
Dando continuidade à série Modos de narrar a sociologia brasileira, apresentamos a décima primeira dupla de posts. Esta série busca tecer uma narrativa mais diversificada, descentralizada e contextualizada da sociologia no Brasil, utilizando trechos de memoriais acadêmicos escolhidos pelos próprios sociólogos que contribuem para o campo. Nesta semana, compartilhamos as reflexões de Sérgio Adorno (USP) e Maria José Aquino (UFPA).
No memorial de Sérgio Adorno, acompanhamos a construção de uma obra que enfrentou o “mal-estar de sua época”, analisando as tensões entre o legado autoritário e as aspirações democráticas contidas na sociedade brasileira. A liderança em pesquisas sobre direitos humanos e violência é marca do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), referência incontornável na discussão sobre os temas. Em conjunto, sua obra busca descortinar a “continuidade autoritária” na construção da democracia, contribuindo significativamente para a compreensão das complexidades sociais e institucionais do Brasil pós-ditadura. Já no memorial de Maria José Aquino, o leitor percorre as reminiscências da socióloga no sertão nordestino até sua atuação como professora titular. É uma jornada marcada pela superação de adversidades socioeconômicas e pelo compromisso com o socioambientalismo na Amazônia. Maria José Aquino destaca ainda suas “andanças biográficas e aprendizados sociológicos”, refletindo sobre como sua história pessoal influenciou sua compreensão da estrutura social brasileira e impactou suas escolhas acadêmicas e profissionais.
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Desejamos a todas e todos boa leitura!
Memorial (2019)
Maria José Aquino (UFPA)
Começo por dizer ao leitor que uma primeira versão do presente manuscrito integrou meu memorial/tese defendido em dezembro de 2019, como exigência para promoção à classe de Professor Titular da Universidade Federal do Pará, onde continuo a atuar no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Naquele momento, dediquei o memorial/tese a uma pessoa, de trajetória tão curta! Para mim, uma pessoa-síntese, do lugar onde me situo, das minhas buscas, minhas relações e enraizamentos, percursos, atrações, compromissos e sonhos, cuja memória tão presente em meu pai, frequentemente visitava as conversas entre os mais velhos, assistidas por filhas e filhos, produziu em mim marcas que hoje percebo como definidoras de, na medida do possível, compreensões sobre a estruturação da excludente sociedade brasileira, escolhas e percursos cumpridos e a cumprir. A ele, tio Agostinho, irmão mais velho de meu pai, jovem atraído para a Amazônia pelo chamado de Getúlio Vargas nos anos de 1940 à Batalha da Borracha e que, vencido pela malária em um seringal qualquer às margens do rio Madeira, por lá encontrou sua cova “em palmos medida, … conta maior que [tirou] em vida”.
1962 representa o início de uma aventura terrestre iniciada no sertão do Rio Grande do Norte, em Parelhas. Era fim de um janeiro, até bem chuvoso, no vale do rio Seridó, de onde se avista, imponente, um bom pedaço de paisagem dominado pelas serras nuas do semiárido, franjas do planalto da Borborema no qual esbarra a fronteira sul-central do estado do Rio Grande do Norte. Oito dias antes havia terminado as festividades religiosas ao padroeiro do lugar; o tempo suspenso durante o festejo retomava seu ritmo marcado pela esperança de que os sinais de um bom inverno continuassem a se manifestar, atestando o atendimento de tantas preces encaminhadas ao patrono do lugar, o milagroso São Sebastião.
Ainda estava pardo, apenas começava a clarear, pela memória de minha mãe, de quem herdei muitos dos elementos desta narrativa. Era manhãzinha daquele dia 28 de janeiro, perto das 5h, horário pouco depois confirmado, certamente, pelas cinco badaladas do sino da Igreja Matriz de São Sebastião, situada a uns duzentos metros de nossa casa, no coração da cidade. Pois, nesse amanhecer, eis que um desconforto intestinal, repentino, confundiu a percepção dos sinais do parto pela minha mãe, só entendidos no instante mesmo em que eu nascia. Nascimento em casa, dez meses depois da chegada do primeiro filho. Uma outra criança, para aquela mãe, bem apressada aquela menina, que chegou poupando-a de um trabalho de parto longo e doloroso, marcas da experiência dura do nascimento do meu primeiro irmão, vivida há menos de um ano, dispensando a assistência da parteira. Uma segunda gestação finda por dar à luz a uma criatura após uma única contração uterina, confundida, a bem da verdade, com os sintomas de um “desarranjo”. Desfeita a confusão, de fato, ficaram as duas, mãe e filha, ali, aguardando a comadre parteira, Dona Maria Moura, a quem nós, os quatro primeiros filhos, de nascimentos assistidos por ela, pedíamos respeitosamente a benção e a tratávamos por madrinha. Chegou madrinha Maria Moura, entretanto, para as últimas providências. Veio trazida pelo meu pai, em bicicleta emprestada pelo vizinho que, naquele dia, um domingo, não voltaria ao seu sítio, Suçuarana, antes de ir à missa das 10h. Por essa razão, o vizinho ainda se encontrava “casa da rua” com os filhos e a esposa, já em estado avançado de sua quarta gravidez. Gravidez de uma menina que viria a nascer em meados de março, cujo enxoval inaugurei e já estava providenciado pela talentosa mãe, costureira caprichosa e professora primária em uma unidade escolar rural que, sob sua responsabilidade, funcionava nas dependências de uma casa vizinha à residência da família no tal sítio. A bicicleta, assim como a roupinha de bebê que usei nos primeiros dias, emprestados pelo casal, simbolizaram uma grande solidariedade que começava ali a ser construída entre as duas famílias, selada quando o casal, “Sêo” Adauto e Dona Nova, aceitou apadrinhar Maria José, filha de Dona Maria e “Sêo” Valério, os quais, talvez, não houvessem calculado muito bem o tempo da segunda gestação e por isso foram surpreendidos no fim de uma madrugada com as circunstâncias do nascimento de mais uma criança, a segunda entre cinco.
