
Ítalo Moriconi assina “Ao vencedor, batatas podres (II)”, dando sequência ao post anterior de sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo. Entre política e memória, o texto aborda o cerco ideológico contra as chamadas políticas identitárias, refletindo sobre a intransponibilidade de certas experiências de discriminação. Mas não para por aí: do desmonte urbano no Rio à nostalgia de um Leblon perdido, do cinema como testemunho da história à geopolítica contemporânea, Moriconi traça conexões entre passado e presente, entre a percepção individual e os grandes movimentos sociais, perguntando, afinal, “a quem interessa a tagarelice do poder alucinado de sua própria verdade?”. Como sempre, um olhar inquieto sobre os tempos que correm.
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Ao vencedor, batatas podres (II)
Por Ítalo Moriconi
[8 de fevereiro]
A extrema direita e certa esquerda bem-pensante estão, juntas, em ofensiva para cancelar a chamada política identitária (termo simplificador). Olha que o racismo ficará. O suprematismo branco ocupou o Governo estadunidense. Empoderado o racismo estrutural.
[9 de fevereiro]
Pausa dominical. Só perguntas, provocações. Espelho, espelho meu. Como falar de “identitarismo”, no sentido político-social, sem falar de racismo, homofobia, misoginia, imperialismo, colonialismo? O argumento mais fácil de derrubar na teoria e na prática da luta dita progressista é aquele que postula uma contradição divisiva entre luta de classes e lutas antirracistas, antihomofóbicas e outras de libertação.
Mas existe o intransponível da experiência existencial da discriminação. Em que medida é possível que uma pessoa classificada de branca no Brasil compreenda realmente a vivência cotidiana de uma pessoa classificada como negra? O avesso do avesso da pele. É possível que uma pessoa para quem a heteronormatividade é autoevidente, natural, tranquila, pacificada entenda realmente a vivência cotidiana e a natureza do desejo de individualidades LGBTQIA+? É fácil ser mulher?
As artes da escrita, do teatro, da performance, das líricas cancional e operístrica, das imagens falantes ou não, dinâmicas ou não, talvez ajudem a transpor o intransponível?
A quem interessa a tagarelice do poder alucinado de sua própria verdade?
Não seria interessante contrapor a seus efeitos totalitários uns “lugares de cale-se”?
Tomar a palavra ou ceder a palavra. A escolha da hora.
[14 de fevereiro]
Querem acabar com o Jardim de Alá. Em lugar de mais verde, derrubam árvores. E quem precisa de shopping entre Leblon e Ipanema? Cadê a Câmara de Vereadores que não impediu mais esse despropósito urbano?
Estarei sendo nostálgico? Minha primeira reação à derrubada da Perimetral foi de oposição, por um motivo egoísta e hedonista: eu amava percorrê-la, vendo o panorama do velho Rio se descortinar aos meus pés, sobre rodas velozes e janelas climatizadas. Depois, rendi-me ao acerto da empreitada. O modelo urbano implementado pelo Paes é uma atualização em relação ao modelo de Lúcio Costa, tornado anacrônico, porque havia sido bolado nos 1950-70, tendo em mente o percurso automotivo. Era um modelo que definia a espinha dorsal da cidade na linha centro (porto) – sul, centro – orla. Quando qualquer morador da urbe tropical sabe que, na real do cotidiano, o coração da cidade se irradia do centro norte (Mangueira-Maracanã) e dos eixos da Central e da Brasil e se espalha infindo pelas periferias de Zona Oeste, Baixada, Barra. Para boa parte dos cariocas a Barra é acessada a partir daí e não pelo roteiro orla Zona Sul, que permanece sendo um dos passeios automobilísticos mais bonitos que pode haver. Do Leme ao Pontal. E além, Abricó, Grumari… Não tem nada igual, Tim.
Mas Paes traiu o projeto que anunciou no início, entregando toda a área aberta a construções para grandes empreendimentos, que aos poucos (vai levar décadas) preenchem o espaço com edifícios horripilantes. Cadê as moradias populares e de classe média prometidas?
