Ocupação BVPS Mulheres 2024 | Carta de uma antropóloga a antropólogos, por Alcida Rita Ramos

Na primeira atualização do dia, publicamos na coluna Desassossegos, de Alcida Rita Ramos (UnB), uma carta de sua autoria dirigida aos antropólogos, especialmente os do contexto etnográfico yanomami.

Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres. Organizada pela editora Caroline Tresoldi, doutoranda em Sociologia no PPGSA/IFCS/UFRJ, neste ano de 2024 serão publicados cerca de 30 textos. São narrativas distintas: ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas, que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

Continue acompanhando as publicações da Ocupação BVPS Mulheres 2024. Para saber mais sobre a iniciativa deste ano, dedicada às mulheres e meninas palestinas, clique aqui.

Boa leitura!


Carta de uma antropóloga a antropólogos

Brasília, 29 de fevereiro de 2024

Caros colegas,

Certamente estranharão esta carta inesperada de uma antropóloga interpelando etnógrafos, vivos e mortos, famosos e ignotos, sobre o desinteresse (ou desdém) por mulheres, tanto em aldeias indígenas como no meio acadêmico, no estrito senso antropológico, frisemos bem. Por desígnio ou distração, ignoraram o mundo feminino – como se pudessem se dar a esse luxo – talvez supondo que aquele mundo nada acrescentaria ao conhecimento de uma realidade indígena. Nesta carta, dirijo-me especificamente ao contexto etnográfico yanomami.

Pois ao darem as costas à metade feminina das comunidades yanomami que estudaram, vocês não sabem o que perderam na vida e na carreira. Construir um texto de quase 500 páginas para louvar as proezas predatórias de homens yanomami, como manifestações do “lugar do homem na natureza” (Sponsel, 1981), é dispender esforço, tempo e espaço demais para descrever apenas metade daquele universo humano; meio milhar de páginas em que grita o silêncio quase total sobre a outra metade, aquela que abriga, reproduz, alimenta tanto o estômago quanto a mente dos concidadãos. Numa tese de doutorado há muito esquecida, o autor, adepto da sociobiologia (Melancon, 1982), retratou as mulheres yanomami como entes guiados pelas leis da evolução, manejando o número de filhos de acordo com a capacidade ambiental ao seu redor. E vejam que as próprias antropólogas não estão livres de cair na armadilha das ideias recebidas do reino viril da academia. Uma etnógrafa, cuja pesquisa de campo entre os Yanomami da Serra de Surucucus foi seriamente prejudicada pela aspereza do contexto etnográfico, talvez por carência de dados próprios, seguiu acriticamente o roteiro da inferioridade das mulheres yanomami (Shapiro, 1972). Na mesma década, Michelle Rosaldo e Louise Lamphere (1974), na sua já clássica e bem-intencionada coletânea, propõem mudar o cenário misógino da antropologia, mas não conseguem se desvencilhar da armadilha preparada no Ocidente e exportada para mundo. Quando afirmam que, “embora o grau e expressão da subordinação feminina varie muito, a assimetria sexual é atualmente um fato universal da vida social humana” (Rosaldo & Lamphere, 1974: 3), enchem o prato dos nossos colegas misóginos!

Talvez, caros colegas, vocês não tenham notado que Eleanor Leacock, há mais de quatro décadas, afirmava que o tratamento etnográfico dado a mulheres indígenas nada mais era do que uma projeção da sociedade a que pertencia o etnógrafo. Usando o que ela chamou de fraseologia etnocêntrica, esses estudiosos, na ausência de pesquisas aprofundadas sobre homens e mulheres indígenas, displicentemente aplicavam o que sabiam de seu próprio meio. Demasiadas perguntas sobre mulheres deixaram de ser feitas, de modo que as “lacunas nos registros etnográficos eram prontamente preenchidas com clichês” (Leacock, 1978: 247). Davam como universal a premissa de que a maternidade ata as mulheres definitivamente à esfera doméstica que, como sói ser no Ocidente, é destituída de poder. “Raramente se considera a possibilidade de homens e mulheres serem ‘distintos, mas iguais’, o que não é surpresa, já que condiz com o fato de nossas mulheres serem intimadas a valorizar… a maternidade” (Leacock, 1978: 248). No entanto, mesmo com sua visão lúcida, Leacock encampou um aspecto da velha guarda que não encontra fundamento nos dados etnográficos, ao menos sobre o povo yanomami. Supõe ser incontornável o impacto de forças externas sobre a ordem indígena de equivalência social dos gêneros. Com a perda de terras, o trabalho assalariado e outras mudanças drásticas na vida indígena, “a opressão das mulheres, originalmente delineada por Engels, é realmente transcultural” (Leacock, 1978: 256). Assim, a mesma crítica que a autora faz aos usuários de fraseologia etnocêntrica volta-se contra ela. Na ausência de dados em primeira mão, serve apelar para outra ideia recebida: o capitalismo destrói culturas.

