
Damos continuidade hoje à publicação de trechos inéditos que vão compor o Caderno 2 de O grande relógio: a que hora o mundo recomeça, obra em andamento de Silviano Santiago publicada pela Editora Nós.
No formato de “folhetins”, que subverte a noção de obra acabada, Silviano vem comparando Machado de Assis e Marcel Proust, buscando captar o surgimento da moderna narrativa de introspecção tanto na Europa quanto na antiga colônia portuguesa na América.
Neste segundo folhetim publicado pela BVPS, o crítico analisa Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, com foco nas lembranças que integram a escrita de si nesses romances. Segundo ele, os últimos romances machadianos são exemplos de uma narrativa em primeira pessoa conduzida por um velho que, à semelhança de Proust, sai em busca do tempo perdido. O complexo quadro da sociedade de corte instaurada no Brasil pela família de Bragança vai sendo tecido nesse experimento de leitura, em que Silviano procura desconstruir o eurocentrismo ainda dominante em nosso pensamento.
Não perca, na próxima sexta-feira, um novo folhetim! Boa leitura!
Segundo folhetim
Brás Cubas’ first tape
Por Silviano Santiago
Em reminiscência, o Brás Cubas enxerga o seu corpo físico. Na imagem de fragmento da memória, está em companhia da Virgília e do Lobo Neves. Diferenças ressaltam entre os dois e ele. Algumas são enunciadas, outras sugeridas e mais outras caladas.
É por vontade própria que o narrador Brás Cubas reencena, no interior do detalhe extraído do capítulo “O recluso”, a competição pelo coração da Virgília que se deu entre ele, na condição de protagonista, e Lobo Neves. A rivalidade entre os pretendentes à mão da Virgília é reencenada tal como desenvolvida em capítulo anterior, o 43, intitulado “Marquesa, porque eu serei Marquês”.
O triângulo sexual e amoroso estava em construção e se apresentava em estado de briga entre os pretendentes. O conflito se desfaz com a vitória do rival. Desfaz-se apenas aparentemente (o detalhe nos informará), a briga continuará. Em ex-colônia europeia, é imbatível a arma de que se valeu o Lobo Neves: um “ímpeto verdadeiramente cesariano”. Óbvia a alusão: a gula pelo Poder do César romano. No oponente desperta, quando muito, alguma resistência, e olhe lá. Por perspectiva mais ampla, a da história do Novo Mundo, trata-se de ímpeto semelhante ao dos conquistadores que nos chegaram do Velho Mundo a partir de 1500.
Pelo sugerido pela escrita de si machadiana, as duas formas do ímpeto de conquista machista se encontram em falta na personalidade do vencido (ou: pelo sugerido, tendo por contexto a colonização do Brasil, o ímpeto machista do conquistador não teria sido gradativamente substituído por resistência pelo movimento diaspórico do escravizado africano?).
No detalhe, o jovem casal Lobo Neves está instalado em sua residência. Cabe ao Brás Cubas ocupar a cadeira desocupada de tertius no triângulo sexual e amoroso. Será que terá a ousadia e a temeridade cesariana de exigir uma revanche? Ou irá abrir um caminho próprio e gratificante? O suspense é tão constante na narrativa machadiana que o spoiler não é recomendável.
Certo é que o Brás Cubas, tendo sido abatido pelo Lobo Neves, entrega-se de imediato ao ressentimento narcísico e à tristeza. De maneira deprimente eles tomam o espírito do vencido. Ele fora despreocupado, feliz e esperançoso, e até um tanto debochado, durante o trânsito da adolescência para a idade da razão. Apaixonara-se pela mais disputada das cocotes cariocas, a Marcela, e tinha saído vencedor. Foi seu amante até o momento em que o relacionamento tóxico é desfeito autoritariamente pelo pai. Ele obriga o filho libertino a viajar a Portugal, de onde volta com o futuro aberto pelo diploma universitário que traz em mãos.
Bons velhos tempos! Tendo sido até então um cidadão privilegiado, Brás Cubas fica inconsolável com a vitória de Lobo Neves, somada direta ou indiretamente ao Não da Virgília. Engole-o a seco.
