
Na última atualização do dia, publicamos na coluna MinasMundo texto de Rita Lages Rodrigues (UFMG) sobre as artistas Zina Aita e Jeanne Louise Milde na capital mineira do começo do século XX. Segundo a autora, ainda que ambas não tenham se identificado com lutas feministas, elas apresentaram ao mundo das artes novas formas de se ser artista e mulher.
Nesta semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.
A ocupação não acaba neste 8M! Continue acompanhando nossas postagens nos próximos dias. Para saber mais sobre a iniciativa, clique aqui.
Boa leitura!
Mulheres artistas na Belo Horizonte dos anos 1920: novos olhares sobre a História da Arte na cidade[1]
Por Rita Lages Rodrigues (UFMG)[2]
O ano era 1920. Em 31 de janeiro de 1920 foi inaugurada a exposição da belorizontina Zina Aita no Conselho Deliberativo da capital mineira, considerada a primeira exposição de arte moderna na capital de Minas Gerais. Zina Aita, cujo nome de batismo era Tereza Aita, havia nascido em Belo Horizonte no ano de 1900, mesmo ano em que do outro lado do oceano, na longínqua Bélgica, havia nascido Jeanne Louise Milde. Em comum, além do ano de nascimento e de terem se tornado artistas por formação, a presença na cidade de Belo Horizonte. Belo Horizonte, construída de 1893 em diante, para ser a capital de Minas, é inaugurada em 1897, três anos antes do nascimento das duas personagens principais deste texto. Belo Horizonte, Zina Aita e Jeanne Louise Milde são contemporâneas, nascidas na alvorada do século XIX e no prenúncio do século XX, partilharam um mundo em constante transformação, marcado pela modernidade, pela ideia de civilização, pelas contradições relacionadas à presença de tradições e ao desejo de transformações.
Zina Aita foi a única artista visual de Minas Gerais participante da hoje centenária Semana de Arte Moderna de 1922. Filha de pais italianos, ainda na adolescência, parte para os estudos artísticos na Europa. Ao retornar, com formação em pintura, é aclamada nos jornais da cidade como um grande talento das artes e realiza sua exposição em um dos locais mais centrais da cidade de Belo Horizonte, o chamado “Palácio do Conselho Deliberativo” (imagem 01). Sua obra utilizava intensamente as cores, algo não visto anteriormente em Belo Horizonte (imagem 2). Apresentando obras com característica da arte moderna, entre 1914 e 1918 realiza cursos na Academia di Belle Arti di Firenze, onde estuda com Galileo Chini, pintor, designer, decorador e ceramista, vinculado ao Art Nouveau e com um grande domínio no uso de cores, características também encontradas na obra de Aita. Após sua passagem por Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, Aita muda-se definitivamente para a Itália, onde viverá em Nápoles até 1967, ano de sua morte.

Fonte: Luís Augusto de Lima. Aníbal Mattos e seu tempo. 1991. p.12

Em jornal de 1920, o mesmo em que constam informações acerca da exposição da artista, nota-se o interesse em se mostrar o desenvolvimento dos modos de vida da mulher. Assim, após referir-se à nomeação da 1ª mulher para a magistratura pelo prefeito de Nova Iorque e ao ingresso, na Universidade de Londres, da 1ª mulher que deseja seguir a carreira jurídica, afirma o jornal:
Quer isso dizer que os progressos do feminismo se accentuam, dia a dia e que tempo virá, muito breve, em que as mulheres se equipararão, ainda nos paizes mais conservadores, ao sexo forte, cuja força ficará sendo apenas constituída pela sympatia com que vê e auxilia esse triumpho, que equivale à sua própria derrota.[3]
As mulheres impunham sua presença em vários domínios da vida. Juntamente às notícias sobre a exposição de Aita na capital, outras, falando da conquista de novos espaços pelas mulheres, aparecem nas páginas dos diários, mostrando “os progressos do feminismo”[4] e as conquistas realizadas pelas mulheres. Sobre esta exposição, o Minas Gerais traz um texto em que aborda a obra da artista, ressaltando “a inegável originalidade de seu trabalho. No entanto, as cores bizarras de suas telas ferem, não raro, a vista do visitante” (MINAS, 1920). O fato de a artista ser uma conterrânea é também apontado, assim como o “seu talento arrojado” e que sua exposição seria merecedora de ser visitada.
