Coluna Primeiros Escritos | 25 de julho e o pensamento insurgente de Lélia Gonzalez, por Mireile Martins

O Blog da BVPS publica hoje na Coluna Primeiros Escritos texto de Mireile Silva Martins (UFU) sobre Lélia Gonzalez, por ocasião da semana em que comemoramos o dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

A autora faz um panorama da trajetória intelectual e política de Lélia Gonzalez, uma das pensadoras mais influentes da história do movimento negro no Brasil e com importantes ressonâncias em outros cantos das Américas. A atividade acadêmica e a militância política são indissociáveis em seu trabalho, considerado pioneiro em muitas frentes. Conforme destacado pela autora, Lélia discute o papel das pessoas negras na sociedade a partir da articulação dos marcadores sociais de raça, gênero e classe, antecipando, de certo modo, os debates em torno do conceito de interseccionalidade.

Aproveitamos para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos se volta para a publicação de textos de estudantes de pós-graduação. Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.

Boa leitura!


25 de julho e o pensamento insurgente de Lélia Gonzalez

Por Mireile Silva Martins (UFU)[1]

No Brasil e na América Latina, Lélia Gonzalez é considerada uma das precursoras do movimento de mulheres intelectuais e ativistas negras, que se identificam com a construção de projetos emancipatórios de eliminação das opressões sofridas em decorrência do capitalismo, do racismo e do sexismo. Ao voltar seu olhar político-cultural para a realidade social brasileira, bem como para dentro do movimento negro e do feminismo negro e afro-latino-americano, Lélia Gonzalez problematizou as desigualdades raciais, sociais e de gênero, chamando a atenção para a complexidade das relações sociais e o lugar ocupado pela população negra na sociedade pós-abolição.

Neste texto, procuraremos expor algumas de suas principais contribuições teóricas para o pensamento social brasileiro. Mas, antes de adentrarmos na produção intelectual propriamente dita, retomaremos alguns aspectos da trajetória da autora que julgamos importantes para compreender sua obra, e faremos alguns apontamentos sobre o contexto histórico-social sobre o qual Lélia Gonzalez amparava a própria produção e atuação militante e política.

Trajetória política e intelectual de Lélia Gonzalez

Nascida em Belo Horizonte, Lélia de Almeida Gonzalez[2](1935-1994) era filha de um homem negro ferroviário e de uma indígena empregada doméstica, sendo a penúltima filha de uma família de baixa renda com 18 filhos. No ano de 1942, ainda na infância de Lélia, os pais se mudaram para o Rio de Janeiro, cidade onde realizou seus estudos.

No Rio de Janeiro, graduou-se em 1958 em História e Geografia e, em 1962, em Filosofia, cursos realizados na antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Lélia Gonzalez também estudou psicanálise por interesse pessoal e realizou estudos de pós-graduação, concluindo mestrado em Comunicação Social (UFRJ) e iniciando o doutorado em Antropologia (USP), curso que não foi finalizado (Ratts & Rios, 2010).

Após concluir a segunda graduação, Lélia Gonzalez começou a lecionar. Iniciou sua carreira docente no ensino superior em instituições públicas e privadas, dando aulas na Faculdade de Filosofia de Campo Grande (FEUC), na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e na Faculdade de Ciências e Letras da UEG. Nessas instituições, exerceu funções de coordenadora do Departamento de Estudos e Pesquisas do Centro Cultural (1973-1974), vice-diretora da Faculdade de Comunicação (1973-1974) e diretora do Departamento de Comunicação (1974 -1975) (Viana, 2006: 54).

Inserida diretamente na área da comunicação entre 1966 e 1970, traduziu do francês para o português livros como o Curso moderno de filosofia (1966), Compêndio moderno de filosofia (1968) e História dos filósofos ilustrada pelos textos (1970). Destaca Viana (2006: 51) que “a atividade de tradutora indica sua fluência na língua francesa e também chama atenção para o seu interesse em filosofia”.

