
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, publicamos na Coluna Primeiros Escritos texto de Cláudia Lamego, jornalista, editora e mestranda em Literatura na Universidade Federal Fluminense. De Virginia Woolf a Elena Ferrante, passando por movimentos contemporâneos como o “Leia Mulheres” e o “Projeto Ferrante Indica”, Lamego mostra como os clubes de leitura femininos têm sido espaços de resistência, sociabilidade e formação intelectual de mulheres. O ensaio explora ainda outras iniciativas que, nos últimos anos, têm impulsionado a demanda por livros escritos por mulheres e reconfigurado o mercado editorial.
Para saber mais sobre a terceira edição da Ocupação Mulheres BVPS, clique aqui. Boa leitura e continue acompanhando nossa intensa programação ao longa desta semana do 8M!
Ler mulheres: um chamado de Virginia Woolf, Elena Ferrante e dos clubes de leitura
Por Cláudia Lamego (UFF)
No conto “Uma sociedade” [1], de Virginia Woolf, Poll recebe de herança do pai uma fortuna, mas sob uma condição: antes de ter acesso aos bens, ela precisa ler todos os livros da Biblioteca de Londres. Num encontro entre amigas, após tomarem o chá inglês, a protagonista começa a chorar e confessa que, na metade de seu infortúnio, ela não conseguia mais ler. “‘Livros’, bradou, pondo-se de pé e falando com uma desolação tão grande que nunca irei esquecer, ‘são, em sua maior parte, indescritivelmente ruins!’” (Woolf, 2019: 10).
As amigas argumentam com Shakespeare, Milton e Shelley. Ao que ela rebate, contando da quantidade imensa de outras obras muito mal escritas e lendo, para comprovar, trechos até de um dos poetas contemporâneos mais famosos da época. A mais velha e sábia das amigas, então, questiona: “‘De que adiantou, então’, perguntou, ‘nossas mães desperdiçarem sua juventude trazendo-os ao mundo, se os homens escrevem bobagens como essa?’” (Woolf, 2019: 11).
No desenrolar da história, Virginia Woolf leva suas personagens a visitar as mais diferentes instituições para apurar se os homens são mesmo os seres mais inteligentes do mundo ou tão idiotas quanto os que Poll encontrou nos livros. Publicado em 1921, o conto precede em oito anos a escrita de um de seus ensaios mais famosos, Um quarto só seu, no qual a escritora inglesa também vai recorrer à ficção e ao estilo irônico e debochado, com críticas ao patriarcado, para descortinar a situação da mulher na literatura. Ora, a convocação de Virginia, nesses dois textos e ao escrever resenhas para os suplementos literários londrinos sobre as obras de autoras como Jane Austen, as irmãs Brontë, George Eliot, é, entre outras: leiam mulheres.
Cem anos depois da publicação do conto, o ensaio Um quarto só seu marcou a estreia do Clube F., um clube de assinatura de livros que surgiu na esteira do fortalecimento dos movimentos feministas no país. Inspirada em Virginia Woolf e no sucesso da coleção Pensamento Feminista, organizada por Heloisa Teixeira,[2] a editora Bazar do Tempo criou o clube F. (de feminismo) em março de 2021. O clube envia mensalmente a assinantes uma caixa com um ou dois livros e brindes, além da possibilidade de participar de clubes de leituras, encontros exclusivos com as autoras, aulas e cursos promovidos por tradutoras, pesquisadoras e mediadoras de leitura. Neste março, serão 55 livros publicados, entre romances e obras de não-ficção.
Em dezembro de 2013, uma outra inglesa, a autora e ilustradora Joanna Walsh[3], produziu alguns marcadores de livros para enviar a amigas e amigos com imagens de escritoras e os seus “votos” para 2014: leiam mulheres. O chamado, com a hashtag #readwomen, foi publicado no antigo Twitter em janeiro de 2014, virou um rastilho que se espalhou pelo mercado livreiro, editorial e jornalístico, deu ensejo a uma provocação e vazão a um desejo inflamado. Tal como a garota Pool, um século depois as mulheres ainda precisavam olhar para as suas próprias estantes e enxergar o óbvio: a maior parte do que estavam lendo havia sido escrita por homens.