***
Cidade nostalgia. No lado Leblon do Jardim de Alá, bem na esquina da Ataulfo de Paiva, ficava o venerando e superfamília Hotel Ipanema, que hoje poderia ter-se transformado em um “boutique hotel”, se tivesse resistido ao avanço da especulação. Propriedade de portugueses, que serviam almoço e jantar para as famílias de veranistas vindos da Tijuca e de outras cidades brasileiras. Nós vínhamos de Brasília no carro de meu pai e ficávamos no hotel por um período – em retrospecto, me parece que eram meses. Em criança, o que mais me chamava atenção no hotel era que, no almoço, depois da praia, serviam uma sopa, acompanhada de generosos nacos de pão. Era uma sopa, tá?, uma sopaça, abatatada no grande prato fundo de louça branca. Depois é que vinha a comida do dia. Eu achava aquilo notável, porque em casa, em Brasília, nunca se comia sopa no almoço, mas tinha sopa sempre no jantar, religiosamente. Eu achava fantástica aquela inversão. E não é que o casal português servia sopa novamente no jantar?. Na linha da inversão dos hábitos, éramos dispensados dessa da noite e ficávamos só com a comida “propriamente dita”, classificada como um ajantarado nesses dias de calor. Não haveria ar-condicionado nem ventiladores para dormir. Quem quisesse deixasse a janela aberta para a brisa fresca que invariavelmente vinha na madruga. Era um hotel muito bem-composto, muito, muito simples, mas os pratões de louça branca, os talheres de prata grandões, os móveis escuros e antigos nos quartos bastante amplos, nos faziam sentir em casa. Já quase adolescentes, os adultos iam para a “naite” e os primos faziam sua bagunçinha inocente nos corredores.
Éramos os inocentes do Leblon.
[15 de fevereiro]
CINEFILIA
Nas idas recentes ao cinema, estimuladas pelo climão de Oscar (quem diria, acabei no valão do mainstream…), vi resgatadas duas figuras heroicas, históricas, reais. Primeiro, a heroína brasileira, de cuja impersonator todos estão falando, e com razão, Eunice Paiva. A segunda, Patrice Lumumba, no filme documentário Trilha sonora para um golpe de Estado.
Quão distantes estamos daquele Congo da independência. Hoje, sabemos do Congo diariamente, invadido por rebeldes, por tropas de Ruanda. Naquele tempo, os negros do mundo inteiro, da África e das Américas, acolhiam Fidel Castro e contavam com o apoio eloquente de Nikita Kruschev. O mesmo Kruschev que, internamente, desvelara as atrocidades da autocracia stalinista, sem nem de longe abalar sua dinâmica. Era tempo de descolonização, tempo do movimento dos não alinhados. O colonialismo tornara-se ilegal, como juízo moral e como direito universal.
No documentário, o presidente Eisenhower é dado como mandante direto do assassinato de Lumumba. Achei bonito ver na tela o processo pelo qual figuras destacadas do melhor jazz da época “acordam” (tornam-se “woke”) para a solidariedade internacional da luta do povo negro. Isso de maneira ambígua. Por um lado, participar de iniciativas governamentais de soft power dirigidas à África; por outro, aderir ao movimento por igualdade e direitos, tornando-se ativista. Quem caiu de patinho mais forte foi Louis Armstrong, que depois entendeu e arrependeu-se. Mas temos a eloquência das cenas em que aparecem Malcolm X e o próprio Lumumba. Como era criança na época, para mim, foi uma vivificação saber de uma história de Fidel Castro sobre a qual talvez eu já tivesse lido, mas não visto. Tendo negada hospedagem oficial na cidade de Nova Iorque, Fidel foi convidado por Malcolm X a ficar num hotel no Harlem. Ali, reuniram-se os 3: Malcolm X, Fidel Castro, Patrice Lumumba. Que momento! E tem Nina Simone.
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Vi também os dois filmes iranianos em cartaz.
Depois deles, só tenho vontade de berrar:
EU ODEIO A POLÍCIA MORAL IRANIANA
Não é possível que as décadas passem e se perpetue no país persa a opressão religiosa pavorosa sobre o comportamento feminino, com a conivência dos homens vinculados ao governo. Parece mesmo difícil que a derrubada do regime venha de dentro do próprio Irã. Seria preciso que as mulheres matassem o Pai, como no filme A semente do fruto sagrado. Pois a situação parece ter atingido um ponto extremo de saturação quando lemos que uma mulher iraniana, enraivecida pelo assédio da polícia moral, subiu na capota de um carro e se despiu completamente. Ela terá sido presa, talvez torturada, talvez assassinada pela polícia – como a primeira, a jovem curda cujo assassinato na cadeia despertou a ira da população e as grandes manifestações femininas relativamente recentes, que ainda persistem como uma revolta surda, majoritária, impotente.
