Em tela, a ditadura civil-militar: cinema, sociedade e interpretações sobre o passado e o presente, por Caroline Gomes Leme

No Especial BVPS sobre os 60 anos do Golpe de 1964, publicamos ensaio de Caroline Gomes Leme (URCA) sobre cinema e ditadura. A socióloga discute algumas produções audiovisuais que retratam a ditadura civil-militar em um largo período que abrange filmes lançados ainda durante o regime militar até anos recentes. 

Boa leitura!


Em tela, a ditadura civil-militar: cinema, sociedade e interpretações sobre o passado e o presente

Por Caroline Gomes Leme (URCA)

“O que é que eu tô fazendo aqui? Eu sou neutro. Apolítico. Nunca fiz nada… Nunca fiz nada contra ninguém. Eu não sou dos que são contra… Eu sou um homem comum… Eu trabalho, eu tenho emprego, documentos. Tenho mulher, tenho filhos. Eu pago imposto. Ninguém tem o direito de fazer isso comigo. Logo comigo! E os meus direitos? […] Uma coisa dessas não se faz com ninguém!”.

Essas palavras são proferidas pelo personagem Jofre, do filme Pra frente Brasil (Roberto Farias, 1982), torturado por ser confundido com um opositor do regime militar (1964-1985). Elas colocam em questão um tema candente e atual: a “legitimidade” da tortura. Para muitos é mais fácil se sensibilizar com Jofre, “inocente” homem de classe média, do que com criminosos comuns, suspeitos pobres e “terroristas”, em relação aos quais a tortura é por vezes vista com indiferença, omissão ou mesmo apologia. A abjeta máxima “Direitos Humanos para humanos direitos” ganhou visibilidade crescente nos últimos anos e paralelos com a produção e recepção de obras audiovisuais não são difíceis de serem encontrados, vide, por exemplo, a heroicização de personagens como Capitão Nascimento de Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Jack Bauer, da série 24 horas (Joel Surnow e Robert Cochran, 2001-2010), entre muitos outros personagens de filmes e séries que envolvem guerras e/ou violência urbana.

As produções audiovisuais são a um só tempo produto e produção social, ou seja, são realizações culturais constituídas pela realidade sócio-histórica e que também compõem o processo de construção dessa realidade. Mais do que um mero reflexo, elas são parte da dinâmica de interpretações sobre passado e presente. Analisar os filmes que retratam a ditadura civil-militar é, assim, uma maneira de pensar sobre a sociedade brasileira e sobre as questões que perpassam a elaboração de significados sobre esse período histórico. É também uma maneira de pensar sobre o presente, se considerarmos a história como um processo e entendermos que as interpretações sobre o passado fazem parte dos embates que constituem a atualidade.

Logo após ser perpetrado, o golpe que instaurou o regime militar em 1964 foi objeto de reflexão crítica em diversas produções culturais. No cinema, obras identificadas ao movimento do Cinema Novo, como O desafio (Paulo César Saraceni, 1965); Terra em transe (Glauber Rocha, 1967); e O bravo guerreiro (Gustavo Dahl, 1969) elaboraram, de maneira alegórica ou realista, a frustração e a desorientação ante o golpe civil-militar que ceifou as perspectivas de transformação social que vicejavam no início dos anos 1960. E obras do chamado Cinema Marginal (1968-1973) radicalizaram a expressão de profundo desconforto numa estética agressiva, exasperada, por vezes permeada por imagens de tortura e dilaceramento corporal – vide filmes como Jardim de guerra (Neville d’Almeida, 1970), Jardim de Espumas (Luiz Rosemberg, 1970) e Prata palomares (André Faria, 1972). Esses filmes dos anos 1960 e 1970 se relacionam com o contexto sócio-histórico em que foram realizados e não são exatamente filmes sobre a ditadura, são antes filmes sob a ditadura: concebidos sob o impacto do golpe, sob a opressão aprofundada após a instauração do Ato Institucional n.5 (AI-5) e sob o jugo cerceador da censura. A alegoria no Cinema Novo e a estética agressiva do Cinema Marginal constituem, assim, formas de resposta ao contexto ditatorial em que os filmes foram realizados.

