BVPS Homenagem | Charles Pessanha e a comunicação científica nas ciências sociais brasileiras, por Antonio Brasil Jr.

A BVPS dá continuidade às homenagens a Charles Pessanha com a publicação dos textos de Antonio Brasil Jr. e Luiz Augusto Campos, que serviram de base para suas apresentações na mesa “Homenagem a Charles Pessanha”, promovida em agosto numa parceria entre o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS-UFRJ).

Nos textos, os autores ressaltam o lugar de Charles Pessanha no mundo da editoração científica no Brasil. Antonio Brasil Jr. aborda, mais especificamente, os efeitos de sua atuação na consolidação do periódico científico como o centro dinâmico da comunicação científica nas ciências sociais. Mostra também como a obra de Charles causa ressonâncias não só na ciência política, sua área de especialização, mas em áreas que reconhecem a importância de sua reflexão sobre editoração científica. Luiz Augusto Campos, por sua vez, lembra que Charles teve relação com o mundo editorial desde sua infância. O gosto pela edição, impressão e circulação das revistas nunca o abandonaram. Reconstruindo alguns momentos da trajetória intelectual e da atuação de Charles no campo da editoração científica, Luiz Augusto afirma que ele é um dos principais pensadores e formadores das infraestruturas editoriais que hoje organizam a avaliação, circulação e legitimação do conhecimento científico brasileiro.

Para conferir outros textos que publicamos em homenagem a Charles Pessanha, clique aqui e aqui.

Boa leitura!


Charles Pessanha e a comunicação científica nas ciências sociais brasileiras

Por Antonio Brasil Jr. (UFRJ)

Queria inicialmente agradecer o convite para participar desta mesa em homenagem ao querido professor, pesquisador e editor Charles Pessanha. Fui seu aluno no começo dos anos 2000 lá no IFCS e me lembro perfeitamente daquelas aulas cheias de histórias, conceitos, dados e insights realmente geniais. Mas realmente o meu contato ficou mais próximo quando integrei o staff da revista Sociologia & Antropologia em 2016; a interlocução com Charles foi decisiva, sempre nos ajudando a pensar estrategicamente para seguir com a nossa trajetória exitosa de criar um canal de comunicação (o que inclui sempre ruídos) entre as duas disciplinas, bem como para enfrentar os dilemas e desafios mais gerais da editoração científica no presente. Fico feliz de ter podido conhecer o Charles nestas duas dimensões, a de um professor inesquecível e de um editor apaixonado e generoso, e saber que muitos de vocês foram igualmente beneficiados e inspirados pelos gestos, pelas condutas e pela inteligência de Charles nestas e em muitas outras dimensões.

Aqui nesta mesa e nesta audiência, temos colegas que conviveram de modo muito mais intenso com o Charles do que eu, e que certamente partilharam ou partilharão memórias desta convivência conosco. Eu escolhi aqui um outro caminho, que é o de ressaltar não só o lugar de Charles Pessanha no mundo da editoração científica no Brasil (nas ciências sociais sobretudo, mas sua atuação foi mais além de nossas disciplinas, como sabemos), o que é de reconhecimento geral – como disse o Breno Bringel certa vez, Charles é dos nossos poucos “consensos[1]” –, mas sobretudo os efeitos desta atuação na consolidação do periódico científico como o centro dinâmico da comunicação científica em nossas disciplinas, o que vou mostrar por meio de alguns dados de uma pesquisa coletiva e colaborativa que venho fazendo ao lado de vários colegas, especialmente com Lucas Carvalho, professor da UFF.

Primeiro, um pouco de contexto histórico. Sabemos que, em meados do século XX, as nossas ciências sociais contavam com um sistema pouco desenvolvido de publicação próprio, isto é, de revistas científicas. Podemos mencionar algumas iniciativas, a pioneira a revista Sociologia, da ELSP, depois a Revista de Antropologia, da USP, a Revista do ICS, na UFRJ, a Revista Brasileira de Ciências Sociais, da UFMG, a revista América Latina, do CLAPCS, dentre outras[2]. Mas esse conjunto realmente não era nem suficiente nem totalmente satisfatório. Grande parte do que se publicava em ciências sociais saía em veículos um tanto híbridos e complexos, como revistas de instituições não estritamente das ciências sociais (como a Revista do Arquivo Municipal, a Revista do Museu Paulista, Anhembi, Brasiliense) ou mesmo burocráticos (revistas de órgãos da burocracia do Estado, que foram tão importantes para publicar textos de sociólogos, sobretudo do Rio de Janeiro, como Guerreiro Ramos, Evaristo de Moraes Filho e José Arthur Rios, para citarmos alguns exemplos). Isso sem falar, é claro, deste tipo de publicação tão típico de meados dos anos 1950, que é o suplemento literário dos jornais de grande circulação (especialmente no Rio, mas depois surge o Suplemento do Estadão), onde esta geração publicou muita coisa. Um aluno de doutorado do PPGSA/UFRJ, cuja tese oriento, localizou quase 1000 artigos ligados às ciências sociais nos principais suplementos do Rio de Janeiro[3]. Em tempos em que dedicação exclusiva era praticamente inexistente, este tipo de publicação também ajudava no orçamento; mas vejam que este entrelaçamento entre um circuito mais público e outro mais especializado de comunicação da ciência certamente tinha efeitos no tipo de ciência social que aí se veiculava, que se via forçada a tratar dos grandes temas de interesse no debate público, por exigência do próprio jornal e dos imperativos de participação pública dos cientistas que foram tão intensos neste período.

