
Neste post, compartilhamos algumas notas da pesquisa que Marcella Araujo (UFRJ) vem desenvolvendo sobre as demolições e a construção da Avenida Presidente Vargas. Segundo a autora, sua pesquisa toma o canteiro de obras como um laboratório de experiências, no qual saberes técnicos e suas promessas de futuro se confrontam na produção material e simbólica da cidade moderna.
Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres. Além de um conjunto variado de narrativas sobre gênero, interessa-nos também publicar relatos de experiências e divulgação de pesquisas conduzidas por mulheres.
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Boa leitura!
Vem surgindo a Avenida Presidente Vargas…
Por Marcella Araujo[1]
Convido os leitores e as leitoras a uma viagem no tempo. Imaginem que estamos no final de 1943, caminhando ao lado de um pedestre pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro. Chegamos à Rua de Santana e nosso caminhante se comove com a paisagem. Na Praça Onze, berço do samba carioca, não encontramos mais o chafariz do Largo do Rocio Pequeno e o casario, sobrados com armazéns de secos e molhados e casas de trabalhadores negros, judeus e imigrantes. Em uma esquina, vemos dois homens. Um deles canta um samba daquele ano de 1943:
Desapareceu a Praça Onze
Mas o samba se faz em qualquer local
Vem surgindo a Avenida Getúlio Vargas
Que será o orgulho desta linda capital[2]
O homem ao seu lado não esconde seu descontentamento. Por acaso o companheiro não se lembra do último carnaval? Com a Praça Onze em escombros, ranchos e escolas de samba foram deslocados para a Avenida Rio Branco e desfilaram rodeados de painéis instalados pelo prefeito Henrique Dodsworth, representando “baianas, máscaras, clowns, pandeiros, além de vários coretos”[3]. O indignado espera que o companheiro termine de cantar e começa a tamborilar com os dedos. Canta uns versos de Grande Otelo, chorosos diante das marretadas que demoliram a primeira casa da Praça Onze, em 1941, para dar lugar à nova avenida que o presidente Getúlio Vargas construía[4].
Meu povo, este ano a escola não sai
Vou lhe dar explicações
Não temos mais a Praça Onze
Para as nossas evoluções
Curioso para conhecer a tal Avenida Getulio Vargas, o pedestre nos convida a adentrar o canteiro de obras. Encontramos um largo e comprido descampado, que vai do Canal do Mangue até o mar. Nas laterais do canteiro, antigos sobrados despontam baixos e acanhados. Cruzamos o Campo de Santana, com parte dos caminhos do jardim desenhado pelo paisagista do império, Auguste Glaziou, destruído. O gradil e algumas estátuas são removidos cuidadosamente e levados a um caminhão. Uma vasta cabeleira usando óculos de armação grossa acompanha os trabalhos de demolição. É Roberto Burle Marx, aluno de Lucio Costa. Ele foi convidado por Raymundo Ottoni Castro Maia, o mecenas e, desde junho de 1943, “administrador da floresta urbana”, para assinar o paisagismo da Floresta da Tijuca. Burle Marx aproveitará parte do mobiliário do Campo de Santana “mutilado” pelas obras da avenida.
Do outro lado da avenida em construção, surpreendemo-nos com a altura que ganham a Estrada de Ferro Pedro II e o Ministério da Guerra. Com as cabeças erguidas, contamos os andares da torre sobre a estação de trem. Um, dois, três… vinte e um, dez andares mais alto do que o Big Ben londrino. Um engenheiro nos explica que aquelas alturas eram conquistadas com o uso de concreto armado, técnica construtiva que mistura cimento, calcário e areia em uma massa armada por vigas de ferro. Além de maleável e seguro, o concreto armado é também saudável. Para comprovar o que diz, o engenheiro puxa um jornal da sua bolsa e nos mostra um anúncio da Companhia Nacional de Cimento Portland:
Na hygiene – é um factor primordial no abastecimento de água ou nas estações de tratamento de esgôtos, nas pavimentações dos frigoríficos ou das fábricas de alimentícios. Mesmo nos divertimentos faz parte essencial – nas piscinas, quadras de jogos, etc. Quando applicado em construcções de casas é uma proteção contra o fogo, assegura rigidez, torna impossível as fendas e o ataque por insectos damninhos, tudo isso por um custo mínimo de manutenção.
Aproveitamos nosso interlocutor e perguntamos o que está sendo construído no topo da torre da Estrada de Ferro Pedro II. Com um sorriso no rosto, orgulhoso do feito, ele nos diz que a torre contará com um grande relógio. A obra é da International Business Machines, a IBM, e servirá para acertar os ponteiros dos relógios de bolso e pulso dos cariocas.
