Ocupação BVPS Mulheres 2024 | Queria ter um quarto só pra mim, por Myriam Ávila

A nova atualização deste 8M traz na coluna MinasMundo um pequeno texto de Myriam Ávila (UFMG) sobre a atriz e escritora mineira Maria Lysia Corrêa de Araújo. Myriam compartilha alguns trechos de cartas enviadas por Maria Lysia à sua irmã caçula, a escritora Laís Corrêa de Araújo. São as primeiras cartas de um conjunto de mais de 100, que está recebendo tratamento para publicação.

Nesta semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

Continue acompanhando as publicações da Ocupação BVPS Mulheres 2024. Para saber mais sobre a iniciativa deste ano, dedicada às mulheres e meninas palestinas, clique aqui.

Boa leitura!


Queria ter um quarto só pra mim

Por Myriam Ávila (UFMG)

De forma totalmente inconsciente, Maria Lysia Corrêa de Araújo repete, em carta de 1956, a fórmula de Virginia Woolf para a produção literária feminina (“Um quarto todo seu”). A remetente dessa carta era uma mulher mineira de 35 anos, concursada no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), que tinha conseguido transferência de Belo Horizonte para São Paulo, com a ideia de fazer uma carreira paralela no teatro na maior cidade do país. Não estava se afastando da família para se tornar atriz; não precisava temer uma censura dos pais, já que ficara totalmente órfã, junto com sete irmãos e irmãs, no início da adolescência. Chegando em São Paulo, conseguiu hospedagem na Associação Cristã Feminina, dividindo um quarto com outras moças da massa trabalhadora da capital-locomotiva. Já tinha encenado algumas peças em Belo Horizonte e chegou a São Paulo com a recomendação de colegas (principalmente Sábato Magaldi), o que lhe valeu de imediato ofertas de papéis em peças de teatro. Mas, principalmente, Maria Lysia queria frequentar a famosa Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita, criada oito anos antes. Mantinha-se em contato com os irmãos através de cartas quase sempre endereçadas à irmã caçula, a escritora Laís Corrêa de Araújo. Laís era casada com o poeta Affonso Ávila e tinha três filhos, de 3, 2 e 1 ano de idade. Lysia, muito atraente e aberta a novos relacionamentos, nunca tinha sido de fato comprometida e não pensava em si como “solteirona”. Além de atriz, era escritora e publicava regularmente crônicas em uma revista de Belo Horizonte.

Em geral, os estudos sobre mulheres focalizam os casos de maior incidência na sociedade. Nos anos 1950, mulheres submissas aos maridos ou aos pais eram a grande maioria. Os salários no Brasil eram baixíssimos e, em muitos lares, seria imprudente impedir uma esposa ou filha de trabalhar fora, caso ela tivesse algum treinamento para isso. Em geral, ajudar a manter a família não isentava a mulher de ter de se encaixar nos padrões opressivos do patriarcado. Porém, um exército de mulheres independentes ia se formando à medida que o país se industrializava e a população se concentrava cada vez mais nos centros urbanos. A família de Maria Lysia era composta de quatro irmãos e quatro irmãs. Três dos homens se casaram cedo e, apesar de terem boa formação profissional, lutavam para sustentar suas famílias. Das irmãs, duas já estavam casadas em 1956 e ajudavam, com seus salários depreciados, a manter suas casas. A irmã mais velha permaneceu solteira e se tornou a matriarca do grupo, não só enquanto os irmãos mais novos ainda não haviam chegado à maioridade, mas também depois que o mais velho dos irmãos morreu precocemente, deixando três filhos e uma viúva desempregada. A “chefe” da família, Zilah, tinha se formado, como os irmãos e como o pai, em Direito e abrira um escritório de advocacia, além de, como as irmãs, praticar a literatura, dedicando-se ao romance. Maria Lysia escrevia crônicas e contos e Laís, poesia. Certamente, não representavam a típica família da época.