Como sabemos, este entrelaçamento vai se afrouxando nos anos 1960, tanto por razões políticas, quanto por razões propriamente científicas, como parte do processo de diferenciação de um sistema comunicativo próprio para as ciências sociais. Mas essa diferenciação não foi simples e o processo de adoção das boas práticas editoriais não foi trivial. Vejam só o trecho do depoimento de Bertram Hutchinson, expert da Unesco que estava aqui no CLAPCS na década de 1960, sobre a revista América Latina, que ele ajudou a modelar.

[…] No Brasil, não havia uma tradição muito expressiva de seleção baseada no valor científico de um trabalho, negligenciando considerações pessoais. Em outras palavras, era bastante possível que os artigos fossem selecionados com base em sua autoria em vez de estritamente em seu conteúdo. Minha opinião era de que, se o Centro realmente desejava produzir um periódico de padrão científico razoável, esse método de seleção era bastante inadequado. Se os primeiros passos em direção à seleção objetiva fossem, como poderiam muito bem ser, desconfortáveis para aqueles acostumados a uma tradição diferente, uma vez que fosse amplamente conhecido que tais critérios haviam sido adotados, nossas dificuldades estariam superadas, pois nenhum autor que não gostasse da ideia de que seu trabalho fosse analisado puramente do ponto de vista de seu valor continuaria a submetê-lo a América Latina. Portanto, todos os artigos submetidos deveriam ser lidos por dois ou três membros seniores da equipe de pesquisa do Centro, cuja decisão sobre a conveniência da publicação seria considerada final. Essa visão foi finalmente adotada pelo Centro, e se não se pode afirmar que todos os artigos publicados até agora foram escolhidos sem levar em conta a autoria, muitos deles foram, e a proporção está aumentando[4].

É interessante perceber como, em meados da década seguinte, quando Charles passa a editar a Dados e o BIB, dilemas parecidos se repunham. A publicação científica em revistas, condicionada ao escrutínio coletivo da comunidade científica por meio da avaliação feita por pares, possui uma série de pressupostos sociais que nem sempre estavam presentes aqui. Inovar na publicação científica implicou uma série de resistências e embaraços sobre os quais Charles nos falou em seus depoimentos, mas ele pareceu ser a pessoa certa, tanto por suas habilidades e interesses raríssimos, pelo menos entre nós cientistas sociais – o gosto pela edição, pela impressão, pela circulação lhe foi incutido já na infância, pela ocupação de seus pais (ele queria ser linotipista!) –, quanto também por seu temperamento e inteligência, sempre aberto ao diálogo e à escuta; mas também por saber intervir cirurgicamente para que o processo comunicativo inerente à produção do artigo – a leitura dos originais, a seleção dos pareceristas, a revisão dos pareceres e a leitura do manuscrito revisto – pudesse funcionar a contento, evitando que os ruídos constitutivos de toda e qualquer comunicação impedissem o avanço do conhecimento. Charles estabeleceu os parâmetros fundamentais do trabalho do editor científico, especialmente do editor de periódicos científicos, e com ele todos os que passamos por esta função aprendemos a trabalhar, graças à sua generosidade ímpar e interesse genuíno para que construíssemos um complexo e dinâmico sistema de revistas especializadas nas ciências sociais.

