BVPS Homenagem | Tributo a Charles Pessanha, por Breno Bringel

A BVPS conclui hoje as homenagens a Charles Pessanha, que nos deixou em julho deste ano, aos 84 anos. Nesta semana, publicamos um texto de Breno Bringel e um itinerário visual com fotos reunidas por Elina Pessanha.

O importante papel de Charles no mundo da editoração científica é destacado mais uma vez, como não poderia deixar de ser, no texto de Breno Bringel. Ele relembra momentos de crises na revista Dados e como Charles não apenas atuou para salvá-la, mas também aproveitou as crises para introduzir inovações que mudaram os rumos da revista e da própria editoração científica no país. Além de sua atuação como “embaixador científico”, Breno Bringel ressalta como Charles transpirava paixão pelo conhecimento, pela política, pela família, pelo jazz, pela leitura e pelo América. Algumas dessas paixões e afetos de Charles podem ser observadas no ensaio visual de Elina Pessanha, que reúne fotos de diferentes momentos de sua vida. Agradecemos a Elina por compartilhar conosco seu acervo pessoal.

Os textos que publicamos nas últimas semanas não deixam dúvidas de que Charles Pessanha foi um dos grandes protagonistas das ciências sociais brasileiras nas últimas décadas. Para conferir outros textos em sua homenagem, clique aquiaqui, aqui e aqui.

Boa leitura!


Tributo a Charles Pessanha

Por Breno Bringel (IESP-UERJ)

O falecimento de Charles Pessanha no dia 25 de julho de 2024 deixou a comunidade científica brasileira em luto profundo. Foram muitas as notas de pesar de departamentos, programas, faculdades, institutos, associações científicas, sindicatos, editoras e revistas de todo o país. Nas redes sociais, abundaram também as mostras de carinho. A reiteração frequente de alguns adjetivos em todas essas manifestações deixa bem claro por que a ausência de Charles é tão sentida: atencioso, carinhoso, meigo, terno, afável, amável, fino, sensato, sereno, sábio, sagaz, astuto, generoso, bondoso, gentil, humilde, empático, solidário, íntegro etc.

Todos os que tivemos a sorte de ter convivido de perto com Charles, sabemos que essa abundância de adjetivos não é desmedida, mas uma forma de expressar gratidão por sua forma de habitar o mundo. Sua presença irradiava leveza e afeto, contagiando sentimentos positivos em todos os lugares por onde ele passava.  

Homenagens em vida

Diante da tristeza enorme de sua passagem, fica, ao menos, o sossego de saber que Charles foi devidamente homenageado em vida. Nos últimos anos, lembro-me de, ao menos, três reconhecimentos que foram muito importantes para celebrar suas contribuições às ciências sociais e à editoração científica no Brasil.

Em novembro de 2016, organizamos no IESP-UERJ o Seminário de 50 anos da Revista Dados (1966-2016). O encontro serviu como uma oportunidade de realizar um balanço sobre a trajetória da revista, mas também foi uma homenagem a Charles Pessanha que, após mais de três décadas como editor-chefe, tornou-se editor emérito da revista, uma posição que ocupou ativamente.

Dois anos depois, o Programa SciELO celebrou 20 anos e realizou em São Paulo, em setembro de 2018, a Conferência Internacional SciELO 20 anos, com o objetivo de discutir o alinhamento dos periódicos com as práticas de ciência aberta. Charles foi um dos painelistas convidados para o evento e foi igualmente homenageado pelo seu papel central na fundação do SciELO.

Por fim, em outubro de 2019, pouco antes da pandemia da Covid-19, nos reunimos em Caxambu para o 43º Encontro Anual da ANPOCS, onde Charles recebeu o Prêmio Anpocs de Excelência Acadêmica Gildo Marçal Brandão em Ciência Política pelo seu incansável trabalho institucional em prol das ciências sociais. Tive o prazer de entregar o Prêmio a Charles, algo que muito me honrou. No discurso, tentei resgatar alguns elementos centrais da trajetória de Charles e de suas contribuições, imbricando o lado pessoal, político e acadêmico-institucional.

A alegria de ter compartilhado essas homenagens em vida alivia um pouco a dor, pois permite recordar a alegria de Charles naqueles momentos de celebração.

Ainda assim, no bojo destas homenagens, vieram também alguns depoimentos de Charles, que servem hoje como valiosos registros de memória, como, por exemplo, o artigo 50 anos de Dados: uma introdução à Coleção, publicado em 2017, no qual Charles revisita a trajetória da Revista Dados; a entrevista concedida em 2019 ao Programa Caminhos, na qual Charles reconstrói sua trajetória de forma bastante ampla, transitando entre as influências familiares, a militância política e sua experiência com a editoração científica; e o artigo Antes que eu me esqueça: memórias do editor do BIB, publicado em 2022, no qual narra a criação do Boletim Informativo Bibliográfico de Ciências Sociais (BIB) e suas contribuições.

Em conjunto, esses materiais nos permitem ler, escutar e relembrar o Charles por ele mesmo.

Convivência com o Charles editor: inovação, paixão e vocação

Comecei a conviver intensamente e de forma cotidiana com o Charles quinze anos atrás, em um momento crítico: a transição do antigo IUPERJ para o atual IESP-UERJ. A Dados estava em crise profunda; alguns achavam que, inclusive, terminal. Na disputa com a UCAM, corria o risco de ser descontinuada. Além da contenda pela marca da revista, Dados ficou sem funcionárias que atuavam como secretárias de redação; o e-mail da revista foi perdido e produziu-se um verdadeiro caos na tramitação dos artigos.

