
Passado-futuro é a terceira e última parte da BVPS Coletâneas dedicada aos 130 anos de Mário de Andrade. Evocando o baralhamento tenso de temporalidades que conformam o processo social – nunca linear e homogêneo – contemporâneo, os textos aqui reunidos evidenciam um intelectual que fez parte do seu tempo, mas também lutou contra ele e para mudá-lo. Afinal, não só a política, mas também as ideias constituem um campo de forças, e existem várias maneiras de se participar de um mesmo “contexto intelectual”.
Como as lutas de Mário podem nos equipar para enfrentar os impasses gerados pelo retorno, violento e socialmente legitimado, dos valores e práticas autocráticas recalcados da velha sociedade brasileira, desenganada erroneamente, ao espaço público e à política? Entre passado-futuro, o presente parece nos exigir urgentemente um gesto mais radical para requalificar a cultura como um campo aberto de conflito pelo controle dos significados das mudanças na sociedade.
Neste post, Angela Teodoro Grillo (UFPA), atentando para a multiplicidade histórica das experiências negras, nos apresenta a proposta de recortar o que denomina “losango negro” na poética arlequinal de Mário de Andrade a fim de entrever as complexas figurações raciais recalcadas em sua obra.
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Boa leitura!
Considerações sobre o Losango Negro, no pensamento de Mário de Andrade[1]
Por Angela Teodoro Grillo (UFPA)

A obra de Mário de Andrade (1893-1945), édita e inédita, oferece um caminho amplo para se compreender criticamente o Brasil, na medida em que se trata de um projeto (re)conhecedor da diversidade cultural nacional. Tal aspecto marioandradiano define-se na contramão do elogio ao exótico (Andrade, 2019), de modo que busca compreender como se estabelecem as relações sociais, inclusive, levando em conta três séculos de herança colonial. O conjunto reúne vasta produção, equivalente a mais de três décadas da primeira metade do século XX, em São Paulo – cidade em processo de industrialização. Homem mestiço, morador da Barra Funda, bairro entre-lugar que divide o espaço urbano “branco e rico” do “negro e pobre”, Mário de Andrade transita pela cidade: trabalha no centro, frequenta palacetes de Higienópolis, dialoga e é respeitado por grande parte da elite intelectual da época, como comprova também seu conjunto epistolar. Perambula pela cidade: no vale do Anhangabaú, no Cambuci e no outro lado do rio Tietê (Grillo, 2022).
A criação do polímata, inclusive nas parcelas inacabadas ou interrompidas pela morte, oferece, de forma interconectada, as facetas de Mário de Andrade: romancista, poeta, prosista, cronista, crítico da literatura, das artes plásticas e da música, fotógrafo, jornalista, etnógrafo, estudioso do folclore, professor catedrático de piano no Conservatório Dramático de São Paulo, primeiro diretor do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo – cargo que lhe permitiu desenvolver uma parcela de seus projetos inovadores e democráticos –, professor catedrático de Filosofia e História da Arte na Universidade do Distrito Federal, etnógrafo, estudioso do folclore, africanista, colecionador, primeiro presidente de Sociedade de Etnologia e Folclore de São Paulo, idealizador do SPHAN, hoje IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A maior parte do material produzido nessas diferentes instâncias, se não publicada em vida, encontra-se preservada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Compõem o acervo de Mário de Andrade o arquivo, a biblioteca e a coleção de artes plásticas, reunindo peças de arte e da imaginária religiosa.
O interesse por interpretar o país, e as diferentes regiões que o compõem, encontra fontes que ultrapassam as fronteiras nacionais, ampliando ainda mais as possibilidades de pesquisas dedicadas à produção de Mário de Andrade. Como professora e pesquisadora da Literatura Brasileira, a poesia, principalmente poemas líricos, serve como fio condutor para os estudos por mim realizados no campo das relações étnico-raciais na obra de Mário de Andrade. Cuido de compreender em um universo individual, na construção particular de uma linguagem, a expressão de uma voz poética que mantém uma relação com o sujeito coletivo, como propõe Theodor Adorno (2003).
A poesia de Mário de Andrade, conforme adverte Gilda de Mello e Souza (2005: 31), solicita uma leitura atenta do pensamento do poeta, que “sempre aflora camuflado através de símbolos, metáforas, substituições” e, além disso, configura-se como “expediente impenetrável para quem não possui um conhecimento mais profundo, tanto da realidade brasileira, como da biografia do autor”. Ou seja, exige um esforço interpretativo tanto da linguagem, que figura reflexões do vate, como de aspectos sociais e pessoais que participam como matéria-prima na construção dos versos. Meu trabalho segue a metodologia de pesquisa de Telê Ancona Lopez[2], que, grosso modo, é conduzida por dois principais movimentos: focalizar um objeto da criação e buscar conectá-lo com outras produções do polígrafo, a fim de alcançar uma interpretação capaz de encontrar elos do pensamento desse intérprete do Brasil. Desse modo, poemas que participam do losango negro são estudados em diálogo com diferentes facetas da produção de Mário de Andrade, como a correspondência e os ensaios.
