
As relações entre literatura e sociedade estão no centro de discussão do texto de hoje da coluna Primeiros Escritos, assinado por José Diniz, que acaba de defender sua dissertação em Sociologia na USP, intitulada “Boas razões para suprimir o inferno: tensões poéticas no horizonte histórico de Paris a partir de Jacques Rancière e Dolf Oehler”.
Neste texto, o autor promove uma comparação teórica entre as Dolf Oehler e Jacques Rancière. O que há de complementar e diferente entre eles? Essa é a pergunta que abre a discussão do texto e nos direciona para reflexões sobre história, literatura e o papel dos escritores na sociedade em que vivem.
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Boa leitura!
Panorama de uma trama sem fim: façanhas críticas de Oehler e Rancière
Por José Diniz (USP)
Para além dos devaneios, sonhos, pensamentos e rememorações (modulações em que o desejo se realiza de forma mais ou menos livre e espontânea na obra de Baudelaire), toda e qualquer euforia quase nunca ganha corpo nessa poética, sempre impregnada de uma felicidade que nunca é capaz de se consumar totalmente, como se antevisse sempre uma interrupção, uma impossibilidade, uma crise. Cometendo um excesso poético: um horizonte de impossibilidades em uma noite sem fim. Em que grau seria aceitável argumentar que o estado de espírito da época contamina a textura sensível dos escritos literários da época? Esta foi a pergunta que nos fizemos durante o nosso trabalho. Nosso objetivo era comentar algumas dimensões específicas da reconstituição histórica de Dolf Oehler e Jacques Rancière, comparando seus trabalhos e avaliando o que há de complementar e diferente entre eles. Com alguma frequência, Oehler e Rancière se afastam dos textos e passam a analisar o contexto, a história ou a sociedade em que os livros foram escritos. Mesmo assim, consideramos relevante a abordagem dos autores, especialmente por sua capacidade de associar história e literatura de modo exemplar e indicar um caminho interpretativo para os problemas clássicos dessa relação tensa e já antiga: literatura e sociedade.
De modo implícito, “espírito da época” quer significar, para Dolf Oehler, a invocação de uma respeitabilidade imponente da História, representada aqui pelos acontecimentos revolucionários de 1848 – na França e fora dela, seja no restante da Europa, seja nas colônias francesas, sendo o Haiti o exemplo paradigmático das façanhas revolucionários do período. Oehler promete continuar a tarefa de Benjamin: demonstrar que a poética de Baudelaire está fundamentada no século XIX. Por outro lado, Rancière busca relativizar um conjunto de discursos críticos que considera a filosofia estética como uma forma de denegação da experiência social, que estaria relacionado aos marcos da distinção social, da exploração de classes, da alienação e da reificação do homem, e, com isso, Rancière busca reabilitar um discurso filosófico que reconsidera outras esferas constituintes do social. Toda experiência estética que não faça menção ao que pode ser chamado de “realismo sociológico” – que deixa ver explicitamente a dinâmica de classes e elabora um diagnóstico de época – estaria pondo à prova o seu compromisso com a alienação social. Eis o pensamento que Rancière busca combater.
Neste modelo crítico, a prática da sociologia da arte consistiria apenas em demonstrar o modo como essa produção alienada está, de saída, postulada sob vinculação inconsciente das ideologias dominantes ou na mera reprodução do habitus de um determinado campo social. Em outras palavras, o estudo da estética só seria possível, desse ponto de vista sociológico, se produzisse uma nova reconciliação entre o inteligível da obra (o aspecto social) e o sensível que ela produz. De modo geral, todos os críticos da estética denunciam o modo como essa confusão entre sensível e inteligível apagam a sua referência ao histórico e ao social. Segundo Rancière, a experiência artística é o resultado de uma confusão indissolúvel, que garante a ela o seu caráter de exclusividade: a capacidade de produção de um objeto sensível exemplar, único – que produz, por sua vez, um “modo de experiência” e uma forma de pensamento exclusivos. Toda tentativa de desfazer o nó da estética – a sua confusão – corresponde a uma tentativa de suprimir a contradição da estética a fim de permanecer sob a posse de outra contradição: aquela outra, mais fundamental e verdadeira, que é a contradição das desigualdades e injustiças do mundo social. Por isso, o processo analítico consiste em reconstituir a referência social perdida com a mudança dos regimes de arte.
