Ocupação BVPS Mulheres 2024 | Entrevista com Angel Vianna, por Joana Ribeiro

Em mais uma atualização deste 8M, publicamos na coluna MinasMundo uma pequena entrevista com a bailarina mineira Angel Vianna, na qual ela conta sobre o início de sua carreira. A entrevista, conduzida por Joana Ribeiro (UNIRIO), integra a coletânea Angel Vianna: Sistema, método ou técnica? (2009), organizada por Suzana Saldanha.

Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

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Boa leitura!


Por Joana Ribeiro (UNIRIO)

A bailarina Angel Vianna, originalmente Maria Ângela Abras, nasceu em 1928 em Belo Horizonte. Angel fundou escolas de dança referenciais no Brasil, desde a mineira Escola Ballet Klauss Vianna, na década de 1950, com Klauss Vianna (1918-1992), até a carioca Escola e Faculdade Angel Vianna, na década de 1980. Sua trajetória na dança brasileira percorreu os estados de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, atravessando as Artes, a Saúde e a Educação. A entrevista “Angel Vianna: o início de tudo” foi publicada no Rio de Janeiro pela Funarte, em 2009, na coletânea organizada por Suzana Saldanha, intitulada: Angel Vianna: Sistema, método ou técnica?. No mês da mulher, homenageamos essa mineira cosmopolita que completa 96 anos em 2024. Viva Angel Vianna!

“Angel Vianna: o início de tudo”

Angel Vianna. Acervo Angel Vianna (2018). Foto: Maurício Maia.

Joana Ribeiro[1]. Bom dia, Angel Vianna, poderíamos começar pela sua infância e família em Belo Horizonte?

Angel Vianna. O início de tudo? Sou filha de família árabe, de libaneses. Meus pais Nicolau Abras e Margarida Abras eram primos, tudo em família. Sou do signo de gêmeos e sinto que tenho uma necessidade de estar sempre em movimento. Desde criança, tinha muita necessidade da arte. Uma das coisas que realmente me lembro era que tocava piano, herança de família, e queria ser uma belíssima concertista! Tudo na minha ideia foi sempre querer ser alguma “coisa” além da técnica, queria ser uma artista, trabalhava e estudava muito. Depois fui interna no Santa Maria, onde continuei o piano. Eu já tinha uma necessidade de me expressar através da arte, do teatro, tinha um lado muito cômico, as freiras dirigiam o teatro nas festas e eu queria sempre ser uma das atrizes, participava tocando, ou falando.

Eu gostava do colégio interno, porque era uma necessidade minha também. Tenho dois lados: um muito curioso e outro de muita concentração. Gostava de ficar em silêncio, observando… Desde pequenininha, no sítio do meu pai, saía na companhia de um primo, fazendo passeios, para explorar o espaço. Uma frase deste meu primo me marcou para sempre: “o que você tanto procura Angel?” e eu respondia: “olha, se Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, por que não descubro alguma coisa?”.

Quando saí do ginásio, fui estudar dança. Apareceu uma professora de dança em Belo Horizonte, que veio acompanhando o marido, o maestro Bosman, e me matriculei. Tudo escondido do Pai, pois esse negócio de dança, bailarina, não existia na minha família, existia uma boa pianista, e fiquei muito triste quando ela foi embora. Mas surgiu o Balé da Juventude, que foi um marco na época e o Carlos Leite quis sair do Rio de Janeiro. Ele, nessa época, era bailarino do teatro Municipal e se mudou para Belo Horizonte. Foi quando entrei para a primeira turma do Carlos Leite, e foi através de um grande amigo que consegui me matricular. A gente dizia que ia fazer aula de ginástica, e como meu amigo ia comigo, meu pai deixava. Foi assim que começou a se formar a primeira turma, em 1948 – eu, o Vítor, o Klauss Vianna, a Dulce Beltrão, a Sigrid Hermany…

Eu fiquei fascinada pela dança e pelo piano. E entrei para a Escola de Belas Artes do Guignard, porque as artes me fascinavam em geral. Na época era no parque Municipal, bem livre. Tinha o Franz Weissman que dava escultura, o Guignard com pintura, o Sansão Castelo Branco… Meu pai achava interessante, principalmente porque no primeiro ano fui premiada com a escultura que representava um pé de bailarina! O pé de Vera Lúcia. Eu adorava o pé da Vera, a anatomia já me fascinava, a observação dos músculos, ossos…

Foto de escultura “Pé da Bailarina”, de Angel Vianna.
Foto de Rafaela Freitas. Fonte: Acervo Angel Vianna

Vera Lúcia era considerada na época a melhor bailarina do Carlos Leite. Eu não tinha muito talento para o clássico, dançava, achava lindo pôr ponta, mas, ao mesmo tempo, sentia que tinha mais uma coisa de impulsos, de ser neoclássica. Na Escola de Belas-Artes, como tinha estudado todo um caminho da história, já não me sentia tão clássica. Mas gostava também de fazer aquele caminho, que percorremos com o Carlos Leite. Com ele aprendi a amar a dança. Tinha disciplina, era um lugar de aprendizado e de respeito pelo mestre, pelo colega, quase como um santuário. E percebi que o Carlos Leite queria realmente dar muito duro nessa primeira turma, porque ele já estava pensando em formar um corpo de baile e ficar em Belo Horizonte.

