
Na folia de Momo deste 2025, teremos como guardiões ou Atlantes da festa o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, revirado por Silviano Santiago em sua série de folhetins inéditos. Deixamos os leitores e as leitoras com o Folhetim III que trata dos “Fundamentos teóricos: a Verdade e o Enigma” na escrita de si machadiana.
Só voltaremos aos trabalhos do Blog na próxima sexta-feira, após o fim do reinado burlesco, com o Folhetim IV e mais desdobramentos do triângulo amoroso, sexual e social de Memórias póstumas de Brás Cubas e seus sentidos desconstrutores da obra machadiana como moderno romance de introspecção. Deleitem-se, com Machado e Silviano, mas sem moderação, como também pede o carnaval das palavras, ideias e formas.
Boa leitura!
Terceiro folhetim
Fundamentos teóricos: a Verdade e o Enigma
Por Silviano Santiago
A) Caracterização da transmutação dos valores, do Não ao Sim, ao duplo Sim, em Nietzsche e a filosofia (1970), do filósofo Gilles Deleuze:
Nietzsche chama transmutação o ponto no qual o negativo é convertido. Este perde o seu poder e a sua qualidade. A negação deixa de ser uma potência autônoma, isto é, uma qualidade da vontade de poder. A transmutação relaciona o negativo com a vontade de poder, faz dela uma simples maneira de ser dos poderes de afirmar. Não existe mais trabalho da oposição nem dor do negativo e sim jogo guerreiro da diferença, afirmação e alegria da destruição. O não, destituído do seu poder, passado para a qualidade contrária, tornado afirmativo e criador: esta é a transmutação [negrito meu]. [1]
A composição em escrita de si do romance machadiano é cheia de sutilezas, subterfúgios, sugestões e delicadezas. Se tomo como referência teórica a célebre distinção feita por Blaise Pascal nos Pensamentos, são distintos o “espírito de geômetra” e o “espírito de finesse” na leitura de Machado de Assis. O espírito de geómetra tem dominado a compreensão sociológica da obra de Machado de Assis, enquanto o espírito de finesse vem sendo jogado constantemente para escanteio, à exceção talvez nas leituras de Augusto Meyer.
Tanto a autorreflexão quanto a meditação são pratos-quentes no pensamento pascaliano. Cito dois dos seus intérpretes, Bem Rogers e Gerard Lebrun.
Bem Rogers salienta o tratamento da autorreflexão por Pascal: “o principal erro dos homens reside na sua falha em levar em conta a completa miséria da condição humana e, portanto, em perceber a infelicidade e a intranquilidade que uma autorreflexão necessariamente causa”.
Já o nosso colega Gerard Lebrun, professor durante anos na Unicamp, nos encaminha para o papel da meditação. Escreve ele: “neste vale de lágrimas é impossível ao homem permanecer em repouso [estudiosos costumam substituir repouso por tédio na tradução de Pascal]: ele meditaria, nesse caso, sobre a infelicidade de sua condição e a morte que o espreita, e esse pensamento é tão insuportável que lhe é necessário fugir-lhe e lançar-se à caça, no business, à guerra, ao amor […]. Todo o divertimento é preferível ao repouso [tédio]”.
Nas Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador é um defunto cujo corpo, depositado na sepultura, está a despertar o apetite dos vermes. Ele narra em flash-back o delírio que precede a morte, a própria morte e, em suma, toda a vida vivida pelo narrador/protagonista. A partir dessa perspectiva funérea e sensivelmente histriônica, o protagonista Brás Cubas sai em busca do tempo perdido e chega até a estabelecer a árvore genealógica da família. A viagem pelo tempo passado é de grande envergadura e não é que, de repente, o leitor é surpreendido por uma curta e importantíssima reminiscência na casa do casal Lobo Neves.
Na atualidade da narrativa, o Brás Cubas recorda uma cena ocorrida há poucos anos, envolvendo o trio amoroso do romance. O Lobo Neves está a conquistar a mão da futura esposa, prometendo-lhe (sem prova concreta) o marquesado. “Marquês, tu serás marquesa”. A recordação salienta um traço mínimo da memória, localizado e esquecido na planta baixa da composição ficcional. Na reminiscência, o traço vira uma pilastra a serviço da caracterização do narrador enquanto protagonista. É o primeiro Não que o Brás Cubas recebe na vida.
