BVPS Divulga | Israel na encruzilhada

O Blog da BVPS divulga hoje debate sobre a crise política em Israel, promovido pelo Programa de Pós-graduação em História Social (PPGHIS) e pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ/UFRJ), com a coordenação da professora Monica Grin (NIEJ/PPGHIS/UFRJ). O evento ocorrerá nesta quinta-feira, 1º de junho, às 14h.

Participarão do debate Efraim Davidi, professor de História Social da Universidade de Tel Aviv, Michel Gherman, professor do Departamento de Sociologia e do PPGHIS/UFRJ, e Jawdat Abu El Haj, professor do PPGS-UFC. Os debatedores serão: Giovanna Monteiro, doutoranda do IESP-UERJ, e Marcos Chor Maio, professor do PPGHCS/COC/FIOCRUZ.

O evento será transmitido on-line e pode ser acessado clicando aqui.

Confira abaixo pequenos textos dos participantes sobre a crise política em Israel.

Boa leitura!


Israel na Encruzilhada: crise política ou ruptura institucional?

Por Jawdat Abu El Haj (UFC) & Marcos Chor Maio (Fiocruz)

Em janeiro de 2023, o ministro da Justiça Yariv Levin (Likud) enviou ao Knesset uma proposta de reforma do judiciário. Sob o pretexto de fortalecer a representação política, a proposta comprometia a autonomia do judiciário em julgar a constitucionalidade das decisões políticas.

Para uma parcela significativa da sociedade israelense, essa proposta, apoiada pela extrema direita, era um novo ataque à democracia, atingindo o equilíbrio dos poderes no Estado de Direito. Temendo o fechamento político, centenas de milhares de cidadãos foram às ruas em um dos maiores protestos jamais registrados na história do Estado de Israel. A coalização do governo composta pela direita e extrema direita reagiu, mobilizando, sobretudo, os grupos militantes fascistas messiânicos para apoiar o governo.

Os resultados da eleição de novembro de 2022 agravaram as disputas internas. Enquanto no passado as polarizações eram eleitorais, resolvidas nas urnas, as novas dualidades passam a ser marcadas por concepções distintas sobre o estado, a cidadania e a identidade nacional, gerando processos de radicalização política. Acrescente-se o grave problema, há 55 anos, dos territórios palestinos ocupados por Israel.

O momento político atual representa uma encruzilhada estrutural. As suas raízes se encontram no adiamento de diversas questões básicas desde 1948, tal como a resistência de todo espectro político israelense em adotar uma Constituição que consolide o estado de direito (direitos iguais, divisão dos poderes e relação entre os cidadãos e o estado), cujo bloqueio se deu em função da relutância dos israelenses em aceitarem o princípio da igualdade que abranja a população palestina remanescente após 1948. A sociedade israelense, por sua vez, diversificou-se num ritmo mais acelerado do que a capacidade do sistema político em processar suas demandas, gerando uma tensão entre um sistema político baseado em lideranças autoritárias e um ativismo judicial que se coloca como defensor do cidadão contra a usurpação do poder. Forma-se uma encruzilhada entre duas opções: de um lado, abrir e democratizar o sistema político; de outro, fortalecer o autoritarismo, o dirigismo.

Resumindo: quem se manifesta em Israel e por quê?

Por Efraim Davidi (Universidade de Tel Aviv)

Segundo os organizadores, aproximadamente 90.000 pessoas se reuniram em Tel Aviv no último sábado, 27 de maio. A cidade concentra o maior núcleo das manifestações em Israel, que se repetem todos os sábados há 21 semanas seguidas. Os protestos são direcionados contra o governo de Benjamin Netanyahu e seu projeto fascista.

Além de Tel Aviv, dezenas de milhares de cidadãos também se manifestaram em outras cidades, como Jerusalém, Haifa, Netanya, Ramat Gan, Ra’anana, Ashdod, Herzliya ou Kfar Saba, e outras 140 localidades, em um quadro no qual as mobilizações contra o governo de coalizão – o mais direitista da história do país – ganham força semana a semana.

Ministros do governo, como o da Segurança Nacional, o racista Itamar Ben Gvir, acusam os manifestantes de “anarquistas” e “terroristas”, enquanto Netanyahu os alerta para não cruzarem “a linha vermelha” e não tentarem paralisar o país. Já aconteceram paralisações em várias ocasiões, incluindo uma breve greve geral.

