Ocupação Mulheres 2025 | Wirî’san yamî maimu: mulheres que contam, cantam, escrevem e reencantam mundos, por Sony Ferseck

Na nova rodada de postagens deste 8M, publicamos ensaio de Sony Ferseck (UFRR). Partindo de experiências pessoais e coletivas, ela aborda sua trajetória como autora mulher, indígena, poeta e acadêmica, destacando a importância da educação e da escuta sensível na valorização das vozes indígenas. Seu potente ensaio aponta para a escrita como um compromisso de vida e um instrumento de luta e visibilidade para as mulheres indígenas.

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Wirî’san yamî maimu: mulheres que contam, cantam, escrevem e reencantam mundos

Por Sony Ferseck (UFRR)

Nasci em 1988, ano da promulgação da Constituição Federal, que reconhece, especialmente em seus artigos 231 e 232, o direito às especificidades culturais e à educação diferenciada aos povos indígenas. As décadas de 1970 e 1980 foram decisivas para a articulação política dos povos indígenas, através do Movimento Indígena, que “foi fundamental para mudar a relação das comunidades [indígenas] com a sociedade brasileira” (Munduruku, 2010: 68), e que culminou com o gesto do parente Ailton Krenak e do parente jenipapo com que pintou o rosto em reivindicação ao reconhecimento dos direitos originários na tribuna da Constituinte.

Naqueles idos de setembro de 1987, assim como em 2024, quando tomou posse como o primeiro indígena em mais de 120 anos de existência da Academia Brasileira de Letras, Krenak não estava só nem era apenas um. Era ele, a Vovó Ruku em Makuxi, ou jenipapo, e mais de 300 povos e 270 línguas indígenas dizendo que resistimos, que fomos, somos e seremos enquanto houver terra para brotarmos, pois, como diz Ellen Lima, poeta do povo Wassu Cocal, “Duvido que um índio descerá de uma estrela. Ele brotará do chão” (Lima, 2024: 48).

A academia foi um verdadeiro ponto de virada para mim; por isso, sou grata à educação superior pública de qualidade. Reconheço, contudo, que ela continua com suas altas e frias paredes brancas, que dividem e enquadram grupos humanos e conhecimentos, separando-os entre aqueles que podem ser sujeitos e relegando outros a objetos de pesquisa científica. Além disso, suas práticas muitas vezes permanecem extrativistas em relação aos povos indígenas. Ainda assim, o acesso às cadeiras do ensino superior tem permitido que vários segmentos da sociedade, inclusive os indígenas — mesmo antes das políticas de cotas —, possam ocupar mais esse território, modificando-o. Acredito profundamente no que Paulo Freire (1979: 84) afirmou em Educação e Mudança: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Mais do que isso, a educação pode ser fundamental para a criação de um lugar de escuta — um lugar imprescindível neste momento em que todos querem falar, mas poucos querem ouvir, o que torna o diálogo impossível.

Escutar. Um gesto aparentemente tão simples, mas pouco exercitado, especialmente dentro da academia. Foi a partir desse gesto de escuta sensível que pude, já inserida na academia, ouvir as vozes das gentes do meu povo e de muitos outros retumbando. Foi em 2014, ano em que ingressei no mestrado em Literatura, Artes e Cultura Regional na UFRR, que passei a fazer parte do Projeto Panton pia’ (Capes-CNPq/2007-2020), coordenado pelo já encantado Devair Fiorotti (1971-2020), que entrevistou 39 anciãos e anciãs indígenas das Terras Indígenas São Marcos e Raposa Serra do Sol. Panton, em Makuxi, significa história; pia’, algo como próximo, perto ou ainda entidade. Ou seja, o título do projeto pode ser traduzido como algo próximo da história, junto com a história, irmão em história ou história das entidades. Isso, hoje, me soa como a possibilidade de que os conhecimentos originários possam caminhar em igualdade de potências com o conhecimento científico.

Foi nas andanças do projeto que ouvi o primeiro canto, de muitos outros, que modificaram completamente a forma como eu percebia não apenas a mim mesma, mas também todo o mundo ao meu redor: “uweyupe wei tapi’se/ uipi sîrîrî paapa/ tiwiyupe wei tapi’se / kesera’ uyepî paapa kesera’ uyepî paapa”[1] (Silva & Fiorotti, 2018: 96-97). Como aquilo era possível? O sol ser deus e nosso pai? Como eu poderia estar vindo tão próximo a ele, em seu rastro? Como eu poderia ser mais do que humano e ser também mandioca? Esse canto me lembrou que, antes da imposição da letra alfabética, antes da invasão lusitana em abril de 1500, os povos indígenas já semeavam por todo o território de Pindorama — que agora chamam Brasil — seus cantos, suas histórias, proferiam suas palavras de cura. E continuam. E continuamos. Apenas incorporamos mais uma técnica: a da escrita alfabética.