Parece que a ninguém ocorreu expor o viés que a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (2009) chamou de o perigo de uma história única. O registro etnográfico está repleto de exemplos que indicam que a guerra não é feita por mulheres, que duelos corporais não as atraem, que a bravata masculina tem sua contraparte feminina no exercício da exortação, que nurture não faz nature, que a diferença de força muscular entre homens e mulheres não as impede de pensar, persuadir, governar, não tanto no palco das aparências, mas nos bastidores das decisões (Golde, 1986). Isto mostra “quão impressionáveis e vulneráveis somos diante de uma história” (Adichie, 2009: 13), uma única história a que chamo de ideias recebidas. Ou seja, o que Adichie repele como agressões aos povos africanos, eu rebato como agressões às mulheres em geral e às indígenas em particular. Por que os praticantes de antropologia, de ambos os sexos, insistem em engessar o modo de ser feminino no molde rígido do masculino, tendo à sua frente uma abundância de contraexemplos? Por que não buscar entender uma outra lógica, distinta, mas equivalente na diferença? Por que seguir cegamente a falácia de que um idioma é superior a outro? Por que não dizer, como Blaise Pascal, que o lado masculino exerce l’esprit de géométrie enquanto o feminino cultiva l’esprit de finesse, e que ambos, juntos, convivem, complementam-se e se enriquecem mutuamente? Seria um tributo à sensibilidade etnográfica e à inteligência indígena.

Claro, reconheço que os tempos mudaram, mas novas ideias ainda esbarram na história única que tanto prosperou nos estudos sobre Yanomami e que tanto dano causou à imagem pública desse povo. Uma ideia nova advém da introdução do cosmopolitismo no mundo feminino yanomami. Aquilo que várias de nós, etnógrafas yanomamistas, testemunhamos, compartimos e propagamos em nossos escritos e que é parte da rotina da vida em aldeia – a influência política, o senso de humor, a dedicação e a sabedoria das mulheres – mostra-se agora ao mundo quando elas ocupam lugares proeminentes nos assuntos que a fraseologia etnocêntrica atribui aos homens; quando tomam a iniciativa de se lançar no torvelinho do mercado de artesanato e de projetos; quando reconstroem estruturas sociais danificadas pelo contato com forças externas. O que homens etnógrafos não viram, os meios de comunicação começam a desvelar. Será então preciso que o mundo externo exponha essa realidade para que nós, etnógrafas dos Yanomami, sejamos, finalmente, ouvidas? Seria a invisibilidade das mulheres yanomami replicada nos “bosques da academia”, reavivando o sucesso nos anos 1960 de Groves of Academia, escrito por Mary McCarthy uma década antes? Não quero crer, mas é difícil negar. E, juntando insulto ao assalto ‒ ou, como dizem em inglês, to add insult to injury ‒ ainda temos que engolir a desfaçatez deste mundo-macho ao sermos alvo da complacência, pela qual esperam que sejamos gratas, que criou o Dia Mundial da Mulher e o Dia Nacional do Índio. Reconhecem-nos apenas uma vez por ano e lavam as mãos, ou pior, nos restantes 363 dias. Com isso, inadvertidamente, mulheres e indígenas ganharam algo mais em comum: ser objeto de homenagens anuais com abundância de rosas, cocares e lisonjas.

Não nos condenem, caros colegas, nem nos ignorem por querermos contar outras histórias. Num de seus desabafos habituais, Virginia Woolf afirmou nos idos de 1920: “É preciso que as mulheres tenham liberdade de experiência: que elas difiram, sem medo, dos homens, e que expressem sua diferença abertamente” (Woolf, 2019: 43). Apenas acrescento: se as mulheres gozarem de liberdade de ação e expressão, manifestando abertamente suas diferenças vis-à-vis os homens, todos nós, homens e mulheres, ganharemos!

Então, caros colegas etnógrafos que ainda estão conosco, aceitem este convite: abram olhos, ouvidos, mentes e corações e enterrem de vez o nefasto espectro das ideias recebidas, da história única de quem domina, crê que domina ou deseja dominar.

Com isto, me despeço.

Atenciosamente,

Alcida Rita Ramos


Referências

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. (2009). O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras.

GOLDE, Peggy (org.). (1986). Women in the field. Anthropological experiences. Berkeley: University of California Press.

LEACOCK, Eleanor. (1978). Women’s status in egalitarian society: Implications for social evolution. Current Anthropology, v. 19, n. 2, p. 247-275.

MELANCON, Thomas. (1982). Marriage and reproduction among the Yanomamo Indians of Venezuela. Tese de doutorado, Pennsylvania State University.

ROSALDO, Michelle & LAMPHERE, Louise (orgs.). (1974). Woman, culture & society. Stanford: Stanford University Press.

SHAPIRO, Judith. (1972). Sex roles and social structure among the Yanomama Indians in Northern Brazil. Tese de doutorado, Columbia University.

SPONSEL, Leslie. (1981). The Hunter and the hunted in the Amazon: An integrated biological and cultural approach to the behavioral ecology of human predation. Tese de doutorado, Cornell Unversity.

WOOLF, Virginia. (2019 [1920]). As mulheres devem chorar … ou se unir contra a guerra. Patriarcado e militarismo. Belo Horizonte: Autêntica.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.