
“Da zurrapa aos finos licores sulferinos“, de Renato Pinto Venancio (UFMG), é o quarto texto que publicamos na série A mesa dos mineiros narra Minas.
Venancio mostra como, desde a ocupação de Minas Gerais, o vinho português sempre esteve presente, abastecendo as lavras de ouro. No entanto, devido à difícil logística e aos altos preços, o fornecimento tornava-se irregular, favorecendo o consumo de bebidas locais, como a aguardente de cana e a cachaça, além de fermentados africanos, como o aluá, e de vinhos artesanais feitos com frutas locais (pêssego, banana, jabuticaba etc.), adaptados de práticas portuguesas. Apesar de o vinho nunca ter desaparecido – mantido por razões religiosas, medicinais e identitárias –, vemos neste texto que sua baixa qualidade motivou a busca por alternativas nas regiões mineiras.
Curada por José Newton Coelho Meneses, esta série da Coluna MinasMundo propõe investigar a mesa mineira como linguagem e expressão de um cosmopolitismo cultural próprio da região. Os textos estão sendo publicados quinzenalmente às quartas-feiras. Outros textos da série podem ser conferidos aqui.
Boa leitura!
Da zurrapa aos finos licores sulferinos
Por Renato Pinto Venancio (UFMG)
Desde o início da ocupação de Minas Gerais, as lavras de ouro foram abastecidas com vinhos portugueses. No entanto, por diversas razões, esse abastecimento mostrou-se precário. A longa distância dos portos marítimos, a ausência de vias fluviais navegáveis e os métodos de transporte que exigiam cuidados especiais com barris e frasqueiras equilibrados no dorso de mulas elevavam consideravelmente o preço da bebida bíblica. Em anos de chuvas intensas, essas dificuldades se agravavam, tornando o abastecimento ainda mais irregular.
A sistematização dos dados de Francisco Pinheiro, um dos maiores comerciantes de “grosso trato” responsáveis pelo abastecimento de Minas Gerais, revela que, entre 1701 e 1744, o vinho representou apenas 5,4% do valor total de suas vendas – percentual significativamente inferior ao registrado para ferramentas e tecidos importados (Lisanti, 1973: 450-485). Na realidade, a capitania das Minas foi povoada em um contexto pouco favorável a esse tipo de abastecimento. No final do século XVII, a ilha da Madeira deixou de ser a principal fornecedora de vinhos para o Brasil, redirecionando seu fluxo comercial para as colônias inglesas, a ponto de o vinho Madeira se tornar a bebida alcoólica mais consumida pelas elites dos Estados Unidos (Hancock, 2009).
Além disso, no momento da ocupação das lavras de ouro, havia poucas alternativas viáveis para o comércio de vinhos. As Ilhas Canárias e a região da Andaluzia –principais fornecedoras de bebidas espanholas para o Novo Mundo, e que contrabandeavam tais produtos para a América portuguesa – enfrentavam uma crescente pressão da demanda europeia, além das solicitações oriundas da Ásia e da África (Santana & Rosso, 1998). O vinho continental português, por sua vez, após o Tratado de Methuen, em 1703, era em sua esmagadora maioria enviado ao Reino Unido, como ocorreu com aquele produzido na região do Douro (Martins, 1990).
Não por acaso, a ocupação da capitania mineira representa a consolidação das bebidas da terra, com destaque para aguardente de cana e cachaça, consideradas bebidas diferentes, pois a primeira era feita com melaço e a segunda com caldo de cana fermentado (Silva, 2019). O vinho, contudo, jamais se ausentou completamente do cotidiano mineiro, sustentado por razões religiosas, medicinais e, até mesmo, como expressão de identidade reinol. O Erário Mineral, publicado em 1735 por Luís Gomes Ferreira, é exemplo eloquente dessa presença, trazendo dezenas de referências ao vinho como ingrediente em receitas medicinais. Tais menções, no entanto, coexistiam com outras que evidenciam a valorização de bebidas alternativas, como demonstra um texto anônimo de 1750, segundo o qual a aguardente mineira “tem muito gasto, porque […] se gasta em várias enfermidades como dores, inflamações, feridas e para os olhos e a surdez e, em conclusão, é muito medicinal” (Figueiredo & Campos, 1999: 771).