Buscando entender e desconstruir o lugar do negro na sociedade brasileira, Lélia Gonzalez compreendia a importância da atuação política tanto na militância coletiva de base, ou seja, nos movimentos sociais, como na dimensão institucional. Sobre esse ponto, ela ressalta em entrevista publicada no Jornal do Conselho da Comunidade Negra de São Paulo: “eu vejo da seguinte maneira: é um espaço [institucional] que a gente tem que conquistar (…) em razão disto é ir à luta e garantir os nossos espaços que, evidentemente, nunca nos foram concedidos” (Gonzalez, 1986).

Em sua atuação política e na busca por ocupar espaços institucionais, cabe notar que Lélia participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT). Por este partido, em 1982, candidatou-se à Deputada Federal. Posteriormente, em 1986, concorreu ao cargo de Deputada Estadual pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Não se elegeu em nenhuma das ocasiões, porém, obteve uma expressiva votação na primeira eleição, tornando-se a primeira suplente da bancada. Lélia atuou também nas discussões sobre a Constituição de 1988, e integrou a formação do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) criado em 1985 (Ratts & Rios, 2010).

Importante mencionar ainda que Lélia Gonzalez participou da construção do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), fundado em 1975, uma das primeiras organizações do Movimento Negro contemporâneo. Foi também umas das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. Em 1983, formou com outras mulheres negras o Nzinga (Coletivo de Mulheres Negras) no Rio de Janeiro.

A atuação de Lélia Gonzalez nesses espaços possibilitou que ela fosse a primeira mulher negra a sair do país como representante do Movimento Negro (Barreto, 2005). Conforme observam Ratts e Rios (2010: 128), no final da década de 1970, a intelectual “(…) empreendeu deslocamentos que podem ser considerados importantes viagens de cunho pessoal, cultural e político. Na realidade, elas permitem compreender os bastidores do processo de nacionalização e internacionalização do movimento negro brasileiro”. Os autores reiteram também que “em suas palestras, textos e conferências, assistimos à construção de uma intelectual diaspórica, com um pensamento erigido por meio de trocas culturais, ao longo do chamado Atlântico Negro, com intelectuais, amigos e ativistas da América do Norte, Caribe e África”. Destacamos esse fato porque ele deixa demarcado a construção de uma intelectual negra inserida dentro de um contexto de diálogos transnacionais, em que as viagens tanto de caráter ativista quanto de caráter acadêmico foram significativas para a construção do seu pensamento.

Além do movimento negro, Lélia Gonzalez também atuou no movimento de mulheres. Ratts e Rios (2010: 102) observam que “(…) o envolvimento de Lélia com o feminismo ocorreu pela práxis política das mulheres negras”, dando-se, assim, no seio de organizações do movimento negro e, mais especificamente, na participação no IPCN, no MNU e no Coletivo Nzinga. Com questionamentos ao feminismo hegemônico da época que não contemplava as mulheres negras nas pautas de discussões e reinvindicações, Lélia Gonzalez escreveu um capítulo no livro O lugar da mulher: estudos sobre a condição feminina na sociedade atual (1982), organizado por Anette Goldberg Velasco e Cruz e Madel T. Luz. O texto de Lélia Gonzalez, “A mulher negra na sociedade brasileira”, analisava a situação da mulher negra no país, considerando a cultura patriarcal e as formas de dominação racial exercidas não apenas pelos homens, mas também pelas mulheres brancas (Ratts & Rios, 2010).

Nos anos 1980, importa destacar que Lélia escreveu muitos textos para a imprensa alternativa, publicados especialmente nos periódicos que se voltavam ao debate da questão racial e aos debates feministas. Dessa produção, alguns artigos merecem ser mencionados: “E a trabalhadora negra, cumé que fica?” (1982), publicado no Jornal Mulherio; “A questão negra no Brasil” (1981), nos Cadernos Trabalhistas; e “A importância da organização da mulher negra no processo de transformação social” (1988), no Jornal Raça e Classe.

