Série Nordeste | Quando a literatura é adubada com sangue: a trilogia do cacau de Jorge Amado, por Onildo Correa

Na nova atualização da Série Nordeste BVPS, publicamos em parceria com a Coluna Primeiros Escritos texto de Onildo Correa (PPGSA/UFRJ) sobre a trilogia do cacau de Jorge Amado. Composta pelos romances Cacau (1933), Terras do sem-fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), a trilogia tem como cenário a região de Ilhéus-Itabuna (BA) e retrata as dinâmicas das fazendas do cacau sul baianas nas primeiras três décadas do século XX.

Série Nordeste BVPS é uma iniciativa que une a vocação do Blog da BVPS – formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes – aos propósitos pedagógicos da disciplina Sociologia Política do Nordeste, que está sendo ministrada na Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ neste primeiro semestre de 2023. 

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Boa leitura!


Quando a literatura é adubada com sangue: a trilogia do cacau de Jorge Amado

Por Onildo Correa (PPGSA/UFRJ)

Vou aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
‘Prender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Vou aprender a ler

— Canção “Yaya Massemba” (2003),
interpretada por Maria Bethânia.

— Você se lembra da primeira vez em que leu Jorge Amado?[1]

Foi já crescido, no meu caso, a experiência inaugural com a prosa do escritor baiano, ou melhor, grapiúna[2]. Então calouro de graduação na cidade de Salvador, banhada pelas águas calmas da Baía de Todos-os-Santos e ritmicamente embalada pelo ressoar milenar dos atabaques, residia em um pequeno apartamento na gema do Largo Dois de Julho, nos entornos da Cidade Baixa. Integrava uma república-comuna de seis alunos recém-ingressos e dois gatos, autointitulando-nos “Estudantes Silvestres”.

Não havia soteropolitanos, e embora mais nos distinguíssemos do que o contrário, sucedia de compartilharmos uma característica central: a insistência em carregar conosco livros. Textos importantes para muito além do ato entretido de ler palavras; objetos necessários, pois compunham partes importantes da nossa identidade; partes que relutávamos em simbolicamente deixar para trás, a despeito das dificuldades que os longos trajetos da vida nos impuseram.

A sala da residência, um tanto ampla mas pouco mobiliada, com janela gradeada voltada para um pé de mangueira, tinha ao canto uma escada branca em dois apoios, com seus degraus preenchidos pela reunião de todos os livros que possuíamos. Aquela escada, reaproveitada dos entulhos do próprio apartamento, preenchida por impressionante diversidade de estéticas, histórias e épocas literárias, representava um aspecto da nossa síntese. Mais importante ainda, permitia-nos, por meio da leitura, visitar um pouco mais de cada um de nós. Seis estudantes que havia pouco se encontraram, todavia, momentaneamente se agregavam em cooperação para a constituição do futuro. Nesse ponto — por que não? —, à nossa maneira, similares aos jovens capitães da areia de Jorge Amado. Personagens do livro homônimo (1937) que tive a felicidade de lá encontrar ao ter o primeiro contato com a prosa amadiana, mergulhando em tipos humanos feitos à medida de representações que se erguem para além do simples bem e do mal. Figuras controversas, unidas diante de mundos injustos e que, como outros personagens do autor, encontram na cooperação mútua os meios necessários à sobrevivência e à construção do amanhã, estabelecendo um fino elo de ligação com todos nós: comovendo, ensinando e, principalmente, denunciando.

Experiências literárias são capazes de mediar vivências e contribuir diretamente para a constituição de identidades. Por isso, essa introdução; por isso, a epígrafe acima, os versos finais da canção Yaya Massemba (2003), entoados a toda voz pela igualmente baiana Maria Bethânia. Versos que ilustram, com certa exatidão, o projeto literário do escritor grapiúna, especialmente quando consideramos as primeiras duas décadas da sua prolífica carreira no mundo das letras. Projeto esse não apenas expresso nos depoimentos e fatos empíricos da sua trajetória, mas deliberadamente inserido nas estruturas das suas diegeses; isto é, nas caracterizações dos seus personagens e nos funcionamentos internos dos seus mundos narrados.

