Ocupação BVPS Mulheres 2024 | “Fala, mulher, fala”. Diálogo entre Clarice Lispector e Geni Nuñez, por Marília Librandi

Neste post, publicamos ensaio de Marília Librandi sobre Clarice Lispector e a escritora e psicóloga Geni Nuñez, duas mulheres que, segundo a autora, escreveram a partir do lugar da liberdade de fala, de escrita e de pensamento. Librandi coloca em diálogo fino dois livros separados por 50 anos: Água viva (1973), de Lispector, e Descolonizando afetos: Experimentações sobre outras formas de amar (2023), de Nuñes.

Na semana do 8M, a BVPS promove pelo segundo ano consecutivo a Ocupação Mulheres, reunindo ensaios, relatos, cartas, conto, entrevista e resenhas que abordam temas, reflexões e dados das mais diferentes ordens sobre mulheres.

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Boa leitura!


“Fala, mulher, fala”. Diálogo entre Clarice Lispector e Geni Nuñez

Por Marília Librandi[1]

Uma mulher separa-se de seu companheiro para criar outra artesania de afetos consigo mesma e com o mundo, ampliando-se através de um mergulho na solidão de artista. Esse é um modo de ler o livro Água viva, de 1973, de Clarice Lispector, em diálogo com a proposta da escritora e psicóloga Guarani, Geni Nuñez, para celebrar a Semana das Mulheres. Em seu livro Descolonizando afetos: Experimentações sobre outras formas de amar, publicado em 2023, exatos cinquenta anos após o livro de Clarice, Geni propõe a expressão, “artesania de afetos”. Sua perspectiva guarani põe em questão a bagagem cristã de relações monogâmicas impostas a modos outros de ser, viver e sentir:

Penso a não monogamia não como um modelo alternativo que se contrapõe à monogamia, mas sim como um não modelo. Não há receita pronta que funcione para todas as pessoas do mundo. Por isso utilizo a noção de artesania dos afetos para chamar a atenção para essa construção, que é sempre irrepetível em cada trajetória (Nuñez, 2023: 81).  

Não se trata de comparar os dois livros, mas de propor um diálogo sutil entre mulheres que escrevem a partir do lugar da liberdade de fala, de escrita e de pensamento. De um lado, a criação de uma obra literária livre; de outro, a análise psicológica e sociológica de relações afetivas que se querem livres do molde herdado. Em ambas, lemos a soltura de convenções do cânone literário e /ou amoroso e matrimonial. Clarice levou três anos para finalizar seu livro, e expressou várias vezes o receio sobre como Água Viva seria recebido, devido à audácia de sua criação para a qual não havia modelo prévio, como ela mesma escreveu em versão anterior não publicada:

Queria que alguém tivesse escrito um livro nos moldes desta carta-livro feita de flashes dos instantes para eu não me sentir sozinha na captação do presente (Objeto gritante, p.185 – datiloscrito) (apud Abrantes, 2023: 201).

Já o livro de Geni é um alerta, um despertar para a lógica que maltrata tantas relações íntimas, estimuladas pelo modelo romântico que oblitera uma lógica perversa de posse e de propriedade:

No amor romântico, a promessa é a de que tudo seja suprido por uma única pessoa, seja para dar sentido à vida, seja para ser a única fonte a ser demandada para tudo. Assim como a terra, que, quando abusivamente explorada, se torna estéril, o amor também seca quando se toma dele toda gota. O cuidado unilateral é extrativista (Nuñez, 2023: 73).

Geni Nuñez fala com uma delicadeza de voz e com a força de quem vai derrubando paredes de aço lógicas construídas em volta dos afetos. Apesar das muitas conquistas feministas, desde sobretudo a década de 1960/70, a internalização dos discursos e práticas do casamento romântico é ainda dominante.  A partir de seu estudo das cartas jesuíticas, Geni lembra que ser mulher é sinônimo de ser esposa, a tal ponto que usamos a expressão “ex-mulher”, mas não usamos “ex-homem” no lugar de “ex-marido”:

Tanto é assim que no senso comum ser mulher e ser esposa são frequentemente usados como sinônimos, “o marido e sua mulher”, enquanto para os homens cis ser homem e ser esposo são posições mais independentes (Nuñez, 2023: 62).