Seguimos e avistamos montes de escombro e centenas de trabalhadores empunhando picaretas que transformam a paisagem do centro da cidade. Paramos na altura da Rua Uruguaiana. Olhando na direção do mar, vemos três igrejas. A primeira, a Igreja de Bom Jesus do Calvário e Via Sacra, está fechada. Rodrigo Melo Franco de Andrade bate mais uma vez à porta, em busca de alguém da Irmandade. Em voz alta, ele não se conforma com o “valor secundário” atribuído ao templo pela Comissão Plano da Cidade (CPC) como justificativa para sua demolição. Ao contrário do que disseram os engenheiros, a tradição colonial não poderia ser “sacrificada” em nome dos imperativos da vida contemporânea de uma “cidade viva”[5]. A Igreja de Bom Jesus estava em processo de tombamento pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), órgão que Rodrigo Melo Franco de Andrade fundou em 1937 e dirigia desde então.
Ali adiante, de costas uns para os outros, vemos outros homens engravatados, técnicos das obras. Voltado para a Igreja de São Pedro dos Clérigos, está Fernando Lobo Carneiro, engenheiro do Instituto Nacional de Tecnologia, segurando um relatório técnico nas mãos. Vê-se na capa que se trata de documento confidencial. O engenheiro explica a Edison Passos, Secretario de Viação, Transporte e Obras Públicas, como ele, um egresso da Escola Politécnica, que é possível realizar a operação imaginada, erguer a igreja com macacos hidráulicos e fazê-la andar sobre rolos de concreto armado até outro ponto da avenida.
Para os olhos dos leigos, o transporte de uma enorme massa de alvenaria e pedra ou de um bloco de cimento armado pesando milhares de toneladas – como uma igreja ou um arranha céu, é obra de verdadeiro milagre somente comparável àquelas que aladino fazia transportando, num esfregar de olhos, palácios e jardins para sítios distantes. Daí, o interesse do carioca que, mais do que nunca, aguçou sua proverbial curiosidade, louco para ver esse espetáculo inédito: um templo arrastar-se inteirinho como um brinquedo cerca de 80m, para alinhar-se ao lado dos prédios de 22 andares que comporão aquela magnífica artéria naquela altura. Se os leigos olham a coisa desse modo, para o engenheiro o problema se apresenta diferente. Nada de extraordinário. A mecânica, a eletricidade combinadas em cálculos precisos fazem o milagre da técnica moderna. Nada de mais[6].
De costas para o engenheiro Fernando Lobo Carneiro, vemos ninguém menos do que o arquiteto Lucio Costa. Em silêncio, ele observa a Igreja da Candelária e desenha em uma prancheta. Incomoda-o que o templo esteja de costas para a avenida, mas ainda pior é a dissonância estética e a desproporção do templo em relação aos arranha-céus que se imagina construir no lugar dos antigos sobrados. Lucio Costa pondera o que fazer com aquela “obra bastarda”, feita de diversos estilos, barroco e neoclássico. O antigo Diretor da Escola Nacional de Belas Artes não compreende como aquela igreja – e não a São Pedro e suas majestosas rotundas, modelo e inspiração para igrejas de Mariana e Ouro Preto –, como aquele “arranjo extravagante” será a “joia colonial” da nova avenida. É melhor escondê-la. Em sua prancheta, ele desenha um croqui da Nossa Senhora da Candelária rodeada de árvores. Anota embaixo sua recomendação para a solução do problema arquitetônico da igreja, a ser enviado a Rodrigo Melo Franco de Andrade: “Plantio de uma cortina de ficus religiosa […], na calçada, ao longo das fachadas dos corredores e do corpo posterior a fim de escondê-la completamente”[7].
*
Essa descrição das obras da Avenida Presidente Vargas é fictícia na sincronicidade que impõe aos eventos narrados, mas não é mero fruto da imaginação. Cada um dos personagens apresentados, grandes nomes da arquitetura, das artes, do patrimônio, da engenharia e da administração pública, participou da construção da avenida. Novas fileiras de engenheiros da Escola Politécnica, esta instituição há muito responsável pelas obras e concessões urbanas da capital federal, projetavam uma imagem de modernidade e progresso para o Rio de Janeiro, uma nova avenida em linha reta muito diferente do “xadrez de ruas estreitas” do traçado colonial da cidade. Arranha-céus erguidos em concreto armado, esta técnica e matéria-prima da modernidade na construção civil, relógios a sincronizar os ritmos frenéticos da multidão de pedestres, meia dúzia de faixas para bondes elétricos e carros a encurtar as distâncias entre as zonas norte e sul eram essas as imagens projetadas da nova metrópole em construção.
Mas como disse o poeta-burocrata do gabinete do Ministério de Educação e Saúde, havia uma pedra no meio do caminho do progresso. Ou melhor, pedras no plural, quinhentos edifícios, praças e jardins. Os engenheiros da Comissão Plano da Cidade, da Secretaria de Viação, Transporte e Obras Públicas e da Companhia Internacional das Estacas Armadas Frankignoul S.A encontraram muita resistência ao projeto da avenida. Alguns ilustres sambistas e desconhecidos criticaram, em verso e samba, a demolição da Praça Onze, local de moradia e sociabilidade de trabalhadores cariocas, sobretudo negros. Outros ilustres nomes, como Rodrigo Melo Franco e Lucio Costa, atuaram na defesa do patrimônio histórico e artístico nacional que foi demolido. O Campo de Santana, a Igreja de Bom Jesus, a Igreja de São Pedro e o Edifício da Alfândega estavam entre os primeiros bens tombados em 1938 pelo Sphan, esta moderna instituição responsável pela seleção e consagração da memória nacional – naqueles primeiros anos, grande defensora da arquitetura colonial como distintiva da nossa brasilidade.