A reminiscência do triângulo amoroso, ainda na fase de conflito aberto, acontece no capítulo “O recluso”. O recurso invocado pela escrita de si de memórias póstumas informa ao leitor que é chegado o momento de ele customizar definitivamente a personalidade e a sensibilidade, tendo um horizonte literário mais amplo que o nacional. Horizonte que abarque a obra-prima de Marcel Proust. Tudo indica que a lembrança, que é parcela da escrita de si machadiana, emerge por um sistema de mediações com direção oposta e conflitiva às mediações que levam uma reminiscência totalitária a aflorar na mente do narrador de À la recherche du temps perdu.
Na escrita de si machadiana, a reminiscência não é espontânea, nem produto dos cinco ou seis refinadíssimos sentidos do cidadão parisiense que vive no ambiente de antiga e poderosa aristocracia francesa, já decadente. Robustece e reforça um argumento, adianto.
Que se traga à baila o extraordinário momento em que o Marcel, narrador/protagonista dos vários volumes do romance proustiano, sorve o chá que lhe é oferecido em chávena pela avó e mastiga um biscoito bem especial para tal ocasião, uma madeleine. Na escrita de si proustiana, a memória é despertada pelas sensações ou impressões subjetivas desenvolvidas pelo apetite e pela respiração, o sabor e o aroma. A reminiscência do tempo vivido assoma à mente em impressões vitais e sensuais, totalitárias, e despertam no Marcel – ou na sua memória saem em busca de – delícias e prazeres do passado. No presente, o sujeito se debruça sobre si, se desdobra e a escrita de si passa a encarnar a ampla experiência subjetiva do tempo perdido. A reminiscência brota na natureza humana, na mente do Sujeito, de maneira instintiva, irrefletida e desrespeitosa dos limites impostos por espaço e tempo cronológicos.
Em ambos os romancistas é o passado do indivíduo que se faz escrita de si.
No prefácio de Contre Sainte-Beuve, Proust deixa claro a pouco estima que empresta à inteligência, ou à razão, se o indivíduo pretende se valer dela para alcançar algo de si mesmo; o algo que, segundo o romancista, acaba por constituir a matéria única da arte.
A inteligência não é hegemônica. Não é a melhor mediadora entre a natureza humana e a narrativa artística, tal como a pensa Proust. Nem importância maior tem. É literalmente “excluída” do trânsito de um lado natural e humano para o outro, artificial e artístico. A criação literária se fabrica em exercício da subjetividade a ser mediada por qualidades humanas em nada racionais como, por exemplo, as sensações ou impressões decorrentes da experiência de mastigar uma madeleine e sentir o aroma do chá que é servido. Escreve Proust em Contre Sainte-Beuve:
Cada dia atribuo menos valor à inteligência. Cada dia percebo melhor que é só fora dela [negrito meu] que o escritor pode novamente reassumir alguma coisa de nossas impressões,[1]isto é, alcançar algo de si mesmo e a matéria única da arte.
Na leitura do Dom Casmurro (tardia escrita de si machadiana), torna-se evidente que a reminiscência do protagonista Bento Santiago acolhe, no decorrer do romance, cenário semelhante por um lado e diferente pelo outro. A experiência de vida na infância e adolescência do Bentinho se passa na casa da mãe, na rua de Mata-cavalos, na sede da corte, mas a experiência de vida lá desenrolada, quando narrada em escrita de si, se passa na reconstituição da casa materna em subúrbio da cidade (aliás, o primeiro em data) do Engenho Novo. Tal deslocamento no tempo (experiência e escrita) e espaço (sede e subúrbio) é feito por vontade e obra do filho de dona Glória, em semelhança à lembrança do narrador/protagonista das memórias póstumas em companhia do casal Lobo Neves. Também robustece e reforça um argumento, o adultério de Capitu, noutro romance, claro.
