
Evandro Teixeira (1935-2024), um dos maiores nomes do fotojornalismo brasileiro, faleceu no último dia 4 de novembro, aos 88 anos. A ensaísta e professora Beatriz Resende presta uma emocionante homenagem ao fotógrafo, narrando sua juventude através das lentes dele. Evandro Teixeira fez da câmera um instrumento de resistência contra a ditadura civil-militar brasileira, criando imagens que, como destaca Resende, jamais devem ser esquecidas.
Boa leitura!
Minha vida pelas lentes de Evandro Teixeira
Por Beatriz Resende (UFRJ)
Diferentemente da maioria de amigos e colegas da minha geração, o golpe de 1964 atingiu minha vida desde o primeiro momento: aquele fotografado por Evandro Teixeira diante do Forte de Copacabana, em 1º de abril, com a escuridão e sombras que tomariam o país por 21 anos. Ainda garota presenciei toda a família ser atingida: prisões, expulsões, IPMs, demissões.

Era aluna do Colégio de Aplicação da antiga FNFi (Faculdade Nacional de Filosofia), verdadeira escola de quadros, quando militares incendiaram a sede da UNE que frequentava, levada pelos primos mais velhos. Lá assistira ao Auto dos 99%, do Vianinha. No colégio da Lagoa, professores foram imediatamente ameaçados pelo Reitor Eremildo Vianna. Eremildo, o Idiota.
Nos primeiros anos do regime, os secundaristas uniam-se aos universitários e iam para o centro da cidade, amplamente clicados por Evandro. Em 1966 estava no Curso de Letras da FNFi na Av. Presidente Antônio Carlos, espaço favorito para manifestações. Ocorre então o chamado “desmembramento” e a Faculdade de Filosofia, ampliada, foi dividida em Faculdades e Institutos. Por um lado, enfraqueciam a unidade do movimento, por outro, com o aumento de vagas, os estudantes, fortes naquele momento, tinham sua última vitória: a luta pelos “excedentes”, os alunos aprovados no vestibular que não conseguiam vagas. Eram os 99% de que falava a peça do CPC da UNE. Pergunto-me se, hoje, os aprovados iriam às ruas pelo aumento de vagas para os colegas. Pois nós fomos. Foi então criada a Faculdade de Letras, da qual hoje faço parte, inicialmente localizada na Avenida Chile.
Os estudantes cada vez mais ocupam as ruas, mesmo ameaçados. A Cinelândia servia de palco para comícios e manifestações. O cotidiano era o enfrentamento dos gorilas e milicos. Só quem andava pelo centro do Rio poderia compreender o prazer de ver publicada a imagem do motociclista da FAB que caíra da moto diante das lentes de Evandro. Ao final do dia, estavam todos exaustos de correr da polícia carregando bandeiras. A agitação no Centro era bem diferente da vida nas areias de Ipanema.


Em 28 de março de 1968, o estudante Edson Luís foi assassinado pela polícia militar em protesto no Calabouço, péssimo refeitório universitário. No dia da missa de sétimo dia fomos todos, mesmo que olhando de longe, para a Candelária. O movimento foi reprimido a bala, os padres abriram as portas da Igreja salvando quem estava por perto. Para fotógrafos chegarem perto era preciso coragem e agilidade. O momento foi terrível, mas a foto da cavalaria é bela.

Maio de 68, na França, estimulava ainda mais os protestos estudantis. As manifestações de rua cresceram gradativamente, assim como a violência da repressão. Derrubar um jovem a golpes de cassetete era algo corriqueiro; fotografado se tornava mais grave.
No início de junho, uma manifestação pública terminou com um líder estudantil preso. No dia seguinte, aconteceu outra e desta vez foram centenas de prisões. Em 21 de junho, o conflito nas ruas é ainda mais feroz. O dia ficará conhecido como a “Sexta-feira Sangrenta”. 28 mortos segundo o CPDOC. Evandro testemunhou a violência, fotografou um jovem sendo socorrido e a foto foi para os jornais.

Já saíamos da faculdade com uma espécie de uniforme para ir à passeata, equipamento para enfrentar gás lacrimogênio e tênis para correr. Medo, mas muita adrenalina!
Em 26 de junho ocorre a famosa Passeata dos Cem Mil. Gente importante e famosa ao lado dos estudantes.
À frente, a faixa “Abaixo a ditadura. O povo no poder”, atrás uma multidão. Talvez seja essa a foto mais famosa de Evandro Teixeira, documentando a esperança que acabaria ali.

Em 13 de dezembro de 1968 é decretado ao AI-5 e todos conhecem bem o que se passou daí por diante.
Evandro Teixeira, em 1973, vai para o Chile, onde muitos brasileiros foram se refugiar. Fotografa a morte de Allende e de Neruda e o fim do sonho de uma América Latina libertária.
Tudo isso é para contar que, no lançamento neste ano de Rebeldes e marginais, de nossa Heloisa Teixeira, encontro Evandro Teixeira, com aparência frágil e usando máscara. Conto do seminário que preparávamos na Faculdade de Letras da UFRJ: “Ecos de 1964” e pergunto se podíamos usar suas fotos como divulgação. Logo responde que falássemos com o Instituto Moreira Salles e usássemos à vontade. Para universidades públicas sempre liberava suas imagens.
Obrigada, Evandro, por criar imagens que não devem ser esquecidas.
Agradeço ao IMS e, em especial, ao setor de fotografias por facilitar o acesso às fotos.