No Brasil, a hashtag virou o Leia Mulheres em 2015 e se espalhou país afora. Neste março de 2025, em que o Ano Internacional das Mulheres decretado pela ONU completa 50 anos, o clube de leitura criado em São Paulo por Juliana Gomes e inaugurado por ela com Juliana Leuenroth e Michelle Henriques também faz aniversário: dez anos de história, com presença em mais de cem cidades brasileiras e uma média de 400 mediadoras.[4]
A iniciativa do Leia Mulheres teve impactos que ainda precisam ser medidos em números, mas uma observação empírica já revela que os eventos literários, as editoras e a imprensa voltaram suas pautas para o assunto mais ou menos na mesma época, pois a demanda por mais livros de mulheres e pela presença delas nos eventos se ampliou. Dois anos depois do primeiro encontro[5] do Leia Mulheres, a Festa Internacional de Paraty, a Flip, criada em 2003, contratou a segunda mulher como curadora, Joselia Aguiar. Em sua estreia, em 2017, a festa literária teve, pela primeira vez, mais escritoras mulheres que homens em sua programação.[6]
Também em 2015, outro fenômeno literário chegou ao Brasil com a publicação, pela editora Biblioteca Azul, de A amiga genial, de Elena Ferrante, que compõe a Tetralogia Napolitana da autora. Com o aval do crítico estadunidense James Wood, que em 2013 publicou no New York Times um ensaio elogiando a sua obra literária[7], e um rastro de milhares de livros vendidos nos Estados Unidos e em outros países, a autora italiana logo teve toda a obra publicada aqui.
Elena Ferrante, que tece um fio (ou um pavio) de referências literárias em seus romances, lançou dois livros de não-ficção nos quais, ao falar de seu projeto literário, cria uma espécie de genealogia das mulheres na escrita: Frantumaglia, com entrevistas, ensaios e cartas, e As margens e o ditado, com quatro ensaios. A sua vocação como “curadora” e incentivadora de clubes de leitura se consolida a partir de 2020, quando ela envia uma lista de 40 livros escritos por mulheres para o site de uma livraria independente, a Bookshop.org [8] e a frase: “Histórias de mulheres com os dois pés, e às vezes um só, no século XX”.
A lista repercutiu na imprensa, em blogs literários e deu ensejo ao Projeto Ferrante Indica, damestre em literatura, mediadora de leitura e poeta Aline Aimée. Ex-mediadora do Leia Mulheres do Rio de Janeiro, Aline mantém uma plataforma de apoio, com diferentes valores e benefícios, entre os quais a participação no seu clube de leitura. O Ferrante Indica surgiu de uma demanda do grupo, que providenciou a lista numa planilha, indicando as obras já traduzidas e as disponíveis no mercado. Ao longo de três anos, autoras citadas por Ferrante, como a húngara Magda Szabó (2021) e a italiana Alba de Céspedes (2022) foram traduzidas e lidas no projeto.
O clube começou em janeiro de 2021, com a leitura de O amante, de Marguerite Duras. [9] Nos primeiros anos, todos os livros lidos e debatidos foram escritos por mulheres, entre elas Clarice Lispector, Natalia Ginzburg, Margaret Atwood. No último, três autores foram incluídos. Como as amigas de Poll no conto de Virginia argumentaram por Shakespeare, Milton e Shelley, no grupo foi consenso que seria interessante ler as referências masculinas de Ferrante: Dostoiévski, Flaubert e Virgílio. A Eneida do poeta grego foi selecionado por dois motivos: o poema épico é objeto de trabalho de Elena Greco, uma das protagonistas da Tetralogia Napolitana; e Dido é citada por Ferrante em entrevistas e também no ensaio que dá nome ao livro Frantumaglia.
Em todos os encontros, a mediadora e as participantes tentavam buscar laços entre o livro discutido e os textos da própria Ferrante. Questões como o motivo de o livro figurar na lista, as chances de nos aprofundarmos na própria obra da italiana e, em alguns casos, que pistas ela poderia ter deixado para desvendarmos a sua identidade. Cassandra, da escritora alemã Christa Woolf, por exemplo, foi traduzido na Itália por Anita Raja.[10]
No segundo episódio da quarta temporada da série My brilliant friend [11], baseada na Tetralogia, há uma cena em que Elena Greco, a Lenu, está reunida com um grupo de mulheres e é chamada a comentar sobre a maternidade. Ela está numa das chamadas reuniões dos grupos de autoconsciência, famosos na Itália na década de 1970 e fortalecidos com a criação da Librerie delle Donne, de Milão, livraria, editora e ponto de encontro de grupos feministas. Numa entrevista transcrita no Frantumaglia, Ferrante comenta que o feminismo foi importante na sua vida, graças “à prática de autoconsciência” (Ferrante, 2017: 324). Na cena, Lenu fala de Elsa Morante, uma das autoras presentes na lista da Bookshop e lida no Ferrante Indica.
