Folhetim IV | Silviano Santiago

No novo folhetim de Silviano Santiago publicado pela BVPS, uma análise potente explora as conexões entre Hegel e a Revolução Haitiana, destacando o impacto da obra de Susan Buck-Morss. A autora mostra como a insurreição liderada por ex-escravizados influenciou a formulação da dialética senhor e escravo em Hegel. Segundo Silviano, ela lança três “balas desconstrutoras” que desafiam a leitura canônica de Hegel, abrindo caminho para uma reflexão sobre a modernidade, a história universal e os silêncios impostos pelas fronteiras disciplinares.

Este novo folhetim dá continuidade aos problemas mais propriamente teóricos que Silviano vem enfrentado em sua leitura da escrita de si em Memórias póstumas de Brás Cubas.

Boa leitura e não perca o próximo folhetim inédito que vai compor o Caderno 2 de O grande relógio: a que hora o mundo recomeça.


Quarto Folhetim

Hegel e o Haiti. Nota de pé de página ao Terceiro Folhetim

Por Silviano Santiago

Em relação com uma outra, a força que se faz obedecer não nega a outra ou aquilo que ela não é, ela afirma sua própria diferença e regozija com essa diferença. O negativo não está presente na essência como aquilo de que a força tira sua atividade; pelo contrário, ele resulta dessa atividade, da existência de uma força ativa e da afirmação de sua diferença. O negativo é um produto da própria existência: a agressividade ligada necessariamente a uma existência ativa, a agressividade de uma afirmação [negrito meu].[1]

Gilles Deleuze, Nietzsche et la philosophie, “Contre la dialectique”

Além disso, odeio tudo aquilo que somente me instrui sem aumentar ou estimular diretamente a minha atividade.

Goethe, em carta a Schiller, datada de 1798.

Ao aproximar do filósofo alemão Hegel a Revolução Haitiana, a professora Susan Buck-Morss (n. 1942) explodiu a primeira bomba filosófica do milênio. A Revolta de São Domingos (1791-1804) foi um período de conflito brutal na então colônia francesa, levando à abolição da escravização e à Independência do Haiti como a primeira República do Novo Mundo governada por cidadãos de ascendência africana.

No verão do ano 2000, Susan publicou na revista Critical Inquiry “Hegel and Haiti”, ensaio explosivo que, acrescido de apêndices, seria retomado em livro, Hegel, Haiti, and Universal History (University of Pittsburgh, 2009). A tradução do ensaio inaugural é publicada na revista Novos Estudos (n. 90, julho 2011). A cuidadosa tradução é de responsabilidade de Sebastião Nascimento. As citações de Susan Buck-Morss, que se seguem, foram retiradas da revista paulista.

A combinação entre Hegel e o Haiti não é somente inesperada. Abre divergências na leitura canônica do filósofo que serão devidamente desenvolvidas pela autora. Liderados pelo ex-escravizado Jean-Jacques Dessalines, os acontecimentos sócio-políticos teriam sido acompanhados por Hegel nas páginas da revista alemã Minerva, conformada aos ideais sociais da franco-maçonaria radical, e estariam por detrás – se tornariam uma das principais inspirações – da célebre passagem da Fenomenologia do espírito (escrita entre 1805 e 1806 e publicada em 1807), tratado filosófico no qual se enuncia a dialética entre senhor e escravo.

Como metáfora, senhor/escravo recobre (1) a luta de vida ou morte entre escravização e liberdade, que caracteriza as relações de poder na Europa iluminista, e (2) o escândalo da exploração abusiva do trabalho do não-europeu nas colônias do Novo Mundo.

Cede-se espaço para novas reflexões críticas sobre (1) a função das referências eruditas a Aristóteles e a Fichte e (2) a emergência de uma tese, a de que a metáfora não provém apenas dos antigos, já que o tropo (etimologicamente, mudança de direção), em si, é exemplo totalmente abstrato.

Susan subscreve Michel-Rolph Trouillot que, em Silencing the past (hoje em e-book), afirma que “a Revolução Haitiana entrou na História com a característica peculiar de continuar sendo impensável [negrito meu], mesmo enquanto acontecia”. No entanto, a ação revolucionária haitiana foi – prossegue Susan – “a prova de fogo[2] para os ideais do Iluminismo francês”.

Ao deixar aflorar o silêncio dos especialistas no tocante à aproximação de Hegel e o Haiti, cuja evidência é demonstrada no ensaio, Susan solta três balas desconstrutoras dos princípios que assentam os estudos de fonte na universidade e na bibliografia hegeliana, para demonstrar como a lenta construção a caminho do canônico de um objeto de pesquisa pode iluminá-lo e, ao mesmo tempo, escondê-lo. Depende.

Recorro à noção de “intempestividade”, tal como elaborada e aprofundada por Friedrich Nietzsche na Consideração intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da História para a vida (1874),[3] para acatar a ambiguidade da postura crítica levantada por Susan Buck-Morss e esclarecida por ela. Cito Nietzsche:

A serenidade, a boa consciência, a atividade alegre, a confiança no futuro – tudo isso depende, num indivíduo, assim como num povo, da existência de uma linha de demarcação entre o que é claro e bem visível e o que é obscuro e impenetrável, [também depende] da faculdade tanto de esquecer quanto de lembrar no momento oportuno [e depende finalmente] da faculdade de sentir com um poderoso instinto quando é necessário ver as coisas sob o ângulo histórico, e quando não.