O deslocamento da experiência de vida para a escrita de si literária machadiana não é apenas intermitente, embora o seja, caso chegue ele estabelecido pela particularização do poder sobre o passado por obra e a vontade do narrador/protagonista Bento Santiago. A intermitência machadiana (a narrativa ora está em Mata-cavalos ora está no Engenho Novo) é um recurso controlado pela inteligência do narrador/protagonista e é regida pelo seu desejo particular e intransferível de reativar – na escrita de si – uma competição, a de rivais que ganham o coração de Capitu. A esposa teria caído nos braços do marido traído e do amante Escobar (ou não no romance Dom Casmurro), em semelhança à competição que já tinha sido dramatizada em romance anterior, as Memórias Póstumas. As memórias do Brás Cubas se prolongam (se me permitem o verbo) no Brasil Republicano e o romancista, habilmente, muda o ponto de vista da narrativa. No Brasil Imperial, privilegiou-se o olhar do amante. No Brasil já republicano, privilegia-se o olhar do marido em triângulo amoroso. Por algo será. Assunto não falta no exercício a que a gente se entrega. Pode faltar a atenção paciente, que é exigida em leitura de folhetim. Pode sobrar – e espero que tal sobra aconteça em fartura – o desejo de colaboração do leitor com curiosidade intelectual. Imaginação crítica à solta, por favor.
Em Dom Casmurro, trata-se de uma reconstituição física (quase) perfeita da casa materna. Uma cópia no Engenho Novo. Uma construção estranhíssima no novo cenário, o suburbano. E, como toda cópia, essa construção é em si nada autossuficiente e autoritária. É sempre passível de ganhar detalhes adulterados e falsificações, em especial pelo mestre de obras que a governa por cópia de outra. A cópia é uma versão e, como tal, pode se assemelhar mais ao original no cuidado com a verossimilhança. (Pense-se longa tradição de obra clássica em outra língua, regida canonicamente pelo hoje provérbio: Traduttore, traditore.)
A própria escrita de si do velho Casmurro (que tem por cenário o subúrbio do Engenho Novo, insisto) se fará com rearranjo retórico dos fatos da vida passada, rearranjo de responsabilidade do marido, um narrador/protagonista convincente e racional, também verossímil, como tentei provar em ensaio dos anos 1960, hoje em Uma literatura nos trópicos. Qual significado o leitor emprestará a Capitu e demais personagens do romance na casa reconstituída como cópia no Engenho Novo e no rearranjo retórico dos fatos por escrita de si?
A vontade que toca a reconstituição da casa materna no subúrbio do Engenho Novo é a de um cidadão republicano, dado aos ciúmes da esposa. Os contrastes esquentam. Quinze anos depois, o romancista Lima Barreto se instala nos subúrbios cariocas. No romance Triste fim de Policarpo Quaresma, ele instaura uma aristocracia brasileira no subúrbio da capital da República (v. O grande relógio, a que hora o mundo recomeça). Aristocracia democrática e liberal, bem diferente da aristocracia bragantina brasileira, provida que será por moradores dos subúrbios cariocas, que têm por modelo o Ricardo Coração dos Outros, cantor e tocador de violão.[2]
(O amplo horizonte hermenêutico da escrita de si açambarca a mudança de ponto de vista numa única e longa narrativa ficcional de Machado de Assis. É como se o Lobo Neves fosse também o narrador/protagonista do Dom Casmurro e a Virgília, a Capitu do velho Casmurro. O Brás Cubas, Escobar etc. Uma deliciosa reorganização analítica dos últimos romances machadianos que vai além da divisão clássica em cinco volumes, com vistas a uma soma que aproxima hermeneuticamente a escrita de si do triângulo amoroso machadiano às de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.)
Volto às memórias póstumas e 1881. Em reminiscência, o Brás Cubas cava fundo a própria memória e sai em busca do momento em que convive com a Virgília ainda solteira e um dos pretendentes a sua mão, o Lobo Neves. A introspecção faz brotar uma reminiscência com sentido e função específicos no detalhe. Ela visa a suplementar (como a casa de Mata-Cavalos se deixa suplementar racionalmente pela casa no Engenho Novo) o conhecimento ainda impreciso de uma “sensação” diferente, causada por uma “dor” estranha e singular, que brota no espírito do protagonista, logo depois da união entre a Virgília e o rival Lobo Neves se sacramentar. Algo aconteceu naquela casa, naquele dia e naquela hora precisas, que obriga a atualidade da trama a ressignificar o ocorrido no passado. Esse apêndice, esse “isso”, ou seja, o acontecido lembrado, guardado e preservado na memória do protagonista, é parcela dentro do detalhe, que vem a ganhar sustança ao servir para fortalecer o desengano sentimental do Brás Cubas no correr dos anos.