Qual seria a Belo Horizonte dos anos vinte? Era a Belo Horizonte moderna, do movimento modernista de Minas? Era a Belo Horizonte tradicional das famílias mineiras que não aceitavam as mulheres fora do espaço privado do lar? Belo Horizonte, se não foi cosmopolita desde o seu princípio, tampouco deixou de possuir em sua realidade traços do mundo urbano e moderno das cidades: espaço de conflitos e contradições, de vivenciar o novo entremeado pelo antigo, de existência de classes sociais distintas, de culturas diversas, de convergência de pessoas desgarradas de suas terras, de suas realidades. E é esse choque entre o novo e o antigo, convivendo em um mesmo espaço, que aparece na moderna Belo Horizonte:
Belo Horizonte vivia, na década de 20, mudanças nas relações sociais e, conseqüentemente, no plano de concepção de vida e mentalidade vigentes. Fixavam-se na capital mineira contingentes populacionais oriundos de cidades interioranas ou de áreas rurais, definindo um intenso processo de urbanização. Daí a oscilação ideológica dos modernistas mineiros que ora reduplicavam o pensamento autoritário bernardista, ora se refugiavam em sua formação liberal. Surgia uma ampla classe média, devido à circunstância de ser a capital político-administrativa (e não ainda a capital econômica) de uma região dirigida por poderosa oligarquia regional. Note-se ainda a presença dos fazendeiros do ar, expressão retirada de Carlos Drummond de Andrade e que se refere ao homem que vem da propriedade rural para a grande cidade, ingressando na burocracia e recordando, em sua produção literária, valores e procedimentos formados na grande propriedade fundiária, normalmente conflitantes com o novo estilo de vida que encontram (Bueno, 1982: 25).
Belo Horizonte poderia ser tanto um belo cenário, um “divino corpo com alma de arraial”, uma “poeirópolis”, como o exemplo de um “desenvolvimento inédito” (Julião, 1997: 52-53), símbolo do progresso e da civilização. Poderia ser também “moderna e civilizada, trepidante, uma verdadeira metrópole ou, ao contrário, uma cidade pacata e provinciana, perdida em meio as montanhas de Minas, e onde, pela sua sem-graceza, nem mesmo o trem tem vontade de parar” (Silveira, 1997: 121). Em sua construção, a cidade de Belo Horizonte já nasce marcada por um discurso do moderno, embora uma determinada tradição seja preservada com a posterior transformação de Ouro Preto em “panteão da nação brasileira” (Melo, 1997: 45). Não seria uma tradição que teria como locus a própria cidade, a tradição estaria relacionada com a exaltação das figuras dos inconfidentes e da própria preservação de um passado das Minas Gerais com a mudança da capital de Minas para um “espaço de debate político e de ganho material que completava o destino das Minas Gerais e dos seus heróis” (Melo, 1997: 45).