Recebe-o direta ou indiretamente da amada Virgília e é por isso que a pilastra vem a ganhar a configuração de uma cariátide, a sustentar o peso do mundo.
A vida do privilegiado rapaz carioca fica de ponta-cabeça. Da sua vida vai-se o ardoroso e perdulário amante da bela cocote Marcela e o profissional diplomado em universidade da antiga metrópole.
Impávido, o Não de Marcela domina o cotidiano. Vira um “recluso”.
Se o leitor customizado se apoiar no traço da planta-baixa das memórias póstumas, verá que o enxergará transformado na trama ficcional em pilastra, a representar simbolicamente uma sofrida meia-volta no modo de vida do Brás Cubas. O leitor enxerga a pilastra como se fosse ela, na construção da Vida pelo viés do tempo perdido, uma espécie de cariátide a suportar às costas o peso do mundo. Se continuasse a sustentar o peso, seria acachapado ao solo.
O leitor customizado das memórias póstumas está a evidenciar uma característica do mecanismo social que discrimina em silêncio e grande eficácia o comportamento de alguns cidadãos brasileiros, durante o Brasil Imperial. Não é difícil descrever a característica, pois o seu enunciado se confunde com o resumo da leitura que está em progresso nos folhetins.
No Brasil Imperial, um ato discricionário e silencioso se responsabiliza, com constância e coerência, pelo destino de todos os moradores, cuja finalidade é a de julgar assimetricamente cada cidadão. Sem causa explícita, o efeito do julgamento é malicioso e ressoa apenas na intimidade do ser humano discriminado.
Percebe-se que há uma espécie de lei nacional que gerencia ardilosamente a avaliação assimétrica do até então venturoso e privilegiado Brás Cubas. Enuncio a possível lei:
O cidadão que perde em competência, o Lobo Neves, vem a ser o recompensado.
O ato decorrente da leitura customizada é de natureza concreta, palpável e restritiva, e, em virtude de dissimular a si quando em público, tem mais afiado o seu efeito por internalizar no sujeito eleito o controle externo.
Portanto, o Brás Cubas estroina é feito juiz-de-si-mesmo no momento em que lembra o Não que recebe da Virgília. Dobra-se sobre si em introspecção e em seguida vê o próprio corpo em imagem doméstica do trio amoroso. Percebe que o homem público, inconscientemente, tinha abrigado no mais profundo da intimidade a avaliação assimétrica, pervasiva e silenciosa, que o pune.
Passa a viver o cotidiano de maneira premonitória, como se um recluso. Isto é, como se diuturnamente lhe pesasse sobre os ombros a inevitável “dor do negativo” (Nietzsche) que sentiria por ação que viesse a cometer, ou não. Seu devir está irremediavelmente comprometido. Alguns se enquadram, como se em xilindró. Teria sido o caso do Brás Cubas até o capítulo do romance, em pauta. E é praticamente inexistente no Brasil Imperial (e talvez até hoje, complemento) a possibilidade de liberação do jugo pelo cidadão discriminado.
A assimetria na avaliação se faz, pois, norma: o cidadão que perde em competência vem a ser o recompensado.
No romance, o exemplo mais contundente de avaliação assimétrica se faz norma: a primazia do mérito pessoal, fator para a concessão pelo Monarca de mercês e de título nobiliárquico, o marquesado, por exemplo, discrimina dissimuladamente certos cidadãos.
Como estamos lendo o arguto e sempre bem fundamentado Machado de Assis, é indispensável constatar que as duas normas não recaem na falácia aristotélica classificada como “Apelação à ignorância”. Nos manuais, essa falácia vem exemplificada pela frase: Existem fantasmas na casa de Pedro. Ora, ninguém pode contestar esta afirmação porque não é possível provar, concretamente, a existência de fantasmas. As duas normas acima são passíveis de prova concreta: estão localizadas na intimidade do Brás Cubas. Elas são não só reveladas pela moderna narrativa ficcional introspectiva em língua portuguesa, como postas à disposição de público universal pelo inventor do subgênero em romance brasileiro de 1881, à época do Brasil Imperial – o escritor Machado de Assis.
Se o leitor customizado só levar adiante a decisão tomada pela Virgília, dividida entre pares bem-conceituados, que escute um vídeo com a gravação da bela canção “Every time you say goodbye”, de Cole Porter. Todas as vezes que o casal diz adeus, muda-se o tom maior para o menor no homem que se despede:
Não há melhor canção de amor
Mas que estranha é a mudança
Do tom maior para o menor
Toda vez que dizemos adeus.
