
Neste 8M, na primeira atualização do dia, publicamos na coluna MinasMundo ensaio da professora Lilia Moritz Schwarcz (USP), que acaba de ser a 11ª mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, sobre a artista mineira Sonia Gomes e sua arte de bordar.
Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres. Organizada pela editora Caroline Tresoldi, doutoranda em Sociologia no PPGSA/IFCS/UFRJ, neste ano de 2024 serão publicados cerca de 35 textos. São narrativas distintas: ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas, que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.
Continue acompanhando as publicações da Ocupação BVPS Mulheres 2024. Para saber mais sobre a iniciativa deste ano, dedicada às mulheres e meninas palestinas, clique aqui.
Boa leitura!
Sonia Gomes e o barroco da costura
Por Lilia Moritz Schwarcz (USP)

tecidos diversos, metal, pedra, botões, contas de plástico, madeira, folha de ouro, miçangas, paetês, búzios e corda de nylon
Sonia Gomes pousou nessa terra com a “missão” de reler, refazer, poetizar e dar cor a esse mundo tão sem graça. Um objeto perdido, largado ou até desprezado – um pedaço de madeira desgastado pelo tempo, uma gaiola sem uso, um livro antigo, uma toalha rota, um vestido antigo e guardado na gaveta – logo vira arte nas mãos dessa “artista do inesperado”, iluminando tudo que estiver por perto. Pois tudo que reluz tem arte.
Retomando uma prática ancestral das mulheres, e em especial das mulheres negras, que tecem a vida e assim criam novos sentidos para ela, essa artista mineira, mas que hoje vive em São Paulo, cerze, borda, enrola, estrutura, faz e refaz, e se nega a entrar nessa realidade do desperdício, em que tudo logo vira frugal.
Esses “pedaços de vida” são logo transformados e submetidos a torções, costuras, novos bordados, produzindo-se esculturas em pano que trazem junto consigo muitas “memórias costuradas” pelo engenho da artista.
Filha de mãe negra e pai branco, Sonia herdou a hibridez de lembranças de família, feitas não só da “mistura” fácil e apaziguadora, mas também do perverso racismo, que se insere nas grandes e pequenas frestas do cotidiano. Com sua avó parteira e benzedeira aprendeu o ofício de “cuidar”, proteger e guardar fios da memória. Da família branca recebeu as guarnições de tecidos feitos para decorar a mesa e os corpos em festa; mas também um constrangedor silêncio. Do lado afro-brasileiro, os hábitos arraigados de cuidado e sobrevivência, bem como os álbuns de família que sempre foram preenchidos pela arte de lembrar numa sociedade feita para esquecer. Por isso, seu trabalho se comporta como se fosse o resultado de pedaços de vida costurados pela arte.

tronco de árvore, tecidos diversos, couro e linha de algodão
Do cuidado de bordar
Pois é possível dizer que a obra de Sonia Gomes carrega consigo, e atualiza, um certo fazer de matriz afro-brasileira, que se expressa a partir de muitas frestas. Uma delas pode ser observada na sabedoria das bordadeiras e costureiras que não permitem associar a atividade com qualquer forma de passividade feminina.
Assim, Sonia faz arte a partir dos restos de tecidos que, desconstruídos e novamente construídos, contam novas histórias sem apagar as mais antigas. Ou seja, se os formatos e desenhos ganham atualidade e até irreverência, já a forma de trabalhar – com a agulha sempre nas mãos e um dedal nos dedos –, o processo artístico que congrega várias mulheres num mesmo ateliê, ressoa a práticas milenares cuja divulgação histórica se perdeu, mas os costumes tratam de relembrar.
A associação da ideia da costura e do bordado, ao menos no cânone das artes, ficou por muito tempo vinculada a um fazer feminino artesanal, e dessa maneira acabou sendo inferiorizada – situação essa que tem se invertido num contexto mais contemporâneo.
Não por coincidência, o verbo bordar é cheio de significados, concorrentes e paralelos. Em seu sentido mais tradicional, e não por acaso aquele que se encontra dicionarizado, bordar representa o ato de interceder de maneira decorativa por sobre um tecido. “Ornamentar pano ou estofo com fios (de algodão, seda, prata etc.), e/ou com elementos decorativos (lantejoulas, pérolas, fitas etc.), passados, à mão ou à máquina, com uma agulha, formando motivos e desenhos”, conforme definição do dicionário.
Tendo em mente essa versão mais recorrente, seria possível afirmar que o verbo se referiria a uma prática, aliás, regular (e patriarcalmente) identificada às mulheres: o ato de ornamentar. A interpretação reafirma, assim, uma visão subordinada dessa prática, que dessa maneira se associa a uma pretensa função social das mulheres, identificando-as com uma atividade, teoricamente, de menor importância, pois de função “meramente” complementar.