Como disse no começo, minha homenagem ao Charles passa menos por discutir sua atuação direta – é nosso “consenso” – e mais por observar alguns dos efeitos de sua atuação para a constituição de um sistema complexo, dinâmico, plural e diferenciado de publicação científica nas ciências sociais. Se Charles foi fundamental no estabelecimento de procedimentos na avaliação e publicação de artigos científicos – a Dados foi modelar para o surgimento de novas revistas – e no estímulo à renovação das formas pelas quais as nossas disciplinas se auto-observam – o BIB conferiu estatuto e prestígio às revisões bibliográficas –, não podemos nos esquecer de seu papel absolutamente central na formação da coleção brasileira na base SciELO e, dentro do projeto SciELO, no fortalecimento das revistas de ciências sociais. Charles entendia que as revistas, mesmo que ligadas diretamente às suas instituições, como é o caso do Brasil, tinham que ser um veículo aberto a toda a comunidade científica; e que, por isso mesmo, seria decisivo termos não apenas algumas poucas e boas revistas, mas um conjunto abrangente e diferenciado de revistas, todas buscando seguir as boas práticas e as inovações editoriais, indexação nas principais bases etc. A gente sabe – eu pude ver isso por dentro da S&A – como o Charles se empenhou pessoalmente para que as revistas da nossa área pudessem atender aos estritíssimos e desafiadores critérios de seleção do SciELO, um processo cheio de tecnicalidades, mas também de persuasão e estratégia, processo no qual Charles sabia se mover como ninguém.

O que se constituiu entre nós certamente não foi pouco. Vejamos os casos comparáveis de país aqui da América Latina, como México, Chile e Argentina. Se México e Chile contam com boas revistas indexadas, o volume e a quantidade de revistas é muito menor se comparamos com o caso brasileiro; a Argentina, pensando sobretudo na sociologia, não chegou a constituir propriamente um sistema de revistas indexadas, forçando nossos colegas de lá a publicar muito de sua pesquisa aqui, por exigências de publicação indexada por parte do Conicet e de outras agências. Aliás, a aceitação crescente das revistas brasileiras por publicar manuscritos em espanhol, mesmo que não seja exatamente uma prática muito estimulada pelo SciELO, é estratégica na nossa eterna tentativa de conseguir bons artigos, uma vez que abre mais intensamente o nosso sistema para a comunidade hispanoparlante.

É um fato que parte expressiva da nossa publicação científica é feita em revistas indexadas no SciELO. Em estudos abrangentes de cobertura, como os de Rogério Mugnaini e colaboradores (2019), por exemplo, já foi demonstrado que 21% de toda a produção de artigos de doutores no Brasil entre 1998 e 2016 registrada na base Lattes foi publicada no SciELO – para fins de registro, 41% são artigos publicados em revistas não indexadas e 38% estão na Scopus ou WoS. Ainda de acordo com o mesmo estudo, 35% das revistas que estão na área 1 das Zonas de Bradford[5] dos pesquisadores das Ciências Humanas no Brasil estão no SciELO. Creio que, se tivéssemos dados mais específicos para os pesquisadores das três áreas das ciências sociais, o volume ocupado pelos periódicos que integram a coleção SciELO seria ainda maior. Seja como for, é patente que, para observarmos com bons dados as nossas ciências sociais contemporâneas, talvez a base SciELO seja a nossa a mais importante plataforma de observação hoje.

Vou começar a apresentar alguns dados que expressam, de modo direto e indireto, os efeitos da atuação de Charles na dinamização e na diferenciação de nosso sistema de comunicação científica em ciências sociais.

Vejamos a distribuição do volume de artigos indexados nos últimos 10 anos no SciELO-Brasil, de acordo com os dados que a própria plataforma oferece. Ela revela algo que lhe é constitutivo desde os seus inícios: o grande peso, na composição geral de sua coleção, das áreas das Ciências da Saúde, das Ciências Humanas e das Ciências Agrárias. Porém, o que notamos é, em relação à coleção como um todo, o chamado universo CHSSALLA (as “humanidades”) é o único que apresenta uma tendência sustentada de crescimento. Já o declínio do volume de artigos indexados nas áreas das Ciências Biológicas, Ciências Exatas e da Terra e nas Engenharias sugere que estas grandes áreas estão redirecionando (pelo menos parcialmente) para outros circuitos de publicação. Por fim, o volume de documentos indexados nas Ciências Agrárias, mesmo declinante nos últimos anos, ainda figura como a terceira maior área na base, sendo uma de suas principais áreas temáticas. No gráfico a seguir, agregamos as grandes áreas que conformam as “humanidades” a fim de dar maior nitidez a esta tendência. Se as Ciências da Saúde, com algumas oscilações, mantiveram um volume mais ou menos estável de documentos indexados, as CHSSALLA, por sua vez, cresceram sua participação em aproximadamente 34%.