Teria nascido antes da hora? Perguntaram-se todos. Parece que não, pois, pela demora em cortar o umbigo, após o nascimento, razão, segundo a parteira, da cor um tanto arroxeada da criança que encontrou, até o final daquele dia 28 de janeiro nada mais apresentou a nova habitante da casa que indicasse não ter nascido de tempo. Depois, foi uma filha que apresentou um desenvolvimento considerado dentro da normalidade, escapando das doenças infantis, à época a campearem pelos sertões do Nordeste, abatendo muitas criaturas no começo de suas vidas. Sem saneamento básico e sem hospitais, políticas de vacinação iniciavam timidamente no município de Parelhas, onde o tifo, a difteria, a cólera deixaram marcas fortes das pestes presentes na memória do lugar.
Nessas condições, muito distante dos meios abastados, pertencente a uma família modestíssima, fazer o percurso pelas provas das doenças, consideradas – nas estratégias de convívio com adversidades e negações – como a vontade de Deus, e chegar à idade adulta podia ser considerado um sucesso inegável. Das verminoses, cataporas, coqueluche e um sarampo agressivo – dias de febrão, aos três anos de idade –, logrei saúde razoável e um “juízo” em bom estado, apesar de uma nutrição restrita, garantida, no entanto, com grande esforço, pelo trabalho de artesão de meu pai, marceneiro e carpinteiro, e o trabalho de minha mãe que, ao casar, deixou de lavar e passar roupa como meio de vida e passou a colaborar com ele no acabamento dos produtos da oficina e na restauração de móveis, de portas e janelas, serviços de bastante demanda no interior quando de preparativos para as festas patronais e para os casamentos.
Dessa travessia restou-me estatura e peso condizentes com um regime alimentar restrito próprio de famílias que, como a minha, trazia em sua construção as marcas fortes das privações produzidas pelas desigualdades, o que nos impediu, aos cinco irmãos, de conhecer os pais de meu pai e os da minha mãe. Todos eles tiveram trajetória curta encerrada pelas consequências da destituição. O que viveu mais, meu avô paterno, de quem meu pai herdou, assim como outro de seus sete irmãos, as habilidades na marcenaria e na carpintaria, faleceu aos setenta anos. Dele, a memória que restou em nós vincula-se a uma única foto a que teve direito e que foi guardada por meu pai. A foto de um rosto talhado pela crueza do trabalho de sol a sol, seja como carpinteiro/marceneiro, seja como agricultor em terras das quais nunca fora proprietário. Delas (dessas terras), de tempos em tempos, “convidado” era nosso avô a se retirar com a família. Em sua última experiência de retirante saiu levando esposa e oito filhos. Em busca de trabalho saíram da zona rural de Parelhas e seguiram a pé para Paulista, próximo de Recife, de onde vinham notícias de oportunidade de emprego em fábricas têxteis, que nos anos 30 iniciavam ali atividades. Tratava-se de uma esperança para os filhos mais velhos entrando na vida adulta. Se os filhos mais velhos, e os mais novos, falsificando a idade, conseguiram ser recrutados para o trabalho nas fábricas, assim garantindo à família morada e outros meios para um “passadio” mais favorável, ao pai já não foi possível acessar a mesma oportunidade. À volta dos sessenta anos, considerados de idade avançada, meu avô e minha avó paternos, nesse período de não mais que três anos, reduziram suas vidas à dependência do “ganho” dos filhos. Moralmente, para um chefe de família, aquilo era insuportável.
Logo sabida a volta da chuva no sertão, meu avô e a família bateram em retirada da zona da mata pernambucana. O sertão, no entanto, não os recebera mais com a possibilidade de voltar a morar e trabalhar em terra alheia. Concentração da propriedade fundiária, domínio da cultura do algodão, terras mantidas com fins especulativos, somente. No Seridó, e além, deixaram as oportunidades de trabalho na terra bastante reduzidas. Assim, os filhos daquela família, então, retomam a migração, dois deles, os mais velhos, para os seringais do Acre. Integrar as tropas da Batalha da Borracha nos anos de 1940, partir para a Amazônia, terra da promissão para tantos nordestinos! Anúncio de uma chance a não perder. Apesar de assediado pelos irmãos mais velhos para subir no “pau de arara” e tomar o rumo de Fortaleza onde havia um centro de triagem e recrutamento dos interessados na aventura, meu pai, o mais jovem, resolveu ficar ao lado dos pais considerados, naquela altura, bastante idosos. Os outros, quatro mulheres e um homem, foram se casando e partindo para outros lugares recomeçarem a vida, todos enquanto moradores, submetidos às exigências dos poucos proprietários de terra que ainda recebiam famílias como meeiros.