Nesta Belo Horizonte, em 1929, chega a artista belga Jeanne Louise Milde, envolvida em um projeto civilizacional de Reforma Educacional do Governo do Estado de Minas Gerais implementada pelo Secretário Francisco Campos. Imbuída deste projeto, é ela quem diz o que veio fazer nestas novas terras: “Pensei bem e cheguei à conclusão de que na Europa já estava tudo feito. Não podia dispensar uma oportunidade de ir para um lugar onde estava tudo por fazer”.[5] Apesar da perspectiva hoje questionável, em função de desconsiderar a realidade que existia em terras brasileiras, sua fala encontra-se com o projeto do governo, e sua presença transforma a cena artística da urbe. Ela teria vindo para auxiliar na criação de uma Universidade do Trabalho, algo que nunca se efetivou, e acaba por ministrar aulas na Escola de Aperfeiçoamento (imagem 3), espaço para onde vinham as professoras do interior de Minas buscando novos saberes didáticos e pedagógicos. Insere-se neste meio também como artista em uma cena das artes ainda amadora presente na cidade, exercendo seu ofício de escultora. Em entrevista já ao final da vida, relembra sua aprendizagem e a dificuldade em ser uma das únicas mulheres a frequentar a Real Academia de Belas Artes de Bruxelas. Realiza uma obra de mais de dois metros, em mármore, para provar que era capaz de produzir obras escultóricas como seus pares. Em Belo Horizonte, suas obras trazem temas caros à tradição escultórica, como nus, estudos anatômicos, obras que abordam o universo do trabalho e também temas caros ao Brasil (imagens 4 e 5). Participante ativa da cena artística da cidade, é uma das principais personagens da Exposição do Bar Brasil, realizada em 1936, que buscava congregar artistas e refletir sobre a cena das artes na cidade, considerada pela pesquisadora Ivone Luzia Vieira fundamental para a inserção da arte moderna na capital de Minas Gerais. Milde viverá em Belo Horizonte até 1997, ano de sua morte. Seu acervo de obras e documental foi doado ao Museu Mineiro, onde permanece para consulta de pesquisadores.

Fonte: VIEIRA, Ivone Luzia.; LIMA, Luís Augusto de. Jeanne Milde: 90 anos Zina Aita, 1990. p. 18.

Acervo Museu Mineiro.

Estudos no campo da História das Mulheres e do gênero realizados nas últimas décadas revolucionaram o olhar sobre a forma como a História da Arte foi construída desde o século XIX. O hoje clássico texto de Linda Nochlin Por que não houve grandes mulheres artistas? constitui uma primeira tentativa de trazer questões que povoariam nas próximas décadas o campo de estudo sobre mulheres artistas: a falta de acesso, o problema da ideia relacionada ao gênio individual, a necessidade de novos olhares sobre a história da arte. A historiadora Joan Scott, ao se referir ao campo História das Mulheres, sob uma perspectiva historiográfica, relaciona as demandas de movimentos civis nos Estados Unidos dos anos 1960 à entrada na academia estadunidense de estudos historiográficos sobre a presença de mulheres na história. Além da presença das mulheres artistas, é importante pensarmos sobre as transformações ocorridas nos próprios mundos das artes no século XX.
Quando as mulheres ingressam no mundo da arte, elas tensionam este mundo, apresentando outras perspectivas e visões de mundo, oriundas de sua condição feminina. Seja pela necessidade de se mostrarem profissionalmente capazes para além de um ideal de feminilidade que as colocava no lugar de amadoras, seja trazendo novos fazeres e formas oriundos da sua condição de mulher. Como possibilidade interpretativa, pode-se ler a inserção destas mulheres neste meio a partir da lógica do suplemento de Derrida. O suplemento vem a ser uma indefinição; ele é tanto uma adição como uma substituição. As indefinições são “significados contraditórios que são impossíveis até de serem classificados separadamente” (Scott, 1992: 76). As mulheres aparecem, nesse sentido, como personagens que se inserem no meio artístico, trazendo novos códigos, complementando e substituindo os códigos existentes anteriormente. As mulheres-artistas vão aí se inserir de maneira a incorporar e também, paradoxalmente, colocar em xeque os modos de ver existentes nesse meio.
A história da arte tradicional, construída a partir de um pequeno recorte geográfico e cultural europeu, foi universalizada, marginalizando as mulheres e todas as outras manifestações culturais e grupos que tivessem um entendimento diferente do fazer artístico. Por alguns séculos, desde o renascimento pelo menos, a divisão por gênero relacionou-se a meios e posições hierárquicas nos mundos das artes: os homens seriam aqueles profissionais das artes, aqueles que frequentariam os circuitos, os que exporiam suas obras e seriam remunerados por seu trabalho, cabendo às mulheres um lugar de amadorismo e, principalmente, dentro do que era considerado artesanal, inferiorizado em relação ao objeto artístico.