A partir da abertura política (notadamente após a revogação do AI-5 em 13 de outubro de 1978 e a sanção da Lei de Anistia em 28 de agosto de 1979), surgem vários filmes que, ainda sob a vigência do regime militar, tratam mais claramente do período ditatorial. Situam suas tramas explicitamente nos anos 1960 e 1970 e colocam em tela fatos, personagens e figuras históricas relacionadas àqueles momentos. É o caso, por exemplo, de: Paula – A história de uma subversiva (Francisco Ramalho Jr., 1979); Pra frente Brasil (Roberto Farias, 1982); O bom burguês (Oswaldo Caldeira, 1983); Nunca fomos tão felizes (Murilo Salles, 1984) e Jango (Sílvio Tendler, 1984). O contexto de transição do regime ditatorial para o regime liberal-democrático também é retratado pelo cinema: Nada será como antes, nada? (Renato Tapajós, 1984); Patriamada (Tizuka Yamasaki, 1984); Muda Brasil (Oswaldo Caldeira, 1985) e Céu aberto (João Batista de Andrade, 1985) são alguns exemplos. O processo de redemocratização foi se consolidando e a ditadura militar não saiu mais das telas de cinema, seja como questão central, seja como “pano de fundo” em dezenas de filmes.

No livro Ditadura em imagem e som: trinta anos de produções cinematográficas sobre o regime militar, lançado em 2013, realizei um inventário dos filmes de longa-metragem, ficção ou documentários, lançados entre 1979 e 2009 que se reportavam ao regime militar e seus desdobramentos. A proposta era realizar uma avaliação conjunta dessa produção cinematográfica, de modo a observar os elementos de destaque, aspectos obliterados, ambiguidades e tensões que perpassavam esses enunciados construídos social e culturalmente sobre aquele período histórico. Busquei contornar as dificuldades de lidar com um corpus de 79 filmes sem negligenciar a análise interna da construção audiovisual. Para isso, adotei um movimento duplo de análise, inspirado na linguagem cinematográfica: realizei inicialmente uma abordagem “panorâmica” seguida de um “close”, ou seja, num primeiro momento os filmes foram considerados em conjunto, propiciando a observação dos diferentes tratamentos dados a subtemas relacionados à ditadura, os aspectos ressaltados e obliterados, as tendências gerais bem como as exceções e de que modo tais tendências e exceções relacionavam-se com o contexto sócio-histórico e com as condições de produção em que os filmes se realizaram. Num segundo momento, focalizei obras fílmicas específicas nas quais o assunto em pauta se sobressaía. Tal abordagem me permitiu examinar de forma conjunta os diferentes vieses interpretativos e, ao mesmo tempo, encontrar diferentes tratamentos audiovisuais conferidos ao tema, analisando detidamente desde obras conhecidas do grande público até aquelas obras de repercussão menos alardeada ou conhecidas apenas em círculos restritos. 

A preocupação em denunciar a tortura é uma constante na filmografia sobre a ditadura militar, legando-nos chocantes imagens de suplício. No entanto, raramente os filmes propõem uma reflexão maior sobre o que embasava a violência do Estado. Ao mesmo tempo em que há quase um consenso na abordagem crítica à ditadura e à repressão, é comum que os tratamentos cinematográficos reduzam os conflitos ao âmbito moral, personificando o “mal” nos militares e agentes torturadores. Poucos são os filmes que apresentam o ideário por trás da ação desses “vilões” ou que trazem elementos para compreender por que e como tais personagens alcançaram posições de poder. Contribui para isso o fato de a maioria das obras, sobretudo as de ficção, centrar-se nos “anos de chumbo” (1968-1974), período de ápice do recrudescimento da ditadura. Assim, deixa-se de lado a discussão a respeito de como se chegou a esse regime e de como se saiu dele. Esse recorte que prioriza os “anos de chumbo” favorece aquele cinema que busca ser atraente para o grande público, por meio de elementos ricos do ponto de vista dramático, atendendo aos quesitos de ação e emoção próprios do cinema de matriz hollywoodiana.