Minha mãe, por seu turno, testemunhava também com sua história a vulnerabilidade social de grupos possuidores apenas da força de trabalho a oferecer em troca de mínimas garantias de sobrevivência. Nascida de uma mãe cujo primeiro filho veio ao mundo quando ela (minha avó) acabava de completar quinze anos, segunda filha a sobreviver, pois, dos seus treze irmãos, sete morreram na primeira infância, minha mãe tinha o que contar de sua vida e, como meu pai, gostava de animar as conversas com os filhos narrando aqui e ali muitos episódios. Em meio a esses, voltava ela com frequência ao seu pai. Um pai bem mais velho que sua mãe, tropeiro que trabalhava para comerciantes transportando carga no lombo de burros, conduzidos do porto de Recife para o interior do Rio Grande do Norte. Sempre endividado, meu avô materno, certa vez, para pagar uma parte de dívidas contraídas para com um dos seus patrões-comerciantes, ofereceu como pagamento uma das filhas para ajudar no trabalho doméstico. Essa filha, minha mãe, foi assim, aos seis anos de idade, morar na casa da família desse comerciante, aliás um primo em primeiro grau da minha avó materna. Dessa casa minha mãe só saiu em 1955 quando já contava seus dezenove anos. “Ajudou” na criação de boa parte dos filhos dessa família, cozinhava, lavava e passava roupa sem, por isso, durante treze anos, receber mais que a comida, roupas e sapatos já usados. Não frequentou a escola. E, segundo manifestava minha mãe, como gostaria de ter tido a experiência da escola, assim como tiveram todas as crianças daquela casa! Mas, sua patroa nunca viu para aquele desejo possibilidade de realização. O volume de obrigações domésticas a dar conta, segundo ela, tornava impraticável a liberação daquela criança, depois mocinha, algumas horas por dia para ir à escola.
Um dos episódios inesquecíveis desse período vivido com essa família, inúmeras vezes rememorado por minha mãe, diz muito do regime de seu trabalho nessa época. Vejam só: certa vez, a patroa pediu à minha mãe para interromper a limpeza da casa e ir ao açougue buscar a carne a ser preparada para o almoço daquele dia. A carne já estava reservada pois, mais cedo, o marido havia passado no açougue e feito a encomenda. Pela primeira vez, já com mais de dez anos, minha mãe deixava aquela residência desacompanhada. Não distante da casa o açougue estava, a duzentos metros no máximo. No retorno do açougue minha mãe “areou-se”, não soube mais voltar. Quase no fim daquele dia, sentada em um batente da entrada de alguma casa, segurando aquele pacote de carne fresca já quase todo desfeito, o vestido sujo pelo contato direto com o conteúdo, chorando, foi identificada por alguém que a levou de volta à casa de seus patrões. Diante da situação, a senhora da casa engoliu os gritos que estava desde cedo preparando para dar na cara da “moleca desembestada” que, ao invés de cumprir o mandado, indo num pé e voltando noutro, supostamente teria ficado pela rua “zanzando”, batendo perna, deixando o tempo passar para fugir das obrigações. Minha mãe simplesmente desorientou-se, ficou perdida e, muito tímida, não ousou perguntar a ninguém como voltar para casa.
Quando aos dezenove anos voltou para a casa dos pais dela, minha mãe seguiu trabalhando, lavando e passando roupa, entrando sem autorização nas terras alheias para catar “maravalha” – gravetos – e vender em feixes de porta em porta. Seguia cumprindo um papel de provedora enquanto dois dos irmãos, mais próximos dela em idade, ainda não haviam partido em busca de trabalho nas indústrias de Pernambuco. Aproveitando de vereda aberta, estimulados por notícias recebidas de outra filha da família que, algum tempo antes, com catorze anos, havia “fugido” com um senhor, casado à época, que abandonou esposa e filhos para construir outra vida, outra família, com aquela jovem. Como operários da indústria de cimento, meus tios logo foram recrutados, conseguindo assim moradia na própria vila da fábrica. Logo que lá se instalaram, os dois irmãos vieram buscar as duas irmãs mais jovens e solteiras, e a mãe, recém-viúva que, um ano depois de chegada, não conseguindo vencer as consequências de verminoses e desnutrição crônicas, veio a falecer aos quarenta e nove anos.