Figuras como o “Professor”, João José, de Capitães da Areia; ou José Cordeiro, o sergipano migrante de Cacau, subjugados pelo império da realidade social, mas igualmente representantes do que seriam as potencialidades da filosofia de libertação das consciências. A noção de que, através da leitura e da escrita, rimando amor e dor, angariamos elementos pedagógicos importantes para a constituição da práxis de emancipação da classe trabalhadora, compondo “uma pedagogia social como meio prioritário contra-hegemônico ao modo de produção vigente, expressão da luta de classes” (Damo et al, 2012: 1). Assim acreditava Amado, tal como canta Maria Bethânia: aprendendo a ler para ensinar seus camaradas… ensinar que há um novo amanhecer a ser coletivamente conquistado, mesmo na noite mais funda do ventre escuro de um porão.

A trilogia do cacau (1933-1944)

A trilogia do cacau é composta pelos romances Cacau (1933), Terras do sem-fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944). São três obras ambientadas num mesmo espaço geográfico brasileiro — a região Ilhéus-Itabuna (BA) — e conectadas por um semelhante fio condutor: as dinâmicas das fazendas do cacau sul baianas das primeiras três décadas do século XX, produtoras do fruto doce que Amado denomina em seus textos “ouro branco”. Juntas, constituem narrativas que se pretendem representativas das facetas de um fenômeno sócio-histórico regionalizado da história nordestina, mas que, ao mesmo tempo, transbordam das fronteiras puramente regionais para atingir âmbitos macro nacionais e internacionais, articulando o regional às dinâmicas político-econômicas em curso na República Velha e a relação colonial das elites com o capital estrangeiro. Três histórias que tem no cacau, portanto, o seu protagonista fundamental, centralizado a ponto de todo o resto emergir como acessórios orbitantes deste idêntico núcleo narratológico, cujo domínio sobre as mentes, corpos e destinos, desde os gananciosos latifundiários até os alijados trabalhadores, coloca todos numa mesma dança praticamente inescapável: um bailar violento e desigual entre dominantes e dominados, a exalar cheiro de suor, pólvora e visgo.

Diferentemente do que pode parecer à primeira vista, a centralidade narratológica do cultivo do cacau apenas engana simplicidade ou pobreza literária, já que se transforma, ao fim e ao cabo, numa ponte terrena para Amado discutir as múltiplas redes de interdependência produzidas no e do ruralismo brasileiro, além de, claro, suas consequências, principalmente para os sujeitos da classe trabalhadora, o seu maior interesse. Nesse sentido, visava explicar e sensibilizar o leitor acerca das injustiças lá produzidas, mas diretamente relacionadas a fatores que extrapolavam o regionalismo. Não diziam respeito, portanto, apenas aos recônditos — como se desacoplados do “Brasil real” — mas, sim, ao país por inteiro, que jamais se basta em conjugações singulares ou existe, por um momento sequer, dissociado do conflito histórico estabelecido entre “atraso” e “progresso”.

Por meio da verossimilhança, podemos dizer que Jorge Amado estava propondo um retorno à realidade social, fornecendo ao leitor a possibilidade de enxergar o mundo narrado como uma realidade vivida que, se não existe factualmente, ao menos carrega consigo a credibilidade do possível.

Contudo, é importante mencionar que esse “retorno”, independentemente das intenções do autor, não implica que seus textos remetam ao mundo “tal qual é”, como se a trilogia do cacau fosse um reflexo das externalidades sócio-históricas do texto. Ora, a própria linguagem humana, provoca Nietzsche em Sobre a verdade e mentira em sentido extra-moral (1983), define-se pela incapacidade de capturar e transmitir o real devir do mundo. Enquanto a realidade é um incessante movimento modificante, afirma o filósofo, a transcrição do mundo à forma comunicada só se faz através de metáforas que perderam a sua força sensível, estabelecendo à consciência aparências estáticas daquilo que, na realidade, está em transformação ininterrupta. Logo, o “retorno” que qualquer literatura propicia não está no reflexo — a imagem estática —, mas na sua capacidade de integrar relações dialógicas (circulares) entre representações e sujeitos, isto é, na sua dimensão reflexiva — as ideias em movimento (Botelho & Hoelz, 2016). Retira-se disso o entendimento da literatura como uma forma de diálogo contínuo entre autores, leitores e sociedade, que existem de modo interdependente na vida em comum (Bakhtin, 2011). E, nesse sentido, tanto os autores quanto a sociedade aprendem conjuntamente no transcorrer do fazer social da literatura.

