BVPS Coletâneas | Andaimes, massa corrida, Joaquim Nabuco, Anitta: assistir um curso sobre Mário de Andrade no centenário da Semana de Arte Moderna, por Lucas van Hombeeck

Passado-futuro é a terceira e última parte da BVPS Coletâneas dedicada aos 130 anos de Mário de Andrade. Evocando o baralhamento tenso de temporalidades que conformam o processo social – nunca linear e homogêneo – contemporâneo, os textos aqui reunidos evidenciam um intelectual que fez parte do seu tempo, mas também lutou contra ele e para mudá-lo. Afinal, não só a política, mas também as ideias constituem um campo de forças, e existem várias maneiras de se participar de um mesmo “contexto intelectual”. 

Como as lutas de Mário podem nos equipar para enfrentar os impasses gerados pelo retorno, violento e socialmente legitimado, dos valores e práticas autocráticas recalcados da velha sociedade brasileira, desenganada erroneamente, ao espaço público e à política? Entre passado-futuro, o presente parece nos exigir urgentemente um gesto mais radical para requalificar a cultura como um campo aberto de conflito pelo controle dos significados das mudanças na sociedade. 

Neste post, Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ e NEPS), a partir de sua experiência como aluno num curso sobre o movimento cultural modernista no ano do centenário da Semana de Arte Moderna, reflete sobre as contradições, os limites e as oportunidades que os legados de Mário de Andrade ainda têm a nos oferecer.

Para conferir a apresentação e o sumário da BVPS Coletâneasclique aqui. Os posts da seção Passado-futuro podem ser conferidos aquiaqui e aqui.

Boa leitura!


Andaimes, massa corrida, Joaquim Nabuco, Anitta: assistir um curso sobre Mário de Andrade no centenário da Semana de Arte Moderna

Por Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ e NEPS)

Joana Lavôr, selo – detalhe

Você é uma sólida inteligência e já muito bem mobiliada… à francesa. Com toda a abundância do meu coração eu lhe digo que isso é uma pena. Eu sofro com isso. Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século XIX, seja ingênuo, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. O natural da mocidade é crer e muitos moços não creem. Que horror!

Mário de Andrade em carta a Carlos Drummond de Andrade, 10 de novembro de 1924

Na bio do perfil de Instagram @andrepereirabotelho, está escrita uma definição curta: “Sociólogo. Admirador de Mário de Andrade”.

Me lembro de um amigo que me conta que a palavra admirar tem uma etimologia que significa algo como “olhar junto”. Olhar alguma coisa enquanto os outros olham a pessoa olhando, ou enquanto todos olham essa mesma coisa. Georg Simmel, um sociólogo da virada do século XIX para o XX, era descrito por alguns de seus alunos como alguém capaz de falar sobre as coisas como se segurasse um objeto nas mãos e o girasse, convidando os presentes a fazer o mesmo, sem nunca esgotar o assunto.

O nome do autor daquele perfil no Instagram é o mesmo que está no programa da disciplina “Modernismo: cultura, política e aprendizado social”, que aconteceu no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, com vários professores convidados, no primeiro semestre de 2022. Um curso sobre Mário de Andrade no centenário da Semana de Arte Moderna (e no bicentenário da Independência do Brasil).

Há críticos que defendem que o tema profundo da autobiografia é o nome. Li um texto, há pouco tempo, em que a personagem troca de prenome. Ela faz isso, segundo conta, para romper com a mãe. Em inglês, língua materna da personagem, a palavra para prenome é “given name”. Um nome dado. Noutro livro, escrito por alguém que também muda de nome, leio que um nome precisa ser recebido, como um presente, mas que também é necessário lutar por ele.

Por conta da pandemia da Covid-19, tive que fazer todas as disciplinas do meu doutorado à distância. A primeira em que pude estar presencialmente foi aquela, que se desdobrava a partir do livro O modernismo como movimento cultural. Mário de Andrade, um aprendizado (2022), de André Botelho e Maurício Hoelz. A publicação delimita uma perspectiva sobre a ação coletiva em arte daqueles produtores de cem anos atrás, e em especial de Mário, teoricamente apoiada no conceito de movimento cultural, que o próprio livro elabora em diálogo com as teorias dos movimentos sociais e da relação entre cultura e sociedade.

