
Ítalo Moriconi assina o texto “Política e poesia – Parte II”, dando continuidade ao post anterior publicado em sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo. Na primeira parte, suas reflexões privilegiaram a política; agora, é a poesia que ocupa o centro da cena. Moriconi percorre os debates sobre a possível entrada de Caetano Veloso na ABL, levanta questões sobre poesia, canção e imortalidade e compara hierarquias afetivas e estéticas: Chico, Caetano ou Gil? Poetas de livro ou poetas de canção? ABL ou Nobel? Estas últimas, instituições que tem buscado ícones “pop” e gênios do espetáculo para revitalizar sua imagem. O texto também abre espaço para refletirmos sobre questões de gênero e a relação de Donald Trump com o movimento “antitrans, pró-macho gay”. De ponta a ponta, um mergulho em diversos dilemas contemporâneos.
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Diário de janeiro
(Política e Poesia – Parte II)
Por Ítalo Moriconi
[19 de janeiro]
A VEZ DE CAETANO NA ABL? (dois posts poéticos, mundanos)
Leio na coluna de Ancelmo Góis que a ABL se movimenta para eleger Caetano Veloso na próxima vaga que se abrir. A vaga da imortalidade se abre com a eventual mortalidade de outros. Os imortais da ABL formam um clube de futuros mortos. Isso em si daria para interessantíssimos debates internos de cunho social, psicológico, demográfico, econômico. A longevidade é um fato social que está aí, moldando as vidas de tantos de nós. Seu impacto temático se impôs com a partida voluntária de Antonio Cicero.
A ABL busca encontrar ícones da juventude eterna em nossa cultura intelectual e sentimental. Essa tem sido a tônica das escolhas dos últimos anos, décadas já, no tocante aos eleitos mais diretamente ligados à literatura. A literatura se tornou pop e, com ela, partes da imagem institucional da ABL, que abraçou gênios e gênias do pop e do espetáculo em geral.
Pois, outro dia, numa conversa de churrasco fina flor no Planalto Central do país, o grupo viu-se resvalar de volta ao debate para classificar preferências: qual dos três é o maior poeta da santíssima trindade poética da segunda metade do século XX? Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil?
Cada um deles teve mais de um adepto, entre nacos do bife ancho e bocados da farofa customizada, a saladinha vinagrete ao lado. E o vinho, que todos ali, naquele refinado conclave, eram experimentados enólogos.
Hoje em dia todo mundo é enólogo, barista, especialista em azeites e óleos, os das carnes. Eu sigo em frente no meu desconhecimento total dos detalhes, fruto do meu olhar distraído e das viagens média renda ao exterior. Elas pesam no bolso.
Um se disse Chico, outra votou logo em Gil, mais dois em Chico, e os/as demais, Caetano.
Gil tem grandiosidade poética própria, sua incidência é um dar conta visionário de nossas vidas brasileiras-mundo. Cenas nítidas, bem localizadas, sínteses do presente e do futuro. As letras de Gil, vanguarda que ensina, trazendo conceitos, pílulas de bom senso para um senso comum elevado. O futuro é algo desbravador que vem da tecnologia. Afrofuturismo, avant la lettre? Reggae retrofuturo? Se queriam hierarquizar seu gosto ou seu alcance, que o colocassem numa posição hors concours, ou seja, em que ele já estivesse junto a priori do primeiro colocado entre Caetano e Chico.
Bom, houve consenso na classificação dos dois pelos famosos critérios de Ezra Pound – Caetano é poeta inventor, Chico é poeta mestre. Chico é um grande poeta romântico, à medida que sua poesia passa pelo sentimento íntimo, pela interação íntima entre pessoas, narrativizando e dramatizando de maneira poética sempre original tantas dimensões do afeto. Afeto no sentido do estar afetado. Sua poesia, se inserida no momento atual, tem uma tremenda importância, por suscitar o debate entre a pertinência do texto de um homem sobre a mulher versus a ideia woke de que só mulher pode escrever sobre mulher. Madame Bovary c´est moi, declarou Flaubert. É mesmo? perguntaria uma Annie Ernaux.
Caetano Veloso eu coloco como a maior referência de poeta LÍRICO brasileiro surgido na segunda metade do século XX, o período em que esses e muitos outros e outras fizeram poesia no suporte/casamento com a canção e desta pularam para o pop ou para a popificação. Não Chico, Chico tem mais a ver com samba. Os baianos trouxeram o Brasil todo para a midiasfera mainstream, no suporte dos meios industriais de comunicação. Que prodigiosos acontecimentos, essas três vozes poéticas. Meninas, eu ou(vi)!