A mudança de tom causa sensação que é real e incompreensível para o amante. Em busca de explicação, ele se volta contra os deuses superiores, que tudo sabem, e lhes pergunta por que o rebaixam tanto:
Por que os deuses acima de mim
Que devem ter a sabedoria
Pensam tão pouco de mim? [2]
As memórias póstumas desenrolam e oferecem ao leitor sucessivas evidências do Não que, pelo rebaixamento do sujeito masculino, muda o tom da sua vida. Assim como ele perde a Virgília no casamento, perderá o ministério na política e o marquesado na aristocracia brasileira. O Lobo Neves os terá, de mão beijada.
O tom menor está sempre a se figurar pelo efeito, o rebaixamento. A causa não se explicita imediatamente, daí o silêncio da intervenção externa. O íntimo sente a dor do negativo. Nas várias situações, o perdedor que se desclassifica é quem mereceria a vitória, se houvesse Justiça. Não há igualdade, e pior: há injustiça. Salienta-se um segundo fator concreto que justifica uma nova norma: o tom menor afeta sempre as três figuras autorais do romance, o autor, o narrador e o protagonista.
Da capo. O peso do mundo, que a cariátide suporta, não se concretiza por complô nem se manifesta por sucessivas perseguições. O peso do mundo guarda astúcia e simbolismo. É de natureza concreta e dissimulada, anunciei atrás. O valor e a extensão do peso é comandado pela fatalidade, ou pela inexorabilidade de ser possivelmente uma lei nacional.
Abstraído o contexto Brasil Imperial, o tópico “desconcerto do mundo” é tão atual quanto a canção de Cole Porter e tão canônico quanto a lírica de Luis de Camões. No entanto, na escrita de si machadiana (à diferença da escrita realista-naturalista europeia), ele ganha o caráter de enigma. Proposto pela antiga colônia portuguesa nos trópicos, o enigma continua vivo no Estado nacional emancipado, devidamente respeitoso (será?) de um sistema monárquico-constitucional com parlamento. Essa espécie de lei nacional mais pareceria uma boutade dadaísta, retirada de peça do romeno Ionesco. Lembro a peça A cantora careca: “Tomai um círculo, acariciai-o bem e ele se tornará vicioso” (Prenez un cercle, caressez-le bien et il deviendra vicieux). Brás Cubas vive recluso num círculo vicioso acarinhado pelo Poder hegemônico, qualquer que seja a sua denominação.
Tudo indica que se há regra no Brasil Imperial, há também exceção; há portanto uma força mais forte que discrimina cidadão e cidadã à imitação da condição que é descrita no topos tal como trabalhado em língua portuguesa por Luís de Camões. Levanto os olhos da página e peço socorro à escrita de si, no caso à lírica renascentista do caolho lusitano:
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.
O adeus por amantes e o desconcerto do mundo podem ganhar diferente roupagem no Brasil Imperial.
Se há regra e exceção, pode haver também regra, imprevista, à exceção, teria afirmado Nietzsche, crítico da dialética hegeliana e, em Genealogia da moral, psicólogo assumido. (O leitor encontra uma excelente introdução à filosofia de Nietzsche no livro de Gilles Deleuze, de onde retirei a epígrafe, e encontrara, em português, a conscienciosa e bem fundamentada leitura pelo filósofo Oswaldo Giacoia Junior, Nietzsche como psicólogo. São Leopoldo, Editora Unisinos, 2001.)
A Virgília só não escorre definitivamente por entre os dedos do Brás Cubas porque lhe ocorre a revanche.
Não será revanche de macho contra macho e sim revanche do mais lido que o Lobo Neves contra o casal, já sacramentado. Evidentemente o Não a Brás Cubas foi dado pelos dois. Da revanche contra o casal o Brás Cubas sairá vitorioso (em regra, imprevista, à exceção, insisto). Foi sábio ao trocar as armas cesarianas de combate por armas stendhalianas de sedução. Lembrem: o Brás Cubas tem algo do narciso ressentido e, textualmente, se diz e certamente deve ser mais esbelto, mais elegante, mais lido e mais simpático que o Lobo Neves. O romancista Stendhal em revanche contra o grande imperador César.
Na luta de espadas, esquiva-se do ímpeto verdadeiramente cesariano do Lobo Neves e se vale do ímpeto stendhaliano do amor-paixão, expresso pela ousadia do beijo que ele rouba à esposa do vencedor.
