
Pode a linguagem recriar o mundo sem traí-lo? Partindo do conto de Borges, Renato Ortiz revisita em sua coluna a relação entre linguagem e mundo, o sonho de um idioma que nomeia as coisas sem distorção e a frustração do imperador que vê seu castelo capturado nos versos de um poeta. A história ecoa um velho desejo: a busca pelo idioma sem hiato entre palavra e realidade, como na língua primordial do Paraíso. Mas e hoje? Se antes temíamos a duplicidade entre o real e sua representação, a hipermodernidade parece impor outro dilema, pois o simulacro já não encobre a verdade, mas a excede. O imperador e o poeta teriam tempos difíceis. Nós também.
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O Imperador e o Poeta
Por Renato Ortiz (Unicamp)
Parábola é um relato curto que emprega uma linguagem figurada para transmitir um conteúdo moral; ela possui a intenção exemplar de nos situar em um plano ideal transcendente a sua própria enunciação. Borges possui um conto intitulado “A Parábola do Castelo”. São dois personagens, o imperador, que ele nos diz ser Amarelo, sugerindo um certo orientalismo à história, e o poeta. A trama é simples. O imperador traz o poeta para visitar o castelo que tinha mandado construir em sua própria honra. Ele o apresenta a cada recanto, cada contorno do edifício: os pátios, as antecâmeras, a biblioteca, uma sala hexagonal com uma clepsidra, uma torre. O poeta traduz o que vê em versos, glorifica as dinastias e a riqueza daqueles que ali habitarão para sempre. Entretanto, ao declamar sua poesia, o imperador se incomoda em perceber a silhueta do castelo ser fielmente reproduzida em suas palavras. Indignado brada: “Arrebataste-me o castelo”. Com a espada cega a vida do poeta. Diz o conto, no mundo não pode haver duas coisas iguais; o poeta, ao pronunciar a última sílaba do poema, teria feito desaparecer aquilo a que se referia. A indignação do imperador vem da recusa em aceitar a duplicidade dos objetos, o orgulho ferido levou-o a destruir a imagem de sua ilusão. Quanto ao poeta, seu triunfo foi momentâneo, perdeu a vida e os versos.
O escritor tem o dom da palavra e se contorce para falar da vida, Dante Alighieri dizia ser esta a virtude dos poetas. Houve uma época em que se sonhava com uma língua capaz de reproduzir a realidade na sua inteireza e minúcia, sem nenhuma distorção. Ela seria a língua do Paraíso. Os eruditos discordam a respeito de sua natureza, seria o idioma originário do hebreu antigo ou do sânscrito, língua com uma estrutura admirável, mais refinada do que o grego e mais rica do que o latim. As dúvidas nunca foram dirimidas, mas elas não anulam a crença em sua existência: no Éden celeste falava-se um único idioma (“E era toda a terra duma mesma língua, duma mesma fala”, Gênesis 11:1). Foi somente após a vaidade humana iniciar a construção da torre que alcançaria os céus que se propagou entre os homens a confusio linguarum. Babel representa a incomunicabilidade, a discórdia que marcaria para sempre o destino humano. Mas o livro da Gênesis não nos ensina unicamente sobre o monolinguismo ancestral; a língua do Paraíso tinha ainda outra virtude, era capaz de enunciar a verdadeira essência das coisas. No início da criação do mundo Deus diz: “Haja a luz; e houve a luz”; “ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar e aparecerá a porção seca. E assim foi”; “produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente, e voem as aves sobre a face de expansão dos céus”. Cada frase é dita de maneira assertiva e a realidade a ela se conforma, entre a linguagem e as coisas não existe nenhum hiato, elas são aquilo que é dito. A plenitude do mundo sem duplicidade é fruto da conjunção de um ato linguístico e a essência do mundo.
O imperador, ao sacrificar o poeta, talvez sonhasse com a perfeição idílica do idioma primevo; sua ação violenta recolocaria no lugar o que havia sido corrompido, a traição do real pela poética dos versos. Mas em tempos de hipermodernidade a parábola do castelo tem um sabor de incompletude. A questão já não é mais a duplicidade, é a multiplicidade dos artefactos que preocupa. O imperador não conseguiria cultivar a singularidade de seu castelo idiossincrático, ele se desdobraria em uma série infinita de objetos semelhantes; o poeta tampouco se sentiria à vontade, estaria perdido na metonímia da repetição do mesmo. Antes sua morte fazia sentido, era fruto de uma transgressão, porém, com o estreitamento da separação entre o real e o imaginário, tudo se tornaria nebuloso. Baudrillard costumava dizer que o simulacro não apaga o real em função de sua imagem, ele o reafirma em função do mais real do que o real. O domínio do hiper-real seria a regra vigente. A normalidade da pós-verdade anula a distância entre a linguagem e o mundo sem, porém, nos contemplar com o paraíso. Nos dias atuais o imperador e o poeta teriam tempos difíceis.