Este é o contexto em que a carta abaixo foi escrita, misturando trechos datilografados e manuscritos, por uma mulher jovem e cheia de projetos. É uma das primeiras de um conjunto de mais de 100 cartas, conservadas com cuidado pela destinatária Laís. O conjunto está recebendo tratamento para publicação.

Carta enviada de São Paulo em novembro de 1956

Diga ao Ceschiatti[1] que mandei a êle 2 revistas do Teatro[2].

Lais,

gostaram da crônica[3]? Porcaria.

..

Diga à Carmen que o João Lapa me escreveu duas cartas gozadíssimas e que ele vem aqui no princípio de fevereiro. Talvez ela queira vir.

..

Edméa também está aqui agora… As meninas não permitem a minha saída… Gostaria de sair, embora goste demais delas. Tenho vontade de escrever, não tenho conforto, nem lugar para pôr livros, nem mesa, uma amolação. Às vêzes falo em sair, não admitem. Nem posso mais falar nisto. Que fazer? Queria ter um quarto só para mim, fazer bagunça, o que entendesse…

..

Diga ao Djalma[4] que recebi a crônica. Muito boa. Anime-o a escrever, mandar para algum lugar, etc.

..

Vs. não me falam se receberam os retratos do jornal. Acho que não vai sair reportagem nenhuma. Saíram os retratos na Folha da Noite e Folha da Manhã, só com aquela notícia. Um senhor ficou de deixar no escritório da Zilá[5] uns 4 ou 5 nºs do jornal. Terá ela recebido? Hoje é 11 e ainda não recebi os livros da Zilá para o “Fabio Prado”[6]. Estou com uma cólica infernal, nem posso ir embora, pois falho muito, chego atrasada, uma droga! Vou aguentar até as 6 hs. Anteontem tive de ir embora, pois sentia dor demais nas pernas (invés de ir prá casa fui para o ensaio…) A dor na perna foi por causa de um tombo numas pedras em Guarujá. Domingo passamos o dia lá. Fiquei queimadíssima, tudo doendo. Já falei, não é? Que os ensaios agora são à tarde? Ô azar! Hoje vou buscar na Livraria Jaraguá[7] (do A. Mesquita[8]) ficha de inscrição para a Escola[9]. Estou animadíssima, embora o Bollini[10] tenha me prometido papel bom em outra peça. Prefiro a escola. A Bernarda[11] só sairá após o carnaval. O Perdigão entregou uma revista e uma blusa? Fique prá você ou para Vera[12]. Ela já foi?

Continuo com muita saudade dos meninos. Por isso eu teria preferido não ir aí no fim do ano. A saudade aumentou.

Ligia[13] me deu (fui lá, mas ela tinha ido pro Rio, ficou de me chamar para jantar quando ela voltar) um presente encantador: um negocinho que tem dentro umas coisas de unhas: limpador, não sei o que, tesourinha, o negócio é uma gracinha, só vendo. E parece ser coisa da Europa. Como foi amável… O apartamento é uma beleza, hein? Puxa…

Bem, acho que é só. Preciso trabalhar de manhã. Quero ver se consigo isto… Mesmo eu estando na escola, gostaria de, de dia, poder ir a teatros ver ensaios, sabe como é? E depois eu teria tempo de estudar mais. O curso é apertadíssimo.

…

O filho de alemão[14] esteve por aqui estes dias. Quá… Eu não tenho jeito não. Prefiro continuar só. [Ainda vamos nos encontrar… Ficou aqui 1 semana.[15]]

…

O homem da Livraria Triangulo disse que já mandou o disco da Zilá. Que vai esperar uns 15 dias para reclamar do correio. Avise se ela receber.

…

Quando v. tiver dinheiro, mande para eu comprar blusas. Há lindas e baratas. Todo mês mande 200,00 e mandarei blusas lindas e originais. 42, não é?

Bem, tenho dito.