Seja como for, Oehler argumenta que a literatura moderna é o modelo fundamental da interpretação dos acontecimentos históricos de 1848 – uma época marcada por crises fundamentalmente novas, em escala e intensidade, uma vez que o novo mundo emergente estaria conflagrado por tensões de classe, disputas pela difusão e conservação de ideologias dominantes, isto é, uma época conflagrada pela emergência de um novo complexo de crenças e novos modelos de associação e organização. Seguindo as interpretações canônicas de Benjamin, Oehler apresenta uma interpretação da atividade literária de Baudelaire como o resultado de uma cadeia de atitudes estéticas que incorporariam intenções políticas secretas, onde ficaria evidente, por suas menções recorrentes à atividade política e à violência, a afinidade de sua posição ideológica com os modelos conspiratórios de Auguste Blanqui e Luís Bonaparte.
Estaríamos diante de um momento decisivo da História, nos movimentos tectônicos das estruturas, e por isso Oehler procura os elementos de uma regularidade histórica que governa o todo dessa existência social – que, por sua vez, coordenaria o sentido primordial das obras literárias. Em outras palavras, o crítico enfatiza o mundo social como núcleo de uma causalidade acabada, que coordena o todo e não se deixa coordenar, algo que dá o tom de uma linearidade histórica que omite, na experiência histórica, a sequência de acontecimentos contingentes e a sua heterogeneidade complexa. Podemos ver isso no modo como o aspecto cotidiano da existência dos homens da metrópole aparecem de modo lateral na prosa crítica de Oehler, uma vez que privilegia os elementos constitutivos desse complexo de ações associados apenas às revoluções de fevereiro e aquelas outras de junho – trágicas e mortíferas, de fato. Em todo caso, interessa-nos mapear os movimentos críticos desse autor, especialmente a sua interpretação dos poemas em prosa de Baudelaire, em que a crise da razão instrumental acompanha a ruína da ação prática e política no mesmo momento em que Paris está tomada pelo turbilhão revolucionário.
A experiência traumática do morticínio de junho e o esforço subsequente de apagar os crimes políticos e jogá-los para debaixo do tapete ajudam a explicar a dificuldade em se debruçar sobre os textos fundamentais dessa época, pois eles incorporam o substrato histórico da revolução apenas de um modo cifrado e quase nunca compreendido pela recepção. Por isso, um dos processos hermenêuticos desse autor é voltar às palavras para demonstrar que elas carregam um significado coletivo (de um povo) e de um tempo (de um momento histórico), expondo a relação direta de três elementos importantes: palavra, poema e história. Podemos interpretar, então, que a partir da reconstituição do sentido de palavras e conceitos, produz-se algo como uma comunidade de sentido em que ressoaria de modo evidente o vínculo entre literatura moderna e a experiência histórica. Em um segundo momento, a intenção de Oehler se expande e, implicitamente, sugere dois modelos principais que ajudam a explicar o modo como a visão de mundo dos homens da época se constitui: o modo como os autores entendem a sua própria condição de classe e a forma como cada um deles testemunhou o acontecimento revolucionário – em termos de passividade ou atividade. Oehler também sugere que a experiência política, por ser traumática, nunca fora trabalhada com a intensidade necessária, e a experiência esvaziou-se a ponto de se tornar esquecimento. Se há esquecimento da história, o resultado político é precário, da mesma forma que, do ponto vista literário, o resultado só pode ser a produção de uma hermenêutica falsa, em que o conteúdo original corresponda a um sentido ‘estetizante’ que trai as intenções políticas criptografadas pelo procedimento estético dessa geração de escritores franceses. O que ele propõe é uma reconstituição histórica dos eventos e uma análise dos textos em prosa e verso.