A Librerie delle Donne, onde aconteciam os principais encontros dos grupos de autoconsciência, foi fundada na Itália em fevereiro de 1975, no auge da onda feminista e de protestos que culminaram, por exemplo, na aprovação da lei que garantia o direito ao aborto em 1973.[12] Uma das feministas proeminentes da época, Carla Lonzi, é citada no terceiro volume da Tetralogia, História de quem foge e de quem fica, que narra os anos da vida adulta das duas protagonistas. Cito essas referências porque me parecem importantes para entendermos como o espírito de leitura em grupo faz parte da experiência formativa de Ferrante. Mas não só.
Pensando na historiografia da leitura e da literatura de mulheres, é possível observar que a reunião em grupos, tanto para ler, debater as suas situações socioeconômicas, fundar coletivos e associações de lutas por direitos, organizar manifestações é, e sempre foi, essencial para disseminar ideias através da escrita. Para Woolf, dos encontros com estudantes e operárias nasceram alguns de seus principais textos sobre escrita e leitura, como o já citado Um quarto só seu, “Profissões para mulheres” e “Carta introdutória a Margaret Llewelyn Davies” [13].
A história das mulheres com os livros e a leitura, portanto, sempre se beneficiou e se fortaleceu quando passou do âmbito individual para o coletivo. Se desde a Idade Média as mulheres escreviam em claustros ou em salões aristocráticos e as línguas e a literatura modernas se consolidam a partir do século XVII[14], é a partir do século XVIII, com a ascensão do romance, que aumenta de forma exponencial o número de leitoras (entre o público, elas sempre se destacaram como grandes consumidoras de romances). “O livro favorece a sociabilidade e as trocas entre as mulheres. Nos círculos sociais e nos salões, sob o pretexto de ler, nós refazemos o mundo”, escreve a jornalista e escritora Laure Adler no livro Les femmes qui lisent sont dangereuses (Adler, Bollmann, 2006: 15)[15] Ao comentar a preferência das leitoras por romances e livros que lhes informem sobre o mundo, apesar das recomendações de homens (intelectuais, pais, maridos, religiosos) pela leitura moral e bíblica, Adler afirma ser essa “a grande revolução das mulheres leitoras”.
O movimento acontece simultaneamente na Alemanha, na Grã-Bretanha e na França. As mulheres desdenham da Bíblia em favor da Enciclopédia, se apaixonam pelos romances de Richardson e experimentam uma curiosidade cada vez mais devoradora por tudo o que diz respeito à atualidade: a política, os eventos, a inovação, a ciência. Essa verdadeira revolução cultural é acompanhada por uma leitura de jornais e uma atração cada vez mais forte pelo que na época se chamava de ‘romances do tempo presente’. As mulheres leem para entender, para despertar para os problemas do mundo, para conscientizar-se de seu destino, além das barreiras geográficas e geracionais. As mulheres começam a escrever para mulheres e se deleitam em ler umas às outras (Adler, 2006: 15).
Esse processo moderno e revolucionário das letras, ao qual alude Adler, “custou a chegar em terras de fala portuguesa”, segundo Marisa Lajolo e Regina Zilberman no livro A formação da leitura no Brasil. No capítulo “A leitora no banco dos réus”, elas analisam a percepção de viajantes e escritores estrangeiros da cena social e doméstica brasileira, a presença das personagens leitoras em obras de autores nacionais e a luta pela educação das mulheres. O diagnóstico é o de que, em meio a uma população já com baixos índices de alfabetização, a maioria das mulheres era “iletrada, situação que convinha a uma sociedade na qual o livro, a leitura e a cultura não pareciam ganhar maior significado” (Lajolo & Zilberman, 2019: 346).
É no engajamento de mulheres na imprensa feminina e nos grupos que batalharam pelo direito à instrução feminina que está a chave para o aparecimento de mais mulheres leitoras no Brasil. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura[16] referente a 2024, há 50,4 milhões de leitoras contra 42,9 milhões de leitores do sexo masculino. A pesquisa não tem dados específicos sobre quantidade e participação em clubes de leitura. A menção a essa atividade aparece em três itens. No primeiro, a pergunta é sobre os fatores que levam à escolha de um livro ou autor: a porcentagem foi de 1% nas respostas. A segunda é sobre a origem do interesse por literatura (contos, crônica, romance ou poesia), em grupos divididos por faixa etária: o percentual de quem respondeu que passou a ler por causa da participação em clubes ou oficinas de leituras variou entre 12 e 17% do total. Tirando a variável faixa etária, a opção de quem diz ter se interessado por leitura pela participação em clubes fica em 11º lugar.
