Entrevistas | 10 lições sobre pensadores brasileiros, por João Marcelo Maia e Lucas Carvalho

Publicamos hoje entrevista com João Marcelo Maia (FGV-Rio), autor de 10 lições sobre Guerreiro Ramos, livro lançado no final do ano passado pela editora Vozes, e com Lucas Carvalho (UFF), autor de 10 lições sobre Maria Isaura Pereira de Queiroz, que será lançado em breve.

As duas obras marcam a entrada de autores e autoras brasileiras, sob curadoria de André Botelho, na Coleção 10 Lições da editora Vozes. Além de Guerreiro Ramos e Maria Isaura, outros pensadores e pensadoras terão suas obras publicadas ainda este ano, como Florestan Fernandes, por Antonio Brasil Jr. (UFRJ). Futuramente, a coleção incluirá também títulos sobre Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.

A Coleção 10 lições é um sucesso editorial, muito estimada especialmente por professores e jovens do ensino médio. Agora, incluindo pensadores/as brasileiros/as, a coleção não apenas contribuirá para a formação dos leitores, mas também para sua reaproximação do Brasil como questão sociológica e intelectual.

Boa leitura!


Entrevista com João Marcelo Maia, autor de 10 lições sobre Guerreiro Ramos

Qual o maior desafio de escrever sobre o pensamento de um autor para uma coleção com fins didáticos e paradidáticos? 

JMM. O principal desafio é conseguir transpor a complexidade das ideias trabalhadas por um cientista social para uma linguagem que se comunique com audiências de não especialistas. Em se tratando de Guerreiro Ramos, a situação se torna ainda mais delicada, pois estamos falando de um sociólogo que escreveu parte significativa de sua produção entre as décadas de 1940 e 1970. Isto é, não se trata de alguém empregando uma linguagem que nos é contemporânea. Um exemplo prático é o conceito de “redução sociológica”, que pressupõe uma familiaridade com a fenomenologia e os debates epistemológicos travados nas décadas de 1940 e 1950. A solução foi tentar usar exemplos e deixar o texto o mais “limpo” possível, sem muitas notas de pé de página ou explicações complementares. O fundamental é entender que esse tipo de obra não é “menor” ou “mais simples”, mas efetivamente diferente, pois pressupõe formas de argumentação e construção textual que não são idênticas a de um artigo científico ou de livro para especialistas. Na verdade, em alguns casos a tarefa pode até ser mais “complexa”! Por exemplo, uma coisa é apresentar de forma sucinta um debate bibliográfico sobre determinado tema científico (o que chamamos de “estado da arte”), algo usualmente feito a partir de protocolos razoavelmente conhecidos por profissionais da área. Outra coisa é conseguir incorporar avanços feitos por essa bibliografia num texto de natureza paradidática, em que a principal preocupação não é propriamente defender a relevância de uma contribuição original em relação a um campo estabelecido, mas mostrar essa riqueza de interpretações existentes em meio a exposições de elementos básicos da trajetória do autor estudado. Não é algo fácil.    

Que Guerreiro Ramos seu livro reapresenta ao público?   

JMM. O livro defende que Guerreiro produziu uma sociologia periférica, criativa e aplicada. Ou seja, apresento um sociólogo brasileiro e latino-americano que partia de um diagnóstico da condição periférica da nossa vida intelectual, buscava reconstruir a disciplina de modo original para dar conta dos dilemas colocados por essa condição, e mobilizava a sociologia como um saber orientado para a transformação. Não é propriamente uma ideia original, pois outros intérpretes já apontaram essas características anteriormente (penso em Lucia Lippi Oliveira, Marco Chor Maio, Aristôn Azevedo, Edison Bariani, Aparecida Abranches, Thiago Lopes, Muryatan Barbosa e, mais recentemente, Alan Caldas, entre vários outros e outras – Guerreiro continua inspirando!). Além disso, busquei incorporar também a ênfase contemporânea da bibliografia no pioneirismo de Guerreiro como um pensador antirracista e crítico do que chamamos hoje de “branquitude”. Finalmente, o livro apresenta uma visão mais “geral” do Guerreiro, incorporando os escritos sobre teoria das organizações produzidos no seu período norte-americano, iniciado em 1966, que foram muito bem trabalhados por estudiosos do campo da Administração Pública, mas cujos sociólogos tendem a conhecer menos. Se pudesse ressaltar um “molho autoral” meu aí nesse caldo, eu diria que é a ênfase que dei à apresentação de Guerreiro como um sociólogo integrado aos debates globais da disciplina em seu tempo. Ainda é comum reduzi-lo a um “pensador nacionalista” ou “isebiano”, sem atentar para o quanto ele se dedicou à disciplina em si. 