Nesse sentido, os anos silenciosos do bonapartismo colocam todos sob o açoite da censura, e a posição política dos autores só pode ser descoberta se se compreende o sentido das disputas da conjuntura histórica. Isso fica evidente no modo como a literatura da época formula uma linguagem disjuntiva e sintaticamente críptica, como se Flaubert, Baudelaire e Heine abusassem da linguagem da época para compor seus quadros críticos e, somente assim, imprimir um sentido paródico, irônico, alegórico, quase sempre jogando com as ideias fixas do clichê e do status quo, do mesmo modo que a impassibilité flaubertiana serve também como dispositivo da neutralidade do discurso (alienação como mediação estética). Todos esses recursos de elaboração poética promovem a mediação entre a linguagem dos autores e o sentido histórico da época. Resta dizer que a linguagem nova que surge com a vitória de Bonaparte não é mais destinada ao povo, o que, por sua vez, não pode significar que os escritores tenham tomado o lado dos vencedores de Junho.
Antes, radicalmente avessos ao espírito do tempo, cedo ou tarde eles são confrontados com esse recalque, e não é de modo algum por acaso que os escritores mais significativos do Segundo Império são os que, ao mesmo tempo, refletiram com mais profundidade o alcance dos acontecimentos de junho, que integraram o junho à textura de sua escrita (Oehler, 1999: 20).
O escritor passa a ser, no contexto de 1848 e do golpe de Napoleão III, e mais do que nunca até então, aquele que é capaz de se lembrar e de devolver, ao poema e à intriga romanesca, a sua qualidade histórica. Apenas em posse dessa interpretação semântica seria possível reabilitar os sentidos que comparecem no texto de modo cifrado e compreender as imagens dialéticas que dele emergem. Oehler demonstra como a obra de Baudelaire
[…] deve ser situada no contexto dos conflitos do século XIX e no movimento de emancipação de uma vanguarda de artistas e literatos burgueses que permanece comprometida com o postulado de um discurso velado metafórico e, em caso extremo, hermético, exatamente contra a lógica dos meios de comunicação de massa, que requerem uma simplificação extrema (Oehler, 1997: 46).
Exige-se, portanto, uma análise que perceba os desvios e motivos submersos nos textos, em uma tentativa contínua de capturar o sentido dessa e de outras dissonâncias constitutivas através de comparações constantes, pois apenas por meio da comparação sistemática e da interação constelar o objeto cindido revelaria o seu sentido original. O que se pode depreender disso, operando em uma abertura histórica mais ampla, é a consideração de que a forma literária moderna busca, através da lírica e do romance, uma configuração que seja capaz de conciliar as tendências contraditórias e dissonantes que, na exterioridade, apontam para um abismo: o desaparecimento da comunidade – a expansão e abertura de sua totalidade – e o esvaziamento da experiência. Os sentidos da ação e a classificação dos agentes e acontecimentos históricos, juntamente com a remodelação drástica do horizonte de expectativas dos sujeitos envolvidos no processo de passagem da Velha Europa para a sociedade moderna (1750-1850).
Insurreição poética e diferenças interpretativas
A argumentação de Oehler e de Jacques Rancière despontam como concorrentes se colocarmos as duas interpretações lado a lado. No entanto, a relação entre eles é indireta, uma vez que não chegam a se citar de modo explícito. Além de Benjamin, as únicas referências cruzadas que comparecem nos dois autores são Roland Barthes e Jean-Paul Sartre, com suas ênfases no processo de desrealização, isto é, a dificuldade da literatura moderna de Flaubert e Baudelaire em representar o processo histórico dos anos de revolta política do século XIX. Certo é que, em todo caso, uma nova imagem do povo – isto é, dos trabalhadores e artesãos – e do bourgeois – em busca da hegemonia política e social da época – irrompe como novidade inescapável durante uma época em que a imagem e a palavra popularizam-se ao redor de um público como uma normalidade cotidiana através do surgimento e do fortalecimento dos jornais e as suas formas populares de comunicação, seja com a caricatura, a litogravura, os romances de folhetim. Fora dos jornais, a canção operária também floresce de maneira única, com suas loas pela liberdade e suas imagens cantadas em voz alta pelo povo embriagado pela euforia da vitória eminente.