O acontecido, lembrado, guardado e preservado, se puxado pela memória, como se diz vulgarmente, é parcela (apud Descartes) importantíssima do argumento que está sendo elaborado racionalmente, de maneira convincente e verossímil, e que será proposto e avançado pelo narrador ao leitor. Nas memórias póstumas, a lembrança do tempo perdido, de um momento da vida passada, não é gratuita na escrita de si ficcional de Machado de Assis, posso generalizar. A lembrança é uma arma potente, a municiar um resistente ao ímpeto cesariano do Lobo Neves. Um desclassificado se municia pela lembrança acachapante (o marquesado oferecido à Virgília por Lobo Neves) para voltar a ser herói do romance.
Como inscrita na planta baixa (como se diz em arquitetura) da experiência de vida que se desenrola nas memórias póstumas, a lembrança se performa originariamente como um traço da coluna de sustentação da futura reconstrução de Vida do Brás Cubas em escrita de si. Ou seja, o traço guarda sustança, tem potencial para virar força positiva, ou em reminiscência mínima, como o detalhe em pauta, ou em reminiscência global, como o todo da narrativa.
Restrito à cronologia desenvolvida pelas memórias póstumas, o traço virá a ganhar a consistência de tijolo-assentado-por-argamassa no momento que o Lobo Neves já está casado com a Virgília e é deputado. Outro acontecimento negativo, a eleição, se acrescenta então à negatividade do anterior e robustece o resistente.
Ao se ressignificar, o traço ganha a função (arquitetônica) de cariátide, a sustentar o peso do mundo brasileiro, monárquico e escravocrata, sobre o Sujeito, em período de vida posterior a duas outras importantes experiências jubilosas e vitais do jovem cidadão Brás Cubas. Com a cocote Marcela, tinha descoberto a paixão por mulher amada que só é reciprocada pela iniciação em delicados favores sexuais e pela atenção da amada a muita prata e muito ouro. Cito:
Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma ideia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Um grande futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político ou até bispo, – bispo que fosse, – uma vez que fosse um cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma posição superior.
Além do horizonte, na antiga metrópole e atual sede da Coroa Portuguesa, o jovem cidadão recebe uma formação educacional excepcional, privilegiada, digamos, que o qualifica a sua ambição como profissional na sociedade de corte brasileira.
Tornou-se um par superior em amores e em saber ao Lobo Neves, e suas ambições? O Lobo Neves é o par inferior com quem ele entra em luta de espadas pela mão da Virgília.
Perde.
Só aparentemente, ou só quando sob as ordens do papai, é que o Brás Cubas foi um cidadão privilegiado. No Brasil Imperial, tem educação sentimental nos ambientes mais refinados (ou mais depravados, – no futuro o rosto de Marcela, tomado pelas bexigas, dirá alguma coisa) da corte e recebe formação universitária de primeira na metrópole. É concreto o privilégio que escapa por entre os dedos da mão do Brás Cubas e não pelo esvaziamento da carteira no bolso das calças. A carteira ainda lhe oferece as benesses da vida burguesa carioca. “Beleza não põe mesa”.
O traço da coluna de sustentação volta à cena do romance como o kick-off que dá início ao match que se arvora como tormentoso e frustrante para o cidadão brasileiro privilegiado que, à medida que o seu aprendizado sentimental e educacional avançava, passou a ter o futuro – o chamado lado prático da vida – monitorado por duas negativas curtas e grossas que, se somadas às seguintes e tirado o noves fora, se resumem no capítulo final do romance. “Das negativas”.
Sucessivos nãos serão dados ao Brás. Eles interditam o acesso à condição pequeno- burguesa em sociedade de corte brasileira.