Ainda em relação às publicações de Lélia Gonzalez, vale mencionar dois livros que têm sua assinatura e trazem a contribuição de seu pensamento: um em coautoria com o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg (1942-2014), intitulado Lugar de Negro (1982), e outro resultado de suas pesquisas antropológicas, Festas Populares no Brasil (1989), sendo este último premiado na Alemanha. Entre suas contribuições teóricas, estão também o artigo “A propósito de Lacan”, publicado em 1995, um ano após sua morte, e “The black woman in Brazil”, que apareceu no livro African presence in the Americas (1995), obra organizada pelo intelectual cubano Carlos Moore, amigo de Lélia Gonzalez desde suas incursões em África, especialmente no Senegal (Ratts & Rios, 2010).

Como se pode ver por esse breve panorama da trajetória de Lélia Gonzalez, ela foi uma figura política com atuação em diferentes frentes do movimento social e uma voz insurgente nas últimas décadas do século XX, apresentando reflexões acerca de temas como colonialismo, capitalismo, relações raciais e de gênero, divisão sexual e racial do trabalho, entre outros. Isso torna, a nosso ver, sua produção intelectual de fundamental importância para o pensamento social brasileiro.

Foto: Acervo Lélia Gonzalez. Rio de Janeiro, 1980

Raça, gênero e classe no pensamento de Lélia Gonzalez

Podemos dizer, acompanhando o argumento de Botelho e Schwarcz (2009), que no vasto campo que é o pensamento social, entrecruzam-se formas de pensar, modelos de interpretação da realidade social e política brasileira, bem como matrizes de pensamento no interior de um repertório sintético-analítico. Propomos analisar Lélia Gonzalez dentro deste quadro, como uma figura intelectual cujo pensamento se constrói sobre o Brasil e suas mudanças em curso. A partir do Brasil, ela também propõe leituras sobre a América Latina e o mundo afro-diaspórico, ultrapassando as barreiras nacionais. Por isso, consideramos que Lélia Gonzalez se destaca entre os intelectuais brasileiros do século XX, desenvolvendo uma reflexão original sobre a formação da sociedade brasileira que leva em consideração a complexa articulação entre raça, gênero e classe social.

Como se sabe, a discussão sobre o lugar do negro na sociedade brasileira tem uma vasta história, com dimensões conceituais e políticas que se alteraram ao longo do tempo, acompanhando o amadurecimento dos debates sobre a própria formação da sociedade de classes no país.

Entre as décadas de 1950 e 1960, no contexto das discussões sobre o capitalismo dependente brasileiro, o debate sobre o lugar do negro na recém-estabelecida sociedade de classes brasileira é recolocado, sobretudo a partir das obras de Roger Bastide, Florestan Fernandes, Costa Pinto e outros intelectuais que não só contraditaram o conceito de “democracia racial” – que se fez presente no imaginário social a partir de 1930, após a publicação das obras de Gilberto Freyre – como também apontaram para a integração do negro em termos de classe social, dando ao tema uma dimensão estrutural.

É neste contexto que Lélia Gonzalez ingressa no debate e oferece sua contribuição teórica. Em um primeiro momento, ela identifica a existência de três tendências mais comuns na abordagem sobre a integração social e econômica dos negros. Todas elas, para a autora, possuem certos problemas.

A primeira tendência que ela identifica trata a integração do negro como decorrente da modernização nacional. Nessa visão, o despreparo dos negros justificaria a não assunção ao papel de trabalhadores. De acordo com a intelectual, tal concepção deslocaria para o negro a responsabilidade por sua não integração, ao mesmo tempo em que relativiza a responsabilidade institucional dos brancos neste processo (Gonzalez, 2020: 32). Lélia Gonzalez argumenta, porém, que o problema da integração diz respeito à omissão dos brancos, que não apenas se ausentaram de suas responsabilidades de promovê-la, como construíram mecanismos sociais que contribuíram com a prevalência do racismo em códigos de conduta social que, na prática, tornavam velada a discriminação pela raça.