Na região do circum-Roraima (Colson, 1985), na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e República Cooperativista da Guiana, meu povo, os Makuxi, e tantos outros, como os Wapichana, Taurepang, Ingarikó, realizavam grandes rodas de canto e dança em que, mais do que festejar, escreviam — ou melhor, inscreviam — suas presenças com a voz no espaço, no corpo com os chamados grafismos, com os passos de dança na terra: o grande poema do mundo (Ribeiro, 2023). De braços dados, reunidos num mesmo passo, num mesmo ritmo. Escutar. Escutar o outro. Escutarmos nossas canções, nossas histórias, nossas palavras de cura. Escutar o reencantamento do mundo, essa capacidade que uma vida tem de atravessar outras vidas, chegar a outros tempos e se juntar a eles como num grande trançado de fibras, numa arte tecida a partir da palha, por exemplo. Afinal, como dizem o parentíssimo, também já encantado, Jaider Esbell e Devair Fiorotti: “Tudo dá outra coisa em si”.

E, de repente, me senti possível. Possível como indígena, mulher, poeta e acadêmica. Senti que minha voz já não era apenas uma nem estava sozinha, mas era um coro, porque nela estavam entrelaçadas vozes de tantas outras gentes, de modo que, a partir dali, seria impossível acreditar em individualidade ou em separação entre os conhecimentos — entre ciência e arte, por exemplo. Ali estava toda uma produção verbal, literária, à qual não pude ter acesso através das cadeiras universitárias, de compêndios ou textos que a reconhecessem como arte e reconhecessem sua autoria.

A partir daí, do reencontro com essas vozes, comecei a reaprender a escutar, especialmente as vozes de autores e autoras indígenas que circulam na literatura e na academia, como Graça Graúna, Eliane Potiguara, Márcia Wayna Kambeba, Daniel Munduruku, Cristino Wapichana, Trudruá Dorrico, entre outros, que fazem parte da Literatura Indígena Contemporânea.

Então surgiram meu livro de poesias em homenagem às mulheres indígenas,
Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), e minha tese de doutoramento intitulada
Weiyamî Paata Maimu ou a poética do ocre: as palavras do sol nos territórios da
literatura” (2023). Ambos nasceram de várias perguntas em comum: por acaso, aquilo que leio também me lê? Aliás, me lê mesmo? Em que língua me lê o que leio? Em que letra? São tintas mortas que tentaram declarar a morte de centenas e centenas de povos indígenas, nosso desaparecimento? Por acaso, o que leio me declama, me consagra ou fala por mim, no meu lugar, contra mim?

Mais do que perguntas, esses questionamentos tornaram-se meu compromisso de vida enquanto mulher indígena que escreve — seja em poesia, seja em textos acadêmicos. Tornaram-se esse compromisso de fazer com que outras mulheres indígenas se sintam também lidas. Lidas como mulheres, lidas como indígenas, e se sintam possíveis em territórios ainda profundamente hostis contra as mulheres e, ainda mais, contra mulheres indígenas.

O estado do qual falo e escrevo neste exato momento, Roraima, é um dos que lideram o ranking de violência contra as mulheres, e isso já há alguns anos, segundo importantes pesquisas como o Mapa da Violência (2015) e o Observatório da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (2021). Vale lembrar que, mesmo nesses dados, a presença da mulher indígena não é descrita, embora a população feminina indígena seja expressiva no estado — que tem uma das cinco maiores populações indígenas do país e conta com duas das maiores Terras Indígenas. Isso faz com que sofram dupla invisibilização: a de gênero e a étnica.

Isso leva a refletir sobre como a arte, em especial a literatura, tem ajudado a ecoar as vozes dessas mulheres pelo tempo, a ocupar territórios, refletindo também que, embora tenhamos chegado até aqui, muitas das questões sociais relacionadas às vidas das mulheres ainda permanecem. De um lado, a força e a luta. De outro, ainda a desigualdade e a discriminação. É nessa lâmina de espelho que reflete, mas que também corta e sangra, que passei a ler — e busco ser lida.