Os registros da almotaçaria das câmaras municipais, bem como os inventários post mortem preservados nos cartórios, também evidenciam a continuidade da presença do vinho nas residências mineiras (Magalhães, 1987; Magalhães, 2008). A abertura dos portos, em 1808, incentivou a entrada dessa bebida no território, mas os antigos problemas de transporte permaneceram. O que chegava às Minas era, em grande parte, o refugo do que não fora consumido no Rio de Janeiro. Prova disso é que, quando os periódicos mineiros passaram a publicar anúncios de bebidas alcoólicas, os vinhos mais frequentemente noticiados eram os chamados “de Figueira” referência à localidade portuguesa de Figueira da Foz, conhecida pela produção de vinho “não coberto”, que facilmente avinagrava durante o transporte marítimo (Venancio, 2023: 198).
A análise de aproximadamente 18 mil páginas dessas publicações, disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, não indica, para a primeira metade do século XIX, a existência, em Minas Gerais, de um comércio significativo dos vinhos fortificados do Porto – preparados com a adição de aguardente vínica ao mosto ainda em fermentação e que, por apresentarem maior teor alcoólico, resistiam melhor às condições adversas do transporte, como a travessia oceânica e a exposição ao calor nos barris e frasqueiras carregados pelas mulas dos tropeiros.
Os vinhos doces de uva Malvasia e os encorpados de Bordeaux, tidos como os melhores e quase sempre presentes nos cardápios de banquetes oficiais da monarquia (Boccato & Lellis, 2013), também resistiam às difíceis condições de transporte. Contudo, eles foram raros em solo mineiro. O jornal O Universal, publicado na então capital Ouro Preto entre 1825 e 1842, menciona a venda de vinho de Bordeaux apenas duas vezes, ambas em 1836, referentes ao mesmo comerciante que repetiu o anúncio. Em outras localidades mineiras, o cenário era semelhante. O Astro de Minas, impresso em São João del-Rei e em circulação entre 1827 e 1839, veiculou apenas um anúncio relacionado a essa bebida.
Nessas publicações, as queixas em relação à qualidade dos produtos importados eram frequentes. Em 10 de novembro de 1824, o periódico ouropretano Abelha de Itaculumy denunciava os “logros” a que estavam submetidos os tropeiros em suas negociações com comerciantes cariocas, relatando a chegada de sal misturado com areia, farinha de trigo adulterada com centeio “e quase sempre dos vinhos misturados com agoa, bem corados, porém de excelente tintura de campeche” , espécie vegetal do Novo Mundo usada para escurecer artificialmente o vinho. Em 2 de março de 1825, esse mesmo periódico exaltou a chegada de imigrantes alemães à província do Rio Grande do Sul, manifestando a esperança de que eles cultivassem “plantação de vinhas” e, assim, substituíssem a “zurrapa” portuguesa – termo popular empregado para designar vinhos de baixa qualidade que dominavam o mercado nacional e, particularmente, o mineiro.
Em razão de todos estes problemas, Minas Gerais foi pródiga em criar alternativas ao vinho europeu. Além da aguardente e da cachaça, outras bebidas alcoólicas ganharam espaço no cotidiano. Ao que tudo indica, os mineiros reinventaram tradições a partir de diferentes repertórios. Os africanos elaboravam fermentados alcoólicos à base do milho, consumidos sob a forma do “aluá” (Holanda, 1975: 219). Já os portugueses adaptaram práticas reinóis de produção de “vinhos” domésticos, originalmente feitos com peras, romãs ou maçãs – como no caso da sidra –, substituindo esses ingredientes por frutas locais ou aclimatadas localmente, como pêssegos, bananas, jabuticabas e outras espécies cultivadas nos quintais mineiros (Meneses, 2015).
Atualmente, tais bebidas não podem ser denominadas como “vinho”, uma vez que não são elaboradas a partir de uvas. No século XIX, porém, essa padronização ainda não existia e, mesmo na Europa, era comum, até o final daquele século, utilizar o termo “vinho” para designar bebidas produzidas com diversas frutas além da uva.
A importação das técnicas reinóis de produção de bebidas alcoólicas resultou na elaboração de fermentados brasileiros, tanto simples quanto fortificados com aguardente. A tradição portuguesa da região do Alto Douro destacou-se nesse campo, produzindo o vinho seco e o vinho licoroso, mais conhecido como “vinho do Porto”. Em outras regiões do reino, a tradicional “jeropiga” também exemplificava essa convivência entre vinhos secos e bebidas fortificadas com aguardente vínica. Prática semelhante pôde ser observada em Minas Gerais, assim como em outras áreas da América portuguesa, onde fermentados elaborados a partir de frutas localmente disponíveis passaram a coexistir com variantes fortalecidas pela adição de aguardente de cana, resultando em bebidas de perfil licoroso.
