Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (25 de janeiro)   

Mário de Andrade conclui suas anotações sobre o Catimbó apresentando mais entidades e mestres que desafiam as dicotomias do bem e do mal, atestando a complexidade de uma das mais antigas religiões do Brasil. Caruará, Antonio Caboquinho, Tapuia Caipora, Tabatinga, José Pereira e Mestre Zinho. Sejam eles feiticeiros, mestres malévolos ou mestres bemfazejos, o que fica das crônicas mário-andradianas sobre o Catimbó é justamente a pluralidade do conjunto.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (25 de janeiro)

Mais alguns santos de catimbó pra acabar: 

Caruará é um pagé do Amazonas Mestre bemfazejo. 

Antonio Caboquinho da Jurema, feiticeiro e pagão. Não foi batizado, e quando vivo era absolutamente inereu. Especialista em questões e até brigas corporais. Tanto as resolve como fomenta. É bugre de Mato Grosso. Certas feitas se enraivece tanto nas sessões que o pessoal todo foge, com medo dele. Se enraivece porquê é desconfiado que nem mineiro e brinquento que nem brasileiro na pinga. Já tem se batido com outros espiritos, com o Principe da Jurema, com mestre Carlos e com a Tapúia Caipora. Ás vezes vence. Uma feita massacrou um mestre de sessão. 

Essa Caipora é uma tapuia perereca, “espirito pequetitinho”, do tamanho dum dedo. Para no Aripuanã. Quando se acosta nalguem, a pessoa tem raivinhas, “se trepa” toda e principia fazendo tudo quanto não presta, a diabinha! É inconvenientissima, segundo as notas sociais do “Diario Nacional”. Gosta de trabalhar nua e de pernas pro ar que nem o Godique. Uma feita “se acostou” numa mocinha e não houve remedio, por mais que fizessem a sequestrada rasgou, rasgou as roupas, ficou nua. É muito danada. Arrepela os cabelos, quebra pratos, e estando na posição natural pula sem parada, arco e flexa na mão. Chega a tirar o juizo da pessoa em quem se acosta. 

Carece notar que os espiritos femininos tanto se acostam nas mãis como nos pais de terreiro. 

Outro mestre malevolo é Tabatinga, sumamente perverso, amerindio rei dos espiritos feiticeiros. (No geral os catimbozeiros empregam as palavras “feitiço” e “feiticeiro” com sentido depreciativo, designando as coisas “da esquerda”, isto é, do mal). Pois Tabatinga só trabalha “na esquerda”, flexando e “figando” (fazer figas). Não acredita em Deus. Só trabalha no escuro. Quando chega na sessão vai logo apagando as velas. Vive isolado com um só companheiro, José Pereira, tão bronco êste que nem tem “linha” (reza cantada, destinada especialmente a um santo, legitimamente o “nomos” dos gregos). José Pereira quando sucede baixar na sessão, grita: “Maldito seja Deus! Maldito meu pai! Maldita minha mãi! Trevas! trevas! trevas!… Sejam bemditas as trevas!” Quando materializado José Pereira diz-que matou pai, mãi, padrinho, madrinha, esposa e cinco filhos. Quando abrem sessão os pais-de-terreiro “botam trave” (rezas de impecilho) para José Pereira não aparecer. Deixa “mau encôsto” (sensação de abatimento, malestar profundo) nas sessões. 

Pra acabar estas comunicações cito Mestre Zinho, feiticeiro, atualmente inda “materialisado” (vivo). É um ser perigoso, não houve meios dos meus informantes me contarem onde que para. Trabalha com caximbos enormes, ás vezes faz o bem mas é raro. É perversissimo e já matou tres pessoas. O mano dele, Mestre Tronchinho, tambem inda está vivo. Só trabalha invocando espiritos de cigano e é tido como mentiroso. Mestre Zinho possui um punhal temivel chamado Satanáz e a famanada Chave de Vangulo que abre todas as portas encantadas do espaço. 

MÁRIO DE ANDRADE