
Na semana passada, a série Mitomanias/Mitologias chegou ao fim, com 40 textos publicados ao longo de 13 semanas. Mas, como tudo que é bom pode se estender um pouco mais, trazemos hoje um “chorinho” para nosso público leitor. Em “Bahia de todos os santos”, Onildo Correa, um dos curadores da série, reflete sobre a segunda maior festa popular de Salvador, a Lavagem do Nosso Senhor do Bonfim. Como pudemos ver ao longo da série, as mitologias brasileiras estão em todos os lugares, das ruas aos palácios. Para o autor, a Lavagem pode ser pensada com um dos momentos em que tudo se mistura um pouco.
A série Mitomanias/Mitologias foi organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
Boa leitura!
Bahia de todos os santos
Por Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ)
Quinta-feira de janeiro
O dia mal amanheceu e uma multidão se concentra em frente à Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. É o prelúdio da segunda maior festa popular de Salvador – BA, que todos os anos reúne cerca de um milhão de pessoas na Cidade Baixa.
A Lavagem do Bonfim começa assim, com o céu ainda em tons suaves e a brisa úmida da Baía de Todos os Santos espalhando alfazema, dendê e perfumes pelas ruas antigas de paralelepípedos, grifados com o sangue dos escravizados. A cidade vibra. Atabaques, clarinetes, trompetes e trombones ecoam uma tradição que remonta a 1755, originalmente portuguesa. Está em curso a festa anual do sincretismo, dos múltiplos, dos enredos que atravessam pessoas e colocam a cidade em movimento, concretizando um emblema de nossa formação nacional.
A Lavagem, apesar de regional, é cosmopolita. Um retrato da nossa diversidade e exemplo de transnacionalização da cultura. Inspira festividades semelhantes mundo afora, como a Lavage de La Madeleine, em Paris, e a Lavagem da Rua 46, em Nova York (Fantinel; Sá, 2014). Para alguns, é a consagração do mito democrático brasileiro, onde as ruas se tornam território de afirmação étnica e cultural (Avancini, 2021); para outros, “um conflito entre o substrato cultural da festa e sua obediência a uma norma mercantil destinada a várias possibilidades de consumo” (Miguez, 2002: 288). Ação popular de um lado, economia do lúdico d’outro. Mas, além dessa díade, há um outro aspecto que atravessa essa importante festa brasileira.

A multidão segue em cortejo. São oito quilômetros de percurso até a Baixa do Bonfim. Ninguém fala de cansaço. Há música, dança, acarajé. Há o cheiro da pipoca e da cerveja quente nas esquinas. Há gente famosa, turistas com câmeras penduradas no pescoço, lideranças religiosas, militares e uma infinidade de soteropolitanos. Tudo se mistura como se encontrassem uma provisória batida comum, um passo sincronizado, no qual devoção e embriaguez, ascese e beijo na boca tornam Apolo e Dionísio indistinguíveis. O Senhor do Bonfim e Oxalá são sincretizados. Segundo Pierre Verger, “sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais” (Verger, 1997: 259).
Diante da Igreja do Bonfim, devotos lotam o largo, sobem a colina para amarrar as tradicionais fitinhas na grade protetora do adro. Ouve-se que se pode realizar três pedidos, um para cada nó. Afirmam que o santo é bom, que realiza mesmo. É um momento de fé, de transformações e esperanças, bem no início do ano, como se a festa prometesse um recomeço necessário para um povo tão sofrido. E, de fato, há algo de raro no ar: uma paz que contrasta com os números trágicos de Salvador, que ocupa atualmente o primeiro lugar no ranking brasileiro de homicídios por 100 mil habitantes (o que o coloca no impressionante top 10 mundial!)[1], bem como o quarto lugar nacional em taxa de celulares roubados[2] e o primeiro como a polícia mais letal do país[3]. Impressiona como, ainda assim, prevalece uma sensação de esperança.
Então, ao fim da tarde, quando se encerram os festejos religiosos, um mar de gente retorna a pé. O sol poente pinta o horizonte de laranja, mesclando-se com a cor local da cidade mais negra fora d’África. Mas esse não é o fim: a festa se transforma. O sacro, até então entrelaçado ao humano, agora cede espaço para o “profano”. Os remanescentes tomam o lugar e estabelecem novos códigos de conduta. Paredões tocam as músicas populares do momento, um ar carnavalesco de corpos suados emerge. A liturgia se transfigura mundana, carnal. Não no sentido de uma ruptura (muitos cristãos hão de discordar), e sim de uma apoteose humana, latino-americana, “onde tudo se mistura e se confunde, onde ninguém é capaz de separar a virtude do pecado, de distinguir entre o certo e o absurdo, traçar os limites entre exatidão e o embuste, entre a realidade e o sonho” (Amado, 2010: 48). Quem ali permanece, com a bile no mundo, nota que já não há santos e demônios, que a moral há muito se transfigurou em gozo e que quase todos estão para além do bem e do mal.