Digo isso porque, embora compartilhassem de um mesmo tema central, a redação da trilogia do cacau, anos depois retomada em Gabriela, Cravo e Canela (1958) e Tocaia Grande (1984), sob o ponto de vista dos vencidos e não mais dos vencedores, ocorreu em momentos distintos da trajetória do escritor grapiúna (Badaró et al, 2020). Compará-las revela um movimento de aprendizagem do próprio autor, que dizia ser o seu segundo romance, Cacau (1933), publicado quando tinha 21 anos, um texto experimental.

A história é relativamente simples: José Cordeiro, filho de um dono de fábrica em Sergipe, vê-se impelido a migrar para o sul da Bahia em busca de novas oportunidades de sustento após a falência dos negócios do pai. Esperançoso para encontrar uma forma de escapar da exploração que estava a viver na cidade, chega à fazenda do coronel Mané Frajelo e se insere rapidamente nas dinâmicas socioprodutivas do cultivo do cacau. Um mundo social próprio, que gradativamente o coage a se tornar um outro. José Cordeiro era capaz de perceber que havia algo de errado naquelas terras, naquele modo de produção e nas relações derivadas dele. Embora pudesse sentir, faltava-lhe fundamentalmente um certo repertório para a efetiva compreensão daquela realidade por ele vivida. Por ele e pelos tantos outros trabalhadores lá submetidos a um regime análogo à escravidão.

Ao fim da história, o protagonista consegue ser um dos poucos a superar sua situação, não a partir da ruptura, mas ao fugir para o Rio de Janeiro, onde se torna tipógrafo com a promessa de retornar para ensinar aqueles que ficaram, fornecendo-lhes o repertório que antes lhe faltava. Quem sabe, abrindo os caminhos para a emancipação coletiva. Este é o ponto central do discurso político de Cacau: não se trata de uma revolução imediata como solução para as injustiças, mas de uma revolução processual, que tem na formação da consciência de classe o gérmen necessário para a mudança social.

Segundo José de Souza Martins, no posfácio da edição (Amado, 2010a), pode-se dizer que um dos aspectos de imaturidade de Jorge Amado nesse romance está na sua forçosa tentativa de estabelecer um atrelamento ideal entre a realidade das fazendas do cacau e a teoria marxista, ou melhor, a leitura da tradição marxista que o jovem Amado possuía. Nessa obra, ele se esforça para ver capitalismo, proletários e burgueses onde ainda não havia tal dinâmica. Contorce a realidade para encaixá-la nas teorizações europeias, perdendo de vista as factualidades da empiria do ruralismo brasileiro. Um problema, contudo, que não diz respeito apenas à pessoa de Jorge Amado, como se lhe ocorresse uma particular incapacidade de compreensão do marxismo.

Quero dizer que, à altura da publicação de Cacau, havia, nacionalmente, um atraso em relação à incorporação das obras de Marx pela intelligentsia brasileira, o que levava a um debate interno ainda escasso e repleto de equívocos (Konder, 1988). Esse cenário começa a mudar, conforme observa Bernardo Ricupero (2000), justamente no ano de publicação do romance de Jorge Amado, 1933, sobretudo graças ao pioneirismo da obra Evolução política do Brasil, de Caio Prado Jr., repercutida num país que praticamente não produzia ou lia livros marxistas sobre o Brasil. Esse evento marca o início do movimento de nacionalização do marxismo, resultando no amadurecimento das interpretações e dos usos da teoria, que em muito influenciou o desenrolar do movimento literário-intelectual dos anos 1930.

Nesse sentido, bem distinto é o que encontramos na continuação da trilogia, publicada dez anos depois. Em Terras do sem-fim (1943), mantêm-se o ambiente, a exploração e o cultivo do cacau, mas o autor toma agora o ponto de vista da disputa como guia para a narrativa. As fazendas deixam de ser como indústrias a céu aberto, tocadas por burgueses puramente interessados em lucro, para serem retratadas como um ambiente funcional articulado às dinâmicas políticas nacionais do “café com leite”. Logo, ao se afastar da instrumentalização ingênua do que entendia ser o marxismo, em Terras do sem-fim, Amado foi capaz de desvelar com excepcional precisão a dinâmica do coronelismo, completamente ausente em Cacau, mas central para o contexto sócio-histórico da região, que só seria sociologicamente sintetizado cinco anos depois por Victor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto ([1948] 2012).