O kick-off põe a bola em jogo bravio e furioso no momento do casamento do Lobo Neves com a Virgília, um dos tipos de casamento que lhe foram recomendados pelo pai. A vida vivida do protagonista se cala por um instante e se faz trauma ao ser reencenada como reminiscência no capítulo 52. Daí a escolha do detalhe pelo leitor a se customizar. A lembrança reencena o início do súbito entristecimento da escrita de si do protagonista. A reminiscência visa a alimentar, pela abertura da torneirinha do passado, a autorreflexão sobre a desclassificação amorosa e social que o Brás Cubas já sente na pele.
Se o trauma é profundo e a dor se faz se sentir na pele, não será tarefa fácil contraditar os dois primeiros Nãos pela autoafirmação do sujeito. Como montar uma revanche – produto do ressentimento narcísico e da revolta, sem dúvida – quando em companhia do casal Lobo Neves e recluso?
O privilégio ganhou asas e voou?
Motivo para a revanche não lhe falta. Até do passado chega o grito de guerra da resistência. Falta o quê ao Brás Cubas para se responsabilizar pelo bom direcionamento dado à bola em jogo? Nem mesmo o motivo para a decisão da Virgília, o marquesado, o encoraja de maneira evidente. Perde o privilégio por perder? Não se conscientiza de que desclassifica social e financeiramente. O leitor customizado tem certeza de que ele perdeu a Virgília por promessa do rival que só se garante por quem a diz. O Lobo Neves a dá como favas contadas. O Brás Cubas não a quer garantir ou não pode? Foi por não poder garantir que acabou ou por não jogar a carta na mesa? Ou não a joga por motivo exterior, por ter privilégios que não se adequam ao regime monárquico-constitucional e escravocrata?
Por que o Brás Cubas, logo depois da cerimônia de casamento, volta a perder o protagonismo para o amigo Lobo Neves? Não jogou a carta do marquesado na mesa, e então se sente ainda fraco diante do “ímpeto verdadeiramente cesariano”. O Lobo Neves ganha as eleições e se torna deputado. (Ele as ganhará depois dele.) Na escrita de si, algo de estranho e ainda inominável – que recubro passageiramente pelo substantivo privilégio de exclusividade, superior, portanto, ao caso do Brás Cubas, simples privilégio de cidadão – enfraquece o protagonista e fortifica o adversário na luta entre espadas no Brasil Imperial?
Por que o mais esbelto, mais elegante, mais lido e mais simpático em vida de corte recebe da Virgília o Não, e o menos em tudo que conta na vida social e profissional recebe o Sim? Terá sido porque o-que-mais-sabe entrevê que, no contexto do Brasil emancipado, não se sente apto, não seria convincente ao prometer no futuro o marquesado à amada? Não seria um candidato a ser eleito pelo voto censitário, evidentemente elitista. A aristocracia brasileira tinha baixado ao ponto em que o marquesado poderia ser dado como favas contadas no início da profissionalização de um cidadão?
Corte. Uma curta cena do passado se transformou em bica que se abriu na atualidade da narrativa para que se saiba que o liquido da subjetividade, o sangue quente do amor, vem desde sempre sendo esfriado se em casa dos Lobo Neves.
Ora, a aristocracia brasileira não é “de” sangue, haja vista o caso do Duque de Caxias. Seu filho ou qualquer descendente não o é. Será que algum detalhe físico do cidadão passa a ser listado ao lado da avaliação sobre os méritos e a virtude do cidadão e também se torna determinante da fidalguia a ser concedida pelo Monarca? Será que o cidadão emancipado, se não for descendente de europeu, pode escapar ao privilégio fidalgo, imaginado na hipótese como “natural”?
A aristocracia brasileira seria racista, no sentido amplo do conceito? Divago?
Tenho certeza. Apesar de ser detalhe mínimo, não é nada acidental e em nada gratuito o vídeo de fragmento da memória clicado pelo narrador Brás Cubas e exibido a ele, na condição de protagonista. No vídeo nasce, cresce e frutifica a longa descendência do Não dado em resposta ao Brás Cubas. A reminiscência força e robustece a necessidade de o sujeito da narrativa especular, em movimento introspectivo, sobre o protagonismo que, no triângulo sexual e amoroso, se esmigalha pela vitória do Lobo Neves.
