Língua, império, refúgio: um clássico aberto, por Pedro Meira Monteiro


O livro Sobre los principios: los intelectuales caribeños y la tradición, de Arcadio Díaz Quinõnes, lançado em 2006, acaba de ganhar uma edição em acesso aberto pela Latin American Studies Association. A nova edição é revista e acrescida de um amplo índice onomástico e de assuntos, assim como de um prefácio de Rafael Rojas.

Pedro Meira Monteiro, professor na Universidade de Princeton e tradutor de Díaz Quinõnes no Brasil, traz um pequeno comentário sobre essa obra que já é um clássico do pensamento latino-americano e caribenho. Como adianta Pedro, no próximo ano, teremos matérias para discutir o livro e as ideias deste grande ensaísta porto-riquenho.

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Língua, império, refúgio: um clássico aberto

Por Pedro Meira Monteiro (Princeton)

A LASA (Latin American Studies Association) acaba de lançar uma nova edição do livro de Arcadio Díaz-Quiñones, Sobre los principios: los intelectuales caribeños y la tradición. Originalmente publicado pela Universidad de Quilmes na Argentina, o livro sai agora em open access na prestigiosa coleção da LASA, revisto e acrescido de um amplo índice onomástico e de assuntos, assim como de um prefácio de Rafael Rojas.

Os “princípios”, no caso, ecoam e ampliam o sentido dos “beginnings” de Edward Said. Por um lado, o título faz referência ao caráter político das genealogias que se postulam em torno dos “começos”, tanto das ideias quanto das práticas sociais. Onde se iniciam e como se consolidam as tradições? O que apagam e o que revelam? Por outro lado, o título carrega uma pergunta sobre os princípios morais que pesam sobre figuras e obras tidas muitas vezes por monumentais. O que tais monumentos mostram e o que escondem?

Dois dos ensaios contidos no livro foram publicados em português há pouco menos de dez anos no Brasil. Um deles apresenta a surpreendente visão kardecista que se agita nos “princípios” da noção de “transculturação” de Fernando Ortiz. No entroncamento entre religião e pensamento científico, somos apresentados aos limites de uma concepção do espaço político segundo a qual os corpos são apenas sustentáculos da inteligência, supostamente abstrata, mas, de fato, muito claramente situada na escala social. Com a escravidão como grande pano de fundo da formação do Caribe e de suas muitas culturas, resta a pergunta sobre o “melhoramento” e o “avanço” das almas: quem vai e quem fica na insidiosa escala da “civilização” que o pensamento colonial projeta, de forma discricionária, sobre as pessoas e suas práticas? Como a origem, a cor da pele e o lugar simbólico operam no grande painel das sociedades pós-coloniais?

O outro ensaio, sobre “hispanismo e guerra”, é quase um livro em si mesmo. Nele, aprendemos como a língua imperial se descola imaginariamente das formas de expressão consideradas menores, e como as gramáticas e as antologias são uma ferramenta de poder em espaços dominados pelas potências europeias nas Américas. Tendo a guerra de 1898 como palco (quando a Espanha perde para os Estados Unidos suas “conquistas” territoriais no Caribe e no Pacífico), percebe-se como o pensamento “hispanista” se aprofunda como reação à derrota espanhola, criando um mundo imaginário onde ainda brilham os grandes símbolos de uma glória que, no fundo, esconde a prepotência de seus princípios e apaga a violência que está na origem do gesto colonial.

Para um país como o Brasil, cujo sonho de autossuficiência diante de seu “outro” vizinho é tão longevo, pode ser importantíssimo compreender como a língua imperial (o português, o espanhol, o francês etc.) faz parte da máquina colonial, que tem em seu coração a pulsão totalizante da unidade. Os muitos “Caribes”, com suas inúmeras línguas em acomodação e ação, bem como suas formas peculiares de resistência, são um remédio poderoso contra qualquer princípio nacionalista que ainda reste na forma de pensar e escrever sobre a sociedade e suas culturas.

Há pouco tempo, Arcadio Díaz-Quiñones encerrou um encontro do projeto MinasMundo, na Universidade de Princeton, declarando-se, em conversa com André Botelho, um “descrente” na ideia do cosmopolitismo. A despeito das muitas formas de cosmopolitismo, a ironia dessa “descrença” cabe perfeitamente na reflexão de um ensaísta como Díaz-Quiñones, que em seus trabalhos detecta os muitos níveis de violência que sustentam o deslocamento das pessoas, nem sempre convidadas a pensar-se como cidadãs do mundo.

Não se trata de imaginar que quem se desloca seja uma peça inerte num tabuleiro pré-determinado. Junto a seus corpos, refugiadas e refugiados levam seus desejos e suas almas — aquelas mesmas que o colonialismo disputa desde os seus inícios. O caráter descartável do humano é o que assombra o crítico porto-riquenho em seu ensaísmo leve, erudito e inventivo. Não à toa, a ideia de “refúgio” ganha, nos estudos de Díaz-Quiñones, um espaço cada vez maior. Afinal, o lugar dos que nunca tiveram lugar na pólis é o centro nervoso de seu pensamento.

No próximo ano, a BVPS pretende discutir o livro e as ideias de Arcadio Díaz-Quiñones. Por ora, fica o convite para a leitura dessa obra fascinante, que chega num momento propício, justamente quando os muros e os campos de detenção definem o imaginário distópico que segue a alimentar o Império.