
Publicamos hoje o sétimo texto de Alcida Rita Ramos (UnB) na coluna Desassossegos. Nele, a antropóloga aborda a Conquista do Deserto na Argentina, uma investida militar no final do século XIX para conquistar a vasta região dos Pampas e da Patagônia, então ocupada por povos indígenas como os Mapuche, Tehuelch e outros. “Os Desgarrados da Terra” é uma reflexão desassossegada sobre o tratamento que a Argentina deu (e continua dando) aos povos originários.
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Boa leitura!
Os Desgarrados da Terra
Por Alcida Rita Ramos (UnB)
Viviendo entre salvajes he comprendido por qué há sido siempre más fácil pasar de la civilización a la barbarie que de la barbarie a la civilización.
Lucio Mansilla, Una Excursión a los Indios Ranqueles (1ª edição, 1944).
A Conquista do Deserto na Argentina foi uma das modalidades com que os países do “Novo Mundo” ‒ novo para quem, há que perguntar ‒ tentaram extinguir os donos da Terra, que, antes de ser América, era a majestosa Abya-Yala que os Cuna do Panamá cunharam na sua língua chibcha.
O novo Estado da Argentina chamou de deserto a região dos Pampas e da Patagônia há muito ocupada por povos indígenas como Mapuche, Tehuelche, entre tantos outros. Num eco tropical, José de Alencar também chamou de deserto a Mata Atlântica, habitada por feros humanos, como Peri, o herói por instinto de O Guarani. Esticando a capacidade semântica da palavra deserto, esses conquistadores insinuavam que sem a mão ‒ não tão ‒ santa do cristianismo, aquelas terras selvagens permaneceriam selvagens para sempre. Um grande desperdício a ser combatido, na sua opinião.
Na Argentina, a fantasia do destino manifesto, que embalou o genocídio indígena nos Estados Unidos nos tempos das diligências, da feroz ocupação branca, serviu de estímulo ao raivoso general Julio Argentino Roca para dar o golpe de misericórdia nos povos indígenas daquela vasta região, depois de seguidas tentativas frustradas. Empreendeu a desonrosa campanha do deserto, venceu a duras penas, depenou o tesouro nacional e, por essa vitória quase de Pirro, foi eleito por duas vezes presidente do país. Deu nome a estátuas e até a cidades país afora, mas, pela Wikipédia, ficamos sabendo que, em julho de 2012, o Banco Central Argentino, seguindo o Ar do Tempo, suprimiu a sua cara das notas de 100 pesos e pôs a de Evita Perón no lugar, entre outras coisas, incrementando, significativamente, o valor estético do dinheiro local.
Comparando o tratamento que a Argentina e o Brasil deram aos povos originários, percebemos semelhanças e diferenças. As semelhanças são relativamente óbvias. Ambos almejavam acabar com a barbárie, seja à moda guerreira argentina, seja à moda brasileira do humanismo positivista comteano. Ambos queriam e, em parte, conseguiram limpar seus territórios nacionais de povos indesejáveis para implementar projetos mirabolantes de grande desenvolvimento econômico e brilhar no concerto das nações civilizadas.
As diferenças na política indigenista argentina e brasileira são grandes, embora o resultado seja sempre o mesmo: a submissão de povos independentes ao jugo de um poder coercitivo que sempre lhes foi alheio. O Brasil optou pela tutela do Estado, reduzindo os povos indígenas ao status de “relativamente incapazes”, massas informes de indivíduos anônimos “sem fé, sem lei, sem rei” que os governasse. Em contraste, na Argentina, apesar da crueza do tratamento oficial, os indígenas nunca foram infantilizados. Havia desprezo, ódio, pavor, mas não condescendência. Muito pelo contrário, foram considerados sérios inimigos de guerra com quem o Estado chegou a firmar tratados para, como seria de esperar, nunca ser honrados. Os grandes caciques da Patagônia e dos Pampas entraram para a história argentina ‒ a ala da história que revela em vez de esconder ‒ como vultos gigantes da alteridade do país. Calfucurá, Catriel, Namumcurá, Yanquetruz, Pincén, Saygüeque e tantos outros formam o panteão dos vencidos da Conquista do Deserto na virada do século XX.