A parceria num elo de amor e liberdade é rara. Que liberdade é essa? Nós pouco sabemos praticá-la, pois é, na maioria das vezes, vivenciada a um custo alto de solidão, desafetos e violência. A não monogamia, precisa explicar Geni, não é promíscua nem sequer inclui mais de um/a/e parceiro/a/e: é um modo de se relacionar baseado na aprendizagem da liberdade. Ciúmes, inveja, violência e todos os afetos que machucam são postos sob nova luz. Qual diálogo podemos ensaiar com Água viva?

Em Água viva, ouvimos a voz de uma mulher que escreve a um tu. Essa voz é a de uma artista pintora, que se põe a escrever a esse outro, seu “ex-homem”, amante, marido ou amado. É um gesto, portanto, de despedida. Saindo da duração de uma relação, essa voz abre-se agora para o presente do instante. Assim como a mulher se separa, cada frase do livro existe em separado, como o fragmento de um conjunto que toma a forma de um caleidoscópio:

Esta palavra a ti é promíscua? Gostaria que não fosse, eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro (Lispector, 2019: 40).

Ao desconstruir uma narrativa estilhaçada em frases soltas, o livro correspondeu a um gesto máximo da escritora que se liberta de todas as amarras, como a nos dizer que não dá para ser artista sem romper com estruturas que acolhem, mas restringem, que cuidam, mas constrangem. Diz a narradora: “Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais”.  Nem o literário nem o sexual. O “ela” e o “ele” darão lugar ao “it”, que corresponde à busca pelo “é” das coisas e de si mesma espalhada nos demais seres do mundo.

O livro começa a ser escrito em 1971, logo após o lançamento de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969.  Se neste, o amor e o sexo entre a mulher e o professor de filosofia é cantado, em Água viva, ouvimos a seguinte abertura:

É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais (Lispector, 2019: 6).

O que essa abertura está a nos dizer? O que essa aleluia e alegria e uivo ensinam a nós, mulheres-escritoras, mulheres-artistas, mulheres-professoras, mulheres-mães-tias-irmãs-avós, mulheres-filhas, mulheres-trans, mulheres-fêmeas, mulheres-homens? Não sei se sou capaz de expor a dimensão desse início e ensaio algumas propostas.

Por exemplo. Ela nos ensina que o nascimento vem da separação que atravessa a morte, por isso, é uivo de dor e impulso de amor, é alegria e aleluia no gesto mesmo do maior desespero que nos faz viver. Em Água viva, esse nascimento é celebrado em passagens fulminantes:

Criar de si próprio um ser é muito grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se. (Lispector, 2019: 51).

O nascer é o separar-se:

E quando nasço, fico livre. Esta é a base de minha tragédia.
Não. Não é fácil. Mas ‘é’. (…) E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão. (Lispector, 2019: 41)

E a vitalidade:

Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. (Lispector, 2019: 49)

Esse tropismo é a metáfora que Geni Nuñez também enfatiza:

Como o girassol busca acompanhar os melhores ângulos para receber e se encontrar com os raios que o iluminam, também nós vamos nos ajustando e buscando nos aproximar daquilo que nos potencializa a vida. Quando o girassol para de fazer essa busca, esse giro, ele encerra seu ciclo de vida (Nuñez, 2023: 72).

Clarice nasceu em 1920. Seu primeiro livro foi publicado em 1943. Casada com um diplomata, ela viveu 15 anos fora do Brasil, até retornar em 1960, após seu desquite em 1959 (reconhecido apenas em 1964), quando então vive com seus dois filhos no Rio de Janeiro. José Miguel Wisnik bem diagramou o elo entre autonomização feminina e narrativas em Laços de família (1960), A legião estrangeira (1964) e A paixão segundo GH (1964), assinalando o modo como as personagens mulheres vão, livro a livro, tornando-se estrangeiras aos laços familiares tradicionais, expondo-se a uma solidão radical para viverem o risco e o perigo de “nascer[em] de seu próprio parto” (frase do conto “A legião estrangeira”).

Da separação amorosa advém um encontro consigo mesma, doloroso e alegre (com brio). Esse encontro é a abertura de um “é-se” por escrito. A autonomia implica a interdependência de tudo. De um ser que se espraia e que se transforma, e pode ser o mundo. É esse aprendizado lento, sofrido e alegre, a lição de Clarice, que abre portais para uma escrita existencial e impessoal, ao mesmo tempo sua e de todos. 

