
Alcida Rita Ramos parece andar revisitando os estóicos, mas a emoção transborda ao lembrar do colega e amigo Omar Ribeiro Thomaz, falecido no último dia 12 de outubro. Na homenagem que fazemos juntos, em edição especial de domingo, Omar reaparece como um Diógenes: despojado, ascético mesmo, uma persona que contrasta com sua crítica radical às convenções sociais. Cidadãos do mundo, Diógenes e Omar permanecerão lendários por meio de anedotas e ensinamentos.
Pavana para um amigo morto
Por Alcida Rita Ramos
“Grief is a cruel kind of education”
Chimamanda Ngozi Adichie, Notes on grief
Perder um amigo é ficar um pouco mais só. Eu e a antropologia perdemos Omar Ribeiro Thomaz neste mês de outubro de 2026. Não ouvimos mais aquela voz um tanto rouca, fala rápida trepidando de entusiasmo sob um sorriso poucas vezes interrompido. O Omar hospitaleiro, porta da casa sempre aberta, exsudando simplicidade, frugalidade, simpatia deixa um vazio insuportável.
Lembro, orgulhosa, de ouvi-lo atribuir a algo que eu lhe disse muitas décadas atrás ter escolhido o caminho que trilhou na antropologia. E que caminho! Procurando sempre o lado mais áspero da vida acadêmica, foi ver de perto cenas de horror, como, por exemplo, no Haiti devastado por terremoto, como se não bastasse o flagelo da colonização.
Nobre de espírito e sóbrio de hábitos, brincalhão e sério, Omar, além de acadêmico exemplar, foi uma lição de como ser um Diógenes nos tempos correntes, um cínico clássico na contemporaneidade. Ao rejeitar riqueza, poder, fama e ignorando convenções ultrapassadas, ele reviveu em Campinas o ambiente austero de uma Esparta idealizada. Não deixa de ser lamentável que o vocábulo cínico, ao longo da história, tenha perdido a nobreza original para se tornar quase uma ofensa. Mas Omar incorporou o seu sentido filosófico: com a lealdade e honestidade de um cão (kynikós), um cínico pregava a simplicidade, a autenticidade, a sintonia com a natureza e o desprezo pelas convenções sociais. Livre de amarras, o cão vive cheio de afeto para dar sem esperar retribuição. Livre de preconceitos, Omar encantou a todos, a julgar por esta amiga enlutada.
Fluente em catalão, Omar surpreendia por sua inimitável persona, por sua agilidade de fala, sua desinibição social, sua afeição calorosa, sua disponibilidade de abraçar humanos e quase humanos. Deixa órfãos, além de amigos, um papagaio, um cachorro e duas tartarugas. Que belas memórias, Omar!
“Be certain that you do not die without having done
something wonderful for humanity”
Maya Angelou, Letter to my daughter.