Tanto a conquista pelo beijo, à diferença da conquista pelo Lobo Neves, como a transmutação por que a Virgília passa e encarna, transmutação alegorizada nas memórias póstumas pela “moeda de Vespasiano” (capítulo 152), tanto uma como a outra serão mais detidamente tratadas posteriormente. Por enquanto, são dados necessários à boa argumentação sobre a busca da Verdade em romance machadiano.
Retomo Cole Porter. Não é apenas o Brás Cubas que reganha o tom maior ao dar um beijo na Virgília, borrando definitivamente o Não recebido.
Também a mulher casada passa a suplementar o Sim, já dado ao Lobo Neves, por um segundo Sim, dado tardiamente ao Brás Cubas.[3] Retomo frase da epígrafe, assinada por Deleuze:
A transmutação relaciona o negativo com a vontade de poder, faz dela uma simples maneira de ser dos poderes de afirmar. Não existe mais trabalho da oposição nem dor do negativo e sim jogo guerreiro da diferença, afirmação e alegria da destruição.
O duplo valor do beijo como arma de conquista da amada casada talvez tenha sido inspirado pela leitura do romance O vermelho e o negro (1830), de Stendhal. O romancista francês desconstrói a dúvida sobre a sinceridade do segundo Sim dado pela mulher casada ao amante, cuja origem se faz escrita no transcorrer de troca apaixonada de beijo no capítulo XI do romance.
Ao receber o beijo do futuro amante Lucien, a Sra. de Rênal inventa primeiro o fantasma de outra mulher, e por isso já não tem mais o audacioso Julien por culpado, e ela já está imediatamente a substituir a dor pungente que sente por sensações que desconhece e a desnorteiam. É tomada pela louca alegria. Cito um trecho instrutivo de O vermelho e o negro:
Os beijos cheios de paixão, e como nunca os recebera, fizeram-na [a Sra. de Rênal] de repente esquecer que ele [Julien] talvez amasse outra mulher. Em breve, ele não teve mais culpa aos olhos dela. A cessação da dor pungente, filha da suspeita, a presença de uma felicidade que ela nem sequer sonhara, causaram-lhe transportes de amor e de louca alegria.[4]
Ao borrar o Não por um beijo apaixonado, o Brás Cubas leva a Virgília a se acomodar em louca alegria no segundo Sim. Em ambos os casos o leitor customizado está diante da dupla afirmação da Vida, para retomar a crítica à dialética feita por Nietzsche. Ao comentar uma afirmação de Nietzsche na “Introdução” à Genealogia da moral, “Precisamos de uma crítica dos valores morais e o valor desses valores deve inicialmente ser posto em questão”, Deleuze afirma:
Mas um valor tem sempre uma genealogia da qual dependem a nobreza e a baixeza daquilo que ela nos convida a acreditar, a sentir e a pensar. Só o genealogista está apto a descobrir que baixeza pode encontrar sua expressão num valor, que nobreza pode encontrá-lo num outro, porque ele sabe manejar o elemento diferencial: é o mestre da crítica dos valores [grifo meu].[5]
(Estamos nos deslocando para região antípoda à região onde domina a noção de adultério feminino, desenvolvida em escrita realista por romancistas como Gustave Flaubert e Eça de Queirós, nos romances Madame Bovary e O primo Basílio, respectivamente, e pela sua leitura por muitas figuras como o escritor Otto Lara Resende. Em Machado de Assis, as três figuras do trio amoroso, o marido, a esposa e o amante, recebem em escrita de si tratamento dramático e personalidade humana, demasiadamente humana, originalíssimos, como temos indicado de tempos em tempos nesses folhetins. Daí, repito, a necessidade de o leitor brasileiro canônico, naturalmente ocidentalizado, ter necessidade de se customizar ao ler os cinco romances em escrita de si do nosso grande autor.)
O Brás Cubas transmuta o Não em Sim e assume o valor positivo que passa a significá-lo na personalidade feminina. A Virgília se autoafirma pelo segundo Sim, que passa a borrar o Não já dado ao Brás Cubas, e assume o duplo Sim que passa a significá-la na personalidade masculina. São ambos donos dos próprios corpos e ambos são protagonistas, vale dizer cidadã e cidadão são responsáveis, de igual peso e valor, na condução da Vida. O genealogista Machado os soube avaliar, com a ajuda de Nietzsche. Cito: “O não, destituído do seu poder, passado para a qualidade contrária, tornado afirmativo e criador…”.