Além de dança clássica, Carlos Leite ensinava dança espanhola, dança folclórica e aulas teóricas de história da dança. Isso fazia um conhecimento mais amplo, não era só aprender os movimentos. Tinha uma preocupação de ensinar ao aluno o quê ele estava fazendo ali. Veja que interessante, desde aquela época, por mais que ele quisesse um trabalho corporal bom, ele exigia que você soubesse a história da dança: quem começou com a primeira ponta, de onde surgiu, qual a origem da dança clássica etc. Nós trabalhávamos não só com o corpo, mas com um pensamento sobre toda essa história.

E como foi entrando mais gente, ele começou a formar o corpo de baile e nós começamos a nos apresentar no Teatro Francisco Nunes. Depois viajamos muito pelo interior, com o corpo de baile e com os balés mais tradicionais, que ele fazia como a Tocata e Fuga, de Bach, e Dança das Horas. Teve um momento que ele fez na lagoa do parque Municipal de Belo Horizonte, não me lembro em que festejo, foi armado um palco, e nós dançamos Sílfides, que foi belíssimo. Me lembro que, às vezes, fazia um esforço muito grande para poder agradá-lo. Consegui então, graças a Deus, ser solista. E sempre pedia: “professor, faz um trabalho para mim, em que eu possa mostrar o meu lado de dramaticidade, interpretar” e ele montou o Carnaval, onde fiz um solo muito bonito, com o Klauss e Décio Otero.

Mas teve um momento muito interessante, porque o Carlos Leite, de tanto eu insistir que era expressionista, um dia, ele cismou de montar um solo de dança árabe para mim. E realmente usava uma roupa árabe, com as pernas abertas lateralmente, na calça.

Angel Vianna em Odalisca, coreografia de Carlos Leite. Acervo Angel Vianna, autoria desconhecida, Belo Horizonte, 1950.

E vivia escondendo do meu pai, se saísse alguma coisa no jornal. Eu checava primeiro, para ver se havia alguma coisa. E um dia, não sei por que, não consegui ver e aparece logo a minha fotografia de “odalisca” no jornal. Ele me chamou e perguntou o que era aquilo no jornal, e falei: “eu não estou entendendo”, mas ele falou: “você está entendendo e você sabe que você não vai mais brincar”. Respondi: “meu pai, isso aí era a aula de ginástica, que falei para você, que estava fazendo”. E ele disse: “pois é, então acabou-se aula de ginástica, acabou-se aula de tudo”. Realmente, falei: “então está bem”, e tive que esconder mais ainda. Passei a vigiar mais os jornais e era muito engraçado, como tinha que viver escondendo.

Um dia lembro que tinha um balé de tutu, acho que era A Dança das Horas, lá no Teatro Francisco Nunes. A matinê era às quatro da tarde, então o almoço naquele domingo demorou e já estava quase em cima do espetáculo. Tomei um táxi, saí escondido e fui vestindo malha, tutu, tudo dentro do táxi. O chofer não entendia nada, e falei: “ó, o senhor me desculpe, mas é que tenho um espetáculo agora, e tenho que me vestir” e já saí do táxi com sapatilha de ponta e tudo. E Carlos Leite me xingando, eu não sabia se falava com ele que estava escondida do meu pai, era uma confusão! Eu nem sabia como dançava, porque o medo do meu pai ir me buscar, ou qualquer pessoa me ver, falar com ele, acabaria com tudo mesmo! Foram assim, momentos importantes na minha vida, porque fazer algo, gostando muito e lutando por isto, era muito importante para mim. Porque não era só gostar, era lutar pelo que você acreditava e não era ir contra o pai, mas a favor da minha arte.


Nota

[1] Joana Ribeiro da Silva Tavares É professora de Dança e Movimento do Departamento de Interpretação na Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), onde integra o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas e coordena o Laboratório Artes do Movimento.

Referências

Acervo Angel Vianna – Patrocínio: SMC | Prefeitura do Rio de Janeiro, Realização: Escola e Faculdade Angel Vianna. Disponível em: http://angelvianna.hospedagemdesites.ws/ . Acesso em: 02 de março de 2024.

Angel Vianna: o início de tudo. Entrevista concedida a Joana Ribeiro da Silva Tavares, Escola Angel Vianna, Rio de Janeiro, 1999. In: SALDANHA, Suzana (org.) Angel Vianna Sistema, método ou técnica? Rio de Janeiro: Funarte, 2009, p.135-138.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.