Isso não significa que o autor grapiúna tenha inaugurado a compreensão abstrata do coronelismo. A ideia já circulava nos meios acadêmicos, ainda que de modo incipiente, na década de 1930. Mas seus romances ajudaram a consolidar a compreensão do fenômeno, que seria amarrada em definitivo por Nunes Leal (Mansur, 2020). Assim, em Terras do sem-fim, Jorge Amado passa a expor o controle político como a arma mais poderosa para a conquista de terras, acima de todos os demais recursos; de modo que a vitória do Coronel Horácio sobre seu rival, o Coronel Badaró, só acontece após Horácio assumir o controle político da região, mesmo que desde o início da trama este já fosse o mais rico daquelas terras. E, em São Jorge dos Ilhéus (1944), a ênfase recai sobre a centralidade do capital internacional para a constituição da região.

Três obras de ficção, três pontos focais: a exploração do trabalhador, as disputas coronelistas, o capital estrangeiro. Juntas, formam mais do que expressões estéticas; constituem a tentativa de desenvolver um estudo/manifesto político sobre a região cacaueira. O que faz da trilogia do cacau um excepcional exemplo do que Antonio Candido (2006) chama, em relação ao movimento regionalista de 1930, de Neo-naturalismo.

Argumento que, similar ao naturalismo brasileiro, a trilogia do cacau compartilhou da instrumentalização do discurso científico (no caso de Jorge Amado, o marxismo), da pretensão à verossimilhança, do uso de cenas polemistas e pornográficas, da postura intervencionista na realidade social e do tom pedagógico (em muitos momentos, panfletário). Do mesmo modo, os personagens amadianos, geralmente pouco aprofundados psicologicamente, costumam se mover como marionetes diante das amarras do meio. São, na maior parte do tempo, destituídos de agência, exatamente como os personagens do naturalismo. E ambos têm na luta contra esse controle um importante elemento mobilizador dos conflitos narrativos, como nos trechos abaixo, de Terras do sem-fim:

Viu naquele olhar de um segundo todo o sonho de outra vida noutra terra, livres os dois no seu amor. Agora ele não sentia ódio de ninguém, só daquela terra que a matava, que a prendia ali para sempre. Mais do que ódio, tinha medo. Ninguém se libertava daquela terra, ela prendia todos os que queriam fugir… Amarrava Ester com as cadeias da morte, amarrava a ele também, nunca mais o largaria. (Amado, [1943] 2008: 231)

Fora preciso que ele se visse obrigado a ter que mandar, ele também, matar um homem, para sentir a desgraça daquilo tudo, o terrível daqueles fatos, o quanto aquela terra pesava sobre os homens. Os trabalhadores das roças tinham o visgo do cacau mole preso aos pés. Virava uma casca grossa que nenhuma água lavava jamais. E eles todos, trabalhadores, jagunços, coronéis, advogados, médicos, comerciantes e exportadores, tinham o visgo do cacau preso na alma, lá dentro, no mais profundo do coração… (Amado, [1943] 2008: 215).

Todavia, não se pode dizer que as obras de Jorge Amado sejam naturalistas por inteiro. Elas se distinguem em pelo menos dois elementos fundamentais: a imbricação entre realidade e poesia, constituindo uma verossimilhança mediada pela fantasia do possível; e no alvo da sua escrita: a conscientização dos oprimidos; o que leva ao nosso próximo tópico.

Não há como entendermos sua ficção, desacoplando-a das tessituras do seu fazer: estética e vida na trilogia do cacau de Jorge Amado

Jorge Amado de Faria (1912-2001) dispensa longas apresentações. Nasceu na fazenda de Auricídia, em Ferradas, hoje distrito de Itabuna (BA), mudando-se logo cedo para o município vizinho de Ilhéus, onde passou sua infância. Quando adolescente, foi para Salvador estudar no colégio jesuíta Antônio Vieira, vindo a escrever para jornais locais. Mas é no Rio de Janeiro, então capital e mais importante centro cultural do país, que iniciou efetivamente a sua trajetória no mundo do romance brasileiro, com apenas vinte anos de idade (Santos, 2012). A estreia veio com a publicação do romance O país do carnaval (1931), seguido por Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936) e Capitães da areia (1937). Depois, militante comunista notório, exila-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que redigiu o romance Terras do sem-fim (1943) (Drey, 2020).