Em meio a esse contexto adverso, recebi um convite aparentemente envenenado: assumir a editoria da Dados com a missão de reerguê-la. No entanto, alguns colegas asseguravam que havia algo positivo nesta missão: trabalharia tête-à-tête com Charles nesse processo. Foi um presente para a vida. Ganhei um grande amigo; um segundo pai.  

A missão foi hercúlea, porém bem-sucedida. Dados permaneceu no IESP, o fluxo foi progressivamente reorganizado, a periodicidade mantida e, aos poucos, fomos implementando medidas importantes rumo à digitalização da revista e de seu processo editorial, reformulando o escopo e a política editorial e abrindo a revista para o espanhol e para o inglês e, com isso, à comunidade internacional, sobretudo a latino-americana.

Descobri, pouco tempo depois disso, que era a segunda vez que Charles ‘salvava’ a Dados. A primeira havia sido justamente quando assumiu a editoria da revista em 1976 e encontrou um projeto marcado pelo amadorismo, a endogenia, a ausência de um fluxo regular de artigos, a irregularidade de recursos e tiragens impressas exageradas. A alternativa proposta por Charles foi a profissionalização da revista e uma verdadeira revolução na rotina dos periódicos científicos no Brasil, ao regularizar o fluxo e a periodicidade, introduzir os pareceres científicos e normas claras, criar conselhos editoriais proativos e gerar uma dinâmica editorial com revisores, comitês científicos e uma equipe de profissionais (onde estavam, entre outras, Tema Pechman, Beth Cobra, Elisabeth Lissovsky e Claudia Boccia) que foi motivo de muito orgulho para Charles pelo zelo com que tratavam a editoração dos textos publicados.  

Em 2010, assim como em 1975, a saída para as crises foi mais modernização e profissionalização. Charles soube ler bem as conjunturas de crise editorial para buscar inovações e mudanças de rumo. Aludindo ao contexto nacional pós-junho de 2013, brincávamos que, infelizmente, a recíproca não era verdadeira para a política brasileira e por isso seguimos nesse poço sem fundo.

Aprendizados com uma pessoa extraordinária

Em nossa convivência, aprendi muito com o Charles editor tanto em termos práticos como em sua concepção de que o papel do editor não pode ser o de um mero gestor, que se restringe a receber e a processar artigos, como com frequência ocorre hoje. O editor é um ator-chave no avanço da produção e da divulgação do conhecimento científico. Charles encarnou isso melhor que ninguém. Atuou como um ‘embaixador científico’ e foi um ponto fora da curva, devido à sua proatividade e capacidade para se antecipar às principais tendências da editoração científica.

Charles foi uma pessoa extraordinária, para a qual cabem todos os adjetivos que antes mencionei e mais. Praticava algo raro na academia: a escuta ativa, que cultivou especialmente com as/os estudantes e as/os pesquisadores mais jovens. A ajuda desinteressada e seu compromisso ímpar o tornaram um criador de instituições, como a ABEC e o SciELO.

A despeito da predileção pela Dados, também foi um dos idealizadores e primeiro editor do BIB, e apoiou ativamente a criação de dezenas de revistas em todo o Brasil, participando ativamente (e não somente de forma honorífica) em seus conselhos editoriais. Ao contrário da lógica imperante de competição entre programas e revistas, Charles sempre estimulou a cooperação. Semeou muitos projetos e os frutos estão aí, espalhados por todo o país.

Charles também foi um pesquisador arguto, especializado no estudo de instituições de controle. Embora esse fosse seu campo de especialização, provavelmente era quem, entre nós, melhor conhecia todos os ramos das ciências sociais brasileiras. Há, obviamente, certa vantagem comparativa em ter sido editor da Dados durante tanto tempo: ao receber artigos de praticamente todas as subáreas de conhecimento, Charles estava sempre muito atualizado com os avanços de diferentes áreas.

Em conversas sobre as tendências das ciências sociais no Brasil e no mundo, compartilhávamos uma inquietação: as ciências sociais se institucionalizaram e se especializaram sobremaneira nas últimas décadas e com isso conhecemos, mais que nunca, diferentes realidades bastante específicas da vida social e política. Isso é, sem dúvida, algo a ser celebrado. Todavia, temos cada vez menos interpretações abrangentes que partam destes diversos avanços mais específicos do conhecimento científico. Não deixa de ser uma situação paradoxal, pois com avanços científicos insulados dificilmente podemos elaborar respostas intelectuais à altura dos desafios do atual momento histórico, que exigem criatividade e ousadia para repensar conceitos, teorias e explorar novas fronteiras do conhecimento, também com as ditas ‘ciências duras’, com as quais o mestre Pessanha também mantinha relação.  

Charles transpirava paixão pelo conhecimento, pela política, pela família, pelo jazz, pela cultura, pela leitura, pelo América. Todos esses temas faziam parte contínua de nossos encontros em cafés, almoços e vinhos, onde partilhávamos recentemente outra preocupação: que mundo estamos deixando para nossos filhos e netos? A pergunta tem obviamente muitas arestas e dimensões. Difícil imaginar que Charles não está fisicamente entre nós para seguir a conversa. Oxalá, ao menos, nos siga inspirando para buscar saídas coletivas para um mundo mais justo.