O ganho auferido pelo Brás Cubas na revanche abre a possibilidade de a Virgília se assumir no lado de fora da personalidade de esposa convencional, cuja maior ambição em vida, no momento em que diz Sim ao Lobo Neves, é o marquesado. Sua moeda de troca em matéria existencial já estampava uma “coroa” e vem a ganhar suplementarmente “cara”. Cara e coroa circulam em metal nobre, em ouro, pelo Brasil Imperial.
O valor mais baixo se combina com o valor mais nobre. Até então dominante e conveniente do ponto de vista social, a coroa feminina se soma à cara, também feminina, e se tornam uma nova mulher, mais sensível à igualdade entre cidadãos. Coroa e cara passam a ser no amor-paixão que lhes é despertado fora das convenções morais e até da legalidade.
Seu parceiro por conveniência é o Lobo Neves, e por amor-paixão, o Brás Cubas. Se em cena teatral, a Virgília lembraria o fascinante “sistema coringa”, inventado por Augusto Boal e por ele praticado em suas encenações mais audaciosas. O sistema permite ao ator ou à atriz que se distancie do personagem único que interpreta. Ao se distanciar de um personagem, assume personagem diferente e guarda a mesma sinceridade na reencarnação.
Depois do tropeço no Não, o narrador/protagonista se torna consciente da transmutação por que ele também passa pelo beijo, o “prólogo” de uma vida, de um livro diferente do já vivido. Nasce um diferente trio sexual e amoroso.
O romancista das frases curtas se alonga e se derrete ao descrever em reminiscência o beijo roubado à Virgília:
Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela [Virgília] me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo, porque era ao portão da chácara, à vista das estrelas, – das castas estrelas de Otelo, – you chaste stars! Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, com tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo [negrito meu].[6]
Volto à coroa e à cara da Virgília. Na Roma antiga, a “moeda de Vespasiano” é usada para se pagar o uso do mijo humano nos mictórios do Coliseu (útil em serviços como o do tratamento do couro). A justaposição do metal nobre ao dejeto do corpo humano alvoroçou o filho do Imperador Vespasiano, Tito, que reclamou junto ao pai sobre a natureza imoral da taxa imposta ao mijo. Daqui a pouco toda a cidade ficará fedendo a mijo. O imperador pegou a moeda de ouro e a mostrou ao filho, dizendo: Non olet (não tem cheiro).
O metal nobre não tem cheiro. A alegria desencadeada na cidadã e no cidadão que se emancipam e se tornam igualitários pelo amor-paixão, distantes das instituições hegemônicas e injustas, não se confunde com o entusiasmo que o grito do Ipiranga inspira. As bem estabelecidas instituições têm de ser questionadas, de ser postas abaixo. A justaposição do metal nobre ao dejeto do corpo humano foge à polarização pela conjunção ou: Sim ou Não.
Entusiasmo ou consciência dos verdadeiros valores cidadãos.
À maneira dos contemporâneos nossos Murilo Mendes e Guimarães Rosa, a inclusão à cadeia do Sim do Não, que polarizava pelos extremos, se dá pela conjunção e: Sim e Sim. O entusiasmo patriótico deve se somar à reflexão cidadã; o Estado nacional chegar à soberania almejada. Estamos na forma de argumentação do sentido da Vida nietzschiano, a escapar pelo divertissement pascaliano do tédio ou do repouso.
A Virgília é sincera no duplo Sim, ela é todo o seu corpo e espírito que responde ao desejo do marido e ao do amante. Não é estranho que o protagonismo do Brás Cubas tenha a sua gênese no Sim que lhe é dado por senhora casada, uma igualitária distinta e de bons costumes (devidamente contrastada, na trama ficcional por Marcela. Note-se que a cocote tão pouco merece julgamento moralista na velhice).