Em Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), além de uma homenagem às mulheres indígenas, em especial do povo Makuxi — que alimentam, com leite materno e com sua força de trabalho, a luta pelo direito à terra e à vida, tanto a própria quanto a de seus filhos e netos —, busca-se trazer à luz o protagonismo das mulheres indígenas, sejam elas humanas ou não, que vão se escrevendo para além da letra. Um dos poemas, Ewaron, traz a história que ouvi de mais velhos sobre uma anciã sacrificada em prol do bem da comunidade, que sofria sob os ataques de uma misteriosa fera, escolhida pelo fato de ser mulher e idosa. Poemas que rememoram nosso parentesco com Wei e também com a Grande Avó Samaúma e a Vovó Barro, dentre outros.

Cada poema foi acompanhado de bordados de Georgina Sarmento, Kaiwino Wiz, Estrela nas línguas de seus povos originários Makuxi e Wapichana, que contam também a história de sua avó, A’ka — luz em Makuxi —, ou como cruelmente foi rebatizada em língua portuguesa: Iracema Rodrigues. A’ka foi “dada” aos 10 anos de idade para uma família de não indígenas — ou, popularmente falando, de “brancos” — para ser criada. Criada muito mais no sentido de ser empregada doméstica do que de ser adotada pela família.

Esse expediente, o compadrio (Santilli, 2001; Rivière, 1972), extremamente predatório, era utilizado para explorar a mão de obra indígena em troca da salvação das almas originárias pelo sacramento do batismo. Assim como já proibia o Diretório dos Índios (1755), seu nome e sua língua indígena foram proibidos e substituídos, o que quase vaticinou seu destino. A’ka só falava em Makuxi. Sempre que tentava falar com os patrões/padrinhos, levava um violento tapa na boca, que lhe arrancava sangue. Então, já batizada como Iracema, cresceu, amadureceu, teve filhos e filhas, netos e netas, envelheceu e morreu sem falar mais nem o Makuxi nem o português, silenciada. Entretanto, quando morreu, uma filha e uma neta dela foram arrumar o pouco que havia deixado: linhas e agulhas de crochê e bordado. Foi essa arte, a têxtil, que a neta, Kaiwino Wiz, acolheu e transformou nos bordados presentes na obra Weiyamî, com a qual chegamos às semifinais do 65º Prêmio Jabuti, na categoria Poesia.

Essa foi a forma com que A’ka enfrentou o silenciamento de sua língua originária, mas não de sua capacidade de conversar com as gentes outras — cosmovisão indígena nos termos acadêmicos ou, para nós, encantamento. A arte foi esse território em que A’ka se refugiou quando foi tirada de sua terra natal, e onde suas filhas e netas puderam reencontrá-la para além da violência e do trauma, apesar deles, entrelaçando seus fios de vida numa imensa tessitura em que suas vozes (re)compõem a forma de ser e estar indígena, ser Makuxi, nos diversos mundos.

Foi dessa forma que A’ka resistiu a não ser Iracema, a personagem alencariana, (contra)dizendo para além da letra alfabética e da língua portuguesa que “As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra” (Alencar, 1865: s/n).

Não passamos sobre a terra porque nós somos terra. Inscreveremos, escreveremos nossas presenças, contaremos histórias, cantaremos, proferiremos palavras de cura, denunciaremos as atrocidades vividas ainda hoje, resultantes de ideias que se dividem entre a de que “não existem mais indígenas” e a de que “o lugar dos indígenas é na floresta”, “no meio do mato”.

Ideias antigas, mas que ganharam representatividade e ares de legalidade com o desgoverno Bolsonaro (2018-2022), que vitimou duplamente as populações indígenas: pelo preconceito e pela negligência com relação à condução da pandemia, que vitimou a população indígena. Sábios e sábias foram vítimas da Covid-19 e da negligência, como Vovó Bernaldina, que publicou Meriná Eremu – cantos e encantos (Wei Editora, 2018).

Não bastasse tudo isso, foi durante esse desgoverno que vieram a público as terríveis imagens de anciãos e crianças esquálidas, vítimas da desnutrição provocada pelo garimpo e pela falta de serviços básicos entre o povo Yanomami. Além disso, a tese do marco temporal — segundo a qual os povos indígenas só podem reivindicar terras que eram ocupadas à época da promulgação da Constituição Federal de 1988 — ganhou fôlego.