A segunda tendência que Lélia Gonzalez menciona seria a que ela entende por um “marxismo ortodoxo”, no qual a categoria raça é diluída na de classe. Apresentando a discriminação como um instrumento capitalista para dividir o operariado, a autora enfatiza que, se estamos olhando para realidade social brasileira, “[…] há que se considerar que a maioria da população, praticamente, não alcançou a situação de força de trabalho relacionada ao capitalismo industrial competitivo” (Gonzalez, 2020: 32). A questão será recuperada adiante, mas o entendimento de Gonzalez nesta passagem antecipa outra questão importante de sua obra: a percepção, mais de dez anos antes da formulação do conceito de interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw, de que a posição do negro era diferente da do branco mesmo quando ambos pertenciam à mesma classe social, pois aos negros eram reservados os lugares à margem do que era a sociedade de classes brasileira de então. Este mesmo raciocínio será empregado quando a discussão sobre a mulher negra é acionada por Lélia Gonzalez.

Já a terceira tendência mencionada pela autora seria a que afirma que “(…) os grupos racialmente subordinados são as minorias que internalizam o processo de colonização” (Gonzalez, 2020: 33). Ela afirma, a partir das palavras de Hasenbalg (1977: 50), que “além da exploração econômica, o grupo branco dominante extrai uma mais valia psicológica, cultural e ideológica do colonizador”. Para Gonzalez, o exemplo mais representativo do grupo racialmente dominado que internalizou e reproduziu a linguagem do grupo dominante se encontra no discurso de Oliveira Vianna que, sendo “mulato e cientista social influente”, defendeu o branqueamento da população brasileira. Isso é um indicativo, para ela, de que ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial têm efeitos notáveis nos comportamentos da população negra, sendo eficazes para a internalização e exaltação do processo da miscigenação.

Apresentadas as críticas de Gonzalez às perspectivas até então desenvolvidos no debate sobre a integração do negro na sociedade de classes, a intelectual avança na colocação de questões acerca das relações entre raça e classe e, em seguida, acrescenta o conceito de gênero na discussão. Assim, ela procura compreender “[…] de que maneira o gênero e a etnicidade são manipulados de tal modo que, no caso brasileiro, os mais baixos níveis de participação na força de trabalho, ‘coincidentemente’, pertencem exatamente às mulheres e à população negra” (Gonzalez, 2020: 27).

Na interpretação da autora, na América Latina e no Brasil houve um desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo que historicamente incidiu sobre a população negra. Em “Cultura, etnicidade e trabalho: efeitos linguísticos e políticos da exploração da mulher” (1979), Lélia Gonzalez analisa o funcionamento do modo de produção capitalista na formação socioeconômica do Brasil, orientando suas reflexões a partir das teses do intelectual argentino José Nun (1978). Da obra de Nun, ela incorpora especialmente os conceitos de “superpopulação relativa” e “massa marginal”, que ela usa para descrever o capitalismo, suas contradições em termos de América Latina e para inserir a população negra brasileira nesse quadro. De modo mais preciso, a autora argumenta que o capitalismo brasileiro criou, para além de um exército industrial de reserva, uma massa marginal de trabalhadores que não conseguem se incorporar neste modelo monopolístico. Diferentemente do modelo do exército de reserva, que existe para regular para baixo o preço da mão de obra, a massa marginal descrita por José Nun é a de um conjunto de pessoas que não serão mais empregadas e não terão mais funções na divisão do trabalho, pois não tem mais utilidade para o mercado. O “lugar do negro” seria nessa massa marginal.

Lélia Gonzalez conclui, então, que há uma divisão racial do trabalho que empurra os negros para as posições mais precárias em termos de trabalho – a massa marginal. Como a integração na sociedade de classes teria se dado de maneira diferente para os negros, eles continuaram à margem mesmo depois de inseridos na classe proletária. Ou seja, a desigualdade racial beneficia não apenas a burguesia branca, mas também os trabalhadores brancos, mantendo os negros à margem mesmo da integração na classe trabalhadora.