Em contrapartida, os nomes indígenas na história do Brasil são poucos, antigos e folclorizados. “A tradição reza”, como diz a chamada de matéria na internet, que Cunhambebe, líder tupinambá da costa brasileira, “o mais temível entre todos os tamoios, considerado o terror dos portugueses”, aliou-se aos franceses no século XVI. Já Araribóia, também do Rio de Janeiro, entrou para a história pátria que combateu os mesmos franceses, aliando-se aos portugueses. Ajuricaba, o líder manao que enfrentou os primeiros exploradores da Amazônia, no século XVII, revoltado contra os desmandos portugueses, buscou a aliança dos holandeses. Joguetes de interesses europeus em conflito, deixaram para a posteridade imagens que contribuíram para a exotização do índio como nobre ou, conforme a torcida dos brancos, ignóbil selvagem. Todos pertencem ao passado remoto, todos foram matéria-prima para a futura construção simbólico-ideológica do Brasil como o país aberto à miscigenação numa bem-sucedida mistura de três raças.
Vejamos um pouco de Lucio Mansilla, que abre este texto. Coronel do Exército argentino, depois de tentativas frustradas de integrar o ministério do Presidente Domingo Faustino Sarmiento, em 1869, Mansilla foi designado comandante da fronteira sul da Província de Rosário. Foi nessa capacidade que empreendeu uma longa viagem ao território dos índios Ranqueles, povoadores dos Pampas. O objetivo era firmar um “tratado de paz” com os caciques de modo a convencê-los a abrir espaço para a construção de uma ferrovia atravessando seu território. O resultado dessa incursão, eufemisticamente chamada de excursão, é um livro em dois volumes publicado na série Grandes Escritores Argentinos pelo Editorial Jackson em 1944. Com alta qualidade literária, o volumoso relato evoca o romantismo da aventura pelo desconhecido ‒ a ser conquistado.
Destoando da truculência de caudilhos e militares como Roca, Lucio Mansilla optou por seguir o curso da etnografia espontânea que lhe abriu os olhos para o lado positivo da alteridade. Imediatamente, declara seu interesse: “una misión a los ranqueles puede llegar a ser para un hombre como yo, medianamente civilizado, un deseo tan veemente, como puede ser para qualquer ministril uma secretaria en la embajada de Paris”. O primeiro volume começa com um relato bem-humorado do ritual de boas-vindas dos Ranqueles de dar inveja a um Malinowski. Ao longo dos dois volumes, Mansilla revela uma profunda ambivalência, admiração pelos nativos e a necessidade de convertê-los à civilização.
Mansilla destaca-se por ter sido uma solitária exceção num Estado-nação que se queria branco o mais “puro” possível e que via nos seus povos indígenas invasores chilenos que contaminavam o país com uma barbárie insana[1]. Uma ideologia arrasadora, alimentada por artistas plásticos e escritores, forrou o caminho da Conquista do Deserto, explorando a selvageria dos malones.

Malón foi o nome que se deu às sortidas dos indígenas do sul da Argentina a fazendas e povoados assentados em suas terras. Cavaleiros mapuche, tehuelche etc., em bandos organizados, assaltavam esses lugares e, muitas vezes, levavam cativas para as suas tolderías. (Décadas mais tarde, o vocábulo malón, livre do veneno que o século XIX lhe instilou, passou a designar grandes mobilizações indígenas em defesa dos direitos territoriais, como o famoso Malón de la Paz, de 1946, quando centenas marcharam por cerca de dois mil quilômetros do noroeste argentino a Buenos Aires).
Os malones acirraram de tal maneira a fúria estatal que desencadearam a tentativa de solução final com mais uma campanha militar, sem precedentes, a guerra para acabar com todas as guerras. A Campanha do Deserto começou em 1878 e terminou meia década depois, destroçando o Wall Mapu, o território e a sociedade mapuche, e dos povos da Patagônia e dos Pampas. Como numa autoatribuída profecia, os militares argentinos deixaram como rastro oficial um desolador deserto humano que antes não existia.