Assim, quando escrevo, faço minha voz e a voz de outras mulheres ressoarem juntas e mais forte, para além das terras de onde, neste momento, traço estas palavras: de Roraima, Terras de Makunaima, mas que eu mesma gosto de chamar de Terras de Wei, Weiyamî Paata’, a sol, a Grande Avó Sol. Em histórias contadas pelos anciãos, é Sol quem dá as formas da mulher que irá gestar o clã Makunaimî, o grande pajé e criador de muitas coisas importantes, como o próprio Monte Roraima.

Nunca imaginei Sol que não mulher, que, além de dar à luz os dias, acorda antes de todos, fornece o fogo que alimenta as panelas que cozinham o alimento das famílias, fermenta no interior escuro da terra a macaxeira, a mandioca ou aipim, base da alimentação indígena dos povos daqui. Mulheres essas que estão entre as principais responsáveis por chefiar quase metade dos lares brasileiros (IBGE, 2022), mas que só puderam alcançar cargos como o Ministério dos Povos Indígenas e a presidência da Funai em 2024.

Por isso, escolhi cantar e escrever Wei e as mulheres indígenas com minha voz e minha letra, porque ainda é comum ouvir: “minha avó foi pega a laço”[2] ou “a dente de cachorro”, para justificar e quase redimir a presença indígena na genética da população brasileira. Isso revela como o estupro de mulheres, a exploração de sua força de trabalho e a conversão compulsória ao cristianismo foram violências que tentaram circunscrever lugares para essas mulheres — lugares que se limitavam aos serviços domésticos e aos cuidados familiares, quando não ceifavam suas vidas.

Muito foi feito, mas muito ainda há para ser feito, tanto na arte e na poesia quanto na academia. Há muito para ser reencantado, como diz um outro canto: “epakakîkin wîrisi/ uwai itun etapa” (Fiorotti & Silva, 2019: 102-103), que, traduzido para o português, significa: “Acorda, cunhatã, para ouvir o som do meu instrumento”. Ainda é preciso acordar do coma colonial — e que seja através de nossos cantos e vozes.

Que, pelas nossas vozes e pelas nossas escritas, possam passar as vozes e as escritas de outras mulheres e que, assim, possamos cada vez mais incendiar os sóis que habitam os corações umas das outras mulheres. E, quem sabe, assim possamos fazer a roda dos dias girar novamente, estendendo nossas vidas sobre este planeta.


Notas

[1] “estou vindo agarrado na luz do sol/ venho agora meu deus/ ela vem agarrada na luz do sol/ a maniva está vindo meu deus /venho agarrado na luz do sol /a maniva está vindo”.

[2] Confira o texto “Minha avó foi pega a laço”, de Daniel Munduruku. Disponível aqui.

Referências

FARAGE, Nádia. (1991). As muralhas dos sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. São Paulo: Paz e Terra.

FERSECK, Sony & SARMENTO, Georgina. (2022). Weiyamî: mulheres que fazem sol. Boa Vista: Wei Editora.

FREIRE, Paulo. (1979). Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

FIOROTTI, Devair & PEDRO, Bernaldina José. (2019). Meriná eremu: cantos e encantos. São Paulo / Boa Vista: Patuá / Wei.

FIOROTTI, Devair & SILVA, Terêncio Luiz. (2019). Panton pia’: Eremukon do circum-Roraima. Rio de Janeiro: Museu do Índio.

LIMA, Ellen. (2024). Yby Kûatiara: Um livro de terra. São Paulo: Urutau.

MUNDURUKU. (2010). Mundurukando. Participação especial de Ceiça Almeida. São Paulo: Ed. do Autor.

RIBEIRO, João Paulo. (2023). Pensar Ameríndia em uma poética do traduzir Ayvu Rapyta. PERcursos Linguísticos v. 13, n. 33.

RIVIÈRE, Peter. (1972). The forgotten frontier: the ranchers of north Brazil. Londres: Holt, Rinehart and Winston INC.

SANTILLI, Paulo. (2001). Pemongon Patá: território makuxi, rotas de conflito. São Paulo: Editora Unesp.

VIEIRA, Jaci Guilherme. (2003). Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela terra- 1777 a 1980. Dissertação de mestrado na Universidade Federal de Pernambuco.

Sobre a autora

Sonyellen Fonseca Ferreira Fiorotti/ Sony Ferseck/ Wei Paasi pertence ao povo Makuxi. Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal Fluminense, realiza atualmente estágio de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Roraima. Autora de Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022), finalista do 65º Prêmio Jabuti, na categoria poesia.