[19 de fevereiro]
Não pode ser desprezado o fato de que a luta entre europeístas e russófilos é uma luta intestina em todos os países que pertenceram antes à União Soviética. Em todos esses países, a opinião pública se divide entre os que querem pertencer à Europa e os que são ainda uma base sentimental de apoio ao domínio russo. Na Ucrânia, essa divisão foi dramática, com golpes de Estado e reviravoltas políticas entre um lado e outro. O regime de Putin atuava de um lado, arquitetando golpes; as agências americanas, de outro, fomentando revoluções. Era uma terra em disputa, apesar da rápida consolidação de um sentimento nacional moderno após a independência – uma aspiração secular, conquista acidental no desmoronamento da União Soviética.
Hoje vemos Trump, aparentemente, querendo estabelecer uma relação sólida bilateral entre Rússia e Estados Unidos, numa virada que, se não for caricata, ou por isso mesmo, até evoca a de Kissinger com a China. O povo russo agradeceria; eles amam o Ocidente e o pop global. Sim, a Rússia provou que pode sobreviver sem laços com o Ocidente e o povo russo aguenta isso na boa. Mas se puder ser diferente, eles vão adorar voltar a encher as capitais europeias com seu turismo e furor consumista.
[19 de fevereiro]
Eu continuo sem entender como foi possível a Alemanha passar dos tempos de Gerhard Schroeder, dos Verdes e mesmo da Merkel, para esta agora, totalmente submissa à política americana. A desativação do gasoduto entre Alemanha e Rússia foi um golpe dos Estados Unidos no processo de esvaziamento da Europa. A colocação da Alemanha na posição de cãozinho amestrado, somada às sanções e à ruptura total dos laços econômicos do Ocidente com a Rússia, é a causa dos males econômicos que hoje afligem o país. Tudo para alegria dos falcões americanos, que, por estereotipagem, sempre veem na Alemanha um perigo militar potencial. O único caminho para a Europa sobreviver como força (já nem digo poder) geopolítica seria ter como seu fundamento o eixo França – Alemanha, sendo essa um fator de MEDIAÇÃO entre o Ocidente e a Rússia, entre Ocidente e Orientes. Pois, agora, depois de ter varrido a economia da Alemanha, vem o Rubio propondo oportunidades de negócios entre Estados Unidos e Rússia. Vão ocupar o espaço que deveria ter sido ocupado pela Alemanha.
Ah, Europa, Europa, tu que fizeste minha cabeça e corpo do topo ao furo!
[20 de fevereiro]
Quem escreve a história são os vencedores, cuja versão se torna dominante e ocupa os manuais e o senso comum por décadas e séculos depois. Como vencedora inconteste na guerra, a Rússia e seus aliados e agentes dentro da Ucrania fazem de Zelensky o culpado pelo conflito. Não sabemos qual é o grau de cansaço e de indignação da população de Kiev e do Oeste com a guerra que não termina nunca. Não se descarta a hipótese de que isso leve a uma responsabilização interna de Zelensky — o que tampouco elimina totalmente o cenário, aventado por alguns, de Zelensky pendurado pelos pés. Seria uma tremenda virada no humor dos ucranianos, um povo que aderiu estoicamente ao esforço de guerra, apresentando ao mundo cenas e histórias de um grupo humano europeu que traz, no DNA, a experiência de muitas guerras ao longo dos séculos.
Para discutir quem tem culpa na guerra, precisa voltar aos fatos de sua origem.
Se o objetivo é avaliar moralmente a postura de Zelensky, é preciso nos reportarmos novamente ao momento em que tropas russas invadem a Ucrânia pelo norte e chegam perto de Kiev.
Neste momento, o que Zelensky podia fazer? Uma opção era reagir militarmente, como vinha sendo preparado por todos os governos ucranianos, diante de uma insurgência no leste capitaneada por mercenários e milícias russas e a própria tomada da Criméia, que foi entubada pela OTAN. Dar a vida por nosso país. Essa opção foi adotada por Zelensky, que se reinventou como chefe de guerra e usou seus saberes de comunicação midiática em escala global.
A outra opção seria levantar bandeira branca e pedir que a Rússia parasse com a invasão.
Seria uma rendição sem reação.