São pares de Caetano um Cabral, uma Cecília. E ele ombro a ombro com Drummond. Como poeta cancionista, Caetano é linha evolutiva de João Gilberto, valendo-se de um oceano de referências melódicas tiradas de todas as sonoridades que acessa. Drummond e Caetano são poetas de geração. Drummond poetiza a experiência de vida do homo urbanus brasileiro do meião do século XX; Caetano poetiza a vida da geração de 1968. Estamos todos, os dessa geração, nos 70/80 e tantos de idade e amamos, creio eu, Cecília, Drummond, Cabral, Caetano, Chico, Gil. A lira de Caetano tem alta voltagem intelectual, a dos demais também.
Olha você, espargindo cânones para todos os lados, referências. Quer ser o árbitro do gosto?
Ao longo dos tempos, tudo foi ficando diferente, diferente…
Os eternos, os mais longevos.
[20 de janeiro]
DE LIRAS E ANTILIRAS
No post de ontem, que reescrevi acima, dei tamanho realce aos poetas cancionistas, que deixei na sombra os poetas de livro, como os chamava Waly Salomão. Como é difícil armar constelações! A culpa é da ABL, ela é que quer incluir os Gilbertos Gis e Caetanos da vida, o próprio Cicero, no que deveria ser o arquivo panteônico vivo das letras literárias. Como o prêmio Nobel para Bob Dylan.
Quem brilha na constelação dos poetas literários não cancionistas nessa mesma época da primazia musical? A dificuldade de constituir constelações de afinidades de alto calibre vem daí. Para nós, dinossauros setentões e oitentões das gerações 60/70, a vivência formativa da poesia passa pela canção, pela música, pelos ecos originários da nacionalidade profunda e pela fonte eletrizada do rock-pop. Cf. Gilberto Gil: “from the city / runs electricity in my brain”. Poesia ainda é de livro, mas passa a ser também de disco, de rádio, de espetáculo. De um lado, poesia cancional, belamente estudada por Leonardo Davino na geração dos jovens e amados professores das gerações mais jovens ainda. E poesia de livro, prefiro a fórmula de Waly à expressão poesia livresca, que soa ao eruditismo já banido desde o modernismo heroico de 22.
Que grandes lacunas teriam ficado da omissão aos poetas de livro, atuantes no mesmo período em que a trinca Caetano-Chico-Gil fazia a cabeça de todo mundo, trazendo atrás ou junto um trem de gente boa, a começar o trem mineiro, com Milton Nascimento, que a gente nunca classifica como poeta, mas todo letrista de música brasileira é poeta cancional. Na minha geração de colegas universitários temos os estudos, clássico de Augusto de Campos, didático de Affonso Romano de Sant’Anna, contemporâneo de Claudia Matos, Santuza Naves, Ramon Nunes Melo e, agora, a mais finíssima intérprete propriamente conceitual da imbricação poesia-canção na expressão poética brasileira/lusófona – Adriana Calcanhotto, a deusa de Caio Fernando Abreu – e não só dele. A musa sem bigode na música poesia de todes.
Exaro. O poeta de livro que ficaria faltando colocar junto à tríade cancional, cujo nome assaltou-me nestes improvisos, é Ferreira Gullar.
Taí, um poeta de livro que foi incorporado à ABL, na sucessão de outro bom poeta, Ivan Junqueira, este, sim, um que honraria rótulo de livresco, mas num bom sentido, de boa qualidade, em contexto já liberado pelas desrepressões pós-modernistas, com suas alas esteticamente retrocessivas no campo estritamente literário. Ivan era o vivo que sucedia o falecido da voltagem de Cabral, o Cabral, da lírica em silogismos, que ele próprio e um de seus principais leitores, o grande mestre Luiz Costa Lima, chamou, e argumento eu que talvez indevidamente, de “antilira”.
O outro nome que me vem à mente é Augusto de Campos, poeta por quem Antonio Cicero tinha veneração.
Linhagens tão masculinas.
Só em Cicero temos um escape para o queer.
Dificuldade das constelações, do compor florilégios ou coroas de flores (do nascimento ao enterro), sopesar valores, sabores.
Como omitir Ana C., Hilda Hilst, Olga Savary? A primeira tudo a ver com a atualidade extra identitária, as outras duas, menos. Eternas, longevas.