Uma questão que julgo bastante significativa é que em filmes dos anos 1980 são recorrentes personagens que apoiam a ditadura e/ou que expressam tendências ideológicas de direita, sejam eles civis ou militares. E é notável que mesmo em filmes que abordam a ditadura apenas tangencialmente, como Besame mucho (Francisco Ramalho Jr., 1987)e Banana Split (Paulo Sérgio Almeida, 1988), cujo centro da trama são os relacionamentos pessoais e não os embates políticos, existam referências ao ideário de direita presente na sociedade civil. E agora, José? (Ody Fraga, 1979), O torturador (Antonio Calmon, 1981), Pra frente Brasil (Roberto Farias, 1982) e O bom burguês (Oswaldo Caldeira, 1983) explicitam a identificação entre o projeto político subjacente à ditadura e os interesses econômicos de setores do empresariado e de parcelas das classes médias, questão abordada também no documentário média-metragem Em nome da segurança nacional (Renato Tapajós, 1984). A próxima vítima (João Batista de Andrade, 1983), O país dos tenentes (João Batista de Andrade, 1987), Kuarup (Ruy Guerra, 1989), Corpo em delito (Nuno Cesar Abreu, 1989) e Primeiro de abril, Brasil (Maria Letícia, 1989) são outros filmes que trazem às telas e problematizam ou ironizam o ideário de direita, seu vocabulário e relações com o projeto político que referendou a ditadura. Essa polarização ideológica presente na sociedade civil durante o regime militar desaparece dos cinemas entre 1990 e 2009, período no qual os filmes condenam moralmente o regime militar e apresentam a sociedade civil como unidade vitimada, ignorando em larga medida os conflitos ideológicos e políticos que a perpassavam. Tais características da produção cinematográfica de 1990 a 2009 apresentam consonância com o processo delineado por Marcos Napolitano (2015), que observa que a memória hegemônica sobre o regime militar (crítica a ele) se constrói numa conciliação entre setores liberais (que fazem autocrítica e/ou promovem o esquecimento estratégico em relação ao seu apoio ao golpe de 1964) e setores da esquerda (sobretudo a pecebista, que não aderiu à luta armada), o que lhes permitiu se unir em torno da categoria de “resistência” à ditadura e construir a transição conciliada para o regime (liberal-)democrático. É curioso, entretanto, que essa conciliação, segundo Napolitano (2015), constrói-se desde meados dos anos 1970 e está na base do movimento pela Anistia. No cinema, porém, a cronologia não se apresenta da mesma maneira, uma vez que nos filmes produzidos até 1989 vemos evidenciada uma oposição direita versus esquerda, em vez da simplificada oposição autoritarismo versus democracia, que ganha corpo a partir dos anos 1990. O apoio de setores empresariais à ditadura, incluindo o apoio material a órgãos repressivos, aparece em filmes como E agora, José (Ody Fraga, 1979); Paula, a história de uma subversiva (Francisco Ramalho Jr., 1979); Pra frente Brasil (Roberto Farias, 1982) e O bom burguês (Oswaldo Caldeira, 1983). Este tema, incômodo para a memória conciliadora, desaparece dos filmes dos anos 1990 e 2000, sendo retomado somente em Cidadão Boilensen (Chaim Litewski, 2009).

De 2009 em diante, considero que o cinema entra numa nova fase de abordagem da ditadura, na qual os embates ideológicos presentes na sociedade civil voltam a ganhar as telas. Assim, ressurgem as personagens identificadas com o ideário de direita em filmes críticos ao regime militar, como em Cara ou coroa (Ugo Giorgetti, 2012), Reis e ratos (Mauro Lima, 2012) e Travessia (João Batista de Andrade, 2009) e – uma novidade importante – surgem filmes alinhados com o ideário de direita, como Reparação (Daniel Moreno, 2010) e 1964: o Brasil entre armas e livros (Brasil Paralelo, 2019).