Se, por um lado, Rancière estabelece a sua teoria estética a partir de uma comunicação direta com os românticos e com Erich Auerbach, Oehler discute esses problemas por meio da clássica interpretação benjaminiana. O objetivo fundamental de Benjamin é inscrever a lírica baudelairiana em um “dado antropológico” específico – nas palavras de Rancière, “a ‘perda de experiência’ produzida pela reificação mercantil e pelo encontro da cidade grande e da multidão”(Rancière, 2017: 103). Rancière também destaca outros elementos clássicos da interpretação de Benjamin, para além do fetiche reificado da mercadoria: os achaques da multidão, o automatismo do operário juntos às máquinas, o movimento da cidade que rouba atenção do pedestre, o clique da máquina fotográfica. Um conjunto de dinâmicas em que o choque deixa sua marca indelével na memória do passante. Para Rancière, menos do que a dissolução da experiência, o que interage na lírica baudelairiana é uma nova dinâmica operada por uma nova forma de visibilidade (o regime estético de arte). O heroísmo da vida moderna representaria aquilo que o regime estético de arte quer negar: a indistinção entre a ficcionalidade (esfera poética) e a esfera da ação – relação de equilíbrio típico do regime representativo de arte. Nisso consiste a angústia do poeta quando vê o divórcio do sonho e da ação: a impossibilidade de combinar realidade e fantasia.
Oehler interpreta de uma outra forma, dando ênfase ao aspecto propriamente restritivo que se abateu sobre a geração pós-romântica de 1848, pois essa geração se volta à interioridade, ao devaneio e à rememoração como forma de superar os limites trágicos de um presente que condenou todos ao trauma. O divórcio é mais profundo na interpretação de Rancière. A crise de morte da ação é parte de uma transformação tectônica de uma certa estrutura racional que vem a ser substituída no século XIX. Para Rancière, o mundo se tornou vasto e muito diferenciado, e a ação perdeu o seu senso de possibilidade, uma vez que a “ação programática” se vê em dissonância com ritmo acelerado do tempo da vida moderna. O mundo social é um emaranhado de ramificações sem fim. Isso quer dizer, mais uma vez, que ação perde a bússola, e a poesia perde a sua referência explícita a alguma externalidade.
Se algumas interpretações materialistas entendem certas formulações poéticas como portadoras de uma baixa aderências aos ditames incômodos do real ou que possuem pouco engajamento nas crises políticas do mundo moderno, Rancière, por outro lado, indica uma nova abertura para a relação entre ficção e política na literatura romântica e pós-romântica, mas, para isso, toma certa distância do conceito de representação, uma vez que esse conceito promete uma vinculação direta entre a ficção e a realidade, ao mesmo tempo que estabelece uma expectativa quanto ao resultado estético, como efeito de uma deformação emergente dos processos sociais em interação. O que alimenta essa expectativa é a proximidade com que um certo imaginário realista comparece como contraprova de verossimilhança ficcional, no mesmo momento em que a ficção moderna exprime a sua capacidade descritiva e organiza novas formas de coexistência entre pessoas e coisas sob um encadeamento de tempos e acontecimentos, tomando distância daqueles fundamentos clássicos da ficção que buscam regulamentar e distribuir a coerência interna, a estrutura geral do discurso narrativo e a relação das causas e seus efeitos.
Sendo assim, a inserção fundamental que elide a coerência interna dessa literatura emergente é a ruína, a crise e o enfraquecimento de um modelo de ação que prevê a estratégia como elemento coerente, pacífico, unívoco: a capacidade de agir no mundo a partir um programa estabelecido. Em seu lugar, trabalha-se sobre a dicotomia que parece haver entre a finitude do mundo real e as inúmeras possibilidades do pensamento – uma mistura de intenções, pensamentos, devaneios e meros vagares que infundem uma outra confusão entre os seres ativos e a multidão passiva. Interessa-nos descobrir o sentido dessa mudança na poética de Baudelaire e avaliar, de acordo com Rancière, o desenvolvimento do conceito de “republicanismo estético”. Em outras palavras, quer-se apresentar o modo como Rancière entende a formulação de heroísmo nos escritos de crítica artística e literária de Baudelaire.