Poderia indicar traços da atualidade de Guerreiro Ramos para o debate sociológico contemporâneo?   

JMM. Guerreiro articulava uma feroz crítica ao colonialismo intelectual e cultural a uma defesa da dimensão científica da sociologia, uma proposição não exatamente óbvia, e que me parece central para os debates atuais. É comum que o sociólogo baiano seja lembrado a partir da polêmica travada com Florestan Fernandes no II Congresso Latino-Americano de Sociologia em 1953, em que Florestan seria lido como o representante da “universalidade” do padrão de trabalho científico, enquanto Guerreiro traduziria o projeto de uma ciência “nacional”, posição supostamente ultrapassada já nos anos de 1950, por conta do processo de institucionalização científica. Mas isso é uma simplificação. Guerreiro argumentava que a ciência social periférica deveria reconhecer a condição colonial da sociedade em que nascia e, a partir daí, identificar a relevância de seus problemas e agendas, tendo em vista um projeto político e existencial de autonomia. Porém, ele insistia que havia dimensões lógicas universais no raciocínio sociológico, e inovações teóricas produzidas nos centros poderiam ser apropriadas de forma criativa, desde que filtradas a partir de uma operação crítica, que seria a “redução sociológica”. Aliás, vale lembrar que a terceira lei da redução intitula-se, justamente, “lei da universalidade dos enunciados gerais da ciência”! Ou seja, não se trata de negar a possibilidade de universalidade da ciência ou de buscar um saber autárquico, mas sim de reconstruir a disciplina por meio de uma perspectiva periférica. Essa posição me parece pertinente para o debate atual, em que por vezes os saberes subalternos são opostos à sociologia em si, como se esta fosse intrinsecamente “‘colonial”. Este é um longo debate, é claro, mas nem é propriamente novo, pois a sociologia latino-americana se debateu com questões similares nas décadas de 1950 e 1960. Minha área de pesquisa é a história da sociologia, e se tenho uma esperança com este livro, é a de que ele ajude os estudantes e jovens profissionais a olharem com mais carinho para esse subcampo disciplinar.  


Entrevista com Lucas Carvalho, autor de 10 lições sobre Maria Isaura Pereira de Queiroz

Qual o maior desafio de escrever sobre o pensamento de uma autora para uma coleção com fins didáticos e paradidáticos?

LC. No caso de Maria Isaura Pereira de Queiroz, esse desafio é, de certa forma, atenuado por sua própria escrita, que preza pela clareza e objetividade. Suas descrições empíricas são ricas e minuciosas, e sua discussão conceitual é precisa e direta, sem grandes digressões herméticas. Isso facilita o trabalho de apresentação de suas ideias, pois permite que o leitor compreenda com facilidade os fenômenos sociais que ela analisa, bem como os conceitos que mobiliza.

Por outro lado, um desafio que permanece é encontrar um equilíbrio entre expor as contribuições da autora e instigar o público leitor a se aprofundar por conta própria em sua obra. Em vez de dissecar exaustivamente cada aspecto de suas análises, busquei construir um livro que funcione como um convite: uma porta de entrada para que o leitor, a partir de suas próprias inquietações, explore as diversas questões levantadas por Maria Isaura. Sua obra trata de uma ampla gama de temas – estratificação social, mandonismo, movimentos messiânicos, sociologia política – e cada um deles pode ser um ponto de partida para novas reflexões e investigações.

Assim, o maior desafio não foi apenas tornar sua sociologia acessível, mas apresentar sua obra de um modo que respeite sua clareza analítica e, ao mesmo tempo, desperte a curiosidade do leitor para continuar essa exploração por conta própria.

Que Maria Isaura Pereira de Queiroz seu livro reapresenta ao público?

LC. O livro busca reapresentar ao público uma Maria Isaura Pereira de Queiroz marcada pelo rigor analítico e por um compromisso inegociável com a articulação entre teoria e empiria. Seu método de trabalho era guiado por um princípio fundamental, que ela considerava um verdadeiro mantra: “observar antes de interpretar”. Esse preceito não era apenas um procedimento metodológico, mas um posicionamento intelectual e ético diante da pesquisa sociológica. Para Maria Isaura, qualquer interpretação teórica deveria emergir da observação cuidadosa dos fenômenos sociais, respeitando sua complexidade e singularidade antes de ser enquadrada em modelos analíticos pré-existentes.