Jeanne Louise Milde se insere em um determinado meio, o artístico, e se apropria das formas de representação aí existentes, mas com uma diferenciação básica: como mulher europeia. Ser europeia traz a ela um lugar social de destaque, como no poema do moderno Drummond sobre As moças da Escola de Aperfeiçoamento, tão moderna, tão chegada de Paris par le dernier bateau[6]. Zina Aita também representava esta Europa, filha de italianos, com formação artística na Europa. Da Europa vinha a ideia de civilização e as duas representavam também este ideal que atrelava modernidade, ainda ancorado em traços civilizatórios. Eram mulheres artistas que traziam saberes que se encontravam com os anseios civilizatórios dos projetos políticos de então. Nosso enfoque, no entanto, é no papel que elas tiveram como mulheres artistas que romperam as barreiras de gênero, abrindo portas para que outras mulheres atuassem como artistas.
Zina Aita e Jeanne Louise Milde ainda que em suas existências não tenham se intitulado feministas, não tenham participado de movimentos, como o movimento sufragista, por suas ações, formações e deslocamentos, apresentaram aos mundos das artes novas formas de se ser artista e mulher.
Notas
[1] Este texto, aqui apresentado em uma versão modificada para o Blog, é parte de “Mulheres Artistas na Cidade Moderna: o feminino e os modernismos nas primeiras décadas da Capital de Minas”. Cf. Rodrigues (2022).
[2] Historiadora, Doutora em História/UFMG. Professora Associada de História e Teoria da Arte na Graduação e na Pós-Graduação da Escola de Belas Artes/UFMG.
[3] DIÁRIO DE MINAS, 17 janeiro 1920. p. 01.
[4] DIÁRIO DE MINAS. 17 janeiro de 1920. p. 01.
[5] ESTADO DE MINAS, Feminino, 23 novembro de 1997, p. 09.
[6] ANDRADE, Carlos Drummond. As moças da Escola de Aperfeiçoamento.
Referências
BUENO, Antônio Sérgio. (1982). O modernismo em Belo Horizonte: década de 20. Belo Horizonte: UFMG/PROED.
JULIÃO, Letícia. (1997). Belo Horizonte: itinerários da cidade moderna (1891-1920). In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. (org.). BH: Horizontes históricos. Belo Horizonte: C/ Arte.
MELO, Ciro Flávio Bandeira de. (1997). A noiva do trabalho, uma capital para a república. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. (org.). BH: Horizontes históricos. Belo Horizonte: C/ Arte.
NOCHLIN, Linda. (2016). Por que não houve grandes mulheres artistas? São Paulo: Edições Aurora. Disponível em: http://www.edicoesaurora.com/ensaios/Ensaio6.pdf
MUSEU DE ARTE DE BELO HORIZONTE. (1990). Jeanne Milde, Zina Aita, 90 anos. Belo Horizonte: Prefeitura de Belo Horizonte.
SILVEIRA, Anny Jackeline Torres Silveira. O sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. (org.). BH: Horizontes históricos. Belo Horizonte: C/ Arte.
RODRIGUES, Rita Lages. (2022). Mulheres Artistas na Cidade Moderna: o feminino e os modernismos nas primeiras décadas da Capital de Minas. In: MAIA, Andréa Casa Nova; FAGUNDES, Luciana Pessanha. (Org.). Independências e modernismos: outras modernidades no Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Editora Telha. p. 316-337.
SCOTT, Joan. (1992). História das Mulheres. In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP.
SIMINONI, Ana Paula Cavalcanti. (2022). Mulheres Modernistas. Estratégias de consagração na arte brasileira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.