Nessas histórias se inscreve o encontro dos meus pais em fins dos anos de 1950, cada um trazendo sua contribuição e a vontade de superação das suas próprias condições marginais, redimidas, em parte, pelas conquistas dos cinco filhos nascidos dessa união. Conquistas que, sem dúvida, muito se devem às brechas por onde passaram esses filhos acessando à escola e, por conseguinte, outras redes e outros meios. Em meu caso, redes e meios com os quais dei início à minha contribuição com a renovação geracional da família. A chegada dos filhos veio consolidar certa ascensão social ao me casar, contrariando planos dos pais de um jovem “bem” nascido, estudante de engenharia, residente na capital do estado. Uma promessa e tanto! Projetada com as esperanças de uma reorganização econômica e política no Brasil no início dos anos de 1980, que se anunciava com o fim do período ditatorial.
Uma (a)ventura, assim considero, diante das adversidades sertanejas presentes no vale do Seridó, meu lugar de nascimento, filha de pessoas cujo acesso à escola foi negado, cujo bem material único fora a residência adquirida pelo meu pai em um período de bons negócios para a marcenaria, anos antes de seu casamento. Fins dos anos 50, chuva e muito algodão nas redondezas, muitos casamentos e casas para mobiliar; de 1970 em diante, apenas o cultivo dessa boa memória ficou. Como as duas irmãs e os dois irmãos, eu, filha desse casal ali em Parelhas, interior do Rio Grande do Norte, iniciei a vida escolar. Vida escolar, é preciso dizer, até meus 16 anos, animada materialmente e espiritualmente pelo empenho de minha mãe, para quem não era concebível que suas filhas e filhos não passassem pela escola. Era preciso estudar! Pois tive – e todos de minha geração também que em Parelhas se encontravam – à disposição uma escola pública primária e secundária conduzida por professores vocacionados – parte importante do conjunto, professoras. Praticamente a última geração formada pela Escola Normal, portanto rigorosas na transmissão da língua portuguesa e da aritmética. Para além dos esforços de minha mãe, sobretudo a essas professoras devo muito das capacidades de ler e escrever, da disciplina, do início de um despertar para a ética da responsabilidade, que decisivamente contribuíram para que eu chegasse à universidade, a uma graduação e pós-graduação em Ciências Sociais cursadas em Natal e, mais tarde, no Rio de Janeiro. Uma vida acadêmica profundamente misturada à experiência da maternidade que nos agraciou, ao pai, Carlos Dantas Aquino, e a mim com dois filhos, Tiago e Pedro.
Filhos que chegaram durante meu percurso de formação universitária, cuja porta de entrada se deu pela História e não pelas Ciências Sociais. Entrei na universidade ao ser aprovada no vestibular para o bacharelado em História. Uma escolha que causou espécie em minha professora de Matemática e Física no segundo grau (nomenclatura da época para o ensino médio). Para essa professora era fato incontestável que eu “escolheria” uma carreira nas engenharias, certeza por ela nutrida durante três anos observando meu desempenho nas matérias por ela ministradas. Ao sair o resultado do Vestibular de 1980, estava em casa com meus pais quando a referida professora chegou para manifestar sua solidariedade e me confortar pelo insucesso. Queria ela me dizer que o fato de não ter conseguido aprovação nas engenharias – ela havia acompanhado a divulgação dos resultados pelo rádio – significava apenas a necessidade de melhor me preparar para o próximo vestibular. Mas ela me encontrou muito feliz com o fato de ter obtido sucesso em História. Só então ela soube, entre surpresa e decepcionada, que minha “escolha” não estava entre as engenharias. Ora, vejam, como poderia pensar em tais carreiras!? Para fazer uma formação naquele campo e trabalhar simultaneamente, era impossível. As disciplinas das formações tecnológicas eram ofertadas em três turnos! Meus pais não tinham meios de prover meu sustento na capital do estado para onde devia me mudar para assim frequentar a universidade. Então, a busca de uma formação realizada em um turno e a possibilidade de trabalho em jornadas de seis horas em um escritório de contabilidade, e mais tarde numa fundação do Estado do Rio Grande do Norte, condiziam com os meios materiais dos quais dispunha. Sobretudo, não menos importante, é preciso dizer que pela História, assim como pela Literatura e outras disciplinas das Ciências Humanas, o meu interesse não era menor do que pela Física, Química, Matemática, Biologia.