A velocidade deste processo de crescimento só se explica por meio de um processo de criação de conexões entre agentes ligados ao mundo da editoração científica nas ciências humanas, com o intuito de compartilhar boas práticas, de discutir inovações, de pensar estratégias… ora, essa rede de agentes, como toda rede, possui seus grandes mediadores – Charles, como sabemos, além de formalmente estar no conselho editorial de muitas revistas, era quem efetivamente diminuía as distâncias nesta rede e adensava suas relações.

Figura 1: Distribuição de documentos por grandes áreas do conhecimento. Fonte: SciELO Analytics.

Vejamos agora outro dado que me parece muito interessante. Aliás, deixem-me abrir aqui um breve parênteses. O SciELO não é só uma instância de indexação, mas também um formidável banco de dados sobre o sistema científico. Indexar uma revista no SciELO não é só um processo de “certificação”, mas implica também participar da produção contínua de informação sobre a produção científica, como dados de autoria, dados institucionais, a padronização dos campos do resumo e das palavras-chave, o registro das referências bibliográficas – a famosa etapa da marcação do XML, que, em geral, delegamos ao serviço de empresas especializadas, é crucial nisso. Ora, a crescente disponibilidade pública destes dados de indexação vem permitindo renovar as formas de auto-observação da ciência brasileira[6] – e muitos artigos de revisão já começaram a fazer uso destes instrumentos, como podemos ver, por exemplo, nos últimos livros de balanço publicados pela Anpocs.

A possibilidade de tratarmos, por exemplo, os dados de citação de modo agregado nos permite fazer algumas perguntas novas. Uma pergunta possível é: o fortalecimento do sistema de revistas científicas nas nossas disciplinas tem levado a uma prática de maior citação a artigos, se comparamos com as citações a livros ou outros documentos? Ou, de outro modo: a maior disponibilidade de artigos científicos nas ciências sociais brasileiras vem levando igualmente a uma maior incidência na de citação a artigos? Ou ainda impera o nosso paradoxo: publicamos cada vez mais artigos, mas continuamos citando basicamente livros?

Na atual etapa da pesquisa, Lucas Carvalho e eu conseguimos desenvolver um método para classificar automaticamente as referências, pela estrutura de seu formato, em artigo e outros tipos de referência (a enorme maioria são livros). Na sequência, ainda estamos classificando as revistas por nacionalidade, mas sabemos que há tendências homofílicas importantes nas práticas de citação em relação ao país de publicação nas ciências sociais – citantes do mesmo país têm maiores probabilidades de citação mútua do que citantes de países diferentes[7]. Pois bem, o que conseguimos perceber, extraindo os metadados de todas as revistas SciELO que contivessem as três áreas das ciências sociais indicadas em sua área de especialização, no período 2002-2023, foi o seguinte: apesar de continuarmos citando ainda mais livros que artigos, a tendência mais geral é de crescimento sustentado na prática de citação a artigos. São dados preliminares que ainda precisam passar por testes de consistência, mas me parecem bem eloquentes desta tendência.

É claro que as variações entre as disciplinas revelam também certos estilos e tradições de pesquisa e publicação distintos – a ciência política, pelo menos em algumas de suas vertentes, são bem mais “artigo-cêntricas” do que a antropologia, por exemplo, em que a escrita etnográfica possui um lugar muito central e, como sabemos, ela está em tensão com formas muito formais e/ou codificadas de escrita. Mas, seja como for, as tendências mostram também o lugar cada vez mais importante do artigo científico nos processos comunicativos que conformam as ciências sociais brasileiras. Na ciência política, já alcança em torno da metade das referências citadas.

De novo, podemos ver aqui efeitos diretos e indiretos da atuação de Charles, que batalhou enormemente para fazer do artigo científico o núcleo dinâmico da produção do conhecimento entre nós.

Isso não é pouco. Trata-se de um conhecimento que passa necessariamente pelo escrutínio crítico da comunidade das ciências sociais e que, em sua enorme maioria, graças à atuação decisiva do projeto SciELO (do qual Charles foi um de seus fundadores), é de acesso aberto. Um conhecimento que se auto-organiza pela própria dinâmica do nosso sistema científico e que não possui barreiras de acesso. Um conhecimento, portanto, potencialmente melhor, posto que discutido coletivamente por revisores e editores, e democrático, capaz de circular imediatamente. De novo, temos aqui efeitos diretos e indiretos da atuação apaixonada de Charles no fortalecimento de nosso sistema de publicação em revistas.