O protagonista se conscientiza. O triângulo não se desfaz e pode permanecer se ele conseguisse transformar com coerência e consistência o Não em força positiva (e não meramente reacionária, insisto em companhia de Nietzsche e Deleuze), a borrar o Não. Ele é mais esbelto, mais elegante, mais simpático e principalmente mais lido que o rival. Pode escolher a arma sua que seria a mais eficiente na revanche. Não é por casualidade que Brás Cubas nada tem do amante caracterizado por Flaubert e por Eça. Ele é o mais-mais do triângulo amoroso canônico, e o é no aprendizado solitário e no treino diuturno no interior da Biblioteca de Pandora. Eis de onde saca a arma que pode bater o “ímpeto verdadeiramente cesariano” do Lobo Neves.
A urgência da satisfação do desejo sexual, o amor-paixão, não a reação pelo ressentimento narcísico, é que chama o rival para a revanche. O resistente diz Sim à Vida.
A força afirmativa do Brás Cubas tem o sentido e a função de reparação de uma injustiça evidente na sua argumentação, exigência a ser depositada menos na mão do rival e mais nas mãos do casal e principalmente nas mãos do leitor customizado. O Brás Cubas quer vir a ocupar o lugar que desocupou no capítulo 43, “Marquês, serás marquesa”, com proposta diametralmente oposta e tão radical quanto a do Lobo Neves. Frente a frente ao casal e ao leitor customizado, é lá, depois do revés sofrido e na infelicidade que passa a monitorar em silêncio a falta de reconhecimento público das suas mais legítimas aspirações de figura promissora na sociedade carioca, é ali que ele ousa dizer o Sim e exige a revanche.
(A metáfora vídeo, usada para caracterizar um fragmento da memória em escrita de si introspectiva, não é tecnológica. O narrador picota dentro do detalhe, em curto flashback, um instante em momento da memória do protagonista que tem sustança, que é traço. O vídeo oferece ao sujeito já introspectivo a oportunidade de enxergar objetivamente a si. Transforma-se em espectador do próprio corpo e do seu-corpo-em-contraste com o corpo de um futuro casal de marqueses numa cena do passado.)
Ao leitor a se customizar, o curto vídeo oferece, pelo contraste entre o Brás Cubas e o Lobo Neves, um protagonista que se reapresenta na trama do romance como um ser humano que deseja amar e quer se aperfeiçoar na vida, e dá de cara com um impedimento que o frustra. Descobre a própria vulnerabilidade no corpo que baqueia, mas não desaba diante do vencedor.
Pela mudança do ponto de vista introspectivo – o subjetivo se faz objetivo – a repetição do Não reforça a frustração e robustece a resistência do vencido. Passa-se de um exercício de autorreflexão pouco singular em Estado nacional que se prima pelas desigualdades ao exercício de ver a si como se é em cena aberta, à possibilidade de se tornar participante e possivelmente vencedor em competição com os pares, em igualdade de armas.
Agiganta-se também uma dúvida. Por que a narrativa, por que o detalhe dela extraído se prolonga por interrupção do narrador, ou seja, por que dois olhos se retiram da folha do manuscrito e focam com exclusividade a ponta do nariz de quem escreve?
Deve-se ainda crer que se trata de mero tique do protagonista? Será que o tique acrescenta alguma coisa à expressão se interpretado pelo tique-taque de relógio de pulso? Ou temos de consultar o grande relógio nietzschiano?
Certo é que o coração do Brás Cubas se desnuda definitivamente. As curtas e sucessivas experiências de vida têm por cenário a intimidade do narrador/protagonista, tomada pelo silêncio do pensamento e a se exprimir pela escrita de si, ou seja, também pelo silêncio do escritor, possivelmente no escritório. A escrita de si, no papel, serve para revelar ao leitor customizado a tristeza a reinar como soberana na intimidade das três figuras autorais e do próprio leitor customizado. As quatro figuras retóricas se fazem Literatura e Vida na volúpia de uma dor profunda.
Ocorre-me a frase de Shakespeare, que nos acompanha: “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!”. Nas respectivas e única intimidade, as três figuras autorais tecem no silêncio da escrita de si a “volúpia do aborrecimento”.