Entro na formação em História em 1981 e, durante o primeiro ano, vivo a experiência de cursar Antropologia, no primeiro e segundo semestres. Fiquei fascinada com as leituras e as perspectivas. Não esquecerei jamais o efeito em mim causado pela leitura de Índios do Brasil, do Júlio Cezar Melatti e das aulas de uma professora americana especialista do Povo Navajo. Aliás, a propósito dessa professora, que a cada aula levava seu projetor de slides, vale lembrar do seguinte episódio: já no fim da disciplina, um dia ela resolveu nos mostrar uma coleção de fotos por ela feitas durante seu percurso de pesquisa entre os Navajo. Nesse dia ela trouxe também um pequeno conjunto de objetos, entre os quais adereços e joias em prata por eles produzidos. Em certo momento a professora mostrou aos estudantes uma corrente composta de argolas lisas fechadas. Duas das argolas, todas de diâmetro entre um e dois centímetros, eram decoradas com pecinhas de metal representando respectivamente metades opostas de um sol. Tratava-se de um anel, que era também um quebra-cabeças, presente por ela (a professora) recebido quando de sua experiência de vida e pesquisa com os Navajo. Provou para a turma que se tratava de um quebra-cabeças mostrando o slide no qual aparecia o anel montado em um dos dedos de sua mão. A corrente então começou a passar pelas mãos das estudantes e dos estudantes, cada um teve seu tempo para tentar colocar aquilo na forma de um anel único e, assim, propiciar à professora o prazer de voltar a usá-lo. Segundo ela, desde que deixou os Navajo – e já havia alguns bons anos – o uso do anel havia se tornado impraticável. Quando a corrente finalmente chegou em minhas mãos, após algumas tentativas, eu consegui montar o tal anel. Uma proeza, assim foi considerada a tal montagem. A professora ficou só satisfação exibindo novamente o tal anel. Terminada a aula, a maior parte já havia deixado a sala e eu estava entre alguns estudantes que ajudavam a professora a guardar seus materiais. Pois bem, ela me chega e diz: “Você tem paciência e raciocínio matemático aguçado. Poderias ter sucesso em uma formação na área técnica”. Agradeci gentilmente a observação, fingindo, talvez, certa vaidade. Para ela, professora de Antropologia, o comentário se fazia em termos de elogio e, pensei cá comigo: mais uma pessoa a sugerir, mesmo que sem querer, estar eu no caminho errado!? Claro que fiquei muito feliz de montar o quebra-cabeças, mas, objetivamente, reconhecer não caber em minha vida estudar sem trabalhar não significava uma simples conformação a interdições sociais a determinadas profissões.
Antes de cumpridas as disciplinas do primeiro ano da graduação em História, comecei a procurar na universidade se havia uma formação em Antropologia, pois, ao tomar conhecimento da possibilidade, pretendia me submeter à seleção interna, e não seria para um curso fora das Ciências Humanas. Queria mesmo dar continuidade à descoberta da Antropologia. Graduação em Antropologia não havia na UFRN. Havia Ciências Sociais e nesse curso era acolhida a Antropologia. Consegui então uma vaga em Ciências Sociais e nesse mundo mergulhei definitivamente a partir de 1982. Atraída inicialmente pela abordagem das estruturas das experiências culturais da Antropologia, fui também me deixando seduzir pela perspectiva de processo social presente na Sociologia.
Dividia-me nessa época da formação em Ciências Sociais entre os estudos, o trabalho em um projeto de atualização das áreas construídas dos imóveis de Natal operado por uma Fundação do Estado, e os cuidados com a família. Quando as minhas duas crianças, Tiago e Pedro, ambas nascidas durante minha graduação, já estavam frequentando a escola, eu comecei uma experiência como auxiliar de pesquisa em um projeto coordenado por uma professora da Sociologia, pelas mãos da qual eu adentrei nos temas do desenvolvimento, políticas públicas e movimentos sociais, tendo Natal como território de referências empíricas. Com uma bolsa do CNPq para recém-graduados, passei um ano exercitando nesse projeto as habilidades na coleta de dados através de entrevistas e aplicação de questionários, pesquisa documental e revisão bibliográfica sobre movimentos sociais no Nordeste e suas relações com as pastorais da Igreja Católica. Nessa experiência, os dados, as informações, as leituras realizadas informadas na denúncia social, na crítica ao desenvolvimento, nas lutas e resistências contra as desigualdades mantidas pelo sistema de mandonismo local, pelo coronelismo, percebi as atualizações, as permanências de estruturas sociais concentradoras de poder político e econômico, dominadas por elites avessas à inclusão, a direitos sociais em um Nordeste que se modernizara e se industrializara. Para essa perspectiva convergia uma concretude de realidade vivida através das trajetórias de meus pais e as leituras de uma sensibilidade sociológica e antropológica presentes nos romances de Raquel de Queiroz, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos e Jorge Amado, principalmente. Uma literatura que acessei primeiro pela biblioteca pública de Parelhas, fundada no final dos anos de 1960. Vale lembrar que leitura para a minha geração alfabetizada constituía diversão importante em contexto onde não havia ainda disponível o “sinal” da concorrente “televisão”.
Após a experiência no projeto de pesquisa, durante a qual também me preparei para a seleção do mestrado em Ciências Sociais (Sociologia), também me submeti, em 1988, ao primeiro concurso público de provas e títulos para professor, cuja exigência básica fora o diploma de graduação, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Como no caso do vestibular para História, da seleção interna para Ciências Sociais e da seleção para o mestrado, nesse concurso o que definitivamente me abriu as portas foi a aprovação na prova escrita, uma entre tantas outras exigências, sobretudo publicações e experiência no ensino, que devem ser atendidas atualmente.