Mas o curso não era sobre o livro.

Era um curso sobre o que ficou de fora, ou que ia além das possibilidades daquele ponto de chegada, em particular, dos dois pesquisadores. Ao mesmo tempo os andaimes – o livro como um canteiro de obras – e as latas de massa corrida que sobram da construção, esperando por uma próxima. Antes de qualquer coisa, olhamos juntos para Mário de Andrade, e olhamos uns aos outros, dentro e fora de uma sala de aula. Depois de tanto tempo separados, conversamos sobre confronto político, Joaquim Nabuco e Anitta. Sobre a cultura como processo, sobre dependência cultural e cosmopolitismo.

Muitas revisões críticas da Semana de 22 leram as contribuições de seus atores sob a perspectiva da identidade nacional. E este é mesmo um momento de discutir publicamente e recusar as violências simbólicas, a exclusão e as relações de dominação envolvidas nos processos de construção do nosso Estado-nação e de nacionalização da nossa vida social.

Brasil, nome de vegetal.

Mas, se identidades são relações, é preciso desconstruir e problematizar a ideia de identidade nacional e mostrar suas fraturas não apenas como processo “internos”, mas também na dialética do local e global. Girar o modernismo nas mãos para discutir questões relacionadas à dependência cultural, ao papel da cultura brasileira no mundo e às desigualdades da geopolítica global de produção do conhecimento.

O que olhamos juntos nessa disciplina foi, em poucas palavras, o projeto de democratização da cultura pelo qual Mário de Andrade lutou.

Muitos de seus projetos, como esse, ficaram inacabados. Outros, também como esse, produziram um repertório que ainda é capaz de provocar efeitos democratizantes num ambiente cultural tão elitizado e eurocêntrico como o nosso. Numa disciplina de pós-graduação sobre movimentos culturais para o qual fui convidado a dar uma das aulas, logo após a experiência como aluno, fiz um comentário sobre a noção de patrimônio imaterial em Mário e seu potencial no combate a desigualdades específicas do processo cultural (já que o patrimônio material em geral é aquele que fica para contar a história das classes dominantes). Um dos colegas, então, fez uma intervenção em que perguntou como seria possível pensar a política dos Pontos de Cultura do Ministério Gilberto Gil sem essa interpretação de Mário.

Isso nos mostra duas coisas.

A primeira é a importância da interação construída numa sala de aula para debates como esse. A outra é que avaliações sobre o sucesso ou o fracasso de movimentos culturais não podem abrir mão de uma noção de processo capaz de perceber as linhas de ruptura e continuidade na história e no presente, feito, como ele é, de múltiplas temporalidades.

Esta imundície de contrastes. Este assombro de misérias e grandezas.

Esse curso a que assisti em 2022, escrevo sobre ele tentando mostrar o que pude perceber dos seus andaimes – o curso como um canteiro de obras – mas também as latas de massa corrida que ficaram disponíveis para que nós, alunos e alunas, fizéssemos outras coisas dali em diante. Olhamos juntos para o modernismo e fomos convidados a perceber suas contradições, seus limites e as oportunidades que seus legados ainda nos oferecem. Algo que é transmitido, como um presente, mas pelo que é necessário lutar. Brasil, nome de vegetal.

Aprendemos que se o projeto de Mário de Andrade fracassou, interrompido por duas ditaduras, sequestrado por recepções que o simplificaram e transformaram, por vezes, em clichês da indústria cultural, somos de certa forma chamados a continuá-lo. Não precisamos negar o modernismo. Ninguém é capaz de se libertar completamente, de qualquer modo, das teorias-avós de que bebeu. Mário de Andrade é nosso avô. Macunaíma também. E a negação desse passado, a recusa desse repertório, também aprendemos, pode chegar em alguns casos a ter a face de um negacionismo.