Do amanhecer ao anoitecer, do sacro ao profano, a Lavagem tem esse sentido intercultural e notavelmente sincrético, sobretudo entre a “devoção católica expressa pela ‘fitinha do Bonfim’ e a tradição afro-brasileira, presente nos patuás e figas, que disputam o mesmo espaço dos tabuleiros de venda de artigos religiosos” (Bonfim, 2000: 4). A cidade fica pautada em sua função, torna-se feriado informal. A grande região onde acontece o evento, na Cidade Baixa, é adaptada. Jornais locais e redes sociais tratam do assunto. A festa transborda, seu sincretismo transborda. Como numa grande mitologia encenada a céu aberto, esse encontro não começa nem termina efetivamente naquela quinta-feira. Ele é perene: a consagração de algo maior em curso. Do início ao fim dessas quintas-feiras, a Lavagem do Nosso Senhor do Bonfim representa um dos nossos mais poderosos mitos nacionais: o de que, apesar dos pesares, somos um povo tão diverso quanto capaz de conviver com o diferente. Somos? Ora, isso nem sempre se realiza na prática, as violências ainda são traço marcante de nossa sociabilidade, mas serve como um horizonte esperançoso para uma possível construção nacional democrática, no qual essa festa simbolizaria uma “amenização dos conflitos para sublimar as dores que advém desde os períodos de colonização e escravidão” (Avancini, 2022: 147).
Quanto ao sincretismo que a caracteriza, esse tem sido alvo de inúmeras discussões. Seria o sincrético uma resposta direta à dominação cristã, no sentido de uma estratégia de sobrevivência dos subalternos às relações assimétricas? Ordep Serra (1995), por exemplo, associa o sincretismo a já conhecida ideia de “branqueamento”, no qual esse processo é marcado pela violência e apagamento de certas alteridades. Ou, quem sabe, o sincretismo seja o resultado de diferentes enredos que, na cotidianidade, se acoplam, formando totalidades provisórias, em que os elementos sincréticos são postos em relação menos hierárquica do que se convenciona pensar (Flaksman, 2017: 161). Essa perspectiva ajuda a explicar o sincretismo entre diferentes terreiros de Candomblé, por exemplo. De todo modo, esse sincretismo carrega algo de mitológico, no sentido barthesiano, que o naturaliza como parte de um mito nacional de democracia. Sincretizar entidades e costumes parece representar a epítome de uma suposta tendência nacional aos equilíbrios — ou, talvez, apenas a sua mais elaborada ilusão.
Embora cada vez mais tomada pelos interesses do capital, a Lavagem ainda é um ponto de encontro entre o regional e o nacional, dissolvendo as fronteiras entre ambos. De sua interculturalidade sincrética, afirma-se, a plenos pulmões, também um ideal de baianidade, que entrelaça o sagrado e o profano, e consolida uma cultura marcada pela postura questionadora da “ordem”. Não é uma festa da democracia como se esta existisse à revelia do povo, mas uma ode à agência democrática e às autoafirmações identitárias. Se tudo se mistura, como vimos, isso não ocorre à custa das particularidades das partes, e é justamente nesse equilíbrio que reside o maior mérito da festa.
Costumo dizer aos meus amigos do Rio, São Paulo e Minas: quando forem a Salvador, não deixem de ir à Lavagem do Bonfim. É uma experiência única. Me surpreende que praticamente ninguém tenha ouvido falar. De lá, sempre se ouve das festas sudestinas, dos times de futebol. Isso diz respeito a uma já conhecida dinâmica centro-periferia. Como n’Os Sertões de Euclides, n’Os Retirantes de Patrocínio, ou na Inocência de Taunay, que viajam ao longínquo para explicar o exótico. Mas a Lavagem do Bonfim ou o sincretismo baiano não precisam ser traduzidos dessa forma, como algo “de fora” ou “distante”. Se olharmos com atenção, veremos se tratar de uma trama que abarca todos nós. Até mesmo aos seres centrais, ao qual tudo orbita, como um buraco negro que, cedo ou tarde, acabará por engolir.
Notas
[1] Mortes de Norte a Sul: confira ranking das capitais mais violentas | Metrópoles
[2] Das 50 cidades com mais roubos de celular no Brasil, 15 ficam em SP; veja lista | CNN Brasil
[3] Polícia baiana foi a mais letal do país em 2023, segundo estudo – Bahia Notícias
Referências
AMADO, Jorge. (2010). O sumiço da santa. São Paulo: Companhia das Letras.
AVANCINI, Atílio. (2022). Na Lavagem do Bonfim a fé para amenizar os conflitos. Arte e Crítica, nº 64.
AVANCINI, Atílio. (2021). A interculturalidade da Lavagem do Bonfim da Bahia. V!RUS, São Carlos, n. 22, Semestre 1, julho.
BONFIM, Luís Américo. (2000). Lavagem do Bonfim: tradições e representações da fé na Bahia. II Congresso Virtual de Antropologia.
FANTINEL, Caroline; SÁ, Natalia Silva Coimbra de. (2014). A transnacionalização da Lavagem do Bonfim em Paris e Nova York: uma análise das festas baianas no exterior pela perspectiva dos estudos de cultura e turismo. In: Regina Celeste de Almeida Souza; Tiago Sá Teles Cordeiro. (Org.). Turismo: reflexões sobre a dimensão territorial. 1ed.Salvador: Editora Unifacs, v. 1, p. 235-261.
FLAKSMAN, Clara. (2017). Enredo de santo e sincretismos no candomblé de Salvador, Bahia. Revista de Antropologia da UFSCar, v. 9, n. 2, p. 153.
SERRA, Ordep José Trindade. (1995). Águas do Rei. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: Koi nonia.
VERGER, Pierre. (1997). Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997.
Sobre o autor
Onildo Correa é doutorando em Sociologia no PPGSA/UFRJ e editor-assistente na BVPS. Publicou recentemente o artigo “Um pouco do debate teórico-metodológico da Sociologia da Literatura contemporânea” (Sociologias Plurais, 2024).