A força da frase “Ninguém me prende mais” é a afirmação de uma autonomia ampla do desejo feminino por exuberância e intensidade, é soltar o medo e falar por inteiro e não pela metade, é viver na plenitude e não à prestação, é soltar a intensidade da libido na linguagem, é soltar o grito dessa voz tamanha (não por acaso o título do livro era “Objeto Gritante”, antes de se tornar Água viva), é enfrentar os demônios da expressão, é a liberdade íntima: “ninguém me prende mais”, sobretudo eu mesma.  E como viver junto de alguém a partir dessa premissa? Se dermos um salto para o livro de Geni Nuñez, percebemos que não se trata de não viver junto, mas de não se submeter a um modelo que impede essa liberdade:

(…) agora sabemos que o gesto de querer prender, prever e controlar o outro, além de não garantir sua presença e seu amor, faz de quem prende um prisioneiro. Antes de cobrar uma promessa que não foi cumprida, questionemos a validade de sua premissa (Nuñez, 2023: 40).

Essa mensagem é o oposto dos discursos e atos de feminicídio que continuam a impor violência e culpabilidade em gestos de autonomia feminina. Baseada em uma pesquisa de 2020, Geni realça não ser o machismo apenas a causa das violências, mas o modelo de relação normalizado e que precisa ser criticado por dentro para outras artesanias possíveis:

(…) cerca de 90% das vítimas de feminicídio foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. Ou seja, não são homens aleatórios que estão cometendo esses assassínios: são precisamente aqueles com quem as vítimas tiveram um vínculo romântico, monogâmico e heteronormativo. Em outras palavras, essa forma de amar é perigosa para a vida das mulheres e das pessoas sexo-gênero dissidentes (Nuñez, 2023: 21).

A separação de alguém amado pode ser celebrada como uma entrada na alegria por abrir outros caminhos de liberdade, inclusive criando outros laços com aquela mesma pessoa, até porque o fim nem sempre implica falta de amor:

Nos mais diversos tipos de relações, das familiares às afetivo-sexuais, permanece esse mito de que ‘se há amor, deve-se ficar’, mas talvez nos caiba cogitar que é possível amar e ir embora (Nuñez, 2023: 83).

Para alcançar o amor it:

Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio (Lispector, 2019: 40).

Água viva encerra-se assim:

E eis que depois de uma tarde de ‘quem sou eu’ e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um ‘isto’. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada (Lispector, 2019: 101).

À perda do amor que finda corresponde ao ganho da arte da escrita, que continua ao espraiar-se no mundo e no reflorestar dos afetos. Encerro com a citação que inspirou o título deste artigo e que se encontra em Objeto Gritante:

Fala, mulher, fala porque é a palavra que te salvará mesmo que ninguém te entenda e mesmo que só seja eu: o que é insuportável como solidão. Estou cheia de tanto amor que extravaso. Eu amo este mundo imundo. Ele é meu. Eu sou dele. É a mesma matéria prima (Objeto gritante, p. 104 – datiloscrito) (apud Lispector, 2019).


Nota

[1] Autora de Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta (Relicário, 2020). Criadora da plataforma sonora: clarice.princeton.edu, do Brazil Lab, na Universidade de Princeton. Professora colaboradora do núcleo Diversitas, USP. Diretora do Lab Escrita Escuta.

Referências

ABRANTES, Ana Clara. (2019). Objeto gritante: uma confissão antiliterária”. In: LISPECTOR, Clarice. Água viva: Edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio de Janeiro: Rocco Digital p.150-160.

LISPECTOR, Clarice. (2019). Água viva: Edição com manuscritos e ensaios inéditos. Org. e prefácio Pedro Karp Vasquez, Rio de Janeiro: Rocco Digital. [livro eletrônico]

NUÑEZ, Geni. (2023). Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Planeta do Brasil. [livro eletrônico]

WISNIK, José Miguel. (2018). Diagramas para uma trilogia de Clarice. Revista Letras, Curitiba, UFPR, n. 98, p. 282-307.

A imagem que abre o post é da artista plástica Lena Bergstein.