Quem são os “anarquistas”? Eles são, em sua maioria, assalariados de alta e média renda: trabalhadores de escritórios e empresas, trabalhadores de indústrias de alta tecnologia, médicos e enfermeiros, professores e estudantes universitários, professores e jornalistas. Ou seja, são “o vizinho do apartamento ao lado”, que, nas últimas semanas, fez um curso intensivo de militância político-social na universidade da vida e adotou uma nova linguagem que inclui os termos “democracia”, “fascismo”, “direitos humanos” e até “ocupação dos territórios palestinos”. Quanto mais difíceis se tornam os ataques do governo, especialmente devido à rebelião desencadeada em muitas unidades militares de reserva (de aviadores a petroleiros), mais radical se torna o protesto.

Reformas em Israel: uma crise nada contingencial

Por Michel Gherman (UFRJ)

Israel vive hoje um clima de enorme tensionamento social e político. Por um lado, o governo formado por grupos de direita radical, de setores ultraortodoxos e de partidos de extrema direita estabelecem agenda política de uma suposta reforma constitucional que produzirá o virtual fim das estruturas democráticas e de participação popular no país. De outro lado, a organização de manifestações massivas nas grandes cidades israelenses mostra, junto com a participação parlamentar da oposição, que a implementação do projeto reacionário-populista de Netanyahu-Levin pode levar efetivamente a uma crise política e institucional sem precedentes no país.

Para além desse embate aberto na superfície, o clima e a conflagração política apontam para uma crise profunda, em que um projeto de país e de sociedade parece estar em disputa. O que se movem não são apenas as peças no tabuleiro político-parlamentar, ou das manifestações públicas nas cidades do país, mas, efetivamente, estão se chocando “placas tectônicas” sobre as quais a ideia de Israel deve existir.

De um lado, grupos vinculados à antiga hegemonia dos fundadores percebem ser o momento de avançar em direção a novos acordos e pactos, em que um Estado democrático, judaico, laico e para todos os cidadãos deva se estabelecer, superando as aparentes contradições incluídas nesse projeto. De outro lado, setores incluídos nas novas elites políticas no país percebem ser o momento de romper com os supostos compromissos com a democracia liberal, percebendo ser possível construir agora um país efetivamente judaico, religioso e civilmente desigual, onde privilégios de origem sejam cada vez mais garantidos em lei.

No centro, o antigo pacto de uma ordem sobre a convivência no espaço público se mostra cada vez mais superado e irrelevante. Junto com ele, o pacto com um centro político também está cada vez menos eficiente, esmagado por posições claras sobre a ocupação, a democracia e os privilégios de grupos de origem e práticas religiosas e origens específicas.

A crise em Israel tem mais de estrutural do que de um fenômeno meramente contingencial. E tem energia política suficiente para apontar os destinos de uma sociedade e de um país.


Sobre os participantes:

Jawdat Abu El Haj é mestre e doutor pela University of California (Riverside). Fez fez pós-doutorados na Brown University e na Columbia University. Foi consultor do PNUD junto à Autoridade Nacional Palestina na Cisjordânia (1998-1999) e em Gaza (2003-2004). É autor de A geopolítica e o conflito Palestino-Israelense: dos Acordos de Oslo à Primavera Árabe. Atualmente é professor do PPGS-UFC e editor associado da revista Latin American Perspectives.

Michel Gherman é coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ). Mestre em Antropologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, doutor em História Social (UFRJ) e professor do Departamento de Sociologia e do PPGHIS/UFRJ. Gherman é membro do Grupo de Trabalho de combate ao discurso do ódio e ao extremismo do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e autor de O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo.

Efraim Davidi é professor de História Social da Universidade de Tel Aviv. Davidi é doutor em História pela Universidade de Tel-Aviv e autor de diversos estudos, artigos e livros sobre a América Latina e Israel, entre os quais: “Capitalismo, resistencia a la ocupacion y crisis multiple en Israel”.

Giovanna Monteiro é doutoranda do IESP-UERJ e mestre em Relações Internacionais pela UFRJ. É coordenadora do Observatório Feminista de Relações Internacionais (OFRI). 

Marcos Chor Maio é sociólogo, mestre e doutor em Ciência Política (IUPERJ). Foi pesquisador visitante do Departamento de História da New York University (NYU). É pesquisador e professor do PPGHCS/COC/FIOCRUZ e editor do dossiê O Conflito Israelo-Palestino: História, Memória e Identidades (História/Unesp, 2014).

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