Entrei então para a carreira do magistério superior apenas com a graduação, seis meses depois de publicado o resultado do concurso, ao mesmo tempo em que consegui aprovação para o mestrado, isso já no início do primeiro semestre de 1989. Portanto, de imediato, não iniciei o mestrado. A coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, sensível ao fato de ter sido eu admitida por concurso em uma universidade pública, orientou-me a solicitar trancamento do curso por dois anos, o que foi aceito pelo Colegiado. Assim, eu pude assumir as atividades como professora da UERN, em Mossoró, onde também começara a trabalhar na Petrobras, naquele mesmo ano, o meu esposo. Momento de efervescência econômica no oeste do Rio Grande do Norte, promovida pelas atividades petrolíferas em campos terrestres ali iniciadas não havia muito tempo. A produção salineira e a exploração da cera da carnaúba naquela altura tinham sua importância atenuada pelo desenvolvimento da fruticultura irrigada voltada à exportação, o que havia justificado a construção do maior reservatório de água do estado do Rio Grande do Norte, finalizada em 1980, e a exploração de petróleo. Tanto uma atividade quanto a outra eram representativas da lógica concentracionista e globalizada escolhida para o desenvolvimento do Estado.
Dois anos depois quando consegui licença da UERN para cursar o mestrado voltei à UFRN, mas já havia abandonado a proposta de pesquisa com a qual havia sido selecionada. O capital intensivo, o enclave da exploração mineral e as incompletudes de uma dinâmica econômica em termos de inclusão, em Mossoró, me conduziu para um projeto de pesquisa que terminou resultando na dissertação defendida dentro da área de concentração em Sociologia do Desenvolvimento. Muito me influenciou nesse sentido a atuação de um conjunto de professores do mestrado dedicados à Economia Política e, dentro dela, a teoria da regulação face ao recrudescimento do liberalismo defensor do Estado mínimo. Por oposição, será justamente a importância da intervenção estatal na realidade periférica, operando por grandes projetos econômicos estruturados enquanto enclaves, que mais me mobilizava nessa altura. Mesmo que a circularidade das ideias e iniciativas ambientalistas alcançava os meios acadêmicos no Rio Grande do Norte, nem de longe se indiciava uma “ambientalização” de contexto promovida por grupos e iniciativas efetivamente contrários à investida modernizadora-excludente do petróleo e da agricultura irrigada para exportação. O preço social das transformações econômicas de uma, como bem definida por Francisco de Oliveira, “re(li)gião”, tendo como promotor um Estado desenvolvimentista era muito mais mobilizador do que as não menos instigantes reflexões sobre a “desordem do progresso”, o urgente ecodesenvolvimento, referências que, naquela altura, já informavam ações e identificavam atores na Europa e em algumas partes do Brasil.
Mas foi a preocupação com o preço social pago por dinâmicas econômicas, sem rupturas, modernas e conservadoras ao mesmo tempo, as acomodações dos interesses favoráveis aos interesses dos dominantes, em muito devida ao diálogo com a Economia Política, mediado pelo orientador de minha dissertação, além da leitura dos estudos acadêmicos sobre a questão no Rio Grande do Norte que vinham sendo publicados, que me conduziram a uma leitura sociológica das promessas nunca cumpridas pelo tal desenvolvimento do oeste potiguar sob a condução da exploração do petróleo. Ao professor Dacier de Barros e Silva, muito devo nesse percurso. Além da orientação cuidadosa, a atenção para me resgatar de silêncios e distanciamentos que pudessem me levar à desistência do mestrado. “Cumpra essa etapa e vá além!”, dizia ele categórico. Em muitos momentos, pois, paralisava, desencorajada pela fadiga das viagens semanais entre Mossoró e Natal, por me julgar incapaz de bem dar conta das exigências daquela etapa de formação, pela impossibilidade de maior presença na vida de meus dois filhos, Tiago e Pedro, companhias de afeto sem medida, em momento de grande, legítima e justíssima demanda deles vinda ao mesmo tempo em que, sobre o pai deles, pressão não menos importante era exercida pelas atividades profissionais da esposa e pelo seu próprio trabalho, levando-o a ausências frequentes de casa, muitas vezes demoradas. E já não havia mais o apoio de meu irmão e das minhas duas irmãs mais jovens que conosco moraram, cada um e cada uma, em períodos de seus estudos secundários em Natal. Também em Mossoró não podíamos mais contar com o apoio familiar de Natal pelo lado paterno. Duas frentes de apoio e de acolhida sem a qual a minha passagem pela graduação, assim como a do pai das crianças, teria sido muito mais penosa e financeiramente muito desfavorável.
Defendida a dissertação em fins de 1994, logo depois, em fevereiro do ano seguinte, uma nova etapa migratória nos mobilizava. Dessa vez, para a Amazônia. Completadas as estruturas de telecomunicações dos campos de petróleo de Mossoró, a Petrobras transfere meu esposo para Belém, base mais importante da empresa à época. Buscava-se intensificar a produção de petróleo e, com isso, compensar perdas face ao preço do barril que estava em baixa no mercado internacional. O Estado brasileiro começava a retomar timidamente sua capacidade de investimento e, entre as prioridades, impunha-se o setor energético que teve incentivos para o investimento na construção, adequação e inovação de estruturas de engenharia em comunicação, atividade meio para produção de petróleo. Com excelente qualidade para o refino, o petróleo e o gás do campo de Urucu, situado no município de Coari, a seiscentos e cinquenta quilômetros de Manaus, se constituiu, naquele contexto, a grande razão para uma mobilidade dos funcionários da Petrobras para o Norte do Brasil.