O tema da repressão ditatorial sobre trabalhadores do campo e da cidade, quase ausente das telas desde Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984), ressurge recentemente nos filmes Perdão, Mister Fiel (Jorge Oliveira, 2010); Camponeses do Araguaia (Vandré Fernandes, 2010) e Família Carvalho retrato da resistência operária contra a ditadura (Televisão dos Trabalhadores, TVT, 2013). Temos ainda GRIN – Guarda Rural Indígena (Isael Maxakali e Roney Freitas, 2016), que trata de violências cometidas contra indígenas. É interessante notar que tais filmes são produzidos em um contexto de maior democratização do acesso aos meios de produção audiovisual, o que possibilita que novos sujeitos estejam atrás e na frente das câmeras. Outro aspecto que se destaca na produção cinematográfica mais recente é que, diferentemente do enfoque predominante em filmes dos anos 1990 até a primeira década do século XXI (que apresentavam uma linha divisória explícita ou implícita entre passado e presente), encontram-se diversos filmes que trabalham no entrelaçamento dos tempos e lançam luz a questões não dirimidas histórica e subjetivamente, como Memória Para Uso Diário (Beth Formaggini, 2008), Corpo (Rubens Rewald e Rossana Foglia, 2008), Diário de uma busca (Flávia Castro, 2010), Hoje (Tata Amaral, 2011), A memória que me contam (Lúcia Murat, 2012), Trago comigo (Tata Amaral, 2013) e Orestes (Rodrigo Siqueira, 2015). Este último, particularmente, promove uma interessante reflexão sobre os dilemas éticos e políticos implicados nas formas pelas quais a sociedade brasileira lida com a violência e as violações dos direitos humanos, ontem e hoje.

Ao atualizar minha pesquisa anterior, portanto, noto que na segunda década do século XXI passamos para uma nova fase de abordagem da ditadura civil-militar pelo cinema, que ainda precisa ser melhor estudada. O cinema dialoga com o reavivamento dos embates políticos na sociedade brasileira e com o surgimento de revisionismos ideológicos e historiográficos em relação ao regime militar. Como sabemos, o processo de construção da memória coletiva é complexo e permeado por tensões sociais. O cinema é parte desse processo e analisar os filmes e suas condições de produção é uma ferramenta importante para o estudo da sociedade.


Referências

LEME, Caroline Gomes. (2013). Ditadura em imagem e som: trinta anos de produções cinematográficas sobre o regime militar brasileiro. São Paulo: Unesp.

LEME, Caroline Gomes. (2018).  O passado, hoje: a ditadura militar em três filmes brasileiros de tempos entrelaçados. In: ABREU, N. C. & SUPPIA, A & FREIRE, M & TEIXEIRA, F.E. (Eds.). Golpe de vista: cinema e ditadura militar na América do Sul. São Paulo: Alameda, p. 245-269.

LEME, Caroline Gomes. (2012). Podemos falar sobre isso agora? A ditadura sob as lentes do cinema brasileiros dos anos 1980. Literatura e Autoritarismo (UFSM), 7, p. 272-297.

NAPOLITANO, Marcos. (2015). Recordar é vencer: as dinâmicas e vicissitudes da construção da memória sobre o regime militar brasileiro.Antíteses (Londrina), 8, p. 9-44.

SORLIN, Pierre. (1985). Sociología del Cine:la apertura para la historia de mañana. México: Fondo de Cultura Económica, 1985.

WILLIAMS, Raymond. (2000). Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

WILLIAMS, Raymond. (2011). Cultura e materialismo. São Paulo: Editora Unesp.


A imagem que abre o post é uma obra de Claudio Tozzi, intitulada “Multidão” (1968). A imagem faz parte do ensaio visual de Lilia Moritz Schwarcz que pode ser conferido aqui.