Desdobrando sua análise, Lélia Gonzalez destaca que a posição marginal dos negros na sociedade de classes se refletia de modo ainda mais grave nas mulheres negras, cuja participação na força de trabalho ficou relegada às posições de menor nível. De acordo com ela, poucas foram as modificações que se deram para as mulheres negras no pós-abolição. Na verdade, “no período que imediatamente se sucedeu à abolição, coube à mulher negra arcar com a posição de viga mestra de sua comunidade”. Ainda em suas palavras:

Antes de ir para o trabalho, havia que buscar água na bica comum da favela, preparar o mínimo de alimento para os familiares, lavar, passar e distribuir as tarefas das filhas mais velhas no cuidado dos mais novos. Acordar às três ou quatro horas da madrugada para “adiantar os serviços caseiros” e estar às sete ou oito horas na casa da patroa até a noite, após ter servido o jantar e deixado tudo limpo. Nos dias atuais, a situação não é muito diferente (Gonzalez, 2020: 40, grifos nossos).

Avaliando a situação das mulheres negras no final da década de 1970, a autora ainda pondera: “mesmo nos dias atuais, em que se constatam melhorias quanto ao nível de educação de uma minoria de mulheres negras, o que se observa é que, por maior que seja a capacidade que demonstre, ela é preterida” (Gonzalez, 2020: 42). Lélia Gonzalez chama a atenção, então, para a limitação da participação da mulher negra no mercado de trabalho brasileiro. Essas mulheres, segundo a autora, encontram-se “nas profissões manuais, de menor prestígio e remuneração”. E, continua: “[a mulher negra é] trabalhadora rural, indústria de extração etc. Muitas vezes nem salário tem. Nas zonas urbanas está concentrada na prestação de serviços domésticos. Nas profissões manuais estão concentrados 83% da mão de obra negra” (Gonzalez 2020: 307, grifos no original). Diante disso, a autora afirma que,

O que se opera no Brasil não é apenas uma discriminação efetiva; em termos de representações sociais mentais que se reforçam e se reproduzem de diferentes maneiras, o que se observa é um racismo cultural que leva, tanto algozes como vítimas, a considerarem natural o fato de a mulher em geral e a negra em particular desempenharem papéis sociais desvalorizados em termos de população economicamente ativa (Gonzalez, 2020: 59).

A discussão desenvolvida por Lélia Gonzalez sobre o lugar da mulher negra na sociedade brasileira é contundente e inovadora, uma vez que ela demonstra como na sociedade brasileira o racismo, o patriarcado e o capitalismo se combinam, ocasionando em opressões e desigualdades que culminam nas mulheres negras:

“[…] ora, na medida em que existe uma divisão racial e sexual do trabalho, não é difícil concluir sobre o processo de tríplice discriminação sofrido pela mulher negra (enquanto raça, classe e sexo), assim como sobre seu lugar na força de trabalho (Gonzalez, 2020: 56).

A tríplice discriminação mencionada por Lélia Gonzalez antecipou em certa medida o que depois seria estabelecido por Kimberlé Crenshaw com o conceito de interseccionalidade. Como observamos, a intelectual incorporou ao debate sobre raça e classe a questão de gênero (que em sua obra aparece em alguns momentos como “sexo”, conforme o debate daquela época), mostrando como racismo, capitalismo e sexismo estão interligados. Com isso, inaugurou uma nova frente de reflexões sobre o país.

***

Pensando a dinâmica da sociedade brasileira, os efeitos do capitalismo dependente e a inserção social dos negros na sociedade, Lélia Gonzalez deve ser considerada uma intelectual a compor o bojo de pensadores que interpretaram o Brasil por, pelo menos, dois motivos: (i) foi pioneira em trazer para o debate a questão da mulher negra na sociedade brasileira; e (ii) por forjar uma interpretação articulando os marcadores da diferença e da desigualdade – de gênero/‘sexo’, raça e classe.