A primeira bala desconstrutora de Susan vai de encontro aos discursos disciplinares das ciências humanas e da filosofia sobre o conhecimento: “Hoje em dia, quando a revolução dos escravizados haitianos pode parecer mais pensável, ela é mais invisível [grifo meu], devido à construção dos discursos disciplinares, por meio dos quais herdamos o conhecimento sobre o passado”. Como momento definidor na história universal, a Revolução Haitiana, afirma Susan, “se assenta numa encruzilhada de múltiplos discursos disciplinares”, que só serão destrinchados por metodologia pluridisciplinar”. E resume, com a ousadia esperada: “Fronteiras disciplinares fazem com que as evidências contrárias virem problemas dos outros.”

Escritos nas fronteiras entre história, ciência política e filosofia, os ensaios de Hegel trazem uma concepção de história universal cujo voo é impulsionado mais pelo método e menos pelo conteúdo. Trata-se de buscar orientação; trata-se de chegar, pois, a uma reflexão filosófica alicerçada em material concreto, cujo ordenamento conceitual lançaria luz sobre o presente político. No ato de descentrar o legado de Hegel das suas fontes canônicas, a história como filosofia política salvaguarda, na modernidade ocidental, a sua intenção universal. Hegel comunga com Jacques Derrida.

A filosofia política não conclama a uma pluralidade de modernidades alternativas: “A verdade não muda; nós é que mudamos”.

A segunda bala desconstrutora atinge os leitores de Hegel que não percebem que “até mesmo os mais abstratos termos do vocabulário conceitual do filósofo são derivados da sua experiência cotidiana”. E Susan acrescentará algumas páginas adiante: “da leitura de jornais e de revistas”.

A seu favor, Susan reporta-se ao momento que Hegel abandona as categorias de “burguês” e de “civil”, aplicadas à sociedade, para endossar, a partir da análise de Adam Smith sobre a fabricação de alfinetes, uma visão comprometida com a nova economia – “necessidade e trabalho é que criam um sistema monstruoso de dependência mútua”. Fatos, afirma Susan, não são importantes como informação de significados fixos, são caminhos que continuam a nos surpreender.

Fatos devem inspirar a imaginação e não a acorrentar ao chão.

A terceira bala vai de encontro aos marxistas que propõem uma apropriação social da dialética hegeliana. Nela, a metáfora senhor/escravo perdia a referência literal e passava a recobrir a luta de classes.

Não está em questão o brilho das análises de Geörg Lukács, Herbert Marcuse ou Alexandre Kojève, esclarece Susan. E se explica: “O problema é que, dentre todos os leitores, os marxistas (brancos) foram os menos propensos a considerar a escravidão real como algo significante, uma vez que, em sua concepção da história por etapas revolucionárias, a escravidão – não importando quão contemporânea – era vista como uma instituição pré-moderna, banida da história e relegada ao passado”.

Conclui: “Há um elemento de racismo implícito no marxismo oficial, ao menos por conta da história como uma progressão teleológica”.

O elemento implícito torna-se explícito na recusa dos marxistas (brancos) em aceitar a tese também de inspiração marxista do historiador jamaicano Eric Williams, expressa em Capitalismo e escravidão, livro publicado em 1944 e traduzido em 2012 pela Companhia das Letras: “A escravidão do sistema plantation é uma instituição quintessencialmente moderna de exploração capitalista”.

Apesar de esclarecer as possíveis relações entre os redatores da revista alemã Minerva e os francos-maçons, apesar de conduzir com habilidade as leituras latentes nos escritos de Hegel que indiciam seu conhecimento da bibliografia levantada, Susan alerta para o fato de que “sabemos muito pouco sobre a maçonaria no Atlântico negro/pardo/branco, um capítulo de relevo na história da hibridez e da transculturação”. Reabre-se uma das importantes portas da pesquisa. Há outras, evidentemente.


Notas

[1] Dans son rapport avec l’autre, la force qi se fait obéir ne nie pas l’autre ou ce qu’elle n’est pas, elle affirme sa propre différence et jouit de cette différence. Le négatif n’est pas présent dans l’essence comme ce dont la force tire son activité; au contraire, il résulte de cette activité, de l’existence d’une force active et de l’affirmation de sa différence. Le négatif est un produit de l’existence elle-même: l’agressivité nécessairement liée à une existence active, l’agressivité d’une affirmation.

[2] O dicionário informa que a expressão prova de fogo faz alusão à prática medieval de determinar a culpa de uma pessoa fazendo-a passar por uma provação, como andar descalço no fogo.

[3] Lembro que a consideração sobre o intempestivo pelo filósofo alemão parte de – e ele quem a explicita – uma citação de Goethe, extraída de carta dele a Schiller, datada de 1798: “Além disso, odeio tudo aquilo que somente me instrui sem aumentar ou estimular diretamente a minha atividade”.