não se trata de heroísmo não. Se trata de miseria, de miseria mesquinha, insuportavel, medonha. Deus me livre de negar resistencia a êste nordestino resistente. Mas chamar isso de heroismo é desconhecer um simples fenomeno de adaptação. Os mais fortes vão-se embora.
“Vam’ bora pro sul!…”
O nordestino é prolifico. Dez meses de sêca anual. Não tem o que fazer, faz filho. Os mais fortes vão-se embora. Fica mas é a população mais velha, desfibrada pelo Sol, apalermada pela sêca, ressequiada, parada, vivendo porque o homem vive, acha meio de viver até aqui! Mas fica porque… meu Deus! porquê não sabe partir!… É medonho. Por toda a parte onde se passa o mesmo refrão amargo eles repetem pra nos: Porquê fulano, o filho da Maria Sousa, o filho do João etc., o filho de não-sei-quem partiram pra S. Paulo. E quinta-feira partem o filho de fulano e o de sicrano. Os filhos partem. Um milhorzinho diz-que mandou 800 milreis pra família. Outro mais piedoso voltou. Mas foi pra levar não sei quantos. E lá se foram todos pra S. Paulo, pra Goiaz, pra Mato Grosso.
A historia da volta sempre do nordestino é uma blague sentimental ridicula. Volta um ou outro apenas. E voltavam principalmente do Acre onde a situação aquática é tão mortifera como a sêca nordestina. Os que vao pro sul não voltam nao.
Os nordestinos arranjados, cheios de regionalismo e literatice, zangam com o funcionario de não sei que repartição de secas porquê êste aconselhava o abandono de certas regioes nordestinas, as do sertão safaro. A opinião dêste era de fato leviana pela maneira com que a contam porem o regionalismo sentimental é… euclidiano tambem já está fora do tempo.
O homem arranjado que para em Catolé do Rocha ou em Parelhas, está sofrendo? Pronto: embarca no automovel, vem pra Natal vai pro Recife, tem agua sempre e ate gelo. Um cruzado pra ele não é nada, compra quantas latas de agua quer e morta a sêde se põe cantando a resistencia do povo, o nativismo dos retirantes que voltam etc. Nessa mesma gente que voltam, os arranjados nao estão imaginando o sofrimento diario, o abatimento miseravel, mesquinho, infinitamente desinfeliz. Mas os mais fortes vão-se embora pro sul…
Isso pra nós sulistas é um beneficio enorme, recebendo essa emigração de moços fortes, selecionados pela própria energia de partir sem sentimentalismo. Porém graças a Deus que não sou nem paulista nem patriota! O que vejo mesmo é a seleção depauperando o nordeste. E o sofrimento do homem. O Rio Grande do Norte mesmo tem vales magníficos, ver o do Ceará-Mirim. No vale do Assu param 25 mil almas e pode conter folgadamente 100 mil. Era preciso canalisar êsses sertanejos pra esses vales, pro litoral, e atarracha-los ai por meios suasorios que ao mesmo tempo terminassem com o regime latifundiário que inda subsiste colonialmente por aqui.
Não tenho dúvida que o problema do sertão e da catinga em sêca ha-de se resolver. Não entendo dessas coisas e temo dizer bobagem. O que sei é que por enquanto tudo está errado e ao proletário rural não beneficiaram quasi nada as medidas existentes que o Govêrno Federal tomou. Os açudes grandes nao passam dum paliativo e os retirantes que se arrancham na praia deles, são duma arribação dolorosa…
O sertanejo estava com um desejo danado de experimentar o automovel. Quando atravessava o Olho-Dagua topou com um, vazio. Pediu pra andar nele um bocado, o chofêr deixou. Amarrou a bêsta numa oiticica e la foi no macio. O chofêr perguntou si bastava, pediu pra andar mais um bocado. Afinal bastou e o auto foi embora deixando o sertanejo agradecido no meio da estrada, que solão!
— Dona, que distancia vai daqui pro Olho-Dagua?
— Doze leguas.
Pois isso é que careciam de fazer com o dr. Washington Luis, deixar êle 12 leguas da recepção, comendo a miseria medonha desta sêca. Miseria medonha.
MÁRIO DE ANDRADE