No item sobre a pessoa que mais influenciou a leitura na vida do respondente surgem, em primeiro lugar, com 9%, as mães ou responsáveis do sexo feminino e, em segundo, alguma professora ou professor (8%). Esses dados, ainda que refletindo um grave problema da leitura no Brasil, com diminuição no número de leitores e a citação da Bíblia e outros livros religiosos como os mais lidos, mostram que são as mulheres e, em um grau elevado, as professoras que continuam sendo as maiores incentivadoras da leitura por aqui.
Notas
[1] Conto de As mulheres devem chorar … ou se unir contra a guerra, de Virginia Woolf. O conto integra o livro como único texto de ficção. A obra é composta de ensaios, cartas e um texto de introdução a uma coletânea de textos de operárias inglesas. Ver nota 13.
[2] Heloisa assinava como Buarque de Hollanda quando publicou os quatro volumes da coleção, que, segundo ela, deveriam servir de fonte histórica e teórica para as feministas mais jovens.
[3] A autora conta a história neste aqui.
[4] As cidades, nomes das mediadoras e contatos via redes sociais estão listadas no site do projeto.
[5] Este primeiro encontro aconteceu no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, na Livraria Blooks, que fechou pouco tempo depois. A livraria ainda é a sede do projeto no Rio de Janeiro.
[6] Com o escritor Lima Barreto como homenageado, a maior presença das mulheres foi destaque em várias matérias de imprensa. Ver aqui. No ano anterior, o então curador Paulo Werneck foi duramente questionado por um coletivo de mulheres negras pela ausência delas na programação, conforme notícia aqui.
[9] A lista de livros do Ferrante Indica, assim como as vídeo resenhas de cada um, podem ser consultadas no canal da mediadora.
[10] Em 2016, o jornalista Claudio Gatti publicou um artigo no jornal italiano Il sole 24 ore sobre a tradutora Anita Raja afirmando que, baseado em documentos da editora E/O Edizioni, ela seria o nome por trás do pseudônimo de Elena Ferrante. Anita Raja teria recebido valores incompatíveis com a renda de uma tradutora. Ela é casada com o autor italiano Domenico Starnone, que também já foi aventado como o verdadeiro autor da Tetralogia e demais romances de Ferrante. A matéria original pode ser consultada aqui.
[11] A série está disponível no Brasil no canal HBO Max.
[12] Isabela Discacciati, autora do livro Para além das margens – A Itália de Elena Ferrante (Bazar do Tempo, 2024), escreveu um texto sobre as passagens da Tetralogia em que Lenu participa do movimento feminista.
[13] “Profissões para mulheres” e “Carta introdutória a Margaret Llewelyn Davies” estão publicados em As mulheres devem chorar… ou se unir contra a guerra. Ver nota 1.
[14] Ler mais sobre o assunto no livro Janelas para o mundo, de Eurídice Figueiredo e Anna Faedrich.
[15] Tradução GPT, com revisão minha.
[16] Todos os dados da pesquisa estão disponíveis aqui
Referências
ADLER, Laure & BOLLMANN, Stefan. (2005). Les femmes que lisent sont dangereuses. Paris: Flammarion.
FERRANTE, Elena. (2016). História de quem foge e de quem fica. Tradução de Mauricio Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul.
FERRANTE, Elena. (2017). Frantumaglia: os caminhos de uma escritora. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca.
FERRANTE, Elena. (2023). As margens e o ditado: sobre os prazeres de ler e escrever. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca.
FIGUEIREDO, Eurídice & FAEDRICH, Anna. (2022). Janelas para o mundo. Niterói: EdUFF.
LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. (2019). A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Unesp.
WOOLF, Virginia. (2021). Um quarto só seu. Tradução de Júlia Romeu. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
WOOLF, Virginia. (2019). As mulheres devem chorar … ou se unir contra a guerra. Organização, tradução e notas de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica
Sobre a autora
Cláudia Lamego é jornalista, editora, mestranda em Literatura na Universidade Federal Fluminense e mediadora dos clubes de leitura da Janela Livraria, do Instituto Italiano de Leituras do Rio de Janeiro, do Clube F. da Bazar do Tempo e do clube de poesia do Círculo de Poemas.