A transferência em questão se impôs e terminou por me levar a pedir licença da UERN, para acompanhar a família. Licença que, em 1996, seguiu-se de pedido de exoneração ao ser admitida por concurso público na Universidade Federal do Pará. Ali começou uma vivência profissional menos pressionada pelas demandas familiares. Evidentemente, o fato dos filhos já crescidos, com mais autonomia na escola, permitia-me um desempenho na universidade sem grandes culpas, mesmo que as atividades profissionais do pai deles continuavam a exigir as constantes viagens e afastamentos de casa o que, portanto, me fez continuar na superintendência do ninho.
O meu trabalho na universidade colocava-me, cada vez mais, diante da urgência e pertinência ligadas à continuidade de uma qualificação para a pesquisa no nível do doutorado focada em objetos produzidos pela e por produtores da Amazônia, e tudo o que tal denominação implicava e implica em redução das múltiplas e complexas realidades nela encerradas. Três anos após iniciar meu percurso na UFPA – decisivos na minha captura pelos encantamentos amazônicos, na reativação de memórias familiares, bastante estimulados em contexto de avanços de dinâmicas socioambientalistas no Brasil e no mundo – cumprido o estágio probatório, fui autorizada a afastar-me para cursar o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ. Nova etapa migratória; aterrissagem no Rio de Janeiro.
Para lá levei comigo, na forma de projeto de pesquisa, algumas de minhas inquietações gestadas naqueles primeiros anos no Pará, marcados por arrochos nos investimentos públicos nas instituições de ensino e pesquisa, para onde se projetavam as iniciativas não-governamentais identificadas com a denúncia das ameaças ao controle da Amazônia pelos Grandes Projetos de desenvolvimento e as propostas para, na “fronteira”, se produzir contribuições para um desenvolvimento outro, o sustentável, ratificado nos acordos da Eco-92, como solução a ser experimentada em termos de conciliação entre racionalidade capitalista e conservação da natureza.
Recebida no PPGSA/UFRJ por Neide Esterci, contato intermediado por Maria Celi Scalon e Gláucia Villas Boas, tenho com minha orientadora a oportunidade de retorno à Antropologia dialogando permanentemente com a Sociologia. Grande e decisivo encontro no qual realmente despertei para a pouca, ou nenhuma validade de filiações teóricas sem o exercício da crítica, despertei, também, para o lugar central ocupado pela Etnografia nas Ciências Sociais e não só na Antropologia. “Não dá para afirmar sem demonstrar”, “(…) outra coisa, eu (ela) como pesquisadora não sei nada de ONGs”, “descreva a situação, Maria José!”. Pedaços de conselhos, de reflexões e de apreciações que vieram entre tantos outros, nas nossas longas conversas sobre as Amazônias percebidas, trabalhadas e presentes em certo conjunto de ONG’s ambientalistas que procurei compreender na tese de doutorado. Nas quedas, levantadas, período de tantas dúvidas e inseguranças, rupturas, a acolhida de Neide, inclusive no seio da sua família, a aproximação por ela promovida com os outros orientandos, com os seus colegas, sua sensibilidade para interromper meus silêncios nos momentos certos, chamar-me “aos carreteis”, não me largar a mão, me fizeram retornar à UFPA, em 2003, com a tese finalizada e defendida. Uma tese na qual minhas inquietações com o tema do desenvolvimento foram reelaboradas numa busca de conhecimento sobre a atuação de um determinado ator, o não-governamental e ambientalista, identificado com a contraposição às forças econômicas e políticas que sustentavam os Grande Projetos na Amazônia, negadores de suas experiências socioculturais variadas, de sua necessária conservação enquanto uma das últimas fronteiras terrestres em biodiversidade.
Conduzida por este tema, estabeleci aproximações acadêmicas durante o doutorado que se constituíram, também, em laços pessoais de grande confiança que levaram a desdobramentos profícuos em termos de articulações com vistas ao fortalecimento dos Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais, tanto da Universidade Federal do Pará quanto da Universidade Federal do Maranhão. Dos encontros dessa época no Rio de Janeiro, durante o doutorado, nasceram parcerias selecionadas pelos incentivos da CAPES, no formato Projeto de Cooperação Acadêmica. Uma delas profundamente marcada por uma Sociologia Política da Ação Pública Territorial e os Desafios do Desenvolvimento Sustentável na Amazônia brasileira, integrada na linha de pesquisa “Ações pública e coletiva, território e ambiente”, do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Nesta linha de pesquisa, beneficiária das atividades desenvolvidas no Projeto de Cooperação Acadêmica Novas Fronteiras – Territórios Emergentes da Ação Pública Local e Desenvolvimento Sustentável na Amazônia Brasileira, envolvendo o PPGSA/UFRJ e o PPGCSoc/UFMA (2010-2015), através da Sociologia Política passamos a acompanhar processos de criação e implementação de Unidades de Conservação, no Rio de Janeiro, Maranhão e Pará, como as Reservas Extrativistas, sobretudo as marinhas, e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável, mas também Parques Nacionais, Terras Indígenas e Territórios Quilombolas, em um ambiente insular amazônico, a Ilha de Marajó.