Ah, falou com a Toni sôbre o blusão?

O calor aí também está de morte? Aqui está um absurdo, mas absurdo mesmo. A gente chega a se sentir mal.

A Mimi[16] já me esqueceu? É natural…

Maria Lysia

11/11/56

Aqui tem blusões lindos também. O caso é que não posso comprar e à Toni posso pagar depois…

Imagine: O limite de idade para a escola é de 30 anos!… Fiquei sabendo agora… Essa é a maior. Veja com a Zilá se há possibilidade de arranjar certidão falsa… Por esta eu não esperava…. Urgentíssima. Se não houver jeito, deixa ficar. Não morrerei por isto. Irei frequentando como ouvinte, dá na mesma. O que mais quero é cultura. E lá se adquire. E também observar tudo lá e fundar uma escola aí. No último caso, aceito propostas da Maria[17]. Agora, o principal é conseguir trabalhar de manhã. Vou tentar.

Veja o programa anexo[18].

*****

Se eu não entrar mesmo prá Escola[19] como aluna mesmo, o dinheiro que eu ia pagar lá, pagarei a uma professora de dicção que há aqui. Uma que deu aulas prá Cacilda[20], Mª D. Costa, etc.


Notas

[1] João Ceschiatti (1916-1987) foi ator, diretor, pioneiro e mestre do teatro mineiro. Produziu vários espetáculos e revelou grandes talentos, tanto nos palcos quanto em programas culturais da Rádio Inconfidência.

[2] Escrito a caneta, antes do início da carta datilografada.

[3] Não consegui localizar a publicação de crônica em data próxima à da carta. Duas crônicas suas são mencionadas em abril, na revista Alterosa.

[4] O irmão mais novo, antes da caçula Laís.

[5] A irmã mais velha, Zilah.

[6] O Prémio Fábio Prado foi um prémio atribuído pela Sociedade Paulista de Escritores a livros publicados no ano anterior.

[7] Na Rua Marconi, 54, em São Paulo, ficava a Livraria Jaraguá, criada em 1941 por Alfredo Mesquita e Roberto Meira. Mantinha uma sala de chá para receber artistas e intelectuais como Tarsila do Amaral, Caio Prado Junior, Anita Malfatti, Flávio de Carvalho e muitos outros que por lá passavam para conversar. Foi vendida por Alfredo Mesquita em 1957. (Cf. Laercio Cardoso de Carvalho).

[8] Alfredo Mesquita, (1907-1986) foi um autor, ator e fundador e primeiro coordenador da Escola de Arte Dramática (EAD), fundada em 1948 e que hoje está integrada à USP. Fundador do conjunto amador Grupo de Teatro Experimental com Abilio Pereira de Almeida, uma das raízes para a criação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Foi incentivador de jovens talentos teatrais e responsável direto pelo aparecimento de uma geração de grandes atores.

[9] Escola de Arte Dramática (EAD).

[10] Flaminio Bollini Cerri (1924-1978) foi um diretor e encenador italiano que se notabilizou por ter participado da formação do Teatro Brasileiro de Comédia em 1947.

[11] A peça “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico García Lorca, dirigida por Bollini para Maria dela Costa.

[12] Cunhada, casada com Plácido Corrêa de Araújo.

[13] Lygia Fagundes da Silva Telles (1918-2022), a grande escritora brasileira.

[14] O namorado José, muito citado na correspondência.

[15] Escrito a caneta.

[16] Myriam Ávila, autora deste texto, então com dois anos de idade.

[17] A atriz Maria della Costa, nome artístico de Gentile Maria Marchioro (1926-2015), proprietária do teatro do mesmo nome.

[18] O anexo mencionado se perdeu.

[19] Maria Lysia conseguiu se matricular e iniciou o curso em 1957, formando-se em 1960.

[20] Cacilda Becker Iaconis (1921-1969), grande atriz brasileira.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.