Naquele momento, tudo indicava que o objetivo das tropas russas era derrubar o presidente, eleito por uma maioria eloquente, e apoderar-se da Ucrânia, para depois avaliar se se retirariam, deixando mais um presidente títere, ou se tomariam logo toda a Ucrânia – que é a meta final do Estado putiniano e que Trump, numa vírgula televisiva, já admitiu como possibilidade.
Putin recuou, provavelmente porque não estava a fim de uma guerra contra a OTAN; essa, por sua vez, tinha engulido a tomada da Criméia, mas seria impossível aceitar a abdução da Ucrânia toda.
Talvez nesse momento, em que a Rússia se retirava da ofensiva contra Kiev e concentrava seu esforço apenas numa intensificação total dos conflitos que já vinham acontecendo desde 2014, talvez tivesse sido esse o momento para Zelensky levantar a bandeira branca e propor uma negociação envolvendo Donetsk. Seria uma rendição.
A Europa também deveria ser responsabilizada pelos acontecimentos. Se ela tivesse pressionado Zelensky a ceder territórios naquele momento, uma rendição sustentada no apoio europeu talvez pudesse ser viável. A Europa foi hipócrita e irresponsável, porque sabia que, sem o apoio concreto americano, ser-lhe-ia muito dispendioso entrar em guerra com a Rússia; seria o deus nos acuda, a terceira guerra europeia mundial, só que agora a Rússia no papel de Alemanha.
Quanto aos Estados Unidos, nem se fala. O compromisso de Biden com a opção militar foi total, apesar de insustentável tanto fiscalmente quanto militarmente. Uma posição aqui também extremamente irresponsável, embora Biden talvez não tivesse outro caminho no início. Mas logo o Congresso cindiu-se na questão e foi difícil para Biden conseguir autorização para mais gastos militares, ao contrário do que ocorria com Israel. O Congresso americano aprovava bilhões em regime de urgência para Netanyahu, mas travava e reduzia os envios para Zelensky. Na linha de frente contra a ajuda americana à Ucrânia, os políticos do MAGA, o trumpismo raiz.
E assim chegamos nós ao ponto de hoje, com Trump e Putin divulgando a versão dos vencedores.
Trump tem pressa em fazer a Rússia reintegrar-se ao sistema mundial.
E nisso ele tem toda a razão.
Nada mais ridículo que tirar a Rússia do G7. Reação de delicadas ante o Macho Branco. Mais ridículo ainda banir a Rússia de esportes e de espetáculos. A Europa, parva, foi na onda desse tipo de belicismo com cara de americano boicotando produtos franceses.
Resta incógnito para nós qual seria o impacto dessa aproximação sobre os BRICS.
O discurso dos vencedores é cruel. Tempos depois de uma incorporação completa de seu território à Rússia, ninguém vai se lembrar que um dia existiu uma Ucrânia independente. Terá sido mais um sonho do pós-89 que se esvaneceu, assim como o sonho pós-45 de um Israel multicultural e democrático se perdeu na pulsão sectária, exterminadora.
[21 de fevereiro]
E Lula? Nesse calor…
Ontem, em conclave gastronômico, quatro nomes foram levantados como possíveis candidatos do Governo no caso de Lula abrir mão.
Haddad, Alckmin, Dino, Moraes.
Meu pendor no momento está indo para o Alckmin, embora teoricamente Haddad pareça o candidato natural.
E de vice, a Gleisi.
Uma renovação política no Brasil só vai acontecer quando a disputa não for mais entre Lula e Jair.
Eu diria que cem por cento de apoio à reeleição de Lula, só mesmo se Jair for candidato.
Não sei se Jair tem que ser preso pelos crimes realmente comprovados por ele cometidos (como no caso dos cartões de vacinação). Prendê-lo por ser chefe de uma tentativa de golpe pode e deve ser constitucional, mas, ao fim e ao cabo, é um julgamento político, o crime é político. Dá cadeia. A inelegibilidade é providencial. Libera Lula do sacrifício. E o sistema fica solto, solto.
Na poliânica república dos meus sonhos, os dois homens chegariam à conclusão de que chegou a hora de suas respectivas aposentadorias.
Mas isso talvez reflita certa ansiedade minha diante da lentidão dos processos de transformação, que com Lula persistem, cambaleantes. O mal é tanto dinheiro na mão do centrão.
Especulações…