Num diálogo entre uma ex-orientanda e sua professora, Alyne Costa e Debora Danowski, sobre os negacionismos do nosso tempo, lemos que aqueles a quem chamamos negacionistas são, em geral, pessoas que não querem ser enganadas. Assim, contestam conclusões científicas, por exemplo, denunciando que por trás delas há interesses. O que esse tipo de refutação tem como pressuposto é uma imagem de ciência neutra, isenta de determinações históricas, sempre à beira de ser corrompida por interesses escusos de elites com linguagens pouco acessíveis. O que esse diálogo propõe como crítica, no entanto, é que muitas vezes essa imagem da ciência neutra é defendida pelos próprios cientistas, que se representam como portadores de uma missão de esclarecimento dos enganados.

O argumento de Alyne se apoia sobre a noção de vontade de verdade em Nietzsche, que, nos termos do autor, é “apenas o ansiar por um mundo do permanente”. Assim, o que está em jogo na análise é uma dificuldade dos atores em lidar com certas mudanças sociais. No caso analisado por ela, a catástrofe climática se impõe como uma realidade que exige mudanças profundas na maneira como as sociedades se organizam e relacionam com o mundo. No nosso, talvez fosse possível pensar nas contradições de uma cultura que é tão autoritária e violenta ao mesmo tempo em que se abre para processos de democratização tão significativos.

A negativa de um passado como um tempo em que as conquistas de hoje ainda não estavam alcançadas corre o risco de ser uma maneira paradoxal de negar as próprias conquistas (e a tarefa de sua manutenção) no presente. A sociologia nos ajuda a compreender que há transmissões de práticas e representações que acontecem a despeito da consciência dos agentes. Isso faz parte do processo e de uma história que nós fazemos, sim, mas não como queremos.

Em depoimento à ocupação Olhares, Axé, hospedada no Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS/Fiocruz), Pai Adailton Moreira D’Ogun também nos ensina algo sobre a independência e o modernismo, a transmissão e a liberdade. Saio desse texto escutando as palavras dele. Talvez possamos entrar no mundo com um pouco mais dessa conversa.

Há uma comemoração dos duzentos anos da independência do Brasil. Quando que nós vamos tirar os grilhões de nossos tornozelos, de nossos punhos, de nossas mentes, para que a gente de fato faça uma cultura e uma arte independentes? Cabe aos artistas e aos agentes culturais promoverem isso cada vez mais, se libertarem, deixar seus Ori, suas mentes se tornarem livres. É preciso que nós façamos esse exercício que dói demais. Se libertar de uma escola conceitual de arte. O que é arte? Arte é andar, arte é sorrir, arte é brincar, arte é bater na mão. Arte é mover o corpo. E nossos corpos continuam aprisionados dentro de uma escola extremamente eurocentrada. É preciso beber nas diversas fontes de uma arte livre. De uma arte libertária. Cabe aos artistas, ao povo, poderem ter o direito a expressar suas artes. É preciso libertar-se desses grilhões que nos imputam imobilidades. A arte também pode se apresentar enquanto algo imóvel, mas ela passa uma mensagem. A Semana de 1922 foi um marco para que a arte pudesse avançar. Mas precisa-se que tenhamos mais alguns outros avanços. É preciso novos passos. É preciso que a gente diga Ona Ire, bons caminhos, a gente constrói esses bons caminhos da arte. Então a Semana de 22 foi um marco, cem anos, mas a gente precisa ainda continuar batendo nos pregos que ainda estão para fora. Quando eu digo isso é essa arte escolar, universalista que aprisiona as nossas mentes, os nossos corpos, as nossas falas. A gente precisa mostrar o que é mais arte. O que é arte? A arte é tudo, então a gente precisa se abrir pro funk, pro rap, pras diversas artes que continuam a ser inferiorizadas, entre o que é erudito e o que é espúrio. O que é erudito e o que é espúrio? O espúrio é tudo aquilo que essa escola teima em dizer que não reconhece, é esse outro inferiorizado. Os artistas, que não são os marginais – porque 22 trouxe os marginais – a gente precisa dos novos artistas que sempre foram negados em suas artes. Então é isso que eu acredito, é isso que eu peço e que eu digo, vamos mostrar as outras artes que não fazem parte dessa filosofia artística universalista e imperialista. A gente precisa nos dar esse prazer; a gente precisa navegar.

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