Coluna Renato Ortiz | O Arqueólogo do Futuro


E se o nosso presente fosse olhado, séculos adiante, a partir das ruínas de garrafas de Coca-Cola e fragmentos de Hollywood? Assim chegamos à trigésima, e penúltima, publicação de Renato Ortiz (Unicamp) em sua coluna na BVPS. Em O Arqueólogo do Futuro, Ortiz imagina uma sociedade distante no tempo que, a partir dos pedaços deixados pela nossa civilização, procura reconstruir o mundo de seus antepassados. O texto foi originalmente escrito em 2006 e é um exercício de estranhamento sobre o nosso próprio cotidiano, especialmente reescrito para a ocasião.

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O Arqueólogo do Futuro

Por Renato Ortiz (Unicamp)

Nota ao Leitor: em tempos digitais, a memória é fraca e deixa poucos vestígios. Lembro-me bem que este texto atendia a um pedido específico. Alguém conversou comigo por telefone e perguntou se eu aceitaria participar de uma publicação na qual havia uma secção denominada “O Arqueólogo do Futuro”. Porém, não me recordo onde ele foi originalmente publicado; nem mesmo em meus Cadernos, onde faço anotações esparsas, encontrei os seus traços. Na internet a única evidência de sua recordação encontra-se no site da revista Diversitas (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas – USP) no qual ele ainda figura. A data é precisa, 2006, e o documento existente no arquivo de meu computador o confirma, mês de abril. Pensei que valeria a pena, em parte, reescrevê-lo.

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A Arqueologia era uma ciência imprecisa nos tempos remotos. Os estudiosos do século XX e XXI enfrentavam dificuldades intransponíveis que embaralhavam a mente e ofuscavam o entendimento do que se queria conhecer. Havia inúmeras teorias e explicações discordantes entre si e os fatos, encobertos pelas dúvidas incessantes, permaneciam ao abrigo, inalterados em sua opacidade. Tudo se resumia a interpretar pedaços desconexos de descobertas feitas ao acaso: um crânio, peças de cerâmica, parte de uma tíbia, escombros de uma pirâmide, uma arcada dentária. Não havia maneira de organizar esses fragmentos, cada um com sua própria verdade, numa explicação coerente e convincente, eles permaneciam em silêncio nas camadas geológicas que os soterravam. Diante da parcimônia dos dados predominava a incerteza e o arroubo da imaginação. Isso levou os arqueólogos a construir teorias descabidas sobre a linguagem humana, o paleolítico superior e inferior, a origem do Homo Sapiens e seu modo de vida; a cada nova descoberta, geralmente resultante de uma escavação qualquer, questionava-se as informações anteriores, deixando-se claro que as interpretações vigentes eram frágeis e inconsistentes. Escrevendo-se hoje a partir do futuro é motivo de satisfação afirmar que tais insuficiências e limitações, graças aos avanços tecnológicos, foram extintas. Possuímos atualmente a capacidade de descrever o passado de maneira isenta e exata, alheia a dubiedade antes existente. Os métodos de datação dos efeitos quânticos, o acúmulo de informação arquivada em textos, imagens, poeira cósmica, permitem a elaboração de um retrato intocável das eras imemoriais.

As escavações realizadas no planeta azul – os antigos o denominavam Terra – trazem à tona um material inédito: garrafas encontradas na China de uma infusão ingerida pelos indígenas (Coca-Cola), em outros lugares restos de alimentos provenientes do consumo inadequado de carne (discute-se a grafia correta do conceito: mac’s, mcdonald’s ou macdonalds), textos publicitários de diversos países, sobras de filmes produzidos numa localidade estranha, esotérica, Hollywood (provavelmente um bosque sagrado). Essas ruínas, dispersas em diversos locais, não deixam margem a dúvida, os povos ancestrais estavam entrelaçados entre si, trocavam objetos, presentes, mensagens, tudo circulava em um ritmo incessante e célere. Mas para isso era necessário que falassem o mesmo idioma, ele servia de base para a efetividade e o bem-estar das comunicações. Os textos bíblicos, escritos originalmente em papiro, difundidos em forma de livros, e que se acreditava, ingenuamente, serem a manifestação de uma vontade divina, confirmam essa ilação: no paraíso terrestre todos falavam a mesma língua. Os escritos religiosos narravam ainda com paixão e realismo um acontecimento trágico que culminou com o episódio de Babel; por séculos a proliferação das línguas alimentou a discórdia entre as pessoas. Felizmente, isso desapareceu com o tempo, a diversidade nefasta dos idiomas se apagou e não mais persistia no período que estamos considerando.

O mundo desta época era também harmonioso e sem conflitos. Todos falavam a mesma língua e a incompreensão era desconhecida, podia-se conversar sem que houvesse os mal-entendidos de uma comunicação truncada. Os testemunhos indicam ainda que apesar da existência de uma variedade de instrumentos de luta, muitos deles encontrados nas sepulturas dos guerreiros, a paz era mantida através de uma artimanha transparente e eficaz. Cada nação produzia uma quantidade enorme de ogivas nucleares, no entanto, o excedente era um argumento decisivo para a ausência das guerras. Como os beligerantes podiam a qualquer momento se autodestruir, a proliferação dos armamentos atuava como elemento de dissuasão. O consenso era resultado do medo e da destruição, seria insensato e inútil desafiar tal perigo. A paz foi assim selada e durante séculos manteve-se um ambiente de concórdia e segurança. Discute-se se as sociedades passadas conheciam ou não a desigualdade econômica e social. Os indícios disponíveis não nos permitem afirmar com certeza o que se passou. Entretanto, pelos artefactos coletados, edifícios de mais de quarenta andares, carcaças de automóveis e trens de alta velocidade, satélites, computadores, telefones sem fio, suportes tecnológicos sofisticados, tudo indica que se tratava de um momento de fartura. As pessoas dessas sociedades conheciam técnicas de plantio capazes de eliminar a fome de todo o planeta e possuíam meios de comunicação efetivos para circunda-lo por terra, mar e ar. Seria improvável a existência da pobreza e do abandono, inclusive porque os avanços da biogenética eram consideráveis, prolongando a vida dos habitantes desses lugares.

Diz-se que o conhecimento do passado pouco contribui para esclarecer o presente. Mas quando esta Academia de Lagado se debruça sobre as antigas populações terráqueas, não sem uma sombra de nostalgia vislumbramos tempos melhores. Distintos de nossa condição precária na qual a sensação insuportável das canículas climáticas, o ar rarefeito, a fome e a miséria, se impõem como uma fatalidade. Já não vivemos como nossos antepassados, algo perdemos de sua sabedoria e discernimento quando viemos habitar outros confins da galáxia.


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