Se qualquer acontecimento for avaliado no tempo evolutivo da vida humana, o efeito da Verdade não tem a causa desenvolvida antes do efeito. A causa não se encontra explícita na exposição cronológica dos fatos. Como exemplo, lembro que o principal fator para o aparecimento da pergunta autorreflexiva do Brás Cubas sobre o Não da Virgília não vem antes do despertar da curiosidade sobre o efeito arrasador da negativa. A causa é sempre enunciada tardiamente (ou pode não ser enunciada, pois a Machado não agrada o estilo ficcional didático). Aliás, a causa para o efeito que redunda na Verdade sobre o fato ou sobre o personagem não se faz visível a olho nu no romance machadiano. Só começa a se tornar palpável e comunicável ao outro no processo introspectivo levado a cabo pelas três figuras autorais, de posse de dados da memória e de presença ativa na atualidade do seu destino e na invenção ensaística do leitor. E é a própria intimidade do sujeito que será o fundamento heurístico da nova avaliação e do novo julgamento, simétrico agora, do cidadão por valores humanos, socioeconômicos e políticos igualitários e justos.
A voz do íntimo (the inside voice, em inglês) inventa a Ficção machadiana e estimula o conhecimento da Verdade pelo Não que se transmuta em Sim à Alegria. Inventa a Ficção machadiana na Verdade do trio sexual e amoroso. Inventa o Sujeito brasileiro que está predestinado ao êxito na Verdade da Ficção machadiana.
(Por isso é que o primeiro gesto do leitor do romance machadiano tem de ser o de customizar a própria sensibilidade de cidadão brasileiro à sensibilidade de Machado de Assis.)
O acesso à Verdade é sempre tardio nos cinco derradeiros romances machadianos, retomo a teoria na prática de leitura. A pergunta autorreflexiva do protagonista Brás Cubas, já reforçada e robustecida por sua imagem em vídeo, não será respondida no capítulo em que ela é enunciada. Será respondida no segundo capítulo a seguir “O recluso”. Neste, o narrador, depois de enunciar as perguntas autorreflexivas, libera os olhos do protagonista. Em fuga da folha de papel, que o contextualiza, o protagonista ganha liberdade suficiente – semelhante à liberdade que ousa o beijo roubado a Virgília – para se escapar – ou será para fugir da casa grande, como o negro fujão sob as ordens do verdadeiro Cotrim? – da narrativa.
O Brás Cubas ganha autonomia no manuscrito, ele quer enxergar a ponta do nariz do escritor que o concebe e o escreve.
O romancista Machado de Assis, o narrador e protagonista Brás Cubas, associados ao leitor customizado, não seremos todos do mesmo naipe (no sentido musical), não formaríamos todos nós um só coro, um só corpo e é, por isso que – no espaço e no tempo da escrita de si e da sua leitura – pertenceríamos todos a uma mesma e diferente narrativa introspectiva que busca – e não encontra – a Verdade que afiance uma avaliação igualitária e justa do valor de todo e qualquer cidadão brasileiro no Brasil Imperial?
B) O Enigma e a atualidade do seu deciframento infindável
Leitor, temos de ter muita paciência no processo de customização. É o transformismo que nos dá a nós, leitores, a garantia de estar sendo convincentes e eficientes junto ao leitor que lê os folhetins e os acompanha. De todos os quatro envolvidos na trama das Memórias póstumas de Brás Cubas, só aos que são leitores customizados compete inventar uma narrativa com assinatura diferente da dos cidadãos brasileiros no Brasil Império. Só nós podemos oferecer uma narrativa crítica, em folhetins, das memórias póstumas no Terceiro Milênio.
O cidadão Machado de Assis já inventou o Brás Cubas em narrativa que não é fácil de ser customizada por outro. Já avisei: trata-se de narrativa ficcional cheia de sutilezas, subterfúgios, sugestões e delicadezas. Reparou que, em certo instante de um detalhe, o protagonista foge do texto escrito e se expressa por mímica: o olhar foca a ponta do nariz de quem escreve.
Subitamente, a figura dramática é pura mímica. Se eu não me customizo, se a minha sensibilidade crítica não me adequa ao enigma para resolvê-lo, não avanço esta invenção crítica. Não a avançamos.
“Decifra-me. Ou te devoro, leitor” – me diz o mímico. Como já me customizei ao gosto do romancista, ele me pede que tenha paciência. (Ele evita o spoiler por um alerta:) “Talvez uma boa surpresa o aguarde daqui a dois capítulos”. Não pulo os dois capítulos para saber o que ele tem a me dizer sobre a ponta do nariz. Tenho paciência. Sorrio. Sempre reajo com um sorriso às ordens sorrateiras do romancista. O hábito me vem dele. Esses jogos de composição da ficção me divertem e divertem a ele. “Não há que se impacientar”, ele continua, “adoro brincar com o recurso hoje conhecido dos críticos de cinema como suspense hitchcockiano, típico da narrativa em folhetim ou do romance policial que lhe é contemporâneo”. E insiste: “Tão logo percebo que gente como você está ganhando um ritmo tedioso de leitura, atiço-lhe a curiosidade com um despropósito”.
