BVPS Resenha | “O autoritarismo e sua ambivalência”, por Ricardo Visser

Publicamos hoje a resenha de Ricardo Visser (UFSJ) sobre o livro A ambivalência do autoritarismo: da escola de Frankfurt ao Brasil contemporâneo, de Fabrício Maciel, lançado neste ano pela Editora Mórula.

Por que o autoritarismo insiste em se reinventar, um século depois de a Escola de Frankfurt ter mapeado suas raízes subjetivas e coletivas? Em A ambivalência do autoritarismo, Fabrício Maciel retoma o legado de autores como Adorno, Fromm, Marcuse e Hannah Arendt para pensar a extrema direita contemporânea não como uma anomalia passageira, mas como uma expressão de forças conscientes e inconscientes que atravessam a vida social. Na resenha, Ricardo Visser adianta o que o leitor vai encontrar: uma crítica contundente à tese da polarização política, o resgate do conceito de liberdade como contraponto necessário à dominação, e uma análise corajosa dos impasses e das ilusões da própria esquerda diante do avanço bolsonarista.

Boa leitura!


O autoritarismo e sua ambivalência

Por Ricardo Visser (UFSJ)

Recentemente publicado, o livro A ambivalência do autoritarismo: da escola de Frankfurt ao Brasil contemporâneo (Editora Mórula, 2026), de Fabrício Maciel, propõe-se a diagnosticar o cenário atual da ascensão política internacional não apenas de partidos de extrema direita, mas do autoritarismo contemporâneo como formas de pensar, agir e sentir que emanam da interação social. Para tanto, o autor traça um roteiro de pesquisa teórica claro, aliando raro rigor conceitual a um fio condutor sobre a reflexão que quer iluminar. O livro se organiza nas seguintes partes: a reconstrução do conceito sociologicamente moderno de liberdade e suas vertentes, com um prólogo sobre Georg Simmel; no capítulo 1: a análise sobre o debate do conceito de autoritarismo na ascensão do nazi-fascismo a partir de autores/as como Theodor W. Adorno, Erich Fromm, Herbert Marcuse e Hannah Arendt; no capítulo 2: o exame do debate contemporâneo a respeito do autoritarismo e da extrema direita atual por meio de trabalhos de Carolin Amlinger e Oliver Nachtwey, Eva Illouz, Wilhelm Heitmeyer, Roger Eatwell e Matthew Goodwin, Enzo Traverso, Pablo Stefanoni, Steffen Mau, Thomas Lux e Linus Westheuser, além de Ruy Braga; seguida de, no capítulo 3: uma análise crítica acerca da ascensão da extrema direita e do bolsonarismo em nosso país, explorando as publicações de Jessé Souza, João Cezar de Castro Rocha, Christian Lynch, Paulo Henrique Cassimiro, Felipe Nunes e Thomas Traumann, além de Marcos Nobre; e por fim: o autor propõe uma análise conclusiva própria.

Na reconstrução da teoria clássica, o livro assinala o entrelaçamento entre a modernização teórico-metodológica de uma ciência social crítica e as temáticas de pesquisa às quais essas reflexões sociológicas mais gerais ensejavam. Isso significava que objeto e teoria se desafiavam reciprocamente. Em termos práticos, Maciel demonstra como a síntese teórica feita pela Escola de Frankfurt e por Hannah Arendt apontava para a insuficiência de uma ciência social que apenas se debruça sobre objetos de pesquisa que exprimem exclusivamente o plano consciente das interações e instituições. Assim, com abordagem que unia o instrumental conceitual da psicanálise, à leitura crítica dos clássicos da sociologia e a agendas concretas de pesquisa social, propunha-se o estudo do autoritarismo como sendo movido por forças sociais simultaneamente conscientes e objetivadas nas relações de produção, no Direito, na política, etc., mas também por móveis inconscientes e afetivos, que se expressam na economia psíquica dos indivíduos e nas normas.

Segundo Maciel, Adorno percebe que a personalidade autoritária não está ligada apenas a propensões individuais das pessoas para aderirem a ideologias totalitaristas, mas também na medida em que gradualmente se normaliza a publicização do preconceito e da perversão em círculos sociais, na mídia convencional, nas redes sociais, etc. Falta à psicologia das massas seu complemento contextual, propriamente sociológico. Nesse capítulo, Maciel ainda aponta para como é central atentar para uma escala da personalidade autoritária e suas gradações, o que contradiz um raciocínio “polarizador”, no qual tendências para crer e agir são hipostasiadas enquanto traços imutáveis de uma personalidade. Um desdobramento contemporâneo se reflete na crítica contundente, empreendida pelo autor, à tese da polarização política como explicação das mazelas da ascensão do autoritarismo.

