HOMENAGEM A MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ (1918-2018), POR LUCAS CARVALHO (UFF)

maria isaura
Maria Isaura em 1963, defendendo sua tese de livre-docência em sociologia na Universidade de São Paulo. (Foto: Conteúdo Estadão AE). Foto retirada do site Memorial da Democracia: http://www.memorialdademocracia.com.br/card/interpretes-do-brasil/12

     Uma das mais importantes sociólogas brasileiras, Maria Isaura Pereira de Queiroz faleceu no último 29 de dezembro. Sua contribuição para as ciências sociais, em particular as brasileiras, não se mede somente por sua produção que, como a bibliografia secundária vem destacando, é não só extensa, mas variada e relevante. Maria Isaura foi pioneira em diversos aspectos: cientista social mulher egressa das primeiras turmas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1949); passou como assistente pelas então fechadas e concorridas Cadeiras de Sociologia I e II da mesma instituição; doutorou-se na École Pratique de Hautes Études em 1955, com a tese “La ‘Guerre Sainte’ au Brésil: le mouvement messianique du ‘Contestado’”; tornou-se professora livre-docente (1963) com a premiada tese “O Messianismo no Brasil e no Mundo” e, depois, professora adjunta (1973) da FFCL/USP; criou o Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU) em 1964, dando vida a diversos projetos de pesquisa seus, de colegas e alunos; além de ter circulado por diversas instituições internacionais, lecionando em universidades da França, Canadá, Senegal, Suíça, Itália e Bélgica.

         Quis o destino que estejamos prestando homenagens a Maria Isaura quase um ano após o falecimento de Antonio Candido, também nascido em 1918. Ambos fizeram parte da geração pioneira das ciências sociais e experimentaram aquilo que o próprio Candido cunhou como uma rotação de perspectiva nas ciências sociais: as classes pobres passaram a ganhar destaque e suas vivências se tornaram igualmente relevantes no entendimento da estrutura e organização da sociedade brasileira. No interior dessa virada cognitiva, o “mundo rústico” e a sociabilidade rural, temas também de predileção de Candido, tornariam a obra de Maria Isaura singular. Este interesse é explicado, em parte, pelo lugar que o rural ocupava na modernização da sociedade brasileira da época e pela situação agônica dos grupos camponeses da época.

       Um exemplo dessas preocupações é o artigo clássico “Uma categoria rural esquecida” de 1963, no qual a autora, após detalhar a sociabilidade típica dos grupos de sitiantes brasileiros, faz um apelo para que as ciências sociais e as discussões políticas sobre reforma agrária então em voga atentassem para a situação dessa parcela da população rural, que, não obstante expressiva, era negligenciada nos debates acadêmico e político. Fazendo do interesse pelos grupos rurais, sobretudo camponeses, uma agenda de pesquisa a longo prazo em sociologia política, Maria Isaura investigou em escala micro e macro as diversas relações e estruturas da formação da sociedade brasileira. Um aspecto metodológico chama atenção na obra da autora: o próprio movimento que imputava como constitutivo do social fez com que suas pesquisas circulassem entre aqueles diversos níveis. E, se o “rural” recebia destaque, era porque se tornara um ponto de vista, ou seja, uma perspectiva a partir da qual analisava os impasses e obstáculos das mudanças da sociedade brasileira. Ao longo de sua obra, Maria Isaura indicou que essa escolha precisava ser justificada e que, portanto, trazia consequências analíticas. O Brasil não havia ceifado muitas de suas raízes agrárias fincadas na dominação pessoal e violenta, no mandonismo e no favor e, por isso, a compreensão dessas estruturas era algo incontornável mesmo no contexto urbano nascente. A consequência mais direta dessa perspectiva sobre as mudanças sociais é uma questão que serve como pano de fundo em sua extensa obra. Ao inverter o raciocínio corrente nos estudos sobre mudança social, que se dedicam, sobretudo, ao novo, Maria Isaura destaca que a questão igualmente relevante é explicar o porquê da manutenção de certas estruturas e o que se conservou mudando. Um traço do conservadorismo brasileiro que se revela nas ações cotidianas de indivíduos e grupos, mas, sobretudo, nos resultados agregados e emergentes da própria estrutura e dinâmica da sociedade.

     Maria Isaura talvez fosse uma das últimas entre os prógonos das ciências sociais institucionalizadas no Brasil. Agora como parte do cânone dessas ciências sociais que ajudou a construir, sua obra é instância de observação da própria área, de suas potencialidades e da linha que nos liga hoje até ela.

***

     Para acessar a bionote da Maria Isaura Pereira de Queiroz bem como a bibliografia secundária, acesse por este link o site da BVPS. Indicações de leitura, trechos da obra da autora e o tutorial de pesquisa no site podem ser acessados neste link da seção “BVPS: Modos de Usar” do nosso Blog.

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