
Na primeira atualização de hoje, publicamos ensaio de Ana Paula Mendes de Miranda (UFF) e Andreia Soares Pinto (UFF) sobre conflitos de natureza étnico-racial-religiosa e suas implicações sobre as mulheres de terreiros.
Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres. Organizada pela editora Caroline Tresoldi, doutoranda em Sociologia no PPGSA/IFCS/UFRJ, neste ano de 2024 serão publicados cerca de 35 textos. São narrativas distintas: ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas, que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.
Continue acompanhando as publicações da Ocupação BVPS Mulheres 2024. Para saber mais sobre a iniciativa deste ano, dedicada às mulheres e meninas palestinas, clique aqui.
Boa leitura!
Mulheres de terreiros: resistências e violações
Por Ana Paula Mendes de Miranda[1] (UFF) &
Andreia Soares Pinto[2] (UFF)

Março é um mês marcado por referências ao ativismo. Além do Dia Internacional da Mulher (08), temos o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial (21). Este mesmo dia, no ano passado, tornou-se também o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.
Ter como foco as mulheres de terreiros significa tratar de líderes religiosas de matrizes africana e afro-brasileira, que se autoidentificam como mães de santo ou ialorixás, mas também as demais mulheres participantes das casas de santo. Distinguem-se assim das “mulheres de axé”, um movimento associado ao feminismo negro[3]. Nosso objetivo aqui é pensar a sua (in)visibilidade social e política, considerando que a luta por reconhecimento de direitos é incessante no universo afrorreligioso.
No contexto social dos terreiros, as mulheres sempre desempenharam um papel crucial. São elas as guardiãs dos conhecimentos ancestrais, responsáveis por preservar e transmitir as tradições. Na construção dos primeiros candomblés em Salvador, as comunidades foram estruturadas em torno das mães de santo. Contrariando outras esferas da sociedade, nas quais as lideranças eram predominantemente masculinas, as mulheres nos terreiros sempre puderam alcançar os mais altos lugares de poder, fazendo com que sua influência não ficasse restrita à esfera religiosa, refletindo-se na economia e na organização comunitária desse território.
Historicamente, foram elas que, por meio do trabalho doméstico árduo e da comercialização de seus produtos, conquistaram a própria alforria e de outros das suas comunidades. Além disso, foram responsáveis pela aquisição e estruturação dos espaços onde suas comunidades floresceram – os terreiros (Landes, 1967).

Embora alguns pesquisadores questionem a denominação “matriarcal” dos terreiros, é inegável o poder e a importância das mulheres na organização dessas comunidades. Mais do que simplesmente “mães”[4], elas personificam a matripotência, liderando não apenas seus terreiros, mas também suas famílias e comunidades de maneira resiliente e determinada. Essa configuração é importante também para pensar na configuração das famílias matrifocais que caracterizam as linhagens estendidas afro-caribenhas/americanas, bem como para lembrar da importância e do poder das mulheres de terreiro na representação política no universo dos afrorreligiosos. Podemos registrar aqui a atuação memorável de Mãe Beata de Iemanjá, Mãe Nitinha de Oxum, Mãe Meninazinha de Oxum, lideranças sempre presentes no espaço público fluminense. É esse protagonismo que faz com que as mulheres de terreiro enfrentem desafios complexos, incluindo a discriminação de gênero e o racismo.
A (in)visibilidade das violações às mulheres de terreiro
O levantamento realizado pelo grupo Ginga UFF sobre publicações da mídia digital que abordaram os conflitos de natureza étnico-racial-religiosa[5], demonstra os tipos de violações a que mães de santo e mulheres adeptas de religiões de matriz africana estão expostas.
Neste estudo, além dos casos relatados, interessava também observar se, e como, a mídia reportava as situações de reação e mobilização diante das violações.
A busca de conteúdo foi feita pela rede internacional de computadores (internet) a partir de:
a) pesquisa no servidor Google, com utilização de palavras-chave;
b) acompanhamento de perfis em redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter/X);
c) indicação de casos através de redes de relacionamentos pessoais de pesquisadores.
Para todos esses modos se procurou uma referência de publicação do assunto em veículos de comunicação digital (jornais, blogs, sites ou portais, revistas e rádios).
Entraram no levantamento as publicações que traziam em seu teor informações que se remetiam às categorias: intolerância religiosa, racismo religioso, preconceito de natureza religiosa, discriminação de natureza religiosa, terrorismo religioso, dentre outros termos. Buscou-se, também, conteúdos relacionados às religiões de matrizes africana e afro-brasileira (candomblé, umbanda e demais tradições) e seus adeptos, bem como sobre as formas de mobilização social e política deste público-alvo.
O levantamento considerou publicações e eventos de todos os estados. Somente quatro estados não apresentaram resultados na busca exploratória, sendo eles: Pará, Acre, Tocantins e Ceará, o que não representa ausência de conflitos, mas sim de publicidade sobre esse tipo de violação.
As informações foram analisadas e estruturadas sistematicamente em planilhas onde as colunas representavam as perguntas de pesquisa, e as linhas correspondiam às publicações e dados que foram destacados.
Até o mês de fevereiro de 2024, o levantamento apresenta um total de 1.021 publicações e 1.240 eventos (linhas) inseridos, já que uma mesma publicação pode trazer mais de um caso descrito em seu conteúdo. Todos foram considerados no levantamento, de modo que o número de eventos é maior que o número de publicações.
Neste ensaio, fizemos um corte por gênero para destacar os dados que essas mídias produzem e que nos permitem pensar sobre como os conflitos de natureza étnico-racial atingem as mulheres de terreiro.
As violações
As violações representam situações relacionadas a processos políticos em que essas mulheres estejam envolvidas e têm suas rotinas afetadas por eventos motivados por discriminação e racismo religiosos, resultantes em ofensas, agressões físicas e/ou danos à comunidade de terreiro.
O que orientou nossa leitura foi a possibilidade de encontrar relatos de outras fontes compatíveis com as narrativas de nossos interlocutores, em diversos estados, que pudessem demonstrar dimensões e perspectivas distintas, mas que revelassem a materialidade dos casos num contexto nacional.
Foram selecionadas 272 publicações, no período de 2008-2023, seguindo o corte de eventos envolvendo um universo de 160 mulheres de terreiros. Nestas publicações foram observados 356 eventos, já que, como mencionamos, uma mesma publicação pode comunicar vários acontecimentos.