A análise dos conceitos fundamentais de Erich Fromm se liga ao prólogo a respeito de Georg Simmel, pois não é possível determinar a dinâmica moderna do autoritarismo sem mobilizar como horizonte teórico-normativo uma reflexão sobre sua antípoda: a liberdade. Surge daí a necessidade de definir quais são as concepções de liberdade possíveis. Trata-se não apenas de traçar um diagnóstico sobre as principais características da dominação moderna que nos constrangem, mas de contrapô-lo com as possibilidades de liberdade. Contudo, apenas um conceito de liberdade que envolva vínculos de obrigações sociais para o indivíduo pode ser realmente consequente, em oposição, por exemplo, ao conceito de liberdade “sem limites” institucionais, evocado pelas novas direitas e corretamente criticado por Fabrício Maciel.

No plano da discussão mais recente acerca da ascensão da extrema direita, duas concepções se destacam: a primeira delas é representada por Pablo Stefanoni, ao criticar o politicamente correto atualmente atrelado a algumas correntes de esquerda; a segunda se liga ao diagnóstico de Mau, Lux e Westheuser de que a tese da polarização política é sociologicamente frágil justamente porque, em sociedades modernas complexas, o conjunto dos conflitos sociais que nos atravessam não pode ser reduzido a dois polos claros, divididos por um lado de progressistas, universalistas e cosmopolitas e por outro de uma direita conservadora e particularista.

Neste ponto, o autor começa a traçar os contornos de um cenário que almeja esclarecer: uma real análise dos fatores que alimentam a ascensão da extrema direita necessariamente inclui a identificação dos particularismos, ilusões conceituais e políticas da esquerda. Da mesma feita se inclui sua rendição política cada vez explícita diante da construção de um projeto de transformação estrutural das instituições modernas. Portanto, o livro segue um propósito verdadeiramente dialético e coerente com a crítica da polarização.

Tanto no plano internacional quanto no nacional, parece ser essa a linha mestra que une sua análise dos autores Stefanoni, Ruy Braga, Mau, Lux, Westheuser e João Cezar de Castro Rocha. Se, para Stefanoni, o politicamente correto esvazia a rebeldia da esquerda, tornando-a corretiva e conservadora, Ruy Braga verifica, apoiado em pesquisa empírica, que, nos Estados Unidos, boa parte da classe trabalhadora branca é estigmatizada, vista inteiramente como massa ressentida e racista, pelos setores intelectualizados do partido liberal. Por fim, Maciel aponta para o fato de que João Cezar de Castro Rocha aplica seu conceito de “dissonância cognitiva” unilateralmente à extrema direita e não ao campo da esquerda. Esta crítica tem especial significado para as vertentes identitárias da esquerda, cujo particularismo radical as afasta de diálogos com setores mais amplos da sociedade. Na prática, as vertentes identitárias de esquerda são o símbolo do colonialismo mental ilustrado, vindo a fomentar uma pequena elite intelectual e cultural na mídia, nas universidades e na política. Eis aí por que é elitista (Stefanoni) e cognitivamente dissonante (João Cezar de Castro Rocha) em relação a um projeto popular mais amplo.

Para concluir, vale recordar que, em contraposição a certo senso comum político, que dispõe esquerda e direita como polos políticos linearmente opostos, com visões de mundo contrastantes, as forças políticas de esquerda se encontram numa posição muito mais delicada diante do devir histórico. Seu projeto político consiste na construção de horizontes normativos e de emancipação material mais universalistas. Neste caso, construir e produzir esperança em tempos de vertiginoso agravamento das desigualdades sociais estruturais é bem mais difícil do que manter o status quo e destruir ganhos políticos e de direitos.

De forma alguma os temas abordados nesta resenha esgotam os autores e as problemáticas analisadas por Fabrício Maciel. Assim sendo, o livro tem muito mais a nos entregar a partir de sua reflexão. A obra se encerra com uma proposta de superação do “nós contra eles”, uma realidade infelizmente reproduzida por boa parte da teoria e da prática dominante hoje entre os círculos ditos progressistas e de esquerda, como procurou criticar especialmente nos autores brasileiros analisados. Fica aqui o convite à leitura.


Referência

MACIEL, Fabrício. (2026). A ambivalência do autoritarismo: da escola de Frankfurt ao Brasil contemporâneo. 1. Ed. Rio de Janeiro: Mórula editorial.

Sobre o autor

Ricardo Visser é professor efetivo do Departamento de Ciênciais Sociais e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ).