
Em nova atualização da Série Nordeste BVPS, publicamos uma entrevista com Antonio Nóbrega, artista brasileiro multidisciplinar e fundador do Instituto Brincante. A conversa, conduzida por André Botelho (UFRJ) e Pedro Meira Monteiro (Princeton University), atravessa questões relativas à realidade cultural brasileira e a sua importância para se pensar o Brasil, considerando as tensões entre suas correntes ocidental e popular.
A Série Nordeste BVPS é uma iniciativa que une a vocação do Blog da BVPS – formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes – aos propósitos pedagógicos da disciplina Sociologia Política do Nordeste, que está sendo ministrada na Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ neste primeiro semestre de 2023.
Para conhecer mais sobre a Série Nordeste, clique aqui.
Boa leitura!
O Brasil vos espera: conversa com Antonio Nóbrega
Por André Botelho (UFRJ) & Pedro Meira Monteiro (Princeton University)
1. Como você, um artista plural, gostaria de se apresentar aos nossos leitores, Antonio Nóbrega?
Essa tem sido uma pergunta para a qual ainda não encontrei uma resposta que me agrade no justo total. A mais próxima que cheguei foi a de um artista brasileiro, mas também a de artista multidisciplinar serve. Músico, dançarino também se ajustam…
2. Sabemos que você tem uma trajetória riquíssima, mas sempre pensamos na importância do Movimento Armorial e em Ariano Suassuna nela. Conte-nos um pouco sobre aqueles anos e o que deles ainda vive em você.
Foram anos muito felizes em minha vida. Por conta do convite de Ariano para integrar o Quinteto Armorial, tive a oportunidade de abrir os olhos para uma realidade cultural brasileira sempre colocada à deriva. Foi um período em que convivi com inúmeros brincantes, músicos, poetas e dançarinos da cultura subalternizada brasileira. Essa imersão, se assim posso nomear, começou em Recife, depois se estendeu para outras cidades nordestinas; posteriormente, quando nos mudamos Rosane e eu para São Paulo, pude conhecer as manifestações culturais populares do Sul, Centro e Sudeste.
Por outro lado, a convivência pessoal com Ariano também me foi muito instrutiva. Nos ensaios do quinteto conversávamos sobre arte em geral, mas, sobretudo, literatura. Quando o conheci tinha 18 anos e ele – me lembro bem – dava os retoques finais naquela que seria a sua obra mais importante, o Romance d’A Pedra do Reino.
3. Você é um dos principais artistas nordestinos e pensadores da arte nordestina. Qual o lugar do Nordeste na cultura brasileira? Quantos Nordestes existem?
O Nordeste, opino, tem um lugar primacial na cultura brasileira, sobretudo em sua vertente popular. O dinamismo da máquina econômica evidentemente colaborou nessa primacialidade. Aprendemos que as capitanias de Pernambuco e da Bahia foram aquelas que mais cedo prosperaram, e isso devido à extração canavieira. O mundo cultural consequentemente começou a rodar mais cedo. Se hoje existe frevo em Recife – uma instituição cultural que congrega ritmo, poesia, dança, música em diversas modalidades –, tal fato se deve às reuniões festivo-devocionais dos negros escravizados realizadas entre os sábados e os domingos, reuniões que, passados quatro séculos, permanecem vivas e agora chamadas de sambadas de Maracatu rural, Cavalo-marinho, rodas-de-coco etc.
Quanto aos nordestes, não acho que os hajam… As diferenças culturais estão na mesma proporção das diferentes entoações dos falares da região. É o que entendo por diversidade dentro da unidade. Penso que o Brasil é refratário de apenas duas culturas ou correntes de cultura, como prefiro dizer: a europeia ou ocidental, de transplante, e a popular, autóctone, que teimam em não fazê-la existir. Tudo que se fixou no Brasil culturalmente é proveniente dessas duas linhas ou tradições culturais. O nosso lastro ou húmus cultural provém unicamente delas. É o que as obras de Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Ariano Suassuna, Villa-Lobos, Noel Rosa, Pixinguinha, Chico etc. refletem. Mas o Brasil ainda não acabou, ou pelo menos não deveria. Como encantado pelo que vi, escutei e dancei durante os meus anos de aprendizado, se houver ainda um Brasil, acho que dependerá muito de como iremos dimensionar o papel da cultura.
4. Conte-nos um pouco sobre as linhas de atividade do Instituto Brincante em São Paulo. Qual o papel do Instituto hoje, e como vocês o veem no futuro? Como as pautas contemporâneas da cultura e da política vêm ressoando no Brincante?
Através dos cursos e eventos oferecidos, o Brincante tem procurado confraternizar, tanto na prática quanto na teoria, os dois brasis que parecem opostos – em muitos sentidos realmente são (coalizar bilionário com quem passa fome é difícil pra cachorro!) – mas que, culturalmente, são complementares. Essa perspectiva, todavia, tem sido muito difícil de ser compreendida e, sobretudo, colocada em prática. Ainda continuamos demasiado dependentes da visão cêntrico-ocidental de cultura. Através do Rock in Rio, do The Town, do Lollapalooza, dos programas televisivos macaqueados dos States etc. continuamos a assinar novos atestados de vira-latismo. Ora, somos o país do Frevo, do Baião, do Chamamé, do Carimbó, do Choro – bem, não vou citar o samba, né?… – gêneros e formas de expressão musical brasileira que não estão dormindo e muito menos podem ser taxados de folclóricos, passadistas ou regionais. O Brasil é uma região do mundo, portanto, a sua cultura é regional, regional do Brasil. Pois é, esse estado de coisas me incomoda muitíssimo, mas pelo que vejo a classe pensante brasileira não parece tão incomodada quanto. Fico, por vezes, atônito pelo desinteresse e apatia em se debater e pensar cultura, em se pensar num projeto de cultura para o Brasil, digo um projeto cultural de Estado e não só de governo!
5. Recentemente você foi professor-visitante na Unicamp. Conte-nos sobre essa sua experiência docente.
Fui convidado muito generosamente pelo Instituto de Estudos Avançados (IDEA) para realizar uma residência. Foi uma experiência muito proveitosa para mim. Durante seis meses, duas vezes a cada mês, ministrei oficinas e aulas teóricas, subordinado ao tema geral Brasisbrasil. O escopo desses encontros foi alicerçado na ideia de apresentar notícias sobre o mundo cultural popular: o seu processo de formação e desenvolvimento, seus mitos fundadores, onde estaria a sua práxis e, ao final, considerações em torno de sua poética. Esse processo me ajudou bastante a reunir os fios da trama de um livro que ando procurando concluir e que, acho, deverá ter o mesmo nome dessa minha residência.
Buscava também com essa residência despertar o interesse acadêmico nas práticas e estudos do mundo cultural popular que cheguei a dar início na própria Unicamp há mais de trinta anos atrás, quando, junto a outros professores, convidados todos pela professora doutora Marília de Andrade, fundamos no seu Instituto de Artes o Departamento de Artes Corporais. Nele fui responsável pela cadeira Danças brasileiras.
6. Você está escrevendo um livro novo, que parece seguir trilhas deixadas por Mário de Andrade. Por favor, conte-nos mais sobre o projeto e o que podemos aguardar.
Como assinalei na resposta anterior ando tentando concluir essa paradinha. Escrever esse livro é algo que tem me motivado imensamente. Não tem sido fácil conciliar o artista com o pesquisador-escritor-pensador… A minha meta é finalizá-lo dentro dos próximos três meses. Penso que, desta vez, conseguirei obedecer aos prazos que me impus – melhor dizendo, me impuseram…
Em relação a Mário, acho-o realmente um farol. Melhor: um faroleiro reverenciado, estudado, cujas ideias poderiam ser bem mais postas em prática. Às vezes, leio que Mário falhou em seu projeto de cultura; cá comigo e agora cá com os que me leem: quem falhou e continua falhando é o Brasil. Mário nos ensina que muito do Brasil está nas ruas, nos terreiros, nos rincões interioranos etc. Entendendo e vivendo o que existe neles, chegaremos mais perto do país. Como o poeta, precisamos ainda, senhores, sujar nossas mãos de barro, gastar as alpercatas, sambear, ouvir e tirar versos. Cantarolar toadas e sambas… Vivendo-entendendo o que se passa na consciência-inconsciência e no corpo do povo.
O Brasil vos espera.
É isso.
Imagem que abre o post: Joana Lavôr, colagem da série Dei Normani, Sicília. Para a disciplina/série Blog da BVPS Nordeste Autopoiesis.