Delineando o Losango Negro
Em Pauliceia desvairada, o arlequim, que se mostra como a voz do próprio sujeito lírico, afirma-se para além dos diálogos do artista com as vanguardas europeias do início do século XX, na medida em que o poeta, ao captar e atualizar elementos dos vários ismos, submete-os, sempre, ao seu projeto de construção de uma arte brasileira moderna.
Além de equivaler à poética traçada pelo artista, que trabalha um crivo crítico das vanguardas e da arte do passado (Lopez & Figueiredo, 2013), o traje de arlequim tem, nos losangos coloridos que o constituem, a primeira metáfora da multiplicidade que acompanhará todos os caminhos do artista, todas as facetas do polímata e do cidadão engajado em projetos políticos e culturais renovadores. O losango do arlequim funde-se, aliás, ao losango da nossa bandeira, em uma brasileira geometria.
A ideia da multiplicidade na interpretação dos versos de Mário de Andrade é inaugurada por Antonio Candido, em 1942, ano seguinte ao da publicação de Poesias – reunindo as obras Pauliceia desvairada, Losango cáqui, Clã do jabuti, Remate de males, A costela do Grã Cão e Livro azul –, quando mapeia o universo do poeta facetado em vários caminhos. O crítico distingue, então, “o poeta folclórico”, o “poeta de si mesmo” e o “criador de uma poética” (Candido, 1942). Ainda naquele ano, em ensaio dedicado à mesma obra, Álvaro Lins sublinha uma dicotomia que será explorada desde então pela crítica, mostrando, no poeta, “o sentimento de sua terra e o sentimento íntimo do homem” (Lins, 2007). Anos mais tarde, João Luiz Lafetá (1986), seguindo Antonio Candido e Álvaro Lins, aprofunda a ideia de que Mário de Andrade encontra na poesia o locus para dar vazão a uma multiplicidade que lhe serve para esmiuçar o “si mesmo” e o coletivo. Para os críticos, a poesia caleidoscópica de Mário de Andrade compõe-se de diferentes elementos que figuram como temas, sejam eles sociais ou individuais.
Nesse sentido, da roupa do arlequim, destaco um losango como metáfora da presença do negro na poesia mariodeandradiana. A solução do vate, ainda em 1922, de extrair, da farda envergada nesse ano, o losango cáqui para o título que congrega os poemas transfiguradores dos seus exercícios militares de reservista, no livro que só conseguirá publicar em 1926, suscita, para o meu trabalho, a chave analítica do losango negro. Ao julgar que os recortes participam de um conjunto que é o da poesia multifária, percebo que o negro metaforizado no losango une-se ao colorido que tece a criação do poeta mestiço, consciente da miscigenação do brasileiro e da sua própria.
Maria de Lourdes Teodoro, em Modernisme brésilien et négritude antillaise: Mário de Andrade et Aimé Cesaire (1999), ao comparar os dois escritores, reconhece sobretudo semelhanças, pois ambos provêm de países mestiços, colonizados e ambos enxergam nesse espaço um “caos cultural”. Adeptos do surrealismo, eventualmente Mário e acentuadamente Césaire, utilizam-se dessa estética para exercitar um poder que libera o olhar, a percepção do mundo e da condição humana. O livro ancora-se, sobretudo, no estudo de identidade realizado por Daniel Pageaux, para quem, resumidamente, o processo de autoconhecimento vem simultaneamente a um processo de conhecimento do outro. Nesse sentido, Mário de Andrade e Aimé Cesaire, segundo a autora, passam por um processo semelhante de conhecimento do povo de seus países, concomitante ao conhecimento de si mesmos, como indivíduos. Essa conclusão firma a singularidade do ensaio, na medida em que inaugura uma aproximação do discurso modernista de Mário de Andrade com a Négritude.
Por outro lado, serve à reflexão do losango negro também estudos como Raça e cor na literatura brasileira (1983),de David Brookshaw. No livro do brasilianista, Mário de Andrade ganha duas parcelas no capítulo “O negro e o modernismo: um novo estereótipo”. Após discorrer sobre Macunaíma, o ensaísta, em “O mestiço branco”, considera alguns trechos de “Dois poemas acreanos” e do “O improviso do mal da América”, para classificar o escritor como “a expressão mais completa e sincera na literatura brasileira da situação do intelectual colonizado” que, junto de Jorge de Lima, faz “a exaltação da identidade brasileira culturalmente mestiça”.