Obedeço-lhe pelo sorriso, e continuo no lento processo de customização.
Para avançar a leitura da escrita de si assinada por Brás Cubas, se faz urgente conceder lugar especial ao enigma proposto pela mímica do protagonista e decifrá-lo. Num primeiro passo se impõe que se compreendam mímica-e-enigma tanto no contexto restrito da obra de Machado de Assis como no contexto amplo oferecido pela tradição estabelecida pela escrita de si, de caráter introspectivo.
Começo pelo enigma. Não é tarefa fácil decifrá-lo, tudo indica que, como recurso retórico, é exemplo de uma das muitas artimanhas que desenham a obra do inigualável romancista brasileiro. Por onde recomeçar a leitura de mímico se o gestual chega provido de significado enigmático que transcende o caráter apenas estrambótico da mímica? A opção do romancista por assumir a escrita de si na narrativa de preocupação autorreflexiva e centrada em trio amoroso, aponta para uma questão filosófica das mais ricas na sua larga tradição ocidental.
Retome-se, pois, o enigma, robustecendo-o com os ensinamentos oferecidos pelo que tem sido exposto na tópica filosófica do “cuidado de si”. Michel Foucault tem trabalhado as chamadas “técnicas de si” que, desde os helenos até os dias de hoje, têm-se mostrado, no processo da formação sentimental e intelectual do ser humano quando jovem, como atividade subjetiva incontornável. Talvez a porta por onde entrar seja o bom conhecimento das “técnicas de si”. Melhor se entenderá não só o enigma como o que ele recobre, ou seja, a causa cujo efeito se traduziu pelo primeiro e escandaloso Não.
Quando parece que, no Brasil Imperial, as justas aspirações a um lugar ao sol do cidadão letrado Brás Cubas começariam a ser concretizadas, a negativa está à sua espera.
A competição com os pares nunca o distingue. Parece que o Sim que explica o sucesso do cidadão profissional no Brasil Império é tão evidente que chuta para fora de campo o enigma. O sucesso como privilégio concedido a um dos competidores é sempre enunciado com todas as letras, já que se encontra melhor ajustado ao privilegiado.
O enigma torna-se indispensável quando a escrita de si apreende o ajuste malicioso e silencioso do fracasso ao cidadão que não o merece e, por isso, só se faz ouvir na intimidade de quem o padece.
Para compreender o tom menor, ou o desconcerto do mundo, ou o desajuste do sucesso ou, ainda e finalmente, o ajuste do fracasso ao destino do Brás Cubas que, aliás, tem mais valia que o competidor de sempre, é preciso que o discriminado cave fundo na memória os argumentos que rebaixam e que, com eles, substantive a autorreflexão que traduz “a dor do negativo” que se torna rotina. Os vários quês salientados pelo exercício introspectivo são enigmáticos.
Esses quês, que nunca explicitam o próprio significado com todas as letras, são a causa de efeitos negativos que logo se evidenciam na trama, repito, e no estado da alma do cidadão que fracassa em vida. Como nos contos infantis, esses quês liberam as suas migalhas pelo caminho da narrativa, migalhas que se tornam úteis para os que desejam segui-las para tomar posse do caminho certo. As migalhas são, portanto, passíveis de serem customizadas por qualquer seguidor. Conduzirão ao final da trama, ou seja, à boa leitura do romance no Terceiro Milênio.
O enigma ganha lugar e principalmente sentido no silêncio revelador das pistas lançadas no chão da narrativa.
O conhecimento da causa que tem por efeito negar as justas aspirações do Brás Cubas, conduzindo-o sempre a transitar por um só e mesmo caminho dentro de círculo vicioso, o da frustração. Como se trata de uma narrativa que se escreve pelo ponto de vista de memórias póstumas, as pistas são lançadas de maneira intermitente. De tempos em tempos, uma delas aparece e cria o seu próprio núcleo enigmático, aparentemente passageiro, mas que, na verdade, se faz dica preciosa que o autor defunto oferece. O relato do cotidiano de uma vida-e-morte amontoa os quês e os seus efeitos, enquanto a narrativa póstuma, que se quer artística, exige uma leitura dos quês e dos seus efeitos através de sucessivos enigmas que entretêm, divertem e instruem o leitor.