Os sobreviventes foram varridos pela vastidão dos Pampas, confinados em colônias ou trasladados de suas terras frias para o norte quente ao custo de muitas vidas. Poucos anos depois, os militares estenderam a guerra à região do Chaco com resultado semelhante, dizimando os povos Qom, Wichí, Pilagá, Mocoví, Guarani, entre outros. A Campanha do Deserto, de fato, só terminou em 1917, com o último assalto do Exército ao povo Qom (Toba) na região chaquenha. No entanto, como afirmou a aguerrida intelectual boliviana Silvia Rivera Cusicanqui, os indígenas argentinos, como tantos outros Américas afora, foram oprimidos pero no vencidos.
* * *
Em 2013, participei de um encontro na cidade de Bariloche. Foi o V Colóquio Anual do Instituto de Investigaciones en Diversidad Cultural y Procesos de Cambio da Universidade Nacional de Río Negro, Patagônia. Ouvi a apresentação da então estudante María Gisela Hadad sobre um processo judicial envolvendo indígenas mapuche de uma comunidade nos arredores de Bariloche. Estava em questão a legitimidade do grupo de se ter agregado a pessoas sem vínculo de parentesco, depois da gigantesca dispersão causada pela campanha militar de Roca. A reivindicação dessas famílias era por reconhecimento de identidade, condição necessária para demandar seu direito territorial ao local. Seu pleito batia contra a parede surda e cega na legislação nacional para a qual o parentesco é algo a ser provado biologicamente. Mas, como provar vínculos biológicos entre pessoas que foram forçadas a se separar, que se viram desgarradas de suas bases territoriais e sociais e perambularam por décadas nem eira nem beira? Numa passagem pungente, Hadad expõe: “con miles de muertos y miles de inválidos, con miles de exiliados dentro y fuera de las provincias del Plata (…) la nación Mapuche quedó casi sin jefes, sin cabezas, mutilada, como capada”[2].
Esse caso ficou na minha mente como uma demonstração do terror kafkiano ao se enfrentar o arbitrário, o gratuito, o imprevisível, algo sobre o qual não se tem controle e contra o qual nenhum argumento lógico surte efeito. Sentada no aeroporto de Bariloche à espera do voo de volta, uma imagem macabra me assaltou e me imobilizou por instantes. Isto foi o que rabisquei naquele momento de quase transe.
A Conquista do Deserto deixou em seu rastro um grande corpo social esquartejado. Seus pedaços se espalharam pela paisagem sem fim, perdendo-se o eixo que lhes dava vida. Aos poucos, os pedaços foram-se juntando em combinações que não correspondiam ao corpo original: partes de crianças órfãs se agregaram a cabeças que não eram delas e assim foi-se formando um novo corpo, talvez paraplégico, talvez tetraplégico, que o passar das gerações amalgamou em novas composições.
Não é por acaso que a grande antropóloga argentina Claudia Briones assim intitulou um trabalho seu: Re-membering the Dis-membered![3]
Notas
[1] Dentre as muitas referências sobre a Conquista do Deserto, destaco a seguinte: Claudia Biones & Walter Delrio, The ‘Conquest of the Desert’ as a trope and enactment of Argentine’s manifest destiny. In: David Maybury-Lewis & Theodore Macdonald & Biorn Maybury-Lewis (orgs.) Manifest destinies and indigenous peoples. Cambridge, Mass: Harvard University Press, David Rockefeller Center for Latin American Studies. pp. 51-83, 2009.
[2] María Gisela Hadad. ¿Oportunidad u oportunismo? Comunidad, territorio eidentidad en el caso de la comunidad mapuche Tacul-Cheuque. XI Jornadas de Sociología. Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2015.
[3] Claudia Briones. Re-membering the Dis-membered. A Drama about Mapuche and Anthropological Cultural Production in Three Scenes, Journal of Latin American Anthropology v. 8, n. 3, 2003.
A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere