
É com enorme alegria que a BVPS estreia hoje uma nova coluna assinada por Renato Ortiz. Professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), graduado em Sociologia pela Universidade de Paris VIII (Vincennes) e mestre e doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (sob a orientação de Edgar Morin e Roger Bastide, respectivamente), Renato Ortiz se notabilizou por suas contribuições inovadoras – que se tornaram incontornáveis – para a agenda de temas da sociedade contemporânea, brasileira e mundial, em particular sobre a problemática da cultura: da identidade nacional passando pela modernidade até o universalismo e a diversidade, incluindo ainda a religião e a cultura popular.
Ao leitor certamente não escapará o pioneirismo de seus estudos sobre o fenômeno da globalização/mundialização do ponto de vista da cultura; suas provocações agudas sobre a posição privilegiada da língua inglesa na geopolítica global, mas desigual, do conhecimento científico, em especial nas ciências sociais; sua análise fina desse universo em expansão, mas pouco conhecido, da sociedade de consumo que é o luxo, ao mesmo tempo global e hiper-restrito materialmente ao clube dos ricos; e ainda sua reflexão sobre a condição e o fazer do trabalho intelectual.
Esse repertório original compõe uma obra vasta e singular: A morte branca do feiticeiro negro (Vozes, 1978); Cultura brasileira e identidade nacional (1985), A moderna tradição brasileira (1988), Cultura e modernidade (1991), Mundialização e cultura (1994), O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo (2000); Mundialização: saberes e crenças (2006); A diversidade dos sotaques: o inglês e as ciências sociais (2008), Trajetos e memórias (2010) – todos esses pela Editora Brasiliense; Universalismo e diversidade (Boitempo, 2015); O universo do luxo (Alameda, 2019), Sobre o trabalho intelectual (Zouk, 2021), entre vários outros livros e inúmeros artigos.
A partir de agora, nossas leitoras e leitores poderão acompanhar as instigantes reflexões de Renato Ortiz, exercitadas nesta coluna através de formas breves de texto – que, no entanto, desfiam amplas e desafiadoras questões, como a fábula que abre esta série –, em publicações quinzenais, sempre às quartas-feiras. Ao Renato agradecemos a generosa colaboração e a vocês desejamos uma ótima leitura!
O retrato de Dorian Gray
Por Renato Ortiz (Unicamp)
Nota ao leitor: Durante o governo Dilma Roussef, em plena Lava Jato, vivíamos um clima de histeria política. Nas ruas as pessoas eram insultadas por suas opiniões e sobre elas recaía a acusação de serem apátridas, brasileiros que haviam se desgarrado da retidão moral. Eu tinha vivido em Palo Alto, na Universidade de Stanford, algo semelhante. Os Estados Unidos estavam prestes a invadir o Iraque (2003) e a acusação da existência de armas químicas, nunca comprovadas, pairava no ar. Em todos os lugares via-se bandeiras americanas, os jornais, rádio e televisão preparavam a opinião pública para a guerra. Um clima de incerteza e medo nos rondava, na universidade discutia-se se os nomes dos alunos e professores estrangeiros deveriam, ou não, ser enviados à CIA. O mesmo fenômeno de unidade patriótica (espécie de instituição total dos sentimentos) – isto é, como se dizia no século XIX, de uma corrente de opinião, envolvente e opressiva – justificava as ações de agressividade, violência e estupidez. Eu queria nomear esse mal-estar sem, porém, utilizar a linguagem da política, os termos que estavam à minha disposição: fascismo, fim da democracia, ditadura, ideologia, etc. Acreditava que esses conceitos, ditos naquele contexto, tinham pouca densidade de persuasão, seriam inexpressivos. Foi quando me lembrei do livro de Oscar Wilde e escrevi a fábula.[1] Ela não se situa em nenhum lugar específico, queria traduzir uma angústia que nos persegue nesses tempos atuais.