E Conceição Evaristo, cuja poesia formalmente simples tem impacto contemporâneo fundante?
[21 de janeiro]
TRUMP: ANTITRANS, PRÓ MACHO GAY
Curioso e pitoresco que YMCA tenha se tornado a canção hino da campanha de Trump. Afinal de contas, antes de se ter tornado mainstream (circuitão dominante), a canção foi hino do orgulho gay, particularmente da ala macho gay, dos musculosos cowboys, caminhoneiros e couro em geral. Isso no tempo em que Trump frequentava a Studio 54 e o Village Voice era o original. Os registros fotográficos desse tempo nos mostram uma cena em tudo evocativa da cena que vimos na Arena de Washington. Na cena antiga, um Trump engravatado balançando levemente o corpo enquanto à sua frente se desenrolava a experiência da orgia gay-lésbica. No comício, no lugar da orgia carnal, a orgia do poder másculo controlado, alegorizando em seus trajes uma diversidade estilo californiana, arizoníaca.
A normalização da masculinidade gay testosterônica (tipo Brokeback Mountain) é um caminho de boys que afinal de contas convive bem com o gay casado, a família gay etc., modelo endossado por Trump através dessa encenação altamente calculada e eloquente no seu sentido de apropriação. Os jovens TikTok que nele votam são herdeiros de gerações não inocentes; sabem reconhecer todas as modalidades de autoencenação erótico-afetiva, todas as formas de amor e fetiche. Não é para eles uma questão a ser levada em conta, embora provavelmente suas opiniões se dividam quanto ao trans, aos gêneros de transição.
Na época que sucedeu ao sucesso do Village Voice, já atingida pela peste Aids, o corpo de bombeiros de Nova Iorque fez propaganda e recrutamento desses gays másculos, ativos e passivos, que passavam todas as suas horas livres em gyms, aprimorando o corpo, como no filme de Godard, ils sont faits pour l’amour, uma abordagem francesa hétero da onda de culto ao corpo perfeito dos anos 1980 em diante. Muito dos bombeiros recrutados nessa campanha vieram a falecer no incêndio provocado pela bomba no World Trade Center em 2001. Tornaram-se heróis da Nova Iorque local.
A contrapelo dessa inclusão de um movimento gay masculinista e potencialmente militarista vêm os decretos presidenciais para abolir imediatamente todas as possibilidades de pessoas trans usarem banheiros destinados a seu corpo de chegada. Nem nas escolas, nem nas Forças Armadas. Não sei se o presidente tem o poder de acabar com essa prática de uma penada federal só. Só sei que nas escolas americanas cresce a disputa entre pais que aceitam transição em crianças e adolescentes e pais que a recusam terminantemente. Nas Forças Armadas, Biden liberou.
A problemática se coloca também em escolas brasileiras, embora sem qualquer sinal de ativismo de base, politicamente organizado para intervir nas instituições, que eu saiba. As coisas parecem se desenrolam na base da intuição, escola por escola, conflitos ou conciliações no nível mais interpessoal. E os jovens, não ideando, não ideologizando, simplesmente vivendo a experiência não binária, sem maiores dramas familiares, e deslocando as tramas de inquietude da esfera de um discurso psicanalítico padrão, entrando outros fatores, não sei, menos edipianos, como em Didier Eribon, Édouard Louis, Annie Ernaux. Ah, minha velha francofilia. Agradeço a Beatriz Resende me ter atentado para essa turma, central na literatura atual. Autobiografia como sociologia de si.
A família e as correntes eróticas da periferia urbana pouco ou nada têm a ver com o modelo pequeno-burguês da família nuclear de classe média, ambas se esboroando de tanto ralar, para manter, cada estrato, seu patamar de vida, sua renda necessária. A classe média vai dos 5-8 mil reais a 15-25 por mês, média baixa, média média, média alta, média rica, as duas últimas geralmente proprietárias de imóvel.
[21 de janeiro]
De resto, a pesquisa deu que a maioria acha que o governo quis, sim, taxar o PIX, que recuou, mas a maioria sabe que provavelmente a taxação virá. O governo vencerá essa. Vai haver conformismo. Muito pior está o preço da carne, do café. O da carne permite ao povão não bolsonarista zoar do Lula, que prometeu picanha barata para todo mundo. Mas o cara do quiosque no Arpoador sabe que a carne poderia baixar, por uma decisão do dono da JBS. Ao que o granfino ipanemense redarguiu: “Essa história do Lula querer que pobre coma picanha no churrasco, não sei não”.