A principal dificuldade para o estudo dessas bebidas reside no fato de serem, em sua maioria, de produção doméstica, não integradas aos circuitos comerciais formais e, portanto, fora do alcance da fiscalização das câmaras municipais e do governo da capitania. Essa condição resultou em contextos produtivos pouco documentados. Ainda assim, alguns indícios permitem vislumbrar a existência e a circulação dessas produções, como no caso dos anúncios de jornais. É o que se observa, por exemplo, em O Universal, de 3 de março de 1841, que anuncia, no “estabelecimento, na rua direita d’esta cidade caza 45, uma fábrica de licores finos de todas as qualidades”. O proprietário, Fernando Scotti, informava ainda que “se oferece a transportar para fóra da cidade os licores em barriz para melhor comodidade do transporte”.
Figura I – Anúncio de fabricante de licores, 1841

Figura II – Prêmio a fabricante de licor, 1886

julho de 1886, p. 4.
Não por acaso, na segunda metade do século XIX, começam a multiplicar as “fábricas” de licores de jabuticaba, pêssego, laranja, limão, pitanga, marmelo e até mesmo de mel ou café, em diversas localidades mineiras, como Diamantina, Juiz de Fora, Queluz, Campanha, Boa Esperança, Perdões, Varginha, Baependi e Passos. Essa mudança é registrada em jornais, como O Pharol, de Juiz de Fora, publicado em 21 de fevereiro de 1888:
A convite do ilustrado dr. A. Vaz Pinto, fomos ao seu escriptorio apreciar alguns produtos industriaes fabricados por ele mesmo.
Encontrámos ali, vinhos e licores de uva e jaboticaba, líquidos deliciosos, de um colorido sulferino, transparente.
Além disso, proliferaram lojas especializadas na venda dessas bebidas, como se observa em cidades como Ouro Preto, São João del-Rei, Leopoldina, Caldas e muitas outras, conforme também registrado nos periódicos da época.
Muito ainda há por ser investigado sobre a história das bebidas em Minas Gerais, sendo particularmente interessante o caso da produção de vinhos e licores elaborados sem o uso de uvas. O vinho e licor de jabuticabas, à venda ainda hoje, são um exemplo.
Referências
BOCCATO, André & LELLIS, Francisco. (2013). Os banquetes do Imperador: menus colecionados por D. Pedro II. São Paulo: SENAC Editora. São Paulo: Boccato Editora.
FERREIRA, Luís Gomes. (2002). Erário mineral (Org. Júnia Ferreira Furtado). Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Fundação João Pinheiro/ Ed. Fiocruz.
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida & CAMPOS, Maria Verônica. (1999). Códice Costa Matoso: coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro.
HOLANDA, Sérgio Buarque. (1975). Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro: José Olympio.
HANCOCK, David. (2017). Oceanos de vinho: o vinho da Madeira e a organização do mundo atlântico, 1640-1815. Lisboa: Edições 70.
LISANTI, Luis. (1973). Negócios coloniais: uma correspondência comercial do Século XVIII. Brasília: Ministério da Fazenda; São Paulo: Visão Editorial.
MAGALHÃES, Beatriz Ricardina. (1987). A demanda do trivial vestuário, alimentação e habitação. Revista Brasileira de Estudos Políticos, v. 65, p. 153-199.
MAGALHÃES, Sônia Maria de. (2008). Mercando secos e molhados. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 44, p. 112-131,
MENESES, José Newton Coelho. (2015). Pátio cercado por árvores de espinho e outras frutas, sem ordem e sem simetria: O quintal em vilas e arraiais de Minas Gerais (séculos XVIII e XIX). Anais do Museu Paulista: história e cultura material. São Paulo, v. 23, n. 2, p. 69-92.
MARTINS, Conceição Andrade Martins. (1990). Memória do vinho do Porto. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.
SANTANA, Alberto Ramos & ROSSO Javier Madonado. (1998). El comercio de vinos y aguardentes andaluces com América (siglos XVI-XX). Cádiz: Publicaciones de la Universidad de Cádiz.
SILVA, Valquíria Ferreira. (2019). Cachaça mineira: produção e consumo de aguardente no século XVIII. São Paulo: Alameda.
VENANCIO, Renato Pinto. (2023). Vinho & Colonização: O Brasil e as bebidas alcoólicas portuguesas 1500 – 1822. São Paulo: Alameda.
Sobre o autor
Renato Pinto Venâncio é historiador e professor da Escola de Ciências da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI-UFMG) e de seu PPGCI. Doutor em História, foi Diretor do Arquivo Público Mineiro e da Diretoria de Arquivos Institucionais (Diarq) da UFMG. É autor de importantes livros, capítulos de livros e artigos sobre Minas Gerais no período colonial.