Diante do exposto, retomar a trajetória e obra de Lélia Gonzalez na data de 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha – é trazer para centralidade do debate um pensamento intelectual que nos auxilia a interpretar o passado das relações raciais e de gênero, bem como a (re)ORÍentar o presente a partir de um pensamento que se mantém vivo e insurgente. Seu trabalho é singular, original e vem mostrando atualidade e importância.

Finalizamos retomando as palavras de Luiza Bairros sobre Lélia Gonzalez:

Havia uma aldeia. Um dia chegou a essa aldeia uma amazona de torço estampado de esperança, montada num cavalo negro como nossa ancestralidade. E ela, como um antigo “griot”, contava e contava histórias. Histórias das mulheres guerreiras, histórias dos Núbios, de civilizações egípcias cor da noite que construíram a base da humanidade. Contava história de Nani, no centro da América defendendo seu povo. O que ela queria, todo tempo, era passar para o povo da aldeia o entendimento daquilo que eles viam a seu redor. O tempo todo ela contava a perspicácia dos caminhos que outras tribos percorreram. Ela transmitia CONHECIMENTO. A ideia de liberdade passada por essa amazona, de torço estampado de esperança, montada em seu cavalo negro como nossa ancestralidade era tanta, que várias outras aldeias, tribos, estados pararam para ouvi-la. E absorviam cada ideia contada por ela. Um dia, quando a aldeia acordou, percebeu que ela havia partido. Todos ficaram perplexos, confusos… Como? Quem nos contaria outras histórias, quem? A aldeia caiu em desânimo, tamanha era a falta que fazia a amazona de torço estampado de esperança, montada em seu cavalo negro como nossa ancestralidade. De repente, as pessoas se entreolharam e compreenderam que ela precisava continuar o seu caminho e que caberia a cada um transformar a semente deixada em substância. Caberia a cada aldeia, cada tribo, cada estado que bebeu de suas ideias, difundi-las. Grande era essa tarefa, pois caberia a todos eles, a todos NÓS, tornar os homens e mulheres conscientes de sua negritude. Valeu, Lélia Gonzalez! (Bairros, 1999: 1).


Notas

[1] Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (PPGCS/UFU). Desenvolve o projeto de pesquisa intitulado “Raça, gênero e classe e a contribuição de Lélia Gonzalez para o Pensamento Social”, financiado pela FAPEMIG e orientado do Prof. Dr Moacir de Freitas Junior. Integrante e pesquisadora no Grupo de Estudos e Pesquisa em Poéticas Latino-americanas e Afrodiaspóricas e Educação para as Relações Étnico-Raciais- Yalodê Geplafro/CNPQ.

[2] Cabe destacar que Lélia adotou o sobrenome Gonzalez quando adulta, depois do casamento com um espanhol, Luiz Carlos Gonzalez, amigo da época da faculdade.

Referências

BAIRROS, Luiza. (1999). Lembrando Lélia Gonzalez. Afro-Ásia, n. 23. Salvador, pp. 347-368.

BARRETO, Raquel de Andrade. (2005). Enegrecendo o Feminismo ou Feminizando a Raça: Narrativas de Libertação em Angela Davis e Lélia Gonzalez. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro.

BOTELHO, André & SCHWARCZ, Lilia Moritz. (2009). Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras.

GONZALEZ, Lélia. (2020). Por um feminismo afro-latino-americano. Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. São Paulo, Zahar.

NUN, José. (1978). Superpopulação relativa, exército industrial de reserva e massa marginal. In: PEREIRA, Luiz. (org). Populações Marginais. São Paulo: Duas Cidades.

RATTS, Alex & RIOS, Flávia. (2010). Lélia Gonzalez. São Paulo: Selo Negro.

VIANA, Elizabeth do Espírito Santo. (2006). Relações raciais, gênero e movimentos sociais: o pensamento de Lélia Gonzalez 1970 – 1990. Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Universidade Federal do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro.

A imagem que abre o post é de autoria de Januário Garcia. Rio de Janeiro, 1980.

Deixe uma resposta