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No centro da sala, fixado em um cavalete de pé, estava o retrato de um país jovem e extraordinário, mas sua beleza vinha manchada pela feiura e a podridão dos acontecimentos, os olhos tinham uma expressão cruel e repugnante. Uma fina coberta de linho encobria sua alma deformada, as pústulas espalhadas no rosto enrugado e cínico. O retrato não devia ser exibido em público, a deformidade à vista exigia o seu ocultamento, ele jazia naquela sala vazia dos porões do congresso nacional retirado do olhar curioso dos passantes. Ali, a verdadeira natureza do que se queria eludir manifestava-se livremente: miséria, desemprego, corrupção, injustiça, preconceito. Cada uma dessas qualidades nefastas podia realizar-se ao abrigo da luz do dia, o porão era o seu refúgio, o lugar que lhes permitia existir; tolhidas pela exiguidade do espaço, a tela descoberta refletia no espelho o sorriso sincero e defeituoso de um mundo a ser esquecido. Alguns representantes do povo, homens cuidadosamente escolhidos entre tantos outros, vinham às vezes visitar o retrato, sentavam-se nos assentos improvisados à sua frente e embevecidos contemplavam sua própria essência. Era o único momento em que podiam defrontar-se com seu verdadeiro Eu, deixavam para trás a máscara de suas fraquezas e desonra. Lá fora, as virtudes exibidas em público eram outras: igualdade, riqueza, emprego, moralidade, justiça. Nas luzes da vida cotidiana vicejava a retidão invertida do que se aninhava nas trevas; aí, a beleza desse jovem país afirmava-se na exuberância e esplendor. A antinomia entre claro/obscuro, virtude/vulgaridade, ética/corrupção, perdurou por muitos anos, um acordo tácito permitiu a convivência desses ideais excludentes. Muitos tiveram a ilusão de que os atributos positivos dessa fotografia em sépia estivessem ao abrigo da corrosão do tempo, a eternidade seria o seu destino. Esqueceram-se de que sua denegação permanecia intocada no calabouço daquela sala exígua. Um dia, alguns desses homens que se reuniam nas catacumbas decidiram desvendar definitivamente o retrato, retiraram a fina malha de linho que o encobria e fixaram com fascinação a escuridão de suas almas. Fascinados com a experiência, resolveram retirá-lo da obscuridade, o colocaram no centro do congresso nacional para ser contemplado pela multidão. O que se encontrava submerso tornou-se explícito, inteligível. Entretanto, para sua enorme surpresa, uma inesperada sensação de mal-estar apoderou-se das pessoas; subitamente elas se viram diante de algo atroz, a obscenidade evidente afastou-as da ilusão a que tinham se acostumado, uma visão idílica de si mesmo. Foi nesse momento que o tempo parou, uma sensação de imobilidade e torpor se impôs. Silenciosa e inexorável. Antes a dicotomia entre a imagem pública e o retrato destorcido permitia o contraste entre os valores discrepantes; malgrado a denegação da realidade, uma esperança sub-reptícia repousava nessa contradição. A dialética do contraste entre o claro e o escuro, a beleza e a feiura, alimentava a imaginação; talvez, um dia, as vicissitudes poderiam se rebelar contra a estupidez e a mediocridade. Quando o retrato de Dorian Gray se tornou público, entronizado no centro do país, as esperanças se dissiparam, não havia mais contradição a ser superada. As pessoas se viram diante da iminência dos fatos; paralisados no tempo, o porão e a rua tinham se encontrado, fundindo-se numa totalidade única. O destino ingrato e desafortunado trouxe o mal-estar à tona, com ele o sabor amargo da vergonha e asco.
Nota
[1] O texto foi originalmente publicado no site Nocaute (que não existe mais) do jornalista Fernando Morais em 7 de agosto de 2017.
Que bom ler o Renato Ortiz por aqui ! Vou acompanhar
abraço, Maria Victoria Benevides