Os pais de Jorge, João Amado e Eulália Leal, foram fazendeiros da monocultura do cacau ao longo das primeiras décadas do século XX, período conhecido como a emergência cacaueira do sul da Bahia. Ciclo exportador agudo, em substituição à cana-de-açúcar, que tornou o país o principal produtor de cacau do mundo entre os anos de 1905 e 1930, originando um acelerado desenvolvimento econômico para a região, com igualmente vertiginosa concentração desigual de riquezas (Chiapetti, 2009). As experiências que teve no sul da Bahia durante esses primeiros momentos de vida, com contato próximo às dinâmicas do cultivo, às injustiças e à violência competitiva por terras e domínio político, foram fundamentais para a composição de certos interesses temáticos do seu fazer literário. Como disse em depoimento:

[…] participei de sua vida [do mundo rural do cacau] – não assisti, participei – meu pai, assim como minha mãe, estavam muito envolvidos nas grandes lutas pela posse da terra. Senti-me comprometido com tudo aquilo. Tenho raízes terrenas (Raillard, 1990: 181, apud Mansur, 2020).

Não foram poucos os romances que Amado fez sobre as fazendas do cacau. E mais do que desenvolver reconstituições homogêneas da realidade, foi além do ingênuo retrato ao intercalar pontos de vista para compor um mosaico projetivamente complexo da região, que só se percebe ao tomarmos as suas mais diversas obras sobre o tema em conjunto. Não se restringindo à descrição descompromissada, Amado teve por meta escrutinar os funcionamentos internos e externos da dinâmica de produção cacaueira, delineando as articulações entre os distintos agentes (latifundiários, políticos, trabalhadores rurais, comerciantes, prostitutas, profissionais liberais etc.) em torno de um eixo nacional de exploração do trabalho.

Cabe contextualizar que, durante a infância de Jorge Amado, a região cacaueira funcionava como um intenso atrator para milhares de brasileiros e estrangeiros, principalmente sírios e libaneses, esperançosos pela conquista de fortuna ou a remota possibilidade de escapar da implacável exploração do trabalho vigentes nas urbes (Souza, 2022). Uma esperança vã e contraditória, diga-se de passagem, que rapidamente era solapada pela cruel realidade do território, organizado a partir das dinâmicas coronelistas e agenciado em volta das relações sociopolíticas da República Velha (política dos governadores) (Atanásio, 2012). Em pouco tempo, no lugar de riqueza e independência, os trabalhadores se viram imersos em uma quase inescapável relação de servidão por dívida. Regime de exploração no qual o trabalhador é induzido a se endividar, geralmente comprando mercadorias supervalorizadas de subsistência nas vendas do patrão, até o ponto de ficar ligado ao cativeiro sob a ameaça de morte se não produzir para quitar o débito (Castro & Filho, 2015).

Diante desse cenário de vivência, Jorge Amado afirmava escrever sobre a realidade do povo. Dizia que sua escrita partia das experiências advindas do convívio direto com esses tantos subjugados, em um país projetivamente “moderno”, mas que permanecia a resguardar as desigualdades e injustiças historicamente estabelecidas. Foi justamente na primeira fase da sua produção literária (1933-1954), portanto, que colocou em prática o seu projeto político-literário comunista (principalmente na década de 1930) (Rossi, 2009). Isto é, filtrando as experiências concretas da vida à luz da ciência marxista e de certas tradições literárias (sobretudo o realismo soviético e elementos do modernismo nacional), Amado buscou produzir sínteses político-estéticas quase panfletárias, que se materializaram em romances altamente engajados com as questões nacionais e com as pautas da revolução proletária (Drey, 2020; Pelinser, 2012). Textos adubados com sangue, por assim dizer, que se queriam, se não a própria realidade, ao menos uma perspectiva honesta calcada no mundo da vida. Encontrando nos invisíveis, incompreendidos, injustiçados (…), a substância terrena para compor em palavras a representação de uma identidade nacional que entendia ser genuinamente brasileira. Não as versões importadas do exterior ou exclusivamente relacionadas às idealizações dos dominantes, tendenciosas por afastar a compreensão nacional das factualidades da cotidianidade das massas, mas a identidade de um país que teria no seu povo, por inteiro, a sua expressão mais importante. Por isso, sua literatura apresentava engajamento ideológico e postura pragmática, exercendo a função de objeto político conscientizador das classes oprimidas (Drey, 2020). A literatura era entendida por ele como uma arma de intervenção na realidade em favor dos explorados.