O leitor customizado para de escrever, tira os olhos da tela do computador, caminha até as estantes da sua biblioteca e lê a última estrofe do poema “Spleen” de Charles Baudelaire:
Le savant qui lui fait de l’or n’a jamais pu
De son être extirper l’élement corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissant se souviennent,
Il n’a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l’eau verte du Léthé[3]
O protagonismo do resistente diz e, de maneira contraditória, a verdade aprofundada por Shakespeare e Baudelaire que se repete ad infinitum pela escrita si do Brás que, nesse momento do desenvolvimento da trama das memórias póstumas, indicia que ele é menos um protagonista interiorizado e é mais um personagem inferiorizado que busca a revanche. Em romance europeu do século XIX, o protagonista interiorizado estaria a perder a condição canônica de herói (para usar também o linguajar tradicional de leitor).
Diante da força do revés e da infelicidade a tomar o cotidiano, o resistente desobedece à fatalidade do destino concedido a privilegiado e viola as leis civis e religiosas hegemônicas no Brasil emancipado, patriarcal (machista), imperial e ainda escravocrata.
Se fosse personagem de Victor-Hugo seria mais um “recluso” a ganhar o status de “misérable”.
O desejo sexual frustrado, o amor-paixão que sente pela Virgília o traz de volta ao campo. O amor-paixão é tamanho e tão soberano quanto a alegria nietzschiana na leitura por Clément Rosset como A força maior. O amor-paixão leva Brás Cubas a imaginar-ser/ousar- ser/decidir-ser/atrever-ser/virar o amante da Virgília, casada com o Lobo Neves.
É a complexa e multifacetada sensibilidade desse Sujeito, desprovido dos antigos privilégios e em trânsito para a revanche, que começa pela reconquista da mulher amada, e continua pela ilegalidade, a que está sendo customizada pelo leitor. O leitor se adequa à delicada intimidade transgressora dele, à son coeur mis à nu (para retomar finalmente o título do diário íntimo de Charles Baudelaire ou de qualquer outro diário íntimo).
A competitividade entre os pretendentes à mão da Virgília, cujo desenlace amoroso e político se dá como já acontecido no capítulo “O recluso”, anuncia que a desigualdade no destino recebido pelos dois aspirantes à vida plena e bem gratificada de cidadão é – em última instância – normalizada por uma única avaliação negativa, em sucessivos julgamentos apriorísticos; portanto, do valor do cidadão em sociedade de corte brasileira. Pela radicalidade expressa pelos opostos Sim e Não se salienta uma Lei polarizada por extremos e altamente perigosa.
Libera-se às três figuras autorais das memórias póstumas uma proibição perversa às claras, simultânea a uma permissão libertária às escondidas.
O antigo privilégio do protagonista não se casa e não se soma mais à frustração na conquista da mulher amada e em posto político em eleição. Brás Cubas passa a ocupar as cadeiras que, pela derrota, são desocupadas ao lado, ou no andar de baixo, das cadeiras ocupadas pelos vitoriosos.
Na avaliação única e nos sucessivos julgamentos do valor do cidadão, não há a interferência de nuances de temperamento, personalidade e caráter. Sim é Sim; Não é Não.
Tampouco contam a educação sentimental e a boa formação universitária, a condição social e a condição financeira dos aspirantes ao casamento em boa sociedade e ao bom posto político, embora a estética do romance realista-naturalista no século XIX já as reclame do escritor.
Notas
[1] Daí a etiqueta que classifica Proust como romancista impressionista, associando a sua escrita de si às pincelas dos famosos pintores pertencentes a famosa geração de artistas franceses.
[2] Cf.: “Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. Compõe-se em geral de funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. Isto é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado – aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção.
[3] O poeta Ivan Junqueira me ajuda na tradução: “O sábio que ouro lhe fabrica desconhece / Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece, / E nem nos tais banhos de sangue dos romanos, / De que se lembram na velhice os soberanos, / Pode dar vida a esta carcaça, onde, em filetes, / Em vez de sangue flui a verde água do Letes”.