Dessa parceria assumida no formato Procad, sob minha coordenação, de Horácio Antunes de Sant’Ana Jr. e de Neide Esterci. Como participante e colaborador decisivo, tivemos Pierre Teisserenc, à época professor vinculado ao Laboratório Ceral/Université Paris 13 e professor visitante da UFPA. Essa integração do Laboratório Ceral na nossa parceria permitiu a acolhida de estudantes da UFPA e da UFMA, que lá tiveram a oportunidade de realizar estágios sanduíches, inclusive em co-tutela, e estágios pós-doc.
A aproximação e o diálogo com Pierre Teisserenc, iniciados em 2007, marca profundamente minha trajetória acadêmica, mas não só. Com ele, desde 2008, tenho cultivado uma vida amorosa, laços familiares e de amizade, ambientes de aprendizado no Brasil e na França. Dessa vida em comum, nosso trabalho intelectual também tem se nutrido ao convergirmos nossas pesquisas para a problemática da mobilização em contexto de “ambientalização”, envolvendo comunidades quilombolas que lutam pelo reconhecimento de seu território e de sua cultura – cuja mobilização social é mais de caráter identitário – e grupos sociais, do qual a mobilização é dirigida para o reconhecimento do território e de sua gestão participativa, o que é o caso das Resex, sobretudo as marinhas do nordeste paraense.
Nesta unidade, não mais que aparente, referida como “Amazônia”, comparar territórios – muito mais para ressaltar a diversidade e complexidade do que para identificar similaridades – sob os quais incidem exigências socioambientais, exigências de reconhecimento identitário foram assumindo destacada importância nesse trabalho para o qual tenho procurado contribuir. Decididamente, já não me encontro no registro das preocupações com as contradições e limites do desenvolvimento e do progresso que, no início dos anos de 1990, contexto de preparação e realização da Eco-92, tanto me atraiu para um debate retomado dez anos depois em meu percurso do doutorado, com a atuação das ONGs ambientalistas entre a contestação a (e a negociação com) uma racionalidade econômica hegemônica. De um lado, as lutas por direitos sociais e, de outro, as lutas ambientalistas que, apesar da contribuição da Ecologia Política, parece perder sucessivamente batalhas para o viciante e vicioso anti-humanista jogo do mercado. Diante disso, uma perspectiva mais sistêmica das relações entre atores sociais e das ações públicas passou a fazer mais sentido em acompanhamentos mais recentes de dinâmicas socioterritoriais. Nesse fluxo se inscreve minhas buscas atuais em averiguar a pertinência da hipótese do “Terrestre” como ator político. Uma hipótese/problemática apresentada de Bruno Latour, em seu livro Où atterrir? Comment s’orienter em politique? em diálogo com a interpretação da “ambientalização” de José Sérgio Leite Lopes (2009) e a perspectiva de Claude Lefort (1986) sobre a democracia para pensar a política. Trata-se de um enquadramento a partir do qual busco analisar situações de municípios da costa paraense, como Bragança, por exemplo, onde foi implantada, em 2005, uma Reserva Extrativista Marinha. Desse exercício, em colaboração permanente com Pierre Teisserenc, resultaram minhas publicações nos últimos quatro anos.
Aproveito, por fim, para, na forma de uma gratidão imensa, sobretudo aos meus pais e à família por eles constituída, e na qual fui acolhida ao casar pela primeira vez; a todas as pessoas; aos encontros com os quais tenho aprendido a me mover, a reconhecer limites, e não sucumbir à desesperança, a descobrir sentidos para a vida e o trabalho nas Ciências Sociais, na Sociologia especialmente, e na Sociologia Política, ainda mais especialmente. Em meio a esses encontros há de se reconhecer a importância em meus aprendizados do exercício na orientação acadêmica. Orientandas e orientandos – de graduação, de mestrado e de doutorado –, o diálogo e as vivências com essas pessoas foram e são decisivos no cultivo da motivação para compreensão do modesto alcance e da capacidade de um exercício profissional em um campo que, quando aberto, é cada vez mais pertinente nos dias que correm. Uma pertinência que se mostra objetiva nos compromissos que o trabalho de pesquisa com pessoas, com vidas que sonham, que nos ensinam, que resistem, que se reinventam, que nos falam e em nós depositam confiança como parceiras em suas lutas incessantes por reconhecimento para terem completadas suas cidadanias. Do médio Solimões aos Lençóis Maranhenses, do Xingu à ilha de Marajó, pelas Resex costeiras do Pará, toda gratidão às pessoas e seus grupos, ricos em diversidade e sabedorias, competências e histórias, tão negadas.
Nós não somos as únicas pessoas interessantes no mundo, somos parte do todo. Isso talvez tire um pouco da vaidade dessa humanidade que nós pensamos ser, além de diminuir a falta de reverência que temos o tempo todo com as outras companhias que fazem essa viagem cósmica com a gente (Krenak).