Não é coincidência, aliás, artistas mulheres terem sido durante largo tempo associadas a representações decorativas, no sentido de suas obras serem “doces”, restritas à domesticidade e ao espaço privado; o que não era em absoluto verdade. Donas de ateliês, autoras de obras que perpassam gêneros múltiplos, nada nas atividades delas, no decorrer da história, permite uma caracterização única e assim naturalizada. O que explica é o silenciamento e não o silêncio.
Mas existem vários outros sentidos, mais amplos e figurados, sobretudo quando comparados a essa primeira definição considerada canônica e estabelecida. Há quem diga que é preciso levar a vida “como um bordado”. Essa seria uma metáfora imediatamente referente ao desenho encontrado nos bordados, nas rendas, nas tecelagens: suas formas, seus ornamentos, seus entrelaçados.
Sendo assim, nessa segunda versão, a atividade guardaria o sentido metafórico de “desenhar a vida”. Tecê-la calmamente, deixar o destino mais suave, são perspectivas que descrevem o que a alusão designa e sublinha – mais uma vez, o aspecto decorativo dessas tramas, as quais, muitas vezes, dão forma, estruturam e sustentam o tecido sob o qual são aplicadas. O contraste é forte: o motivo é decorativo, mas o resultado pressupõe persistência e até longevidade.
No entanto, a mesma frase pode servir para iluminar uma mão inversa. Tanto na vida como nos bordados, não faltam inesperados e contradições, “costurados” por linhas tensas presentes na atividade e no desenrolar da vida. “Unidos como os fios de um pano”, diz Cecília Meireles.

tecidos diversos, espelho, rendas diversas, acrílica, pingente, zíper, bola de gude, conta de plástico, metal, corda de nylon, corda de seda sobre bordado de algodão
Existe também uma versão que reapropria o ato de bordar como uma maneira de “espalhar cores, colorir, ornar, enfeitar”, de uma forma mais geral. Bordar a vida seria, nessa terceira acepção, habitá-la com cores. Significaria ainda dar nova alegria a um lugar, retirando-o de sua monotonia.
Não faltam ainda usos motivacionais que vinculam a prática ao gesto de “inventar (histórias, críticas, argumentos), fantasiando, tecendo, engendrando” novas situações, perspectivas e projetos. Nessa última dobra, bordar vira uma função primeira de imaginar; ato de criar por excelência.
Por fim, bordar ganha com frequência o sentido de “borda”: como beira ou limite. Nos Açores, por exemplo, bordar remete a “receber hóspedes” – e assim sair da rotina.
No entanto, se todos esses significados diversos podem ser encontrados no nosso cotidiano – por vezes de forma coincidente, por vezes de maneira alterativa –, persiste uma associação forte e comum a todos eles: o costume, de certa maneira “naturalizado” por um certo cânone social e das artes, de associar o bordado a uma atividade feminina.
A prática se autolegitimaria, também, e de maneira igualmente essencializada, no sentido de cristalizada e sem alteração do tempo, a partir do estabelecimento de uma suposta “atitude feminina”: de cuidar e curar. Não há, todavia, nada de biológico nessa aparente vocação das mulheres. Por isso, se durante muito tempo a ideia de cuidar foi de certa maneira caricaturada, e usada como um “lugar social menor” – ocupado por enfermeiras e assistentes dos médicos, e a eles subordinados –, cada vez mais, em nossa contemporaneidade, o ato de cuidar ganha uma dimensão mais abrangente, sendo associado à própria concepção de cura. Quem cuida é que cura.
Curar aparece, então, tanto no sentido de “tomar cuidado”, como também no de zelar, lidar com o afeto, com a subjetividade e com a conformação de redes fundamentais de manutenção de comunidades. Por isso, não poucas vezes, se definiu a atividade como uma experiência de “estar consigo”, uma forma de se reaproximar do campo das emoções e das sensibilidades.
Mas há ainda outro aspecto a destacar. Vale lembrar que, tradicionalmente, o trabalho de bordar tem sido realizado coletivamente. Tomado a partir desse ângulo, aí sim, a prática foi e pode ser considerada eminentemente desenvolvida dentro do universo da feminilidade, de maneira a “construir a borda”: enfrentar traumas, resistir ao desamparo social, manter grupos de afeto e de solidariedade unidos.
Claro está que não existe um fazer feminino, que precisa ser ao menos repassado no plural, dado que experiências, origens históricas, sociais e culturais diversas, resultam, por sua vez, em realidades em tudo distintas. Também é necessário salientar as possíveis interseccionalidades – de raça, classe, região e gênero/ sexo – existentes nesses grupos de mulheres.
Mesmo no contexto mais estritamente artístico, também se destacam muitas especificidades que podem ser retomadas por meio da comparação entre uma atividade mais utilitária, digamos assim, outra mais individualizada e autoral. Ou ainda, se opormos processos de trabalho mais individualizados e autorais, de outros eminentemente coletivos, quando bordadeiras privilegiam o grupo e deixam de usar da nomeação pessoal. Nesse caso, todavia, o ato é político. Não se trata de omissão.
Um bordado barroco e mineiro
Por isso é possível dizer que no gesto e na prática de Sonia Gomes ressoam muitas temporalidades. Sem ser uma cópia ou reflexo imediato de um passado, ou de condições essencializadas, o certo é o traço da artista brinca como fio de Ariadne; aquele que carrega a memória e o segredo.

acrílica, renda de algodão, fio de ouro, lã, tecidos diversos, metal, juta e madeira
Há uma certa prática barroca mineira inscrita nos trabalhos de Sonia Gomes, com a artista investindo numa profusão de cores, adereços e detalhes, e numa certa monumentalidade que opera com uma perspectiva ilusionista que altera a materialidade da obra.
Na sua vasta produção, destacam-se tanto trabalhos mais leves, feitos de tecidos e que quase flutuam, como estruturas mais robustas, onde o bordado vai dando forma à matéria outrora bruta que por vezes pende do teto, por vezes irrompe pelo chão ou vira arte presa à parede.
Sua inspiração vem das festas populares de matriz afro-brasileira, como a folia de reis, o congo e o reisado, mas também de uma releitura do catolicismo mágico, no qual os materiais se acumulam de forma barroca.
Sonia também evoca uma prática diaspórica africana, onde os “panejamentos” sempre se comportaram como uma forma de identidade assegurada por redes de solidariedade negras. Haja vista, por exemplo, a prática dos panos da costa que misturam formas de identidade, com motivos decorativos e práticas religiosas.
Hoje é voz corrente como, durante muito tempo, Minas Gerais tornou sua população negra praticamente invisível, como se fosse uma província e depois um estado basicamente “branco”. Ou melhor, se não é certo afirmar que Minas produziu uma representação branca sobre si, é correto dizer que ela era “não negra”.
A diferença é sutil, mas importante. Minas não era negra como a Bahia e o Nordeste, mas também não era branca como o Sul e o Sudeste da imigração europeia.
Ao que tudo indica, em Minas Gerais, aproveitou-se do crescimento da representação de uma Bahia negra, agenciada pela intelectualidade local, fazendo com que as “áfricas” ficassem concentradas, ao menos no imaginário nacional, em outros territórios brasileiros.
Paradoxalmente, porém, se pensarmos em termos demográficos, a África no Brasil estaria mais concentrada na Província das Minas Gerais, pelo menos durante os séculos XVIII e XIX. As paisagens mineiras da segunda metade do XVIII ficariam marcadas pelas grandes imigrações da década de 1740 a 1770, quando entram maciçamente africanos centrais e, pós 1769, do Sul de Angola. Esses dois grupos africanos, e as primeiras gerações de crioulos (nascidos já no Brasil), filhos destes imigrantes, protagonizariam várias revoltas – 1790, 1720, 1723 e 1756 – cujos planos foram descobertos, justamente, por conta das tensões entre grupos Minas, da África Setentrional, e Angolas, da África Central. Em Minas eles ganharão a denominação de Ardas, Coura, Courano, mas não Minas (como em outras partes do país) e nunca Nagô.
No século XIX percebe-se, mais efetivamente, a presença de uma outra Minas: africana e negra onde juntavam-se áreas antigas de mineração, com a grande presença de descendentes de africanos do XVIII. Com a abertura de novas fronteiras econômicas de produção de alimentos e depois a entrada do café, percebe-se, já no século XIX, grande presença africana, inclusive advindas das regiões Orientais – os chamados Moçambiques.
Enfim, a essas alturas, demograficamente falando, Minas era tanto ou mais africana que a Bahia. A única diferença é que a Província não teve grandes ou médias cidades escravistas, como Salvador, São Luiz do Maranhão ou o Rio de Janeiro. Houve, sim, muitas cidades, núcleos povoadores, irmandades, quilombos, mas sem as dimensões urbanas concentradas.
Enfim, as Minas africanas ficaram escondidas e apenas recentemente passaram a ser relevantes no imaginário local e nacional. Ou seja, era como se, com a mineração, uma África do passado teria desaparecido na mitologia que se criou, sobretudo no contexto do pós-abolição.
Já na obra de Sonia Gomes, esses mundos pretensamente subterrados e suspenso pulsam e dançam nas cores fortes, mas também no branco claro do silêncio; nesse diálogo inesperado travado entre tecidos e bordados. Tomam forma no trabalho coletivo do ateliê, mas igualmente no desejo pessoal da artista de recobrir tudo, qualquer mínimo espaço, com a costura. Nos panos da costa que pendurados e misturados a toalhas, vestidos de noivas, guardanapos ou pedaços de pano inscrevem trajetórias que, outrora perdidas no anonimato, ganham nova vida enquanto obras de arte. Na vida que existe nos objetos que insistem em se rebelar.
Eis uma artista que carrega consigo um pensar e um fazer barroco mineiro, em que as formas fazem festa na profusão em que se encontram, e os materiais renascem nessa arte que é sempre mais: um duplo, um espelho invertido de uma sociedade que anda perdendo o sentido da ancestralidade e das formas de panejamento nela inscritas.
A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.