O estudioso conclui o capítulo afirmando que “Mário de Andrade, o relutante ‘mestiço branco’, tem sido através dos anos um exemplo da mais radical manifestação de nacionalismo cultural produzido pela geração modernista”. Ainda que considere a importância de Mário de Andrade no campo da valorização da cultura brasileira, identifico nos estudos sobre a sua obra poética e ficcional, quando se tangencia a discussão da voz negra, uma tendência ao não reconhecimento do escritor nessa esfera. Creio que se trata de uma inclinação que considera a experiência do negro na medida em que se identifica elementos que correspondam a uma atuação identitária afirmativa/combativa como propõem legitimamente os teóricos de literatura afro-brasileira e/ou negra. As representações criadas por um escritor negro – sobre o negro – podem ser diversas, pois são originárias da experiência do indivíduo, portanto, deve-se levar em conta o complexo aspecto subjetivo, inclusive, daquele que não se posiciona, como se espera.
Pensando na dicotomia “negro-tema e negro-vida” (Barbosa, 2006) elaborada por Guerreiro Ramos, entendo que uma parte da crítica, ao levar em conta o aspecto racial, considera que Mário de Andrade opta pela ótica do “negro-tema”, isto é, o negro que, em alguns escritores figura como “uma coisa examinada, olhada, ora como ser mumificado, ora como ser curioso”. A contrapelo dessas leituras, identifico em Mário de Andrade a esfera do “negro-vida”: “algo que não se deixa imobilizar, é despistador, profético, multiforme, do qual, na verdade não se pode dar versão definitiva”. Por isso, quando penso que na literatura brasileira há uma pluralidade de vozes negras, polifonia que cresce e não anula nenhuma outra parte, incluo, pois, Mário de Andrade nesta afirmação de Ianni:
Nem sempre, no entanto, esse universo humano social, cultural e artístico está explícito, pleno. Em alguns escritores ele pode aparecer em fragmentos, pouco estruturados. E há mesmo obras nas quais ele parece recôndito, invisível, sublimada. Esse pode ser o caso de Cruz e Souza e Machado de Assis. Nesses autores o tema da negritude, ou negrícia, estaria implícito, subjacente, decantado. Mas pode ser um segredo de sua invenção literária, de tal maneira que sem ele suas obras permaneceriam inexplicáveis (Ianni, 2011: 1985).
Concordando com Eduardo de Assis Duarte (2010: 78), suponho que no Brasil, de fato, “A ideia de branqueamento implica denegação do ser e do existir negro num país racista e camuflado”. Mas por que não pensar que as negações e ou disfarces podem ser experiências que também trazem em si um existir negro que valem ser observadas nos estudos literários e sociais? A experiência de ser negro, em uma sociedade racista, passa pelo subjetivo e, por isso, suas particularidades, explicitamente engajadas ou não, podem participar da criação literária. Nesse sentido, o pensamento de Stuart Hall contribui para minha interpretação do losango negro, principalmente nesse trecho que, apesar de longo, merece ser citado:
Existe, é claro, um conjunto de experiências negras historicamente distintas que contribuem para os repertórios alternativos que mencionei anteriormente. Mas é para a diversidade e não para a homogeneidade da experiência negra que devemos dirigir integralmente a nossa atenção criativa agora. Não é somente para apreciar as diferenças de histórias e experiências dentro de, e entre, comunidades, regiões, campo e cidade, nas culturas nacionais e entre diásporas, mas também reconhecer outros tipos de diferenças que localizam, situam, posicionam o negro. A questão não é simplesmente que, visto que nossas diferenças raciais não nos constituem inteiramente, somos sempre diferentes e estamos negociando diferentes tipos de diferenças – de gênero, sexualidade, classe. Trata-se também do fato de que esses antagonismos se recusam a ser alinhados; simplesmente não se reduzem uns aos outros, se recusam a se aglutinar em torno de um eixo de diferenciação. Estamos constantemente em negociação, não com um único conjunto de oposições que nos situe sempre na mesma relação com os outros, mas como uma série de posições diferentes. Cada uma delas tem para nós o seu ponto de profunda identificação subjetiva. Essa é a questão difícil da proliferação no campo das identidades e antagonismos: elas frequentemente se deslocam entre si (Hall, 2008: 327-328).