Tratava-se, é verdade, de uma conscientização marcadamente carregada de pessimismo, na medida em que costumava representar as relações de opressão como quase insuperáveis, pois entendia que assim o eram na realidade. Vemos a tragédia, a desilusão e a luta diária pela sobrevivência tomarem as páginas amadianas como socos concatenados no estômago do leitor. Narrativas nas quais tudo parece insistentemente fadado à desgraça, mundos em que para cada dor quase sempre só resta a conformação ou o ódio infrutífero. Daí, quando a cooperação mútua não prevalece entre os personagens, a sina trágica, a falta de agência e a incapacidade de perceber a própria situação histórica se eleva sobre as vontades individuais, destruindo a todos e, por consequência, conservando o país nos veios da derrocada parasitária das elites.

Nesse sentido, mesmo que geralmente tudo pareça fadado à derrota, seus textos resguardam fagulhas de esperança, postas diretamente nas mãos do povo brasileiro, unido em prol da sobrevivência e da improvável, mas necessária, construção de um novo e melhorado amanhã. Amado tentou ser honesto ao retratar as dificuldades nuas e cruas, muitas vezes pendendo para o excesso, mas foi também engajado ao indicar caminhos para o futuro. Como podemos ver em Cacau, no qual o pessimismo explícito do trecho abaixo é adiante substituído pela sutil esperança da libertação.

— Estamos vencidos antes de começar a luta.
— Nós já nasce vencido… — sentenciou Valentim.
Baixamos as cabeças. E no outro dia voltamos ao trabalho com quinhentos réis de menos (Amado, [1933] 2010: 148)

Até que ponto o seu projeto literário logrou sucesso, ou mesmo as inúmeras contradições a ele associadas, são elementos a se discutir. De todo modo, para concluir, argumento que não há como desacoplar essa fase da sua literatura das tessituras do seu fazer. As experiências sensíveis lhe foram a matéria bruta para a escrita ficcional. Mas, acima de tudo, nelas residiam o interesse denunciativo e pedagógico das injustiças sociais do seu tempo. Amado foi partícipe, à sua maneira, do movimento estético regionalista de 1930, criticando o que entendia ser o afastamento empírico das correntes literárias nacionais anteriores, supostamente interessadas em utilizar a dor dos oprimidos como matéria idealizada para a escrita ficcional; tal como, por exemplo, o veio ufanista do movimento modernista de 1922 e o rebuscamento do regionalismo fin de siècle (Pelinser, 2012). Mas foi também singular ao se tornar um dos maiores construtores da identidade baiana e grapiúna; misturando poesia e realidade, rimando amor e dor.

Muito do que hoje se entende por “identidade grapiúna” ou “civilização grapiúna” se deve aos romances do cacau de Jorge Amado, gostemos ou não da sua escrita. A partir dele houve uma singularização da região, que hoje tem fronteiras socioculturais próprias dentro do estado da Bahia (Santos & Silva, 2018). E o próprio termo “grapiúna” só deixa de ser pejorativo para se tornar uma identidade regional objeto de orgulho a partir das influências de seus romances. Nesse sentido, “ao representar a identidade grapiúna, Jorge Amado também influencia o imaginário social dos habitantes da região cacaueira da Bahia que, ao entrarem em contato com suas narrativas, se reconhecem e se (re)afirmam enquanto grapiúnas” (Santos & Silva, 2018: 4). A trilogia do cacau é um excelente exemplo da circularidade do fazer literário. De como a matéria-prima da vida, as experiências, se convertem em distintas formas de expressões imaginárias, que passam a mediar a própria existência humana; lá e de volta outra vez.


Notas

[1] Agradeço ao professor e orientador André Botelho (UFRJ) pelo incentivo à realização deste texto. Igualmente, agradeço à Caroline Tresoldi, Karim Helayel e Maurício Hoelz pelas leituras, correções e comentários atenciosos.

[2] Sobre o significado da palavra grapiúna: “Termo popularizado por Jorge Amado, em Gabriela Cravo e Canela (1958), para designar os grandes plantadores de cacau. Etimologicamente, segundo Euclides Neto (1997, p.76), ‘Grapiúna vem do tupi: guirá = gra por aglutinação = pássaro + pi = branco + uma = preto = > pássaro preto e branco’. Atualmente, significa os que nascem e/ou estão radicados na Região do Cacau, conforme Matos (1989)” (Sousa & Costa & Oliveira, 2007: 3).

Referências

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Imagem: Joana Lavôr, colagem da série Dei Normani, Sicília. Para a disciplina/série Blog da BVPS Nordeste Autopoiesis.

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