Por fim, chego ao final de minha homenagem situando o próprio trabalho do Charles na base SciELO, de modo a observar os seus efeitos diretos e indiretos nas redes de comunicação que conformam a ciência brasileira. Se me permitem usar a notação da teoria de sistemas, a ciência se diferencia como um sistema próprio justamente ao enlaçar recursivamente comunicações científicas, dotadas de codificação própria e inúmeros critérios seletivos. Parte fulcral da comunicação feita no sistema científico envolve a prática de citação a trabalhos anteriores – a citação é uma das dimensões mais codificadas da comunicação científica e, por isso mesmo, ela permite facilmente a modelagem de redes de citação.

O meu exercício final é uma singela demonstração deste ponto, por meio da observação de como a obra de Charles vai se enlaçando nesta grande rede de comunicação científica que emerge e se auto-organiza a partir da base SciELO. Eu coletei os metadados de todos os artigos que citaram algum trabalho de Charles e depois, em ondas sucessivas de expansão (uma espécie de método de bola de neve), coletei os metadados dos artigos que citaram indiretamente Charles (isto é, citaram os artigos que citaram Charles) até o nível de profundidade em grau 5. Se continuasse a expansão, certamente toparia rapidamente com os próprios limites da coleção SciELO, haja vista que a citação científica produz o já muito discutido “efeito de mundo pequeno” (Watts & Strogatz, 1998). Mas o que tenho aqui é suficiente para mostrar como Charles é parte da nossa comunicação científica e como sua obra vibra e causa ressonâncias não só na ciência política, sua área de especialização, mas em áreas mais remotas, que reconhecem a importância de sua reflexão sobre a edição científica.

Figura 2: Rede bipartida de revistas e de palavras-chave dos artigos que citaram Charles Pessanha. Fonte: SciELO.
Figura 3: Rede bipartida de revistas e de palavras-chave dos artigos que citaram Charles Pessanha (profundidade 2). Fonte: SciELO.
Figura 4: Rede bipartida de revistas e de palavras-chave dos artigos que citaram Charles Pessanha (profundidade 3). Fonte: SciELO.
Figura 5: Rede bipartida de revistas e de palavras-chave dos artigos que citaram Charles Pessanha (profundidade 4). Fonte: SciELO.
Figura 6: Rede bipartida de revistas e de palavras-chave dos artigos que citaram Charles Pessanha (profundidade 5). Fonte: SciELO.

Charles é parte constitutiva do mundo que ele ajudou a modelar. Muito obrigado, Charles!


Notas

[1] Cf. https://dados.iesp.uerj.br/entrevista-com-charles-pessanha/

[2]  Para o caso das revistas paulistas, cf. Jackson (2004).

[3] Trata-se de Ricardo Maciel, com a tese “‘Especialistas e amadores’: a sociologia nos suplementos literários (1940 – 1969)”, cuja defesa se realizará no próximo mês.

[4] Relatório de Bertram Hutchinson à Unesco sobre as suas atividades no CLAPCS: “Latin American Centre for Research in the Social Sciences: Brazil – (mission)”,

[5] A ideia central é a de que, para um determinado tópico, um pequeno número de periódicos produz a maioria dos artigos relevantes. Esses periódicos formam o núcleo, ou a “zona de produtividade nº 1” da distribuição. Os periódicos restantes, que são menos produtivos, são organizados em zonas de produtividade decrescente. À medida que nos afastamos do núcleo, o número de periódicos em cada zona aumenta, mas a produtividade individual de cada periódico diminui.

[6] Para uma análise mais detida, cf. por exemplo, Brasil Jr. & Carvalho (2020a).

[7] Para um maior detalhamento deste ponto, cf. Brasil Jr. & Carvalho (2020b).

Referências

BRASIL JR. Antonio & CARVALHO, Lucas. (2020a). Por dentro das Ciências Humanas: um mapeamento semântico da área via base SciELO-Brasil (2002-2019). Revista de Humanidades Digitales, v. 5, p. 149-183.

BRASIL JR. Antonio & CARVALHO, Lucas. (2020b). O impacto da sociologia: cultura de citações e modelos científicos. Revista Brasileira de Sociologia – RBS, 8(20), p. 248-269.

JACKSON, Luiz Carlos. (2004). A sociologia paulista nas revistas especializadas (1940-1965). Tempo Social, v. 16, p. 263-283.

MUGNAINI, Rogério. et al. Panorama da produção científica do Brasil além da indexação: uma análise exploratória da comunicação em periódicos. Transinformação, v. 31, p. e190033, 2019.

WATTS, Duncah & STROGATZ, Steven. (1998). Collective dynamics of ‘small-world’ networks. Nature, v. 393, p. 440-442.