Pensando, portanto, nas diferentes possibilidades de experiências negras, tomo mais uma vez a ideia de Eduardo de Assis Duarte, para quem “a afrodescendência [em Mário de Andrade] assume a forma de retorno do recalcado”. Relembro que, nesse conceito psicanalítico usado por Duarte, o recalque é um mecanismo psíquico cuja “essência consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância”, pois “o motivo e o propósito da repressão nada mais eram do que a fuga ao desprazer” (Freud, 1996: 152).[3] Na sequência de sua análise, Freud reconhece que este mecanismo de defesa gera uma energia que será canalizada para outra esfera do consciente, sendo assim, o recalque não desaparece simplesmente; caso desapareça, não é mais possível ser analisado. Penso que se houve, de fato, um recalque no escritor mulato, o poeta encontrou, na arte, o seu lugar de vazão. Essa hipótese nasce da leitura de “Reconhecimento de Nêmesis”, poema escrito em 1926, em que a voz negra é patente e o sujeito lírico promete concertar (com C) “as cruzes do seu destino” (v. 188).[4]
Além disso, vale notar que o momento histórico favorece os processos de recalcamento social em que, por exemplo, os negros vivem as mazelas do preconceito (como ainda hoje). O poeta Mário de Andrade transfigura em seus versos, no losango negro no qual me detenho, não apenas um conteúdo negro individual, mas coletivo, isto é, dos negros de sua época; que vivem no contexto do racismo científico e da falácia de uma democracia racial.
Na poesia de Mário de Andrade, o eu poético que observa o negro na sociedade, e se solidariza com ele, também surge como sujeito lírico, elaborando questões subjetivas. São manifestações que não se anulam; na verdade, coexistem em alguns momentos. No percurso de minhas pesquisas, procuro por imagens poéticas que moldam esses dois aspectos, para alcançar uma compreensão da presença do negro na obra do polígrafo. Neste momento, revisito, para publicação prevista para 2024, os estudos de três títulos, trabalhados em minha tese de doutorado (Grillo, 2015). Em suma, em “Reconhecimento de Nêmesis” (1926; 1941), o sujeito lírico nega, mas também acolhe o menino “moreno” que é seu duplo; nos doze “Poemas da Negra” (1928), ao encontrar sua musa maior, o eu poético a resgata da condição marginal de pobre e prostituta, transgredindo a tradição literária brasileira no que ela direciona, à negra, versos pejorativos: o poeta, por sua vez, assemelha-se à musa de azeviche, com quem alcança, no plano cósmico, a plenitude do encontro amoroso. Em “Nova canção de Dixie”(1944), quando o sujeito lírico elimina qualquer possibilidade de visitar uma terra onde existe linha de cor, vendo, no afastamento, uma forma de se solidarizar com as vítimas da vilania do racismo dos Estados Unidos.
No universo da poesia multifária de Mário de Andrade, coexistem muitos losangos a serem estudados, como o vermelho (indígena), o losango branco (imigrante europeu). Ao reconhecer que o escritor, quando busca compreender a entidade brasileira, inclui a presença negra de forma valorativa e não exótica e, além disso, experimenta a miscigenação na própria existência, o losango negro integra-se ao traje do poeta arlequinal e reverbera no pensamento do artista e intelectual, intérprete do Brasil.
Angela Teodoro Grillo é doutora em Letras/Literatura Brasileira (FFLCH-USP, 2015) e Professora de Literaturas de Língua Portuguesa (ILC/FALE-UFPA).
Notas
[1] O presente texto refere-se a uma parcela da introdução de O losango negro no pensamento de Mário de Andrade, um intérprete do Brasil, livro de minha autoria, que integra a Coleção Encruzilhadas, da Editora Cobogó, no prelo.
[2] Grande parte da produção intelectual da pesquisadora foi recentemente organizada e está disponível em e-book gratuito. Ver Lopez (2021). A dissertação Processo de criação do manuscrito Preto: um inédito de Mário de Andrade (FFLCH-USP, 2010) e a tese O losango negro na obra de Mário de Andrade (FFLCH-USP, 2015), de minha autoria, foram orientadas pela Professora Telê Ancona Lopez; o segundo trabalho foi eleito como melhor tese do programa de Literatura Brasileira de 2015 e indicado ao Prêmio Capes de melhor tese do ano.
[3] Cabe lembrar que “recalque” e “repressão” são diferentes traduções do mesmo conceito discutido por Freud.
[4] Pensando a arte como lugar possível de atuação de um mecanismo de defesa psíquico, destaco a artista plástica Louise Bourgeois, cuja arte ganha explicitamente um caráter psicanalítico; em uma de suas obras escreve “Art is a Garanty of Sanity”.
Referências
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