Rancière não nega que os acontecimentos de 1848 mobilizaram o poeta a ponto de engajá-lo de modo enfático nos assuntos políticos, ao mesmo tempo que concede uma certa fidelidade do pensamento de Baudelaire a alguns expoentes intelectuais do republicanismo francês da Segunda República, e chega mesmo a citar, ainda que implicitamente, a famosa anedota de Baudelaire com armas em punhos clamando pela morte de seu padrasto, como se, neste episódio, buscasse um “ato liberatório” para os antigos problemas familiares. O lastro textual que comprovaria o entusiasmo político de Baudelaire é um ensaio crítico em que ele assume um tom amoroso ao analisar a poética das canções de Pierre Dupont, expoente da canção operária cujas letras de canções embalaram o movimento republicano durante as jornadas revolucionárias de 1848. Também encontramos no ensaio um pouco da história pessoal de Dupont, uma comparação breve com Barbier e a tentativa de demonstrar o segredo do sucesso de suas canções, que Baudelaire resume ao amor pela virtude, ao amor pela humanidade – amores que Baudelaire chamou de “amor infinito pela República”.
Mas a interpretação que mais ecoa em Rancière é aquela sugerida por Starobinski (2014). Segundo ele, Baudelaire interage com uma desmesura profunda que afirma o real como limitação e consagra a imaginação como um acesso privilegiado ao infinito. Esta é uma fórmula que oferece dinâmica a muitas das concepções poéticas do poeta, e deixa ver a força de uma atitude que não se dá por satisfeita com o desaparecimento das coisas do mundo – pois sua imaginação poética consiste em proteger, procurar e conservar o que há de incólume na experiência. Nessa petrificação das imagens que passam ligeiras, Baudelaire compõe seus quadros, e nele estariam aqueles homens e mulheres de seu tempo, em fluxo contínuo em direção ao esquecimento. Mais do que isso, a força poética de Baudelaire consiste em não se deixar acorrentar ao impulso finito das experiências no presente, ao mesmo tempo em que, contrariamente, reivindica o presente como matéria a ser trabalhada de modo essencial. De todo modo, este conjunto complexo de dispositivos, percepções e condições apontam para uma cisão profunda que diz respeito a uma duplicidade fundamental: o divórcio do pensamento e da ação.
Para Rancière, a obra de Baudelaire sugere a circulação de uma nova regra estética que se apoia na ruptura com o regime representativo da arte – a negação do princípio unificador regido por uma regra tríplice. Ou seja, o regime estético de arte opera uma dinâmica nova em que se promove a emancipação em relação a semelhança. É a crise da ação diante da intriga – o pensamento revoga a representação e postula a sua independência relativa em relação à exterioridade. Nas palavras de Rancière, o regime estético impõe uma presença nova, dissonante, que “invade o discurso e paralisa a ação” (Rancière, 2017: 131). É o que também acontece na obra de Flaubert, uma vez que tudo está ligado em um paralelismo profundo (entre coisas, mundos e personagens), isto é, estão todos interligados em uma mesma igualdade de importância. É a famosa atribuição de que, nos romances modernos, nada acontece.