Por serem lideranças, as sacerdotisas estão inseridas em todos os tipos de situações a que as adeptas possam estar vulneráveis. São vitimizadas por ações diretas a elas e por ações direcionadas aos terreiros, sendo que a agressão ao território sagrado se constitui como uma violação que é interpretada como pessoal, e não apenas uma ação interpretada apenas como um dano material.


Basta um caso
As autorias trazidas pela mídia mostram um perfil restrito de sujeitos envolvidos no conflito. Uma parte apresenta como agressores os “traficantes”, “bandidos armados”, “criminosos armados”, o que demonstra a desigualdade de forças entre esses dois atores e a nítida desvantagem das mulheres de terreiro numa tentativa de administração desses conflitos, como costuma ser sugerido por agentes públicos, ao se recusarem a registrar as ocorrências.
A destruição de objetos sagrados, a expulsão do território e as agressões físicas são observadas nesse contexto de “domínio armado” (Miranda; Muniz, 2018) como parte de um processo que visa o fim da prática religiosa para que o território ser ocupado de outra forma. Lembramos aqui dos casos da Ialorixá Carmem de Oxum, obrigada por sete traficantes evangélicos, armados com barras de ferro e armas de fogo, a destruir seu próprio terreiro situado na comunidade Buraco do Boi (Nova Iguaçu/RJ), em 2017, e de Mãe Bernadete, líder quilombola, assassinada em 2023 com 12 tiros em Simões Filho, na Região metropolitana de Salvador (BA).
Outra parte significativa de relatos descreve os “vizinhos/vizinhança” e as “pessoas evangélicas” como potenciais agressores. Na maioria das publicações, tanto os grupos armados quanto os grupos de relações interpessoais estão relacionados a segmentos de religião evangélica pentecostal.
A “centralidade da teologia da batalha espiritual contra as outras denominações religiosas, sobretudo as afro-brasileiras e o espiritismo”, da qual fala Vagner G. da Silva (2007: 208), tem exposto as mulheres de terreiros a situações de risco e provocado o adoecimento dessas mulheres que, combatentes e resistentes, vão ao limite para defender o seu sagrado. Podemos pensar aqui no caso emblemático de Mãe Gilda de Ogum, fundadora do Axé Abassá de Ogum, em Itapuã (BA), que, em 1999, foi atacada dentro do próprio terreiro e se tornou o símbolo da luta contra o racismo religioso no Brasil[6].

Osmundo Pinho (2021) defende a ancestralidade como um lugar político e de reivindicações, que se coloca como ponto de convergência da resistência. Conferir publicidade aos conflitos que envolvem mulheres de terreiro é, portanto, um modo de contribuir para o debate e reivindicação de reconhecimento de direitos, tendo em vista que há uma relação naturalizada que associa violência/dor/sofrimento como partes constitutivas da sociabilidade das mulheres, em especial das mulheres negras, e que tem impacto direto em sua subjetividade.
A violação dos direitos dos terreiros e a sua cobertura midiática têm raízes antigas e profundas no Brasil, desde o século XIX (Maggie, 1992), quando jornais frequentemente endossavam perseguições estatais aos terreiros, exibindo itens apreendidos. A exposição atual da destruição desses locais contribui para a construção de uma memória coletiva de vulnerabilidade, afetando não apenas os terreiros, mas também seus seguidores, que testemunham a profanação de seus símbolos sagrados e seus modos de vida.
Os casos de violação seguem sendo descritos, mas não contabilizados oficialmente. A ausência de dados oficiais sistematicamente analisados é um argumento para a falácia de que o problema não existe, como se fosse preciso alcançar uma meta mínima de vítimas para que os poderes públicos intervenham. As muitas histórias que lemos e ouvimos de mulheres de terreiros de todo o país nos permitem afirmar que basta um caso para que uma violação se efetive como uma relação entre violência e sofrimento social, produzindo efeitos sobre corpos, identidades e patrimônios.
Nos conflitos de natureza étnico-racial-religiosa e suas implicações sobre as mulheres de terreiros, o que está em jogo é um projeto estético-político que entrelaça valores religiosos com outros atributos de poder, que reafirma um modelo de masculinidade viril e uma concepção de onipotência e onipresença do poder. Busca-se o proselitismo como uma tática para atingir, simultaneamente, os desafios contemporâneos de reconhecimento da diversidade de gênero e sexualidade, bem como produzir a repressão ao protagonismo de uma religiosidade, no Brasil, que sempre assegurou espaços de representação feminina.
É preciso lembrar que essas violações estão inseridas numa conjuntura da chamada “nova onda conservadora”, que compromete o desenvolvimento de uma política democrática, e que reduz, de maneira binária, as práticas dos povos tradicionais às práticas maléficas e demoníacas, num ideário inspirado na supremacia branca estadunidense.
Essa interseção entre política e religião, embora não seja nova, se manifesta de maneira contemporânea na reconfiguração das fronteiras entre o sagrado e o profano, na produção de crenças e sistemas de subordinação sob novas “cruzadas” político-religiosas contra religiões de matriz africana, apoiadas em uma moral econômico-racial que negocia crenças, vidas e bens nos territórios populares.

Notas
[1] Professora de Antropologia da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga UFF; Pesquisadora do INCT-InEAC.
[2] Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense; Pesquisadora do Ginga e do INCT-InEAC.
[3] Lana Lage da Gama Lima (2023) analisa o ativismo, autodenominado Mulheres de Axé, como uma expressão da ação de lideranças religiosas por meio de projetos, eventos e ações junto aos poderes públicos, esse movimento seria marcado pela interlocução entre as lideranças das religiões de matriz africana e o Feminismo Negro, tendo como foco o enfrentamento à violência contra as mulheres, o combate ao racismo e à intolerância religiosa, que tem acompanhado o crescimento de neopentecostalismo no Brasil.
[4] Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2016) analisa que na sociedade Oyó-Iorubá (Nigéria), antes do período colonial escravista, o gênero não era um elemento de organização dos papéis sociais. A autora questiona que o título Ìyá não pode ser traduzido apenas como mãe, já que a maternidade, em lógicas ocidentais, consiste em uma instituição generificada que organiza as relações a partir do casamento, agrupando a categoria mãe à esposa. Essa conexão desconsidera as dimensões sociais e espirituais associadas ao título Ìyá.
[5] Classificação utilizada por Miranda (2021) para dar destaque à dimensão étnico-racial-religiosa como a causa para as violações praticadas contra os terreiros e seus adeptos.
[6] No final de 2007, o dia 21 de janeiro se tornou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, data oficializada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em homenagem à memória de Mãe Gilda, por meio da Lei nº 11.635.
Referências
LANDES, Ruth. (1967). A Cidade das Mulheres. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.
LIMA, Lana Lage da Gama. Feminismo e Candomblé no Movimento Mulheres de Axé. In: MIRANDA, Ana Paula Mendes de & OLIVEIRA, Ilzver de Matos & LIMA, Lana Lage da Gama. (Org.). (2023). As Tramas da Intolerância e do Racismo. Rio de Janeiro: Telha.
MAGGIE, Yvonne. (1992). Medo de feitiço: relações entre magia e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.
MIRANDA, Ana Paula Mendes de. (2021). A “política dos terreiros” contra o racismo religioso e as políticas “cristofascistas”. Debates do NER, [s. l.], p. 17-54.
MIRANDA, Ana Paula Mendes & MUNIZ, Jacqueline de Oliveira. (2018). Dominio armado: el poder territorial de las facciones, los comandos y las milicias en Río de Janeiro. http://www.vocesenelfenix.com, [s. l.], p. 44-49.
PINHO, Osmundo. (2021). Cativeiro: Antinegritude e Ancestralidade. Salvador: Centro De Humanidades, Artes e Cultura.
SILVA, Vagner Gonçalves da. (2007). Neopentecostalismo e religiões afro-brasileiras: Significados do ataque aos símbolos da herança religiosa africana no Brasil contemporâneo. Mana, v. 13, n. 1, p. 207-236.
A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.