Esse rigor se traduzia em uma busca incessante por capturar a totalidade da vida social, frequentemente partindo da escala micro. Sua obra era profundamente ancorada no estudo minucioso de casos empíricos, mas sem jamais se encerrar neles. Em vez de tratar cada caso como um universo isolado, Maria Isaura os via como expressões de processos sociais mais amplos, integrando-os em um movimento maior da sociedade. Esse olhar permitia que suas análises fossem além da descrição do específico e captassem as articulações entre o particular e a totalidade social. A cada estudo, reafirmava que a complexidade do social não se reduz a fragmentos estanques, mas se revela na maneira como diferentes fenômenos interagem e se transformam mutuamente ao longo do tempo. É essa visão dinâmica e relacional da sociedade que orienta as reflexões apresentadas no livro.

Além desse legado teórico e metodológico, há outro aspecto fundamental da trajetória de Maria Isaura que merece ser ressaltado: sua posição singular dentro da sociologia brasileira. Ao ingressar no curso de Ciências Sociais, o destino mais comum para mulheres de sua geração seria o magistério básico. No entanto, Maria Isaura trilhou um caminho distinto, consolidando-se como uma pesquisadora de grande projeção, com uma volumosa produção acadêmica reconhecida nacional e internacionalmente, como, ademais, seu extenso currículo Lattes (algo incomum entre os de sua geração) atesta. A riqueza de sua obra, que atravessou fronteiras disciplinares e geográficas, mantém-se como uma referência incontornável para os estudos sobre a sociedade brasileira.

Assim, o livro busca não apenas apresentar sua sociologia, mas também reafirmar a importância de sua trajetória intelectual e acadêmica, destacando sua capacidade única de transformar observações detalhadas em interpretações que iluminam estruturas e dinâmicas sociais mais amplas.

Poderia indicar traços da atualidade de Maria Isaura para o debate sociológico contemporâneo?

LC. A obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz permanece profundamente atual porque dialoga com um dos desafios centrais da teoria sociológica: a relação entre ação e estrutura. Suas análises mostram como os indivíduos e grupos não são meros produtos das estruturas sociais, mas agentes que, dentro dos limites que essas estruturas impõem, reinterpretam e redirecionam suas condições de existência. Em vez de adotar uma visão determinista, Maria Isaura destaca como a ação individual e coletiva pode gerar fissuras e reconfigurações no tecido social.

Ao mesmo tempo, sua sociologia política sempre esteve atenta às limitações dessas capacidades agênticas, sobretudo em contextos de dominação. Para Maria Isaura, a manutenção das estruturas de poder nunca é garantida automaticamente, mas depende de mecanismos contínuos de reprodução e acomodação. No entanto, essa reprodução não ocorre sem tensões. Disputas, acomodações e resistências estão sempre presentes, tornando a dominação um fenômeno dinâmico e não um estado fixo. Sua análise revela como as relações de poder se sustentam por meio de estratégias institucionais e cotidianas, mas também como podem ser contestadas ou transformadas em momentos críticos.

Não à toa, sua preocupação em compreender os processos de mudança social que, no contexto dos anos 1950 e 1960, assumia ritmo acelerado. Maria Isaura rejeitava visões lineares ou etapistas da modernização, comuns em certas tradições sociológicas. Para ela, a sociedade brasileira não evolui por fases sucessivas e previsíveis, mas sim por meio de um constante entrelaçamento entre formas de sociabilidade tradicionais e modernas. As mudanças não ocorrem de maneira uniforme nem eliminam por completo práticas e estruturas anteriores; em vez disso, distintos padrões de organização social coexistem, se transformam e se recombinam, desafiando explicações simplistas sobre o desenvolvimento social.

Por fim, gostaria de ressaltar um dos aspectos que considero dos mais relevantes de sua sociologia política para a compreensão do contexto atual: a ênfase na centralidade do poder local, especialmente no nível municipal, como núcleo da estruturação da dominação política no Brasil. Maria Isaura mostrou como, historicamente, as relações de mando se organizam a partir da esfera local, e não apenas das grandes estruturas nacionais. Esse diagnóstico se mantém crucial para entender disputas territoriais e de poder no país hoje, especialmente no mundo urbano. A lógica do mandonismo, que ela analisou em profundidade, encontra paralelos claros nas dinâmicas contemporâneas das milícias e de outros grupos armados que controlam territórios e exercem influência política em diversas cidades brasileiras.