Em todo caso, o divórcio entre “sonho” e “ação” é o resultado da promoção do sonho como elemento fundamental da realidade em questão. A ação é um “modo de pensamento, uma estrutura de racionalidade que define, ao mesmo tempo, uma norma de comportamentos sociais legítimos e uma norma de composição das ficções” (Rancière, 2017: 108), e que, como tal, coordena e organiza a coerência interna das obras, isto é, a sua verossimilhança, mas também as relações de causa e efeito e o aspecto total de uma determinada história. Para que a ação seja efetiva, supõe-se uma restrição que diz respeito ao caráter finito e circunscrito do mundo – um ambiente controlado e previamente organizado – e exige um tipo de cálculo que responde a um grupo de atores selecionados. O argumento de Rancière consiste em demonstrar que essa finitude – a unidade simbólica do mundo ocidental, em que todos sabiam o que fazer – não existe mais, uma vez que o mundo se tornou vasto como o oceano, na mesma medida em que o conhecimento sobre o mundo se tornou especializado o suficiente para que a ação funcione de um modo imediato. De todo modo, aquela discussão de um heroísmo moderno está inscrita no problema da ação e no modo como o mundo se bifurcou – e não garante mais acesso ao divino. O problema ganha corpo no modo como, a despeito da nova realidade das coisas, há uma radicalização da ação voluntária – agir não importa como, nem porquê – e a ação como devaneio – “que anula as distorções que a vontade imprime no transcurso das coisas e permite ao espetáculo da vida moderna desenvolver todas as suas virtualidades” (Rancière, 2017: 109).
Haveria, nisso, um rebaixamento dos limites da ação e uma hipertrofia aos assuntos da alma, meras divagações pouco afeitas a vida exterior? O devaneio, segundo o filósofo francês, não é a negação de que há vida fora da interioridade dos homens; pelo contrário, é uma modulação do pensamento, um outro registro de racionalidade que embaralha interioridade e exterioridade, uma vez que o pensamento programático não decide mais os resultados da vida exterior. Nesse aspecto, Rancière toma uma nova distância relação à Benjamin, pois quer relativizar o vínculo entre experiência urbana, fetichismo mercantil, multidão traumatizante e a importância exagerada de Poe em sua concepção a respeito do urbano. O filósofo francês enfatiza o modelo balzaquiano que percebeu a ineficácia do saber fisiológico em termos de garantia de uma ação bem-sucedida no mundo social: Balzac “sentiu a inanidade desse saber fisiológico ou fisiognomônico e colocou em ficção o próprio distanciamento entre o saber sobre a sociedade e o sucesso da ação” (Rancière, 2017: 19). Balzac seria a referência por trás da ideia de heroísmo moderno baudelairiano, pois esta seria o resultado de uma junção entre a vida elegante e as vidas flutuantes do submundo da metrópole, que nos faz ver especialmente bem o belo moderno. O caráter flutuante, pouco fixo, “que desloca as linhas”, evoca o poder de vertigem de um mundo organizado em uma hierarquia de homens passivos e ativos, cujas identidades não possuem estabilidade garantida. Nesse sentido, a beleza moderna consiste justamente no apelo a essa multiplicidade sem nome, a diminuição da centralidade do pensamento racional clássico na determinação dos rumos do mundo e a indefinição de uma identidade fixa e coerente. A vertigem do período guarda relação com a crise do modelo racional da ação e, por isso, a confusão dos elementos interiores e exteriores.
Referências
BAUDELAIRE, Charles. (2019). As flores do mal. Tradução e organização: Júlio Castañon – São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras.
BAUDELAIRE, Charles. (2020). O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Editora 34.
BAUDELAIRE, Charles. (2023). Prosa. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras.
BAUDELAIRE, Charles. (1964). Baudelaire as literary critic. Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press.
BENJAMIN, Benjamin. (2021). Baudelaire e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica.
OEHLER, Dolf. (1997). Quadros Parisienses (1830-1848): estética Anti-burguesa em Baudelaire, Daumier e Heine. Tradução de José Marcos Macedo, Samuel Titan Jr. São Paulo: Companhia das Letras.
OEHLER, Dolf. (1999) O velho mundo desce aos infernos: auto-análise da modernidade após o trauma de junho de 1848 em Paris. Tradução: José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras.
RANCIÈRE, Jacques. (2017). O fio perdido: ensaios sobre a ficção moderna. São Paulo: Martins Fontes.
RANCIÈRE, Jacques. (2023). Mal-estar na estética. São Paulo: Ed. 34.
A arte que abre o post é de Leila Danziger -2019, 2020 – Papeis de um dia (Cinelandia).