Ponto para a genialidade do romancista brasileiro à época da hegemonia da escrita realista-naturalista: a injustiça padecida em Vida por um cidadão letrado brasileiro laborioso e consciente do seu lugar e papel na sociedade do tempo não se satisfaz com a descrição das aparências do sujeito e da mera descrição expositiva da vida que leva em comum com os pares.
Silencioso e poderoso, o exercício da Injustiça só poderia vir à luz na literatura em língua portuguesa através de dicção ficcional que se expressa na escrita de si, a revelar a intimidade do coração de um escritor no Brasil Imperial. É lá – no íntimo do Sujeito – que se passam e são visíveis – em necrópsia – as injustiças contra o Brás Cubas, que o transformam em vítima. A dor está sempre a latejar lá dentro do coração e só se manifesta exteriormente pela desilusão e pelo fracasso, já que não é mais causada – no Brasil Imperial – por assassinato, tortura ou por ferimento no corpo. A dor não é física. E certamente é tão dolorosa quanto a dor física.
Por isso é que o quê que causa a dor só pode ser encenado por enigma. Se devidamente decifrado por leitura pelo Sim à Alegria, a dor do negativo talvez ganhe significado preciso, claro e nítido. Vale dizer: um significado atual.
Notas
[1] Nietzsche appelle transmutation le point où le négatif est converti. Celui-ci perd sa puissance et sa qualité. La négation cesse d’être une puissance autonome, c’est-à-dire une qualité de la volonté de puissance. La transmutation rapporte le négatif à l’affirmation dans la volonté de puissance, il en faut une simples manière d’être des puissances d’affirmer. Non plus travail de l’oppostiion ni douleur du négatif, mais jeux guerriers de la différence, affirmation et joie de la destruction. Le non, destitué de son pouvoir passé dans la qualité contraire, devenu lui-même affirmatif et créateur : telle est la transmutation.
[2] “Theres no love song finer / But how strange the change / From major to minor / Every time we say goodbye. […] Why the Gods above me / Who must be in the know / Think so little of me.” https://www.youtube.com/watch?v=9GdwZL2Bx8c&t=59s
[3] A argumentação nietzschiana a favor da dupla afirmação é bastante complexa para ser explicitada aqui. O curioso pode se informar no capítulo v do livro citado de Deleuze, na seção 12, “La double affirmation”. Existe tradução brasileira: Nietzsche e a filosofia. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.
[4] “Les baisers remplis de passion, et tels que jamais elle [Madame de Rênal] n’en avait reçus de pareils, lui firent tout à coup oublier que peut-être il [Julien] aimait une autre femme. Bientôt il ne fut plus coupable à ses yeux. La cessation de la douleur poignante, fille du soupçon, la présence d’un bonheur que jamais elle n’avait même rêvé, lui donnèrent des transports d’amour et de folle gaieté.” Capítulo XI, Uma noite.
[5] “Mais une valeur a toujours une généalogie, dont dépendent la noblesse ou la bassesse de ce qu’elle nous invite à croire, à sentir et à penser. Quelle bassesse peut trouver son expression dans une valeur, quelle noblesse dans une autre, seul le généalogiste est apte à le découvrir, parce qu’il sait manier l’élément différetiel : il est le maître de la critique des valeurs”. Segunda parte, 7, La terminologie de Nietzsche.
[6] A reserva (o pudor) do romancista se torna de novo evidente no título do capítulo 53, de onde o longo trecho acima foi retirado. O título não traz palavra, “O beijo”, só reticências, como no capítulo sobre o velho diálogo entre Adão e Eva (de número 55) e ainda no capítulo em que se descreveriam as razões para o Brás Cubas não ter sido ministro de Estado (de número 139). A reserva (ou o pudor) será matéria do capítulo 133, “O princípio de Helvetius”. O princípio diz que o homem sempre age de acordo com os seus interesses. Evidentemente, o Brás Cubas terá de mencionar o princípio e quase confessar os amores com a Virgília, mas desconstruirá astuciosamente o princípio ao negar o recurso à indiscrição (masculina). Agiu por interesse, claro, para satisfazer o desejo sexual, mas não para divulgar a conquista e sim por puro “desvanecimento interno”. Voltaremos ao tópico.