O projeto de pesquisa que coordeno atualmente, com financiamento da Faperj e da UFRJ, discute as demolições e a construção da Avenida Presidente Vargas. Não tomo o espaço como uma abstração teórica ou mero instrumento de poder, mas como uma obra resultante de processos de produção social (Lefebvre, 2008). Na pesquisa, o canteiro de obras é tomado como um laboratório de experiências, no qual saberes técnicos e suas promessas de futuro se confrontam na produção material e simbólica da cidade moderna.
O projeto tem dois objetivos. O primeiro é analisar as controvérsias sociotécnicas que envolveram engenheiros da CPC e arquitetos do Sphan em torno das demolições. No bojo das discussões feitas por meio de centenas de cartas e ofícios, estavam em xeque o valor do progresso encarnado pelo traçado retilíneo da avenida e o valor artístico dos traços dos bens tombados ameaçados de demolição. Arquitetos e engenheiros empunharam, respectivamente, as armas do patrimônio e do urbanismo para disputar o desenho da cidade e as expressões da nossa modernidade.
O segundo objetivo deste projeto é discutir as técnicas construtivas e os processos produtivos que viabilizaram o canteiro de obras da Avenida Presidente Vargas. Durante a Segunda Guerra Mundial, na impossibilidade de importar asfalto para a cobertura da nova via, o cimento proveniente da jovem indústria nacional ganhou protagonismo como matéria-prima e opção estética. Desde 1926, o Brasil era produtor de cimento e, na década seguinte, as obras públicas, especialmente as viárias, contribuíram para superação da produção nacional sobre as importações (Santos, 2011). No canteiro da Avenida Presidente Vargas, além de pavimentar o chão, o cimento também ganhou as alturas. O concreto armado garantiu a reforma da Estrada de Ferro Pedro II e do prédio do Ministério da Guerra, além de viabilizar a imaginação material de altos arranha-céus. Essa experimentação técnica e estética era viabilizada não apenas por condições econômicas e políticas, como também pela convergência de uma série de especialistas e saberes técnicos. Os engenheiros já eram velhos conhecidos da política na capital federal, famosa por seus prefeitos obreiros e pela atuação do Clube de Engenharia. Mas naqueles anos 1930, momento do nascimento do urbanismo como novo campo disciplinar, havia engenheiros realizando experimentos com concreto armado em laboratórios da Escola Politécnica e do Instituto Nacional de Tecnologia; engenheiros acadêmicos trazendo o concreto armado para os currículos dos novos formandos; engenheiros estrangeiros e brasileiros nas empresas de construção civil que construíam com concreto; nascentes associações de classe fazendo lobby pelo cimento; campanhas de propaganda dos grandes fabricantes sobre os benefícios da construção em concreto; manuais em revistas especializadas para arquitetos, engenheiros e urbanistas ensinando a calcular e construir com concreto. Portanto, além da produção da indústria do cimento e das articulações políticas entre engenheiros e prefeitos, havia uma densa rede sociotécnica que transformava o modo de se imaginar e construir o espaço urbano. Como a historiadora Amy Slaton (2001) propôs, o concreto armado também é bom para pensar a história da ciência e tecnologia, da indústria da construção civil e da transformação da paisagem urbana no Brasil.
Notas
[1] Professora do Departamento de Sociologia da UFRJ e do Programa de Pós Graduação em Sociologia do Iesp/Uerj.
[2] “Vem surgindo a avenida”, samba de Benedito Lacerda e Gastão Vianna, 1943.
[3] Correio da Manhã, 06 de fevereiro de 1942, p. 9.
[4] Os versos de Grande Otelo acabaram excluídos do samba “Praça Onze”, gravado por Castro Barbosa e o Trio de Ouro e lançado em 1942. Foi grande sucesso no salão nobre do Fluminense Football Club e empatou com nada menos do que “Ai que saudades da Amélia”, de Mario Lago e Ataulfo Alves, no concurso de sambas carnavalescos da Prefeitura do Distrito Federal.
[5] Henrique Dodsworth. DOC 440-3, arm 1, gaveta 6, pasta 27, Arquivo Geral do Iphan, 03 de fevereiro de 1941.
[6] A Noite 17/11/1943
[7] Lucio Costa. Estudo técnico “A solução do problema arquitetônico da Igreja de Nossa Senhora da Candelária”, 6 Arquivo Central do Iphan, 02 de julho 1945.
Referências
LEFEBVRE, Henri. (2008). A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG.
SANTOS, Leandro B. (2011). A indústria de cimento no Brasil: origens, consolidação e internacionalização. Sociedade & Natureza, [S. l.], v. 23, n. 1.
SLATON, Amy. (2001). Reinforced concrete and the modernization of American building, 1900-1930. . (Johns Hopkins Studies in the History of Technology.) Baltimore/